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00:07Olá, bem-vindos e bem-vindas a mais um Ponto de Vista.
00:12No programa de hoje vamos voltar a falar sobre os crimes de feminicídio,
00:17que infelizmente continuam aumentando em Pernambuco e no Brasil.
00:21Para falar sobre o assunto, nós convidamos a jornalista Paula Limongi,
00:26que é vice-presidente do Instituto Banco Vermelho.
00:30O Banco Vermelho é uma organização sem fins lucrativos que combate o feminicídio e a violência de gênero no país.
00:38Paula, seja muito bem-vinda e obrigado por aceitar o nosso convite.
00:42Eu que agradeço, Fernando, esse espaço tão urgente e tão necessário para falar sobre esse tema
00:47que realmente tem tirado a paz das mulheres e das meninas no Brasil.
00:52Tem tirado a paz de todos nós, Paula.
00:54Queria começar falando exatamente desses números, né?
00:57O Brasil tem uma estatística terrível de quatro feminicídios por dia, né?
01:04É um número que assusta qualquer pessoa.
01:06A sociedade não pode aceitar isso, ela tem que reagir a isso, né?
01:10Exato, Fernando. O Brasil é o quinto país que mais mata a mulher no mundo, entre 196 nações.
01:17No ano passado, batemos o recorde de feminicídio, inclusive de estupro também, foram mais de 80 mil.
01:23Isso tudo que a gente fala são casos notificados.
01:27Então, infelizmente...
01:27O número pode ser muito maior.
01:29O número pode ser muito maior, porque existe, inclusive, uma pesquisa que diz que apenas 10% das mulheres abusadas
01:34denunciam.
01:35E a gente já teve esse número de 88 mil no ano passado.
01:38Então, quando a gente faz o recorte Brasil, a gente vem para Pernambuco como o primeiro lugar no Nordeste em
01:44feminicídio.
01:45A média aqui é de uma mulher morta a cada três dias.
01:48Tem se falado até de uma epidemia de feminicídio no Brasil.
01:53Esse termo é um termo apropriado para o que está acontecendo?
01:57Eu acho que ele é forte e ele chama atenção, mas eu não chamaria de epidemia, porque epidemia é uma
02:04doença descontrolada.
02:05Quando a gente fala de feminicídio, a gente está falando de posse e controle.
02:09É um crime que ele é anunciado, é o único crime que a gente sabe que vai acontecer.
02:14Então, eu prefiro chamar realmente de feminicídio, porque é um nome forte, é um nome que tem que ser falado.
02:19A sociedade precisa entender o papel dela dentro desse cenário.
02:24Um dia já foi muito difícil falar de racismo, um dia já foi muito difícil falar de LGBTfobia.
02:29A gente sabe que não resolveu, o racismo não acabou, a LGBTfobia também não, mas a sociedade abraçou a causa.
02:35E a gente precisa estar sempre falando mais.
02:38Exato, mas na questão da violência contra a mulher e feminicídio é muito velado.
02:43Todo mundo finge que não vê, eu não quero me meter, eu tenho medo porque fulano é violento.
02:48Então, a gente precisa de informação para que essas mulheres se libertem e também para que esses homens entendam que
02:54estão cometendo crime.
02:55Porque alguns sabem, outros não fazem ideia.
02:58Você e Andréa Rodrigues foram as duas criadoras do Instituto Banco Vermelho.
03:03Como foi que surgiu a ideia de fazer esse instituto com esse nome, Banco Vermelho, um banco de proporções gigantes
03:11que chama a atenção?
03:13Tudo nasceu a partir do luto, que foi transformado em luta.
03:17Andréa Rodrigues, que é a presidente do Instituto, ela perdeu a melhor amiga em um feminicídio que foi disfarçado de
03:24acidente de trânsito.
03:25O ex-companheiro não aceitava o divórcio e jogou o carro numa árvore.
03:29Nesse momento, Andréa soube que aquilo era um feminicídio porque ela tinha muita conversa, ela tinha muitas provas.
03:35E ela foi à delegacia, ela não velou nem enterrou a amiga, porque ela foi para lá provar que não
03:41era um acidente de trânsito.
03:42É por isso que a gente fala de subnotificação também, né?
03:45Quantas caíram de uma moto? Será que ela caiu ou ela foi jogada?
03:48Quantas caíram de uma varanda? Será que ela caiu ou ela foi jogada?
03:52Então, após o julgamento que condenou o assassino, ela me convidou para fazer uma homenagem, porque eu também havia perdido
03:59uma amiga em 2022.
04:01Que foi a Renata Alves.
04:02A Renata Alves, isso. E foi um feminicídio muito brutal, né?
04:05No caso do feminicídio de Patrícia, existia toda aquela polêmica de foi um acidente, não foi.
04:11Então, ganhou a mídia nacional, foram quatro anos e meio. No caso de Renata, era claro.
04:15Foi uma execução.
04:17E a gente vem comparando, né?
04:18Toda mulher, ela pode ser uma vítima.
04:21Porque no caso de Patrícia, era uma divorciada com mais de 40 anos e dois filhos.
04:25No caso de Renata, era uma jovem de 35 e um namoro de oito meses.
04:29Então, o fato de ser mulher já coloca você numa situação de perigo iminente.
04:34Porque se você for vista como posse ou propriedade, sua vida está na mão do outro.
04:39Então, quando a gente resolveu fazer essa homenagem, a gente pensou, o que é tão democrático como o crime?
04:44É até estranho falar que é um crime democrático, né?
04:46Mas ele acontece por ser mulher.
04:48E aí a gente falou, poxa, o banco, o banco ele está em todo lugar.
04:51O banco ele está na escola, na igreja, no hotel de luxo, na comunidade, na praça, na praia.
04:57Se a gente pintar de vermelho, que representa o sangue derramado e também o sinal de pare.
05:02E se a gente trouxer mensagens importantes, como LIC 180, LIC 190, frases para dizer que a relação abusiva de
05:09hoje pode ser o feminicídio de amanhã.
05:11Será que a gente vai conseguir chamar uma atenção?
05:13E aí veio essa ideia.
05:15Só que a gente, como boa pernambucana, que acha que tudo é maior ou melhor, os dois ao mesmo tempo,
05:20pensamos em um banco gigante.
05:22Porque a luta é gigante, essa luta não para.
05:24E aí colocamos um banco gigante no marco zero, fizemos essa homenagem às nossas amigas, foi no dia 25 de
05:30novembro de 2023.
05:32E no outro dia a nossa vida tinha mudado completamente.
05:36O assassino de Renata Alves foi condenado no mês passado, fevereiro.
05:42O João Raimundo Vieira da Silva Araújo foi condenado há mais de 70 anos.
05:49Foi uma vitória para a família e também para o Instituto Banco Vermelho, né?
05:52Foi sim, foi uma vitória.
05:54A gente saiu muito aliviado.
05:55Foi um júri popular, onde todos os jurados tiveram a mesma opinião de que sim, ele era um feminicida.
06:03Não foi um acidente, como ele costumava dizer que tinha sido um disparo acidental.
06:07Traz um pouco de esperança, porque foi uma pena alta.
06:10Mas a gente ainda é muito insatisfeito com o nosso sistema do judiciário na questão da execução penal.
06:16As pessoas pegam 20, 30, mas não passam 10 anos na cadeia.
06:19Então, por exemplo, o assassino de Patrícia, que foi preso, ele já está na progressiva, ele já sai de casa.
06:26Então, poxa, como é que a gente vai consolar uma família, né?
06:29Acho que precisa uma mudança na execução penal, tanto para pedófilos como para feminicidas,
06:34que se a pena for de 30, 35, que ele de fato fique em reclusão todo esse período.
06:40Eu acho que precisa muito para que a gente mude esse cenário.
06:43Paula, os bancos vermelhos, eles estão se espalhando pelo país todo, né?
06:49Como é que o Instituto atua?
06:51Uma pessoa que queira colocar um banco em algum lugar, o que é que tem que fazer?
06:56Ou até uma instituição, uma empresa, governos, prefeituras?
07:02Quem quiser se engajar de alguma forma nessa luta do Instituto Banco Vermelho, qual o procedimento?
07:10É muito simples, até porque o Instituto, ele se tornou uma lei federal em 2024, no dia do meu aniversário,
07:16dia 31 de julho.
07:17Então, para mim, foi motivo de muita alegria que institui o Banco Vermelho como uma política pública de prevenção,
07:24que pode ser instalado em vias públicas, universidades, hospitais.
07:28Então, qualquer pessoa pode pintar o seu banco de vermelho, colocar as mensagens,
07:32mas a gente também cede esse manual, como a gente também oferta o banco pequeno, padrão,
07:37que é feito por um parceiro nosso homologado, e o Banco Gigante também.
07:42Então, a pessoa tanto pode transformar um banco que já existe, como adquirir o banco pequeno ou o banco gigante.
07:48Como somos suprapartidários sem fins lucrativos, é desse movimento, da venda desses bancos, das palestras,
07:55que a gente consegue continuar o nosso trabalho.
07:57Essa foi uma iniciativa poderosa, né?
08:00Vocês pegaram um símbolo, que é o banco, um banco de sentar, que pode ser num tamanho maior, para chamar
08:08mais atenção,
08:09e a ideia se espalhou pelo Brasil todo.
08:14Quando vocês começaram, vocês tinham noção do que estavam fazendo, do que poderia vir a ser o Instituto Banco Vermelho?
08:20De forma alguma, de forma alguma.
08:22Então, assim, depois desse lançamento, que foi um fato de homenagem para as nossas amigas,
08:28a gente havia criado uma rede social, arroba Banco Vermelho,
08:32para poder colocar as fotos e relembrar o momento, que realmente foi muito bonito.
08:36Teve uma apresentação no Recife Antigo, cantoras mulheres, feiras de empreendedorismo,
08:40e aí no outro dia começa a tocar o telefone.
08:42Eu quero esse banco aqui em Manaus, eu quero esse banco aqui no Rio Grande do Sul,
08:46qual é o CNPJ, qual é a instituição, e eu disse, peraí, segundo eu trabalho, tenho dois filhos para criar.
08:52E aí em dezembro a gente abriu um CNPJ, Instituto Banco Vermelho, sem ter ideia do que vinha pela frente.
08:59E de repente me vejo aqui rodando o Brasil inteiro, indo para Brasília, brigando por espaços,
09:04falando com quem tem a caneta, sugerindo projetos de lei, porque eu acho que todo mundo tem que cobrar,
09:10não só a gente e o Instituto, mas todo mundo que quer uma sociedade mais justa.
09:14E principalmente a gente precisa da ajuda dos homens, porque se 90% de quem mata a mulher é companheiro
09:21ou ex-companheiro,
09:22se eles são parte do problema, eles têm que ser parte da solução, a gente não vai vencer sozinha.
09:27Claro. Qual tem sido, Paula, a reação das pessoas quando vê esse banco gigante, né?
09:33É um banco que chama a atenção e isso ajuda, de certa forma, a romper o silêncio também sobre a
09:38violência doméstica.
09:40As pessoas reagem de que forma quando vêem aquele banco chamando a atenção em locais públicos, por exemplo?
09:47São vários tipos de reação que eu já presenciei, inclusive.
09:50Tem desde aquela que quer postar uma foto na rede social porque está num lugar instagramável,
09:54como aquela outra que se emociona, sente e chora, como mulheres que já pediram ajuda sentadas no banco.
10:01Então, ele serve para chamar a atenção, por isso que ele tem 3 metros de altura por 4 de largura.
10:08Ele precisa ser gigante para tirar o assunto de dentro de casa.
10:10As pessoas precisam se deparar no meio da rua, precisam falar sobre isso.
10:15É um incentivo também à denúncia, né?
10:17É um incentivo, mas tem gente que fala assim, ah, pronto, agora colocou um banco, resolveu, acabou o feminicídio.
10:21Óbvio que não.
10:22O banco não vai salvar ninguém, mas a informação que está nele salva.
10:25E é por isso que a gente traz a frase em todos eles, sentar e refletir, levantar e agir.
10:32O incentivo à denúncia, a pessoa, às vezes, no próprio banco tem o telefone, né?
10:38Para as pessoas fazerem a denúncia.
10:40E esse telefone seria o telefone da polícia militar, o telefone de uma central em Brasília, como é que é?
10:46Muito importante, Fernando, sua pergunta, porque as pessoas ainda não sabem.
10:51A informação é muito precária desses canais de ajuda.
10:53Quando a gente lembra dos Estados Unidos ou dos filmes, né?
10:56Todo mundo sabe o 911.
10:58Toda criança liga numa emergência, assim, uma mãe adoecer, chama uma ambulância.
11:02E aqui as crianças não sabem.
11:04Eu duvido você chegar na escola e perguntar para a criança qual é a diferença do 190 para o 180.
11:09A gente está com os dois números aí na tela.
11:12Vamos falar primeiro do 190, que é a polícia militar.
11:15Vamos lá.
11:16O 190 é o número para a denúncia imediata.
11:21Pedir socorro no momento em que o crime está acontecendo.
11:24190 liga para a polícia militar.
11:26Você está escutando um grito, está vendo uma briga, está presenciando alguma coisa que você sabe que vai terminar,
11:32em alguma coisa mais violenta, liga 190, que a polícia militar chega até o local.
11:37Já o 180, ele é uma central que funciona 24 horas em Brasília, é gratuita a ligação, funciona também pelo
11:45número de WhatsApp
11:46e é uma central de denúncias anônimas e informação.
11:51Quando é que eu vou ligar para o 180?
11:53Aí eu estou achando que eu estou numa relação abusiva, meu namorado não me deixa mais sair de casa, está
11:57controlando meu celular,
11:59ou eu estou com dúvida se a minha amiga está passando por alguma coisa porque eu não consigo ter acesso
12:03a ela, ela está muito diferente.
12:04Aí você liga 180 e a pessoa que está do outro lado, ela vai lhe explicar como proceder,
12:10seja desde pedir uma medida protetiva, ou buscar uma casa-abrigo, ou buscar um tribunal de justiça,
12:16que tem núcleos no tribunal, na defensoria, existe uma rede de apoio que as pessoas também não sabem.
12:21Volto a falar do problema de falta de informação.
12:24Quer dizer, o 180 é um número de orientação.
12:27Isso, e é também de denúncia anônima.
12:30Então você está assim, poxa, eu sei que minha vizinha está apanhando.
12:33Toda semana, principalmente no domingo, à noite, que é estatisticamente o número onde aumenta o número de boletim de ocorrência
12:40e feminicídio.
12:41Por quê? Porque o homem está dentro de casa, às vezes consome bebida alcoólica,
12:45então domingo à noite é a estatística de maiores feminicídios e agressões.
12:50Aí você sabe que o seu vizinho está agredindo ela, mas você tem medo dele.
12:54Ele é muito violento, Deus me livre de denunciar, se ele descobre que sou eu,
12:57mas o que é que você faz?
12:59Diz com a 180 e fala, quero fazer uma denúncia anônima.
13:02Aqui na rua tal, apartamento tal, dona fulana está sendo agredida.
13:07E a brigada Maria da Penha vai até esse endereço para fazer essa vistoria.
13:13Essa central em Brasília, ela recebe a denúncia e faz contato com o estado de onde está recebendo a denúncia
13:20e como funciona?
13:20Exatamente. Ela está em Brasília, funciona 24 horas e a vítima que é atendida é direcionada para a delegacia mais
13:27perto da cidade
13:28ou para a casa-abrigo mais perto do seu município.
13:32Ele faz essa triangulação com qualquer município.
13:34Atende em Brasília, mas informa para a mulher que está ligando para onde ela deve prosseguir.
13:40Ok. A gente vai parar um pouquinho, fazer um rápido intervalo e quando voltar eu quero falar de casos recentes
13:47aqui no estado.
13:48Você que está acompanhando a gente, não saia daí. A gente volta já já.
14:04Estamos de volta. Hoje estamos falando aqui no Ponto de Vista sobre o feminicídio.
14:09E eu recebo aqui no estúdio Paula Limongi, que é a vice-presidente do Instituto Banco Vermelho.
14:15Paula, na semana passada a gente teve um caso bárbaro aqui no Recife, que foi uma tentativa de feminicídio,
14:22mas uma tentativa com todas as características de que se ele pudesse, ele teria concretizado o crime.
14:29Um cara, o André Maia Oliveira, que chegou ao apartamento da ex-companheira,
14:35deu vários tiros contra a porta do apartamento,
14:38estava com um galão de gasolina na mão e depois ainda ligou fazendo ameaças e dizendo
14:44isto é uma ameaça, eu vou ser preso, mas vou, de alguma forma, vou conseguir matar você.
14:51Isso, assim, chocou todo mundo, né?
14:55É possível a gente reagir daqui a pouco, como não foi um feminicídio concretizado,
15:00a gente corre o risco de daqui a pouco o André Maia estar solto de novo?
15:06Corre.
15:07Infelizmente sim, né?
15:08Infelizmente sim, porque essa moça já tinha uma protetiva.
15:12Ele quebrou a protetiva, inclusive, quando ele arromba o portão do prédio.
15:15E ele alega o quê? Surto psicótico.
15:18Que agora todo mundo que agride mulher ou mata uma mulher,
15:21ou está fazendo uso de anabolizante misturado com energético,
15:24ou toma remédio controlado e misturou com bebida,
15:26ou teve um apagão e não lembra de nada.
15:28Então é muito importante diferenciar,
15:31porque tem muita gente que sabe o que está fazendo,
15:34que está tirando a vida de mulher porque acha que ela é propriedade,
15:37porque não aceitam não.
15:39Chegou um momento que a gente está vendo um aumento gigante,
15:42as pessoas falam, poxa, está aumentando, estão matando mais mulheres.
15:46Não, as mulheres é a questão denunciando mais.
15:49Então tem essa diferença.
15:51A mulher não está mais se calando, ela tem sua independência financeira,
15:55ela não quer ficar, às vezes, com o marido ou os maridos,
15:57ela se divorcia, e aí a gente tem dois pesos e duas medidas.
16:01Tem aquele homem que eu diria 30 a mais,
16:04que cresceu nessa cultura, às vezes, vendo o pai fazer isso,
16:07vendo o avô fazer isso, que trata a mulher como propriedade,
16:10que se tem o domínio financeiro pior ainda,
16:13porque fala, você vai comer isso no restaurante,
16:15que sou eu que pago, você vai comprar essa roupa,
16:17que sou eu que pago.
16:18E tem uma nova geração, que são esses adolescentes,
16:21que tem na mão conteúdo adulto, muito fácil,
16:24e também consumo de conteúdos de ódio, que a gente chama dos red pills,
16:30os pílulas vermelhas, são aqueles homens que se dizem coaches
16:34para ensinar o homem a ser um homem, para conquistar a mulher,
16:37para ser um homem legal, que diz que a mulher tem que ser submissa,
16:40que a mulher é inferior, esses caras se aproveitam dos jovens,
16:43em formação, disseminam o ódio e estão, inclusive,
16:47ganhando muito dinheiro vendendo o curso.
16:48E alguns ensinam até como agredir, né?
16:51Como agredir sem deixar marcas.
16:53Então, a gente tem que fazer o quê?
16:55Trabalhar medidas mais rígidas para esses homens 30, 20 e mais,
17:00e controlar o uso de rede social e criminalizar a misoginia.
17:05O que é a misoginia?
17:06É o ódio à mulher.
17:08Ela está para ser votada no Senado para se equiparar ao racismo.
17:12Infelizmente, foi tirada de pauta,
17:14porque parece que não está urgente.
17:16Então, assim, essa distopia que é viver no quinto país,
17:19que mais mata a mulher,
17:20e uma pauta dessa ser tirada de votação.
17:24Então, essa mulher que está aí em casa agora,
17:26que sofreu essa tentativa,
17:28ela tem que ser muito protegida,
17:30ela tem que ter, inclusive, o apoio do governo com escolta.
17:35Ela pode, se ela quiser, ir para uma casa-abrigo
17:37e ficar escondida durante três meses,
17:39porque o governo de Pernambuco oferece essa medida,
17:42porque ela não está segura.
17:43A gente sabe que a medida protetiva é um bloqueio,
17:46mas quando o indivíduo realmente quer chegar nas vias de fato,
17:50ele vai em frente.
17:52Pois é, e essa semana a gente teve outro exemplo,
17:55esse que concretizou o crime.
17:57Foi um cara que matou a ex-companheira
18:01e depois se matou.
18:03E o casal deixou uma filha de três anos de idade.
18:08É uma tragédia que a gente está vivendo.
18:10É uma tragédia, Fernando.
18:12Essa moça também tinha protetiva.
18:14E como o Instituto Banco Vermelho é nacional,
18:17eu lhe trago que essa semana também tiveram outros dois casos
18:20iguais ao de Pernambuco.
18:22Um em Vitória, do Espírito Santo,
18:24onde ele assassinou a companheira e tirou sua vida,
18:27e em Aracaju a mesma coisa.
18:28Esse do Espírito Santo era um policial rodoviário federal,
18:31e ela era uma...
18:32Uma guarda municipal.
18:32Da guarda municipal lá de Vitória.
18:34Isso.
18:35Ele também matou e se matou depois.
18:37Mesmo modus operandi, tanto em Vitória como em Aracaju.
18:41Então é o que a gente está dizendo.
18:42Hoje a gente vai terminar o dia com quatro mulheres mortas
18:44de crimes notificados.
18:46O que é que você está fazendo?
18:48Ultimamente a gente tem visto muitas mulheres
18:50levantando cartazes.
18:52Não matem as mulheres ou não nos matem.
18:57E a gente tem visto que mais gente precisa levantar esse cartaz também.
19:04Não pode ser só as mulheres levantando.
19:06É preciso que os homens levantem também.
19:08Não matem as nossas mulheres.
19:10E isso é uma mudança que tem que haver na sociedade.
19:14A gente não pode calar diante do que está acontecendo.
19:18Tem que haver essa mudança.
19:19Todo mundo veio de útero.
19:21Todo mundo nasceu de uma mulher.
19:22Sim.
19:23E aí eu faço esse questionamento aqui.
19:24Você, pai, que tem uma filha mulher,
19:27feche seu olho agora e pense.
19:29Se sua filha casasse com um homem igual a você,
19:31você estaria tranquilo?
19:33Você dormiria tranquilo?
19:35Então a gente pede muito apoio dos homens, inclusive.
19:38Porque se eles são o problema, eles têm que ser a solução.
19:41Todas as campanhas publicitárias, ao longo do tempo,
19:44elas vêm com frases para a mulher.
19:48Essa ajuda, não se cale, denuncie.
19:51Ela coloca todo o encargo nos ombros da mulher.
19:53Então a mulher que se entenda a vítima,
19:55a mulher que se proteja, a mulher que vai para a delegacia,
19:58está muito cômodo.
19:59Ninguém está falando com um assassino.
20:01Então é preciso uma mudança de tom de voz.
20:03A gente tem visto muito, inclusive, na mídia,
20:06que se usa muito.
20:08Mulher morre esfaqueada.
20:10Mulher morre arrastada.
20:11Não.
20:12É homem mata a mulher.
20:14Homem arrasta a mulher.
20:15Porque senão vira banal.
20:17A pessoa acaba pensando,
20:18poxa, essas mulheres estão provocando.
20:20Porque todo dia, mulher, mulher, mulher, não.
20:22É homem, homem, homem.
20:24A gente tem que colocar o nome do sujeito na frente
20:26para que a gente coloque o culpado
20:28e a população pare de normalizar esse crime.
20:32Esse grito de não matem nossas mulheres
20:35tem que ser encampado pela sociedade toda, né?
20:37Pelas escolas, times de futebol,
20:41igrejas, clubes.
20:42Todo mundo tem que levantar essa bandeira, né?
20:44É uma bandeira que não tem partido.
20:46É uma bandeira que não é de direita,
20:47é uma bandeira que não é de esquerda.
20:48É uma bandeira pelo fim
20:50dessa violência brutal
20:52que a gente está vivendo no Brasil.
20:54Que hoje, a gente não sabe o nome
20:56da que foi morta ontem.
20:58Porque vamos terminar o dia com umas quatro.
21:00Sim.
21:01E a gente não pode perder a capacidade
21:02de se indignar.
21:04Isso tem que vir da sociedade, né?
21:06A gente, enquanto instituto,
21:08nesse mês de março,
21:09já fez palestra para 2.500 estudantes.
21:12A gente planta uma semente,
21:14mas o governo precisa chegar junto.
21:16Sim.
21:17Você falou rapidamente
21:18da questão da mulher,
21:20o homem que vê a mulher como propriedade.
21:22E isso é uma coisa da nossa sociedade
21:24machista, patriarcal.
21:26E dizem muitas vezes,
21:27ah, isso é cultural.
21:28Mas é uma cultura que a gente precisa mudar, né?
21:30Não dá para aceitar
21:32que isso é cultural
21:33e vai ser sempre assim.
21:35O Brasil vai continuar sendo.
21:37Até porque outros países já foram assim
21:39e passaram por essa transformação.
21:41A gente precisa também transformar a sociedade
21:44e acabar com essa coisa
21:45de normalizar esse tipo de crime
21:47como uma coisa,
21:48ah, é normal, né?
21:50É da nossa cultura.
21:52Não dá para ser assim.
21:53Isso.
21:54A cultura é a gente que faz.
21:55E a cultura é a gente que pode mudar.
21:57É por isso que é tão importante
21:58que a sociedade se envolva.
22:00Principalmente na primeira infância.
22:01Onde esses meninos,
22:02eles estão crescendo
22:03e estão vendo, às vezes,
22:04os pais em conflitos em casa
22:06e vão crescer achando que é normal.
22:08Então, a escola tem esse papel
22:09de falar que não é certo,
22:11que tem que ter essa igualdade de gênero,
22:14que a menina tem o mesmo direito do menino, né?
22:16Os adolescentes,
22:17eles têm que saber que
22:19se uma menina sai para casa
22:2118 anos e tomou uma cerveja,
22:23uma caipirós que voltou de uba,
22:24ela tem que ter o mesmo direito
22:25de chegar viva em casa do que o menino.
22:28Porque eu sou mãe de um casal.
22:29Eles são crianças hoje.
22:31Mas o meu medo daqui para frente vai ser
22:33Pedro pode ter o celular ou a carteira roubado,
22:36mas a minha filha, será que volta viva?
22:38Então, enquanto a gente estiver sentado,
22:41esperando as coisas mudarem,
22:43a gente não vai ver redução de número.
22:45Essa coisa da escola que você falou
22:47é muito importante, né?
22:48A criança, desde pequena,
22:50o menino, no caso,
22:52desde pequeno,
22:52aprender a respeitar as meninas.
22:55E isso, a partir do momento
22:57que seja uma coisa natural na escola
22:59de se falar sempre sobre esse assunto,
23:02a criança vai começar a aprender
23:04como deve encarar a mulher,
23:08no caso, a menina,
23:10e a respeitar, sobretudo.
23:12Exatamente.
23:13A gente tem uma oficina que é muito bacana,
23:15que a gente faz em vários estados,
23:17que chama Banquinho Vermelho Vai à Escola.
23:19A criança, ela monta o banquinho de palito de picolé,
23:22pinta de vermelho,
23:23e cola o LIG 180 e entrega para a mãe.
23:25Então, essa criança está levando
23:27um símbolo de prevenção para dentro de casa.
23:29E ela vai entendendo que a menina,
23:31ela pode ser, se ela quiser, mecânica,
23:33que ela pode ser astronauta.
23:36Porque quando a gente vê, não, não pode, né?
23:38Menino fazendo isso, menina fazendo isso.
23:40Não, a menina tem direito
23:41de ocupar o lugar que ela quiser,
23:43de ocupar um espaço de poder.
23:45A gente precisa mostrar para os homens
23:47que a gente não tolera mais.
23:48E quando você diz,
23:50parem de nos matar, eu vou além,
23:51eu digo, nem pensem em nos matar.
23:53Porque nós não vamos nos calar.
23:56Pelas estatísticas, Paulo,
23:57a gente falou quatro feminicídios por dia,
24:00ou seja, a cada seis horas,
24:02uma mulher é assassinada no Brasil, né?
24:04Quais são os principais fatores
24:06que contribuem para a gente ter
24:07esses números tão impressionantes?
24:10A gente traz na Lei Maria da Penha
24:12cinco tipos de violência.
24:14E a Lei Maria da Penha,
24:15esse ano, vai fazer 20 anos.
24:16É considerada pela ONU
24:18uma das três melhores leis
24:20de proteção à mulher do mundo.
24:21Mas apenas 20% da população conhece.
24:24Então, nem toda violência
24:26começa com tapa.
24:28Patrícia,
24:29que é vítima de feminicídio,
24:31amiga de Andréa,
24:32nunca apanhou.
24:33Ele nunca encostou um dedo nela,
24:34mas ele foi capaz de matá-la.
24:36Então, o que é que prende essa mulher?
24:39É a dependência psicológica,
24:41a violência psicológica,
24:42que é quando ele começa
24:43a isolar essa mulher,
24:44tira ela de perto dos amigos,
24:45não sai com tua amiga, não.
24:47Ah, essa menina não vale nada.
24:49Me espera que eu te leve para o cinema.
24:50Ah, tua mãe está implicando comigo,
24:52tua família é muito chata.
24:53Então, ele isola ela
24:55com toda aquela promessa
24:56de amor demais,
24:57é cuidado demais,
24:58eu te amo demais,
24:59olha só o que você me fez fazer.
25:01E aí,
25:02esse isolamento psicológico
25:03gera esse problema
25:04que é essa dependência
25:05e a dependência financeira também,
25:07que é muito, muito cruel,
25:11porque a mulher, muitas vezes,
25:12fica cuidando do lar
25:13e ela não vê uma saída.
25:15Então, a gente tem esses dois problemas,
25:17que tem que ser cuidado também
25:18pelo governo.
25:18primeiro com assistência psicológica
25:20para quem está
25:21em dependência emocional
25:22e também com programas
25:24de empreendedorismo
25:25ou com campanhas voltadas
25:27para mulheres em situação
25:28de violência
25:29para que ela possa se reerguer
25:30e se livrar
25:31dessa relação abusiva.
25:32A gente já viu
25:33que muitos crimes acontecem,
25:35como você mesmo
25:35estava falando agora,
25:37antes do feminicídio
25:38há vários sinais,
25:39como essa coisa
25:39da dependência,
25:40de ficar passando na cara
25:42que ela depende dele,
25:43que ele escolhe tudo para ela.
25:45Na sua opinião,
25:46onde é que nós estamos falhando
25:48enquanto sociedade
25:49na proteção às mulheres?
25:51Eu acho que na falta de diálogo
25:53e informação,
25:54porque informação é poder.
25:57Enquanto a gente não falar,
25:58a gente não vai saber.
25:59Então, se eu não falo
26:00para uma menina
26:01que essa característica
26:03é um isolamento,
26:03é uma violência,
26:04se eu não falo para a menina
26:05que ele quebrar o celular
26:06é uma violência patrimonial,
26:08se eu não falo para a mulher
26:09que ele xingar,
26:10espalhar mentira,
26:11espalhar fotos no WhatsApp
26:12é uma violência moral,
26:14ela nunca vai saber
26:15que ela está sendo vítima.
26:16E também,
26:17se eu não falar para ele,
26:18alguns não sabem
26:19que é crime,
26:20outros sabem.
26:21Então, a gente tem que trabalhar
26:22informação e conscientização.
26:24E do meu ponto de vista,
26:27essa questão,
26:28junto também
26:28com a execução penal,
26:30são as maiores falhas
26:31do nosso país.
26:32É preciso que haja
26:33letramento,
26:35informação,
26:35campanha,
26:36mas que também haja
26:37um endurecimento
26:38na execução penal
26:40de quem comete
26:41violência contra a mulher.
26:42Existe um número
26:43também assustador,
26:44que é que menos
26:45de 10%
26:46das cidades brasileiras
26:48têm delegacias
26:49especializadas
26:50no atendimento
26:51à mulher.
26:52Como é que se explica
26:53isso num país
26:54com tanto feminicídio?
26:55Falta de política pública,
26:58falta do olhar cirúrgico
27:00para um problema
27:01que é latente
27:03no nosso país.
27:04A gente tem
27:06pouquíssimas casas
27:07brasileiras da mulher,
27:08pouquíssimos centros
27:09de acolhimento.
27:10E muitas vezes,
27:11quando eu falo assim
27:12do interior
27:12ou da região norte,
27:14a região norte ali
27:15é um apagão,
27:17a gente não sabe
27:17o que acontece.
27:18Por sinal,
27:18a gente tem um banco vermelho
27:19na ilha de Marajó,
27:20que eu sou muito orgulhosa
27:21disso,
27:21de ter chegado lá.
27:23Mas,
27:24às vezes,
27:24essa mulher do interior,
27:25ela cresceu nessa cultura,
27:27ela não sabe
27:27que é vítima,
27:28quando ela chega
27:29numa agressão
27:30muito grave,
27:31que ela chega
27:32a ser socorrida
27:32para um hospital,
27:33que o médico
27:34convence ela
27:35a fazer uma denúncia,
27:36ela é revitimizada
27:37na delegacia.
27:39E o próximo delegado faz.
27:40Tem certeza que você vai fazer isso?
27:42Você vai acabar com sua família?
27:45Então,
27:46principalmente,
27:47a polícia precisa também
27:48estar dentro desse mesmo
27:50modelo de comunicação.
27:52Todo mundo tem que entender
27:53o que é a violência,
27:55como ela começa
27:56e como você rompe o ciclo.
27:57Porque,
27:58se você não romper o ciclo,
27:59vai terminar em feminicídio.
28:01muito bem,
28:02o assunto dava
28:03para falar muito mais ainda,
28:04já falamos bastante,
28:06a nossa entrevista,
28:08o tempo da nossa entrevista
28:09está acabando.
28:10Eu agradeço
28:11a sua presença aqui
28:11e vamos continuar
28:12nessa luta
28:13contra o feminicídio.
28:15Eu que agradeço
28:16a todo mundo
28:16que está nos assistindo,
28:17a tribuna,
28:18por esse espaço
28:19que é sempre concedido
28:20e convido você
28:21a entrar nessa luta
28:22junto com a gente.
28:23Muito bem.
28:24Obrigado.
28:25Obrigado a você também
28:25que acompanhou até aqui
28:26pela audiência e companhia.
28:29A gente volta
28:29na semana que vem.