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  • há 15 horas

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00:08Olá, bem-vindas e bem-vindos a mais um Ponto de Vista.
00:12Hoje o nosso assunto é a história do Brasil, e mais especificamente o Brasil holandês,
00:18o período de 24 anos no século XVII em que os holandeses estiveram em Pernambuco e no Nordeste.
00:25O nosso convidado é o historiador Daniel Breda, que acaba de lançar um livro sobre essa época.
00:31Daniel, seja muito bem-vindo e obrigado por aceitar o nosso convite.
00:35Obrigado a você, Fernando. É um prazer.
00:38E eu espero que a gente possa bater um papo bom aí, porque o assunto é interessante.
00:44Primeiramente, como foi que surgiu o seu interesse pelo Brasil holandês?
00:48Eu sou formado em História, tenho um mestrado em História também,
00:51e na minha carreira acadêmica eu desde sempre me especializei no assunto.
00:55Mas eu acho que tem um retroflexo na questão familiar.
01:00Eu tenho um sobrenome, que é um sobrenome notamente holandês, Breda,
01:04embora a gente sempre escutei na família, né?
01:06Não, nós somos de origem holandesa.
01:08E essa curiosidade sempre esteve latente.
01:11E na época que eu comecei a fazer o curso de História,
01:14eu tive a oportunidade de começar a trabalhar na sinagoga,
01:17Caral Sur Israel, que é o Museu Judaico do Recife,
01:20e onde funcionava também o Arquivo Histórico Judaico.
01:22E lá eu comecei a desenvolver pesquisas, especificamente sobre a comunidade judaica,
01:27no período holandês, fiz um mestrado sobre esse assunto,
01:30e a partir daí continuei produzindo conhecimento,
01:33produzindo várias obras em torno da presença holandesa aqui.
01:38Eu já mostro logo o livro aqui, tá?
01:40É o Guia do Brasil Holandês, que foi lançado agora, esta semana,
01:45e é sobre ele que a gente vai conversar aqui com o Daniel.
01:49Como foi que veio a ideia de fazer um livro sobre esse assunto?
01:55Bem, eu, nesse período que trabalhei na sinagoga,
01:59eu tive uma experiência muito boa com um projeto que nós desenvolvemos lá,
02:04que era o Circuito Cultural Judaico de Pernambuco.
02:07E eu recebi inúmeros turistas, estudantes,
02:11que vinham de diversas comunidades judaicas do mundo inteiro,
02:15interessados na história judaica do Recife.
02:17Então, ali começou a se gestar uma ideia de que eu poderia também replicar isso
02:21para o período holandês como um todo.
02:23O meu estudo sempre foi sobre o espaço urbano,
02:26mesmo com o estudo sobre a comunidade judaica.
02:28Então, eu estudei muito aprofundadamente nos arquivos holandeses,
02:32na documentação holandesa, a respeito da construção da cidade do Recife.
02:35E, obviamente, que como um bom caminhante na nossa cidade,
02:39sempre percebi essa necessidade de contar um pouco mais detalhadamente,
02:45com mais profundidade, sobre a nossa história com os holandeses.
02:50Porque é uma história coberta de muitos mitos,
02:53de muitas histórias pouco precisas, obscurantismos.
02:59Então, eu acho que é um livro que eu quis fazer também
03:02para trazer para um público geral
03:04um pouco mais de informação mais contida,
03:08menos fantasiosa e, ao mesmo tempo, mais acessível.
03:11E com essa perspectiva de você poder estar na cidade,
03:15apreciando a cidade e aprendendo sobre ela.
03:17Agora, Daniel, o período do Brasil holandês
03:20é um período que já foi muito estudado.
03:21A gente tem clássicos da historiografia brasileira,
03:25como o Tempo dos Flamengos, de José Antônio Gonçalves de Mello,
03:29o Negócio do Brasil, de Evaldo Cabral de Mello.
03:33Você bebeu muito nessas fontes, nas suas pesquisas,
03:37nos seus estudos sobre o Brasil holandês?
03:39Esses são os grandes mestres.
03:41Esses são os mestres nos quais a gente se espelha.
03:44Todos os historiadores que vieram depois deles
03:47são devedores da obra de pessoas como José Antônio,
03:52Evaldo, mas também outros grandes nomes.
03:56Acho que na nossa historiografia pernambucana,
03:59nós temos desde o século XIX
04:00grandes historiadores, Alfredo de Carvalho,
04:03Pereira da Costa.
04:05Então, sim, absolutamente,
04:07essa literatura, essa historiografia,
04:09ela é fundamental para tudo que eu produzi
04:11em termos de conhecimento
04:13desde o início da minha carreira.
04:15Por que esse tema ainda é importante?
04:18Ele ainda é importante porque ele tem
04:21duas coisas que eu acho que são fundamentais.
04:24Um são as repercussões, né?
04:26O que isso transformou na paisagem
04:29do nosso país, do nosso estado,
04:33da nossa cidade.
04:35E ele produz uma quantidade de documentação,
04:39eu estou falando de cartografia,
04:41de pinturas, de desenhos,
04:43de documentação histórica,
04:45documentação burocrática, narrativas,
04:48que falam muito mais do que só
04:51a presença dos holandeses aqui.
04:52Eles nos ensinam sobre o nosso espaço,
04:55ensinam sobre o nosso desenvolvimento,
04:56sobre a nossa cidade,
04:58sobre a ocupação do nosso território,
05:00e também ensinam muito sobre
05:04as outras interfaces.
05:05Ou seja, os holandeses não produziram
05:07documentação e iconografia
05:10que falem somente deles.
05:13Nas fontes holandesas estão aí
05:15documentos importantíssimos
05:17para entendermos a história
05:18das populações afro-brasileiras,
05:20da população indígena,
05:22da própria população portuguesa,
05:23da população judaica.
05:25Então, essa miríade de populações e etnias
05:28que formam a nossa população colonial,
05:30a nossa genética,
05:32ela está muito bem documentada
05:34por esse período.
05:35E o segundo seria, para mim,
05:38muito importante pontuar
05:39a questão da formação da nossa identidade.
05:42A maneira como o Pernambuco
05:44conta sobre a emergência
05:46de uma identidade pernambucana
05:47passa sempre pela questão,
05:49mais do que a presença,
05:51da luta contra os holandeses.
05:53Então, existem muitos mitos
05:54que foram construídos em torno disso,
05:57e eu acho muito importante
05:58a gente revisitá-los.
05:59E talvez, de alguma maneira,
06:01a gente poder reconstruir
06:02e lidar com os traumas
06:05de nossa história.
06:07Eu acho que história tem muito a ver
06:08com análise nesse sentido.
06:10Pois é, por que você achou
06:12que valia a pena voltar a esse assunto
06:14e para quem esse livro foi escrito?
06:17Perfeito.
06:17Você tem toda razão
06:19quando mencionou que esse é um período
06:22sobre o qual foi produzida
06:23muita obra.
06:26Há centenas de livros,
06:29milhares de artigos
06:30que foram produzidos
06:31por historiadores de todos os lugares
06:33sobre esse período.
06:36Mas eu creio que
06:37há uma certa barreira
06:39nas obras historiográficas
06:41com relação a questões
06:43de linguagem e de abordagem.
06:45Então, eu amo,
06:46eu adoro ler documentação original
06:48do século XVII, claro,
06:50mas eu sei que existe uma dificuldade
06:52do grande público
06:53de acessar as obras
06:54que têm um teor acadêmico
06:57ou de pesquisa muito aprofundada.
06:59Então, o meu objetivo
07:01é trazer isso
07:02para um público mais amplo.
07:03O livro, ele é um guia histórico,
07:06ele vem numa tradição
07:07de guias históricos, talvez,
07:08que a gente tem na nossa sociedade.
07:10Eu estou falando aí
07:11de Gilberto Freire
07:11com os guias históricos sentimentais
07:13da cidade do Recife,
07:14da cidade de Olinda,
07:15Mário Sete, com Arruá.
07:18Recife é uma cidade que...
07:20E Olinda também, perdão.
07:21São cidades que foram
07:23muito estudadas
07:24e muito apreciadas
07:25e muito bem descritas, né?
07:27E não só o Recife e Olinda,
07:29mas, assim,
07:29Pernambuco é realmente
07:30um estado que tem uma tradição
07:32de se estudar
07:34e de escrever
07:35com essa vontade
07:36de fazer com que um público
07:37mais amplo
07:38aprecie a sua história.
07:40Então, eu estou dando um passo aí,
07:42tentando dar uma contribuição
07:43dentro da minha especialidade.
07:45É um livro que é um guia histórico,
07:48ou seja,
07:48é um guia no sentido
07:49do guia turístico,
07:50É um guia histórico
07:51e turístico, né?
07:52E turístico,
07:53desde que você encare o turismo
07:55também como atividade
07:56de aprendizagem.
07:57Inclusive,
07:58uma coisa que eu não falei ainda
07:59é que o livro é bilíngue, tá?
08:00O livro é escrito
08:01em português
08:02e em inglês
08:03exatamente para atingir
08:04um público maior também,
08:06não é?
08:06Exato.
08:07Ele tem esse propósito
08:09de ser bilíngue
08:11para duas principais funções.
08:13Uma é justamente
08:15para que visitantes
08:17e curiosos
08:18estrangeiros
08:19possam ter acesso, né?
08:21Às informações
08:22sobre a nossa cidade.
08:23Ele pode ser
08:24um instrumento aí
08:26de facilitar
08:28o conhecimento
08:29sobre a nossa cidade,
08:30turistas que estejam visitando,
08:31pesquisadores.
08:32mas ele também,
08:33com isso eu também quero
08:35que ele seja uma ferramenta
08:36para que o nosso
08:37trade turístico,
08:39os pesquisadores
08:39e os professores
08:40e as equipes dos museus
08:42que tem na nossa cidade
08:43também possam
08:44ter a informação em inglês
08:45e se prepararem
08:46para receber
08:48visitantes estrangeiros.
08:49Desde o início
08:50a ideia era essa
08:51de fazer um livro bilíngue?
08:52Desde o início,
08:53porque tanto
08:55há essa interface
08:56com a questão
08:57do turismo estrangeiro,
08:59mas ele também
09:00tem esse propósito
09:00educativo, né?
09:02Ele faz parte
09:03de um projeto maior, né?
09:04Que também tem
09:06essa função
09:07de ajudar
09:08os nossos profissionais
09:10de diversos setores aqui
09:11e eu acho que o texto
09:12inglês
09:13ele pode auxiliar, né?
09:14Um guia de turismo,
09:16um professor,
09:17uma pessoa do museu
09:18que queira receber,
09:19que precise receber,
09:21por exemplo,
09:21um visitante estrangeiro.
09:23Agora,
09:23além dos fatos históricos
09:24narrados aqui,
09:26a gente tem também
09:26descrições, né?
09:28De lugares
09:29que fazem parte
09:30da história
09:31do Brasil holandês,
09:32né?
09:33Onde esses fatos
09:34aconteceram?
09:36Por que você quis
09:37destrinchar
09:38esses vários lugares
09:40por onde,
09:41de alguma forma,
09:42o período
09:43do Brasil holandês
09:44passou por aqui?
09:46Fernando,
09:47eu tenho um...
09:48eu adoro
09:49criar rotas,
09:50eu tenho
09:51dezenas,
09:52centenas de rotas
09:53feitas no computador
09:55por diversas cidades
09:56do mundo
09:56e eu acho que
09:57é uma das melhores maneiras
09:58de você aprender
09:59sobre uma cidade
10:00é efetivamente
10:01você caminhar sobre ela
10:02ou andar de bicicleta,
10:04você fazer um passeio
10:06e você ver
10:06a história com seus olhos, né?
10:08Então,
10:09esse livro,
10:10eu trato de 58 pontos
10:12na cidade
10:12que tem alguma relação
10:15com a passagem
10:16dos holandeses aqui.
10:18Então,
10:18ele falou na cidade,
10:19mas na verdade
10:20são as cidades, né?
10:22São Recife,
10:23Olinda e Jaboatão.
10:25Então,
10:26ele começa justamente
10:27em Olinda, né?
10:29Eu poderia incluir
10:30Paulista, inclusive,
10:31porque ele começa,
10:32na verdade,
10:33em Pau Amarelo, né?
10:34Onde desembarcaram
10:36as tropas dos holandeses
10:37e que conquistaram
10:38Olinda.
10:38Então,
10:39eu trouxe
10:40tudo o que os holandeses
10:41deixaram de registro
10:42sobre Olinda,
10:44eu coloquei aí
10:45tanto iconograficamente
10:46quanto as descrições
10:47da cidade.
10:48A planta que eles fizeram
10:49de Olinda em 1630
10:50ainda é a melhor
10:52planta colonial
10:53que a gente tem
10:54para toda a história
10:55de Olinda.
10:56E o livro,
10:58ele vai passando
10:58desde a...
10:59vai contando
11:00desde as passagens
11:01das batalhas,
11:02o desembarque
11:02em Pau Amarelo,
11:03a batalha no Janga,
11:04a batalha em Rio Doce,
11:05a entrada das tropas
11:06holandesas
11:07até o Alto da Sé,
11:09as batalhas que houve
11:10contra o capitão Temudo
11:11ali na frente
11:11da Misericórdia.
11:12Então,
11:13a ideia é que você
11:13possa ir andando
11:15e recebendo
11:15essas informações.
11:17No Recife,
11:19a gente vai começar
11:20ali com a vista
11:21do Marco Zero,
11:22uma primeira imagem
11:23holandesa
11:24de 1630
11:25que mostra
11:25o Marco Zero
11:28naquela época,
11:29e aí a gente,
11:30o livro,
11:31ele é todo
11:31feito com imagens
11:33antigas
11:34e fotografias
11:35atuais
11:35que mostram
11:36exatamente
11:36o mesmo ponto
11:37de vista
11:38que esses pintores
11:39e desenhistas
11:40holandeses tiveram
11:41lá no século XVII.
11:43Então,
11:44a gente vai passar
11:45por marcos
11:45como a Rua dos Judeus,
11:48a atual Rua do Bom Jesus,
11:49as antigas ruas
11:51da cidade
11:52do Recife holandês,
11:53Recife Antigo holandês,
11:54do bairro do Recife,
11:55que não existem mais.
11:57Então,
11:57há um convite também
11:58a imaginar
11:59uma cidade que desapareceu
12:01porque foi tudo demolido.
12:02A gente chama Recife Antigo,
12:04mas o Recife Antigo,
12:05na verdade,
12:05ele é uma grande
12:05modernização do Recife,
12:07que aconteceu
12:08nas décadas de 10 e 20
12:10do século XX,
12:11ou seja,
12:11que não necessariamente
12:29tem estrutura holandesa,
12:31mas veja,
12:31os nomes dos fortes
12:32foram mantidos
12:33e são popularmente conhecidos,
12:35que são os nomes holandeses,
12:37Forte do Brum,
12:38Forte das Cinco Pontas,
12:39que deixou de ser Cinco Pontas.
12:40Mas continuou com esse nome.
12:42Exatamente.
12:42E o Forte Orange,
12:43por exemplo,
12:43em Itamaracá,
12:44que não está nessa edição,
12:46mas a gente vai chegar lá.
12:48Certo.
12:48Agora,
12:48você falou logo no início
12:50da nossa conversa
12:50alguns mitos também, né?
12:52Perfeito.
12:52E eu folheando um pouquinho
12:53e conversando com você
12:54antes da entrevista,
12:55a gente chegou a falar
12:56sobre aquela casa
12:57de Maurício de Nassau
12:59em Olinda,
13:00que é ali perto
13:01da igreja de São Pedro,
13:02em Olinda,
13:03e que não tem nada a ver
13:04com o Nassau,
13:05na verdade.
13:06Absolutamente.
13:07Nem com o período,
13:07inclusive, né?
13:08É uma casa
13:09de estilo neoclássico,
13:11uma casa
13:12que não deve ter
13:13muito mais do que
13:14100 anos, na verdade.
13:15Você conta aqui
13:15como surgiu essa história?
13:16Exatamente.
13:17Então, o livro,
13:18ele vai passar pelos ditos
13:19e os não ditos
13:20do período holandês.
13:21Então, a gente discute
13:22vários mitos aí,
13:24desbanca alguns também.
13:26E como foi que se falou
13:27que essa casa
13:28era de Nassau?
13:29Isso surgiu de onde?
13:30Isso surge
13:32de uma vontade
13:33de guias turísticos
13:34de criar fatos curiosos.
13:37então,
13:37a gente tem
13:38um aparecimento
13:41dessa informação
13:42porque é uma casa
13:44que ela tem
13:44uma posição vistosa,
13:46é uma casa
13:47que sempre recebeu
13:48uma pintura vermelha,
13:50ela está
13:50numa posição
13:50de dominância
13:51ali por trás
13:52da igreja de São Pedro
13:52e o mito surge
13:56como uma anedota, né?
14:00E depois,
14:01essa anedota vai crescendo,
14:02a informação se consolida,
14:04mas eu já vi
14:05muitos guias também
14:06já contando...
14:07Repetindo essa história.
14:08Não, desmentindo.
14:09Ah, desmentindo.
14:11Felizmente,
14:11já vi também
14:12muitos guias dizendo
14:13que Nassau nunca morou
14:15em Olinda.
14:15Não,
14:16quando o Nassau chegou
14:17no Recife,
14:18no Brasil
14:19ou em Pernambuco,
14:20Olinda já tinha sido
14:22completamente demolida, né?
14:24Os holandeses
14:25conquistaram Olinda
14:26muito rapidamente,
14:27foi muito fácil
14:28e perceberam
14:29que não era
14:30um local muito fácil
14:31de proteger.
14:32Então, eles resolveram
14:33arrasar a cidade,
14:35demoliram a maior parte
14:36das casas,
14:37algumas igrejas
14:38foram parcialmente demolidas,
14:40tem pinturas
14:41de France Post
14:42que mostram, né?
14:43As ruínas da Sé,
14:44as ruínas da Misericórdia
14:46e eles só mantiveram
14:49alguns lugares
14:50como postos
14:51de observação.
14:52Então,
14:53Nossa Senhora do Monte
14:54e o que hoje
14:55a gente chama
14:56de Seminário de Olinda,
14:57que era a Igreja dos Jesuítas
14:58lá no século XVII.
15:02Esses pontos
15:03foram mantidos
15:03por causa da posição,
15:04mas os holandeses
15:05perceberam que Olinda
15:06não era o barato deles,
15:08não era o tipo de cidade
15:09que eles iam viver.
15:10Então,
15:10quando o Nassau chega aqui,
15:11Olinda já tinha sido
15:12completamente destruída.
15:13Parte das pedras
15:15provavelmente foram usadas
15:16para construir.
15:17parte das casas
15:18que os holandeses
15:19construíram no Recife,
15:21mas Olinda
15:22permaneceu desabitada
15:23durante a ocupação holandesa.
15:25Então,
15:25o Nassau,
15:26se foi a Olinda,
15:27ele foi só dar um passeio,
15:28dar uma olhada na vista,
15:30mas jamais,
15:31efetivamente,
15:32teve residência lá.
15:34Muito bem.
15:34Daniel,
15:35a gente vai fazer
15:35um breve intervalo.
15:36Você que está acompanhando a gente,
15:38não saia daí.
15:39A gente volta já já.
15:53O Ponto de Vista
15:54está de volta.
15:55Hoje,
15:55a gente recebe aqui
15:56o historiador
15:57Daniel Breda.
15:59Daniel,
15:59continuando a nossa conversa
16:01sobre os lugares
16:03do Brasil holandês,
16:05inicialmente,
16:06quando a gente fala
16:07do Brasil holandês,
16:08a gente lembra
16:08da Batalha dos Guararapes,
16:10que foi da expulsão deles
16:11e lembra logo
16:12dos Montes Guararapes,
16:14que talvez seja
16:16o lugar mais importante
16:17porque significou
16:19a saída,
16:20a expulsão deles.
16:21Mas existem muitos
16:22outros lugares
16:23que remetem
16:24esse Brasil holandês
16:25e que valem a pena
16:27ser conhecidos.
16:28Com certeza.
16:29Além do que existe
16:33no centro do Recife,
16:36a gente tem
16:37escavações arqueológicas
16:39que encontraram
16:39as muralhas holandesas
16:40antigas,
16:41que podem ser vistas,
16:42por exemplo,
16:42dentro da sinagoga,
16:43mas também em outros pontos.
16:45A ponte Maurício Nassau,
16:47que existe hoje,
16:48é uma ponte de 1917,
16:49em concreto armado,
16:50mas existe toda uma história
16:52de como essa ponte
16:53foi construída.
16:54Então,
16:55a gente conta aí
16:55tudo em detalhes.
16:55E faz uma referência
16:56a um período histórico.
16:58Exatamente.
16:59Era uma ponte
16:59que ficava
16:59no exato mesmo lugar
17:01onde está
17:02a ponte atual,
17:03mas ela era uma ponte
17:04maior,
17:05porque as margens do rio
17:06também eram maiores,
17:08o rio era mais largo
17:09no período.
17:10E, claro,
17:11tem uma anedota
17:11como, por exemplo,
17:12a do Boi Voador,
17:13que é a história
17:14da inauguração
17:16da ponte,
17:16que entrou
17:17para o nosso folclore
17:18e tudo mais.
17:20Mas a cidade
17:21do Recife,
17:23no final das contas,
17:24nós encontramos
17:25poucas edificações
17:26ou monumentos,
17:27como queira,
17:28que efetivamente
17:31são daquela época,
17:32e que efetivamente
17:35sobreviveram
17:36àquela época.
17:37É verdade
17:38que a administração
17:39de Maurício de Nassau
17:40era ali
17:41onde hoje
17:42é o Palácio
17:42do Campo das Princesas?
17:44Exatamente.
17:44Ali havia um palácio.
17:45Naquela localização,
17:46mas não tem nada a ver
17:47com aquela construção.
17:48Não.
17:49Muito provavelmente
17:50se nós viéssemos
17:51a fazer escavações
17:52arqueológicas
17:53na área da Praça
17:53da República,
17:54próximo onde está
17:55o Baobá,
17:56não onde está
17:57o Palácio
17:57do Campo das Princesas.
17:58O Palácio de Friburgo
17:59era voltado
18:00para o mar.
18:02Ou seja,
18:02para o rio
18:03e para o mar.
18:04Então ele tinha
18:05a frente dele
18:06para a leste.
18:07Ele tinha duas torres,
18:08era também chamado
18:09Palácio das Duas Torres.
18:10Uma dessas torres
18:11era um observatório astronômico.
18:13Mas o palácio
18:14não sobreviveu ao tempo.
18:15Ele foi demolido.
18:17Ele funcionou
18:17como o palácio
18:18do governo
18:18dos colonizadores
18:21portugueses
18:21ainda por quase
18:22mais de um século,
18:23mas no século XVIII
18:24ele foi demolido.
18:25Então,
18:26o livro tem muito disso,
18:28de reimaginar
18:29espaços
18:29que não existem mais.
18:31Mas, por exemplo,
18:32boa parte do arruado,
18:34ou seja,
18:35do traçado urbano
18:36do bairro de Santo Antônio,
18:39o entorno da Praça da Independência,
18:41a Rua do Quiricaxias,
18:42a Rua Estreta do Rosário,
18:44as ruas do entorno da praça,
18:45elas ainda são devedoras
18:47ao desenho original.
18:48Nós não sabemos
18:49quantas dasquelas casas
18:51têm fundações holandesas,
18:52têm paredes holandesas,
18:54porque você precisaria fazer
18:55uma prospecção arqueológica
18:58dedicada.
18:59Nós não temos
19:00essas informações.
19:01A arquitetura das casas
19:02não é,
19:03mas o parcelamento
19:04das casas é.
19:05São ainda
19:06casas estreitas,
19:07que acabam
19:08ficando muito altas,
19:10mas, na época,
19:11eram casas pequenas.
19:12Mas é muito provável
19:14que nós tenhamos
19:14muitas fundações
19:15do período holandês
19:16naquela época.
19:17Aqui no Brasil,
19:18o tema do Brasil holandês
19:19sempre é muito estudado.
19:20Uma curiosidade,
19:22lá na Holanda,
19:23as pessoas também
19:24têm muito interesse
19:25nessa época ou não?
19:26As pessoas têm
19:28um desconhecimento profundo
19:30sobre a presença holandesa
19:31no Brasil.
19:33Não é uma temática,
19:34por exemplo,
19:35que passe no currículo escolar.
19:38E aí há uma questão importante,
19:40não é que os holandeses
19:41ignorem o passado colonial deles.
19:43Pelo contrário,
19:45eles são um país
19:46que mantiveram colônias
19:47até a pós-segunda guerra mundial.
19:50A independência do Suriname,
19:51da Indonésia,
19:52vem já na década de 60.
19:54Mas eles são um país
19:57que tiveram essas colônias
19:58por muitos séculos.
20:00Então, eles mantiveram
20:01e ainda tem territórios
20:03ultramarinos no Caribe,
20:04como o Curaçal,
20:06e mantiveram por muitos séculos.
20:09Então, eles têm
20:10uma relação muito mais forte
20:11com essas ex-colônias,
20:12inclusive populações imigrantes,
20:15culinária.
20:15O holandês é considerado língua,
20:18O holandês é uma língua oficial
20:19do Suriname,
20:21é uma língua que influenciou
20:23a parte da inteligência
20:26da Indonésia,
20:27a parte da Constituição da Indonésia
20:29foi escrita em holandês.
20:31Então, realmente,
20:32eles têm
20:33ex-colônias que têm
20:35uma relação muito mais profunda.
20:36O período aqui no Brasil
20:38de 24 anos só
20:39é um período muito pequeno
20:40diante dessa história toda
20:42que você está falando
20:42de séculos.
20:43Exatamente.
20:44Então, muito comumente
20:46eles se surpreendem.
20:47Ah, nós estivemos realmente...
20:48Ah, nós estivemos no Brasil,
20:49nós não sabíamos e tal.
20:50Isso é um cidadão comum, né?
20:52Um cidadão comum, claro.
20:54Dentro da academia
20:55e dos setores culturais,
20:58você tem um museu na AIA,
21:00que é a casa Maurício Reis,
21:02que é a casa de Maurício,
21:03que foi construída
21:04pelo nosso João Maurício de Nassau.
21:07Então, obviamente,
21:07quem visita aquilo ali
21:08já vai ter informação de cara
21:10que aquela casa originalmente
21:11foi construída com madeiras do Brasil,
21:13que recebeu uma coleção
21:16de itens que Maurício de Nassau
21:18tinha coletado aqui.
21:19Mas não é um conhecimento
21:21muito geral, não.
21:23Então, esse livro,
21:24eu espero que ele também
21:24possa ajudar nisso.
21:26Já foram algumas edições para lá.
21:29Alguns exemplares.
21:30Alguns exemplares.
21:31E ele também recebeu apoio
21:34da Embaixada da Holanda, né?
21:35Então, ele está circulando
21:37dentro do meio político holandês.
21:38É, tanto é que esse livro,
21:39a gente não falou ainda,
21:40mas o livro faz parte
21:42de um projeto que chama
21:45Compartilhado, como é?
21:46Patrimônio Compartilhado.
21:47Patrimônio Cultural Compartilhado.
21:49É um conceito que os holandeses
21:50desenvolveram para assumir
21:52responsabilidade e cooperação
21:56com relação às suas ex-colônias.
21:57Então, existem oito países,
21:59tanto essas ex-colônias mais famosas,
22:02Suriname, África do Sul, Indonésia,
22:04mas também países onde eles tiveram
22:06presenças módicas,
22:07como o Sri Lanka e o Brasil,
22:10em que eles apoiam projetos
22:12de divulgação desse patrimônio,
22:15que é o patrimônio colonial,
22:18mas que desenvolve-se a ideia
22:19de patrimônio compartilhado
22:21para que a salvaguarda,
22:22a divulgação,
22:23a apreciação desse patrimônio
22:24possa ser feita pelos dois lados.
22:26Daniel, dos 24 anos do Brasil holandês,
22:29o Maurício de Nassau esteve aqui
22:31por pouco mais de sete anos.
22:33Quem foi Maurício de Nassau
22:36e por que ele foi importante
22:37nesse período tão curto
22:39de apenas pouco mais de sete anos?
22:42O Brasil holandês foi um empreendimento,
22:46uma parceria público-privada.
22:48Havia uma empresa,
22:50chamada Companhia das Indas Ocidentais,
22:51que com o apoio do Estado holandês,
22:54dos Países Baixos,
22:56especialmente o apoio militar,
22:59ela fazia administração desse território.
23:01E Nassau, o João Maurício de Nassau,
23:05para distinguir ele do tio dele,
23:06Maurício de Nassau,
23:07que foi um militar de grande importância,
23:09um grande herói nacional.
23:11Nassau também foi um grande militar,
23:13mas ele foi um militar
23:14que vinha de uma família nobre,
23:16a família Nassau,
23:17que teve uma educação humanista,
23:20uma educação voltada para as artes,
23:22que eram mecenas de artes,
23:24ou seja, alguém que financiava.
23:26Ele tinha a preocupação
23:27de desenvolver o Recife
23:29e esse Brasil holandês?
23:31Provavelmente desenvolver,
23:32não da maneira como nós pensamos
23:34o desenvolvimento hoje,
23:35mas ele entendeu a necessidade
23:38de que, para fazer o trabalho dele
23:40funcionar melhor,
23:41ele quis produzir conhecimento sobre isso.
23:44Então, ele trouxe artistas, cientistas,
23:47para fazer um apanhado
23:49de tudo o que havia aqui,
23:51no sentido de conhecer profundamente,
23:53entender as possibilidades
23:55de exploração econômica disso,
23:56e também fazer uma propaganda
23:59e uma divulgação.
24:00Então, tem toda uma lógica por trás
24:03desses pintores,
24:05desses desenhos,
24:06de mostrar também
24:07e fazer uma propaganda
24:08da dominação holandesa
24:09lá na Europa também.
24:11Ele certamente trouxe inovações,
24:15aconteceram aqui as primeiras
24:16observações astronômicas
24:18do Hemisfério Sul da Terra,
24:19aqui houve um planejamento urbano,
24:22efetivamente,
24:22mas que era um planejamento urbano
24:24que tinha uma lógica comercial,
24:25que tinha uma lógica militar também,
24:28de movimentação de tropas pela cidade,
24:29além de iniciativas como a limpeza de ruas,
24:34multas para quem jogasse lixo na rua,
24:37calçamento de ruas.
24:38Então, quando a gente olha isso
24:40e olha o que era a Olinda,
24:42na colonização portuguesa,
24:43parece realmente,
24:44nossa, foi um diferencial muito grande.
24:47E em vários aspectos,
24:48realmente foi.
24:49Agora, o maior interesse dos holandeses aqui,
24:52que a gente não falou ainda,
24:53sempre foi o açúcar.
24:54Sempre foi o açúcar.
24:56Em 1630,
24:58quando os holandeses chegam aqui em Pernambuco,
25:00Amsterdã era o grande centro
25:02de refinamento de açúcar da Europa.
25:05Perceba que,
25:06com a tecnologia da época,
25:08você não conseguia refinar açúcar no Brasil,
25:11colocar ele num navio,
25:12que passasse dois meses o açúcar
25:15dentro de um barril de madeira,
25:17num porão de um navio,
25:18atravessando o Atlântico,
25:19e esse açúcar chega lá da maneira
25:21como foi refinado aqui.
25:22Ele ia virar melaço.
25:23Então, o açúcar,
25:24ele era exportado de maneira
25:26digamos assim,
25:27bruta,
25:28ele ia mascavo,
25:30e ele era refinado na Holanda
25:32e distribuído na Holanda,
25:35da Holanda,
25:35para toda a Europa.
25:37Os portugueses,
25:37eles não participavam dessa parte.
25:40Eles traziam o açúcar para Portugal,
25:42de Portugal para a Holanda,
25:43e revendiam para os holandeses.
25:44Os holandeses é quem fazia a distribuição.
25:46Então, os holandeses,
25:47eles vieram para cá,
25:48por causa de uma série de questões
25:50de guerras entre Holanda e Espanha,
25:52para garantir o fornecimento de açúcar
25:55para as suas refinarias.
25:56A gente pode dizer que a ocupação holandesa
25:58mudou o Recife,
26:00mudou o aspecto do Recife?
26:02Ele mudou,
26:02ele mudou provavelmente
26:04uma trajetória do que seria
26:06o desenvolvimento da cidade.
26:08O Recife, ele era só um porto de Holanda,
26:10era só o bairro portuário de Holanda.
26:13Então,
26:14se nós fôssemos tentar imaginar
26:15o que teria sido
26:16o desenvolvimento de Holanda
26:18sem a ocupação holandesa,
26:19é muito provável
26:20que a Holanda tivesse crescido,
26:22nós tivéssemos um sítio histórico
26:23que teria se espairado
26:25muito mais do que é
26:26hoje só a cidade alta ali
26:28entre o Amparo
26:30e o bairro novo.
26:34O Recife, ele foi a opção
26:35que os holandeses tiveram
26:37porque eles perceberam
26:38um ambiente que se parecia
26:39muito mais com a Holanda,
26:40ou seja,
26:41um ambiente em que eles sabiam
26:42fortificar,
26:43eles sabiam construir uma cidade
26:45ao nível do mar,
26:46cercado de água,
26:47as fortificações holandesas
26:49sempre tinham canais ao redor,
26:50o Recife,
26:52essa área de Santo Antônio
26:53que eu mencionei
26:54no entorno da Praça da Independência,
26:57tinha canais que atravessavam a cidade,
26:58barcos entravam,
27:00então,
27:00a opção holandesa pelo Recife
27:03fez com que
27:03nossa capital eventualmente
27:06fosse crescendo
27:07para a várzea
27:08onde se produzia açúcar,
27:10essa zona açucareira
27:11que vieram a seus bairros,
27:12Casa Forte,
27:14Graça,
27:14Madalena,
27:16Cordeiro,
27:16virgem no meio vásia.
27:19Essa, eu acho que
27:20é a grande
27:22influência
27:22nesse sentido,
27:23de que
27:23tomou um rumo
27:25que provavelmente
27:26não teria tomado
27:26sob uma ocupação
27:28100% portuguesa.
27:29Para concluir,
27:30ainda sobre esse patrimônio
27:32compartilhado,
27:33o projeto
27:33Patrimônio Compartilhado,
27:35além do livro,
27:36tem também
27:36um projeto
27:37de capacitação
27:39de guias de turismo
27:40e também
27:41dos profissionais
27:42dos museus, né?
27:43Explica rapidinho
27:44isso para a gente.
27:44A gente teve aí
27:45nesse projeto
27:46uma parceria
27:47muito forte
27:48com alguns museus
27:49da cidade, né?
27:50O Museu do Estado,
27:52o Museu da Cidade do Recife,
27:54Ricardo Brenan,
27:55a Sinagoga,
27:56o Forte do Brum,
27:58o Museu de Arte Sacra
27:59de Olinda
27:59e uma contrapartida
28:01é justamente
28:02oferecer
28:03uma capacitação
28:05para que
28:07o acervo
28:08desses museus
28:08possam ser
28:09ainda mais explorados
28:11pelos profissionais
28:12que ali trabalham
28:13e também
28:14os guias de turismo, né?
28:15E eu espero
28:16que a partir daqui
28:17esse lançamento
28:18tenha sido
28:19só o começo
28:20e a gente possa
28:21a partir daí
28:21fazer várias atividades
28:25além de,
28:26evidentemente,
28:27transformar isso
28:27efetivamente
28:28no roteiro turístico
28:29da cidade, né?
28:30Muito bem, Daniel.
28:31Obrigado pela entrevista.
28:33Mostro aqui
28:34mais uma vez
28:34a capa do livro, né?
28:35Guia do Brasil Holandês.
28:38É um livro
28:39em português
28:40e inglês
28:41e já pode ser
28:42encontrado
28:42nas livrarias.
28:43Daniel,
28:44muito obrigado
28:45pela entrevista.
28:45Eu que lhe agradeço,
28:46Fernando.
28:46Muito obrigado.
28:47E a você
28:48que acompanhou até aqui,
28:49obrigado também
28:50pela companhia
28:51e audiência.
28:52A gente volta
28:53na semana que vem.
28:58Obrigado.
29:00Obrigado.

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