Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 14 horas

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:08Olá, bem-vindas e bem-vindos a mais um Ponto de Vista. Neste mês de junho, estamos todos no clima
00:15do São João e do ciclo junino como um todo. Por isso, o nosso convidado hoje é um especialista
00:22no assunto. Vamos conversar com o historiador e antropólogo Hugo Menezes, professor da
00:28Universidade Federal de Pernambuco. Hugo, seja muito bem-vindo e obrigado por ter aceitado
00:34o nosso convite. E eu que agradeço muito o convite, vai ser uma ótima conversa com você
00:38hoje. Vamos começar então, queria falar do ciclo junino, como foi que surgiu o teu interesse
00:44pelo ciclo junino em si. Por que estudar o ciclo junino? Por dois motivos principais, Fernando.
00:51O primeiro deles, eu acredito que é por toda a minha experiência de vida. Eu fui quadrilheiro,
00:55dancei quadrilha por 20 anos na minha vida, dos 13 até os 33 anos. E isso mudou muito
01:01os rumos da minha experiência social mesmo. Então, por essa experiência de vida de quadrilha,
01:08eu quis, quando cheguei no mestrado, trabalhar com esse tema. Mas, porque eu acho que a festa
01:12junina e a quadrilha são elementos da cultura da gente, da cultura popular brasileira, muito
01:17rica, nos oferece muitas oportunidades de pensar quem somos nós, quem fomos nós, quem somos
01:24nós. Portanto, escolher esse tema é também uma forma de produzir um ponto de vista sobre
01:29a gente, sobre a gente, sobre a nossa formação social e cultural.
01:33Certo. Agora, quando você se interessou ainda na faculdade, assim, eu vou pesquisar o ciclo
01:40junino. Como é que foi?
01:42Primeiro que a gente tem pouca coisa ainda, né, sobre ciclo junino no sentido das reflexões
01:47mais contemporâneas, mais atuais. A gente tem muito trabalho de folcloristas, trabalho
01:52no campo do folclore, que são registros importantes demais, inclusive. Mas, a gente tem ainda
01:57um caminho, ainda tem um repertório a ser explorado. Então, eu entrei nesse tema, nesse
02:02desejo de contribuir com os debates, de trazer um pouco da minha experiência, enquanto quadrilheiro
02:09que fui, mas também tentar discutir e encontrar respostas para saber quem somos nós, né, porque
02:16as festas nos oferecem isso, nos dá isso.
02:17Esse período do São João ainda é uma coisa muito viva na cultura, seja de Pernambuco,
02:24seja do Nordeste?
02:25Nossa, é a nossa maior festa, né? Junto com o Carnaval, são duas grandes festas e dois
02:30grandes momentos do nosso calendário. Eles marcam a virada no nosso calendário, forjam
02:37nossa vida social. São festas que a gente aguarda, que nós todos aguardamos com muito
02:43afinco, né? Nos preparamos para elas e elas viram o calendário. A gente só começa o
02:47ano depois do Carnaval e só começa o segundo semestre depois do nosso São João, né?
02:51A grande festa do Nordeste e a grande festa do Nordeste do Brasil. O Brasil também respira
02:56São João, mas o Nordeste é o lugar, por excelência, onde essas festas, elas têm grande
03:01vulto, elas têm força, né? Força mobilizadora do campo simbólico e do caminho do campo cultural
03:06e social.
03:07É muito mais forte aqui, né?
03:09É muito mais forte.
03:09A gente vê, por exemplo, São Paulo tem as festas de São João, as festas juninas,
03:14muitas delas promovidas pelos nordestinos que estão lá, né?
03:17Exatamente, exatamente. E tem Nordeste em todo lugar, né, Fernando?
03:19Então, assim, tem gente no Norte, gente no Sudeste, no Centro-Oeste e que exatamente
03:23essa mistura de referências culturais desse grande Brasil que nós vivemos é que faz
03:29essa festa, faz essa festa uma festa tão diversa, porque ela tem muitas características
03:33distintas de lugar para lugar. Aqui para nós, em Nordeste, ela tem uma importância
03:39simbólica imensa e uma característica, um cheiro próprio com nossos próprios conjuntos
03:44de alimentos festivos, de comida de festa, comida de milho. Ela tem uma cor própria,
03:49a cidade se mobiliza, se enfeita com bandeira, com balão, colorida como ela fica.
03:55Então, ela tem cor, cheiro, musicalidade. A gente tem uma musicalidade do forró, do forró
04:00de Luiz Gonzaga e suas variantes, dos outros ritmos que compõem a festa, coco,
04:05seranda, chachado, baião, chote. Esse conjunto de música, música estética, cheiro,
04:11é o que faz essa festa acontecer e o que promove também a passagem do tempo.
04:16É de São João em São João que a gente conta o nosso tempo.
04:18Quem não fala assim, ah, no São João passado, no Carnaval do ano passado,
04:22no Carnaval daquele ano, porque é o tempo festivo que faz a vida a gente acontecer.
04:26Mais ou menos como os europeus falam das estações do ano, né?
04:30Com certeza.
04:31Inverno do ano passado, a primavera.
04:32É uma ótima referência, é uma ótima comparação.
04:35É mais ou menos isso também. A gente tem a festa, né?
04:37Como ela é forte pra gente, né?
04:39A expressão ciclo junino surgiu como e esse período representa...
04:46Quem começou a se interessar exatamente por esse período?
04:49As festas do mês de junho são festas que ocorrem desde tempos imemoriais,
04:54são festas de solstício que aconteciam na Europa, na época de solstício de verão lá, né?
05:01Pra nós aqui o inverno.
05:03E eram festas que aconteciam em celebração às colheitas.
05:06O ciclo junino é o ciclo que vem desde março, que é o plantio com São José, né?
05:12Que é o momento das pessoas trabalharem, ritualizarem o plantio do milho e de outros alimentos.
05:19E vai até junho com as festividades de Santo Antônio, São João, São Pedro e Santana mais na frente em
05:26alguns lugares, viu?
05:27Se estende um pouquinho, que é lá pro comecinho de julho, que é a época da colheita.
05:31Por quê, Fernando? Só se faz festa com abundância.
05:34Só se faz festa com muita comida.
05:36O que é fazer festa com pouca comida e se não ser uma fartura?
05:39Então é ótimo celebrar o solstício porque a gente celebra a fertilidade da terra que nos oferece, então, a fertilidade
05:47da humanidade.
05:48A gente só consegue sobreviver e povoar porque a gente consegue comer, se alimentar e sobreviver.
05:54Mas a festa é tão potente que ela oferece pra gente o alimento enquanto elemento importante pra pensar a vida,
06:00mas todo o conjunto simbólico que nos faz pensar na vida também, né?
06:03Tem uma festa que celebra o amor, a parceria, o encontro, os enlaces amorosos, o forró que dança em pares.
06:11Tudo isso tem a ver com esse sentido simbólico dessa festa, que é tão potente.
06:14Agora, voltando ainda às origens, você falou aí de São José, não sei o quê, mas antes dessa tradição cristã,
06:21já existia essa tradição da própria colheita, né?
06:25Do plantio e da colheita.
06:26Da comemoração da colheita, chegou.
06:28É a época da abundância.
06:30Bora fazer festa, bora comemorar.
06:31Isso sempre existiu em várias culturas, não só na cultura europeia, que eu citei como exemplo,
06:36mas em várias outras culturas no mundo.
06:39Se comemora, se ritualiza, produzem-se rituais pro plantio e pra colheita.
06:45E as festas de comemoração, a colheita, a comemoração, a divisão dos alimentos,
06:49a divisão entre as comunidades, dos alimentos plantados, tudo isso é festivo.
06:53Porque a festa não é só diversão.
06:55A diversão é uma camada importantíssima da experiência festiva.
06:59Mas a festa, ela diz muito mais do que a diversão só.
07:02Neste caso, a gente celebra essa vida que estamos aqui, né?
07:06Produzindo a parte, desde o plantio em março até a colheita em junho.
07:10E no Nordeste, acho que tem muita força, Fernando, porque vamos falar de uma região muito castigada pela natureza,
07:17de sua construção geográfica, de sua localização, castigada pelo sol, pela aridez, castigada em vários sentidos, né?
07:24Então, plantar e colher é muito forte.
07:27E é o momento da chuva em junho, do inverno, é o momento de maior prosperidade no sertão.
07:32É uma festa sertaneja por excelência, que nos lembra, na capital, nossas origens sertanejas, nosso interior brasileiro.
07:40Por isso que ela é tão carregada de simbolismo, celebra a vida e celebra também nossa diversidade geográfica, cultural e
07:45social.
07:46E a importância dos santos do ciclo junino?
07:49Qual a devoção a Santo Antônio, São João, São Pedro?
07:55Qual a importância disso?
07:56Como é que essa devoção se mistura, por exemplo, com o lado profano da festa?
08:02São três santos com muita adesão popular, com muita relação próxima das pessoas.
08:12O Brasil tem uma forma de cultuar seus santos católicos, que é de muita proximidade.
08:19Mas desses três santos, em especial, você imagina, Fernando, se pegar um santo e colocar ele de cabeça para baixo,
08:24esperando um casamento, né?
08:25Que é um conjunto ritualístico de se fazer de Santo Antônio.
08:29ritualístico de proximidade mesmo com esses santos, né?
08:31Que é o queimar as fogueiras em homenagem a esses santos.
08:34A forma de relação que as pessoas têm com esses santos é uma relação muito próxima,
08:38porque a festa provoca essa relação, ao mesmo tempo que essa relação produz a festa.
08:44Então, é uma festa que celebra a humanidade, Santo Antônio é o santo casamenteiro.
08:49O que quer dizer isso?
08:50Quer dizer que a humanidade celebra-se a fertilidade da terra e da humanidade.
08:54Casar para procriar, casar para povoar, casar porque nesta abundância se celebra-se a vida.
09:01Vamos usar a vida.
09:02Santo Antônio vai casar as pessoas, não só porque ele é casamenteiro, né?
09:05No simbolismo disso, é porque naquele momento estamos celebrando a vida, no mês de junho, nesse ciclo festivo.
09:11São João é o padroeiro do casamento, né?
09:14O padroeiro morreu defendendo o matrimônio, combatendo o adutério.
09:21São Pedro é o santo das viúvas, porque está ligado aos pescadores.
09:25Então, tem toda essa relação.
09:26São José é pai de Jesus, né?
09:28É um santo da família.
09:30Santana é avó.
09:31Então, a gente tem toda essa relação familiar, casamenteira, das relações afetivas e também sexuais.
09:37O fogo da fogueira, o fogo da paixão, as músicas que nos cantam isso, né?
09:41Os encontros amorosos nas festas juninas, tem a ver muito com esse simbolismo da procriação e da fertilidade da humanidade.
09:49Agora, você falou rapidinho do fogo da fogueira.
09:52A fogueira, no ciclo junino, ela surge antes da...
09:57Ela é acesa, geralmente, nas vésperas de todos os três santos, mas é mais forte no São João, eu imagino.
10:05Então, na véspera de Santo Antônio, também se acende fogueira.
10:09Acende-se para os três, certo?
10:10Acende-se para os três.
10:11São fogueiras com estruturas diferentes, mas acende-se para os três.
10:14Só que São João é o mais forte mesmo, ele tem toda a razão, é o que mais aparece, né?
10:18Depois da pandemia, isso diminuiu um tanto, a gente já viu que a cidade ficou menos acesa com as fogueiras.
10:22O fogo é o elemento ritualístico mais antigo que se tem notícia.
10:27O fogo representa batismo, casamento, veja, porque a renovação é a Fênix, né?
10:33A história da Fênix, de surgir das cinzas, de surgir a partir do fogo.
10:37O fogo é batismal, o fogo é sacramental, o fogo consegue implementar vínculos, você consegue apadrinhar a partir do fogo.
10:45Imagina um Brasil profundo, um Brasil enorme, onde a igreja não conseguia chegar efetivamente em todos os lugares.
10:53Como é que se casam pessoas no interiorzão desse país?
10:57Pulando a fogueira?
10:58Como é que se batiza as pessoas?
11:00Como é que se faz com madres e com padres?
11:02Se o padre só conseguia chegar lá no interiorzão, quando ele estava numa turnê, né?
11:08Rodando por esse país, até chegar naquele lugar.
11:11Enquanto ele não chega, vão batizar a partir do fogo.
11:14Então o fogo tem um elemento importante para a gente pensar a renovação, né?
11:20A vida.
11:21Além disso, o fogo simboliza a paixão, o sexo, a sexualidade.
11:25E essa paixão é constituinte também do repertório simbólico da festa junina.
11:30É lá onde a gente se encontra com as pessoas.
11:32O forró é uma dança de pares, para dançar-se junto.
11:35As músicas de forró cantam as histórias de amor, cantam os encontros das pessoas.
11:40A luz na proximidade da fogueira, porque a fogueira simboliza esse calor, essa paixão.
11:45Então todo esse simbolismo em torno da fogueira tem a ver com a religião e tem a ver também com
11:49a terra, né?
11:50Então, desde muito tempo, desde o tempo das festas pagãs, que se acendem em fogueiras e dançam em roda em
11:57torno da fogueira.
11:58É um elemento simbólico antiquíssimo que a Igreja Católica se apropriou,
12:03tanto do calendário festivo, quanto dos elementos dessa festa,
12:07para forjar, para elaborar isso que a gente chama de festa junina, em devoção a esses três santos.
12:13Agora, uma das principais manifestações do ciclo junino são as quadrilhas, as quadrilhas juninas.
12:19Como foi que elas surgiram?
12:21Então, bom, primeiro eu quero te dizer que elas hoje são o maior espetáculo público do Nordeste.
12:27Nós temos nas quadrilhas juninas a força e a potência de um grande espetáculo anual,
12:32produzido pelas comunidades das mais diferentes cidades desse Nordeste, desse país,
12:37e ela está espalhada no Brasil inteiro de Norte a Sul.
12:40Tem quadrilhas com características diferentes de Norte a Sul.
12:43Então, estamos falando de uma brincadeira popular que se espalhou com muita força e muito vigor,
12:48e que até hoje mobiliza a juventude, mobiliza as pessoas e compõe fortemente o ambiente festivo da gente no São
12:56João.
12:56Elas vieram, então, num histórico da corte, elas vieram das cortes francesas, dos palácios franceses,
13:05que depois foram tomadas, foram aprendidas pelas cortes portuguesas.
13:11Chega para a gente aqui, com a vinda da família real, em 1808, para o Brasil,
13:17como uma dança palaciana, uma dança cortesão, uma dança das elites, das grandes elites.
13:22Foi apropriada pelas pessoas, pelas classes populares, num Brasil rural.
13:27E ela vai nesse Brasil rural se afrancesando, num português afrancesado,
13:31se abrasileirando, perdão, num português afrancesado, numa brincadeira popular que fazia uma comédia.
13:38Não, num português afrancesado, não, num francês afrancesado.
13:42É.
13:43É, eu conheci isso, Fernando, obrigado, obrigado.
13:46Uma brincadeira ali com aquela experiência elitista, elitizada de dança,
13:53transformando aquilo numa grande sátira da elite.
13:57Quando as cidades brasileiras são construídas, né, são efetivamente realizadas no século XX,
14:06as quadrilhas saem do campo e vêm para a cidade.
14:10Aí ela vem com aquela característica que a gente conhece como quadrilha matuta, tradicional,
14:14que é a roupa remendada, a chita, o xadrez, o rosto marcado, né, pintado com manchas,
14:21o dente pintado como se fosse quebrado e um casamento matuto, encenado, né,
14:26que a noiva transava com o noivo, perdia a virgindade com um rapaz que não queria casar.
14:34E o seu pai, coronel, obrigava ela a casar, chamando a polícia, o juiz, né,
14:40que era a representação do Estado, chamando a igreja com o padre, que representava a religião, a igreja.
14:48Esses pilares, então, obrigavam a noiva a casar.
14:51Essa quadrilha é a que a gente chama de quadrilha tradicional.
14:53Ela é um recorte dessa história que chega aqui na cidade a partir do século XX
14:59para nos mostrar o quanto o campo era atrasado e o quanto a cidade é evoluída.
15:04Era um contraste importante para aquele projeto de cidade em meados do século XX, né.
15:11Só que isso foi caído em desuso, porque essa caricatura do universo rural,
15:15primeiro ela era uma caricatura, nunca foi de fato, nunca expressou de fato a beleza e a força do interior
15:23desse país.
15:24E depois não representava os brincantes dos centros urbanos.
15:28Então, essa brincadeira chamada de tradicional matuta, ela se transformou pelos brincantes urbanos
15:33a partir dos anos 80, nesse grande espetáculo público que nós vivemos hoje.
15:38São 40 anos, pouco mais de 40 anos de transformações estéticas e de transformações também conceituais
15:45nessa brincadeira que, por exemplo, hoje não obriga mais a noiva a se casar com o noivo,
15:50porque a mulher tem todo o direito de escolher quando ela perde a virginidade,
15:53com quem ela quer perder a virginidade, com quem ela quer casar ou não quer casar.
15:56E aí essa brincadeira, ela responde ao novo debate público sobre quem somos nós.
16:01Muito bem, professor, a gente vai fazer um rápido intervalo, já já a gente volta.
16:05Você que está acompanhando, não saia daí, a gente volta daqui a pouco.
16:21Estamos de volta, hoje eu recebo aqui no Ponto de Vista o antropólogo Hugo Menezes,
16:27professor da Universidade Federal de Pernambuco.
16:31Hugo, queria continuar conversando ainda sobre as quadrilhas com um fato curioso.
16:36Você é quadrilheiro, como você disse no primeiro bloco, né?
16:40E o mais curioso é que você conheceu a sua mulher numa quadrilha, nos ensaios de uma quadrilha.
16:46Que quadrilha foi essa? Conta essa história pra gente.
16:49É sim, eu dancei quadrilha por 20 anos da minha vida.
16:53Dancei na quadrilha Brigonde e Swap, que é uma quadrilha que não existe mais hoje,
16:55fica lá no cabo.
16:56Como era o nome?
16:57Brigões de Swap.
16:58Brigões de Swap.
17:00Era porque ela era uma briga na comunidade entre duas, de cima e de baixo,
17:05duas partes da comunidade que se juntavam pra dançar quadrilha.
17:08Por isso que elas eram brigões.
17:10E a gente dançou nessa quadrilha por muitos anos, 13 anos da minha vida, fui noivo.
17:16Aproveitei toda a experiência quadrilheira, encontrei o objeto de estudo,
17:20encontrei o lugar em que eu fiz amigos, afetos.
17:23E também nasci na quadrilha Raio de Sol, que é a quadrilha que hoje ainda continua existindo,
17:29o abrigões já acabou, já se encerrou.
17:31Você conheceu a sua esposa na primeira quadrilha ou na segunda?
17:33Na primeira.
17:34Na primeira.
17:34Na primeira.
17:36A gente se encontrou lá, nos conhecemos, nos casamos.
17:40Qual o nome dela?
17:41Patrícia.
17:41Patrícia.
17:42E os filhos também gostam de quadrilha?
17:45A minha filha faz parte de uma quadrilha, não dança, mas ela é da produção.
17:48Porque a quadrilha precisa de a gente pra dançar e a gente vai produzir também.
17:51Ela faz parte da produção da Raio de Sol.
17:54Essa vivência na prática que você teve durante 20 anos, você falou, certamente influenciou
18:02muito quando você entrou na universidade, de fazer com que a quadrilha e o próprio ciclo
18:08junino se tornassem objeto de estudo.
18:10Com certeza, Fernando.
18:11O que eu estou falando é viver uma quadrilha é uma experiência festiva que muda a forma
18:19de ver o mundo, que muda a forma de a gente encontrar, entender as festas.
18:24Porque a quadrilha não é só o que a gente vê no Arraial todos os anos.
18:28Isso é bom para o público entender.
18:29A quadrilha é muito mais do que se vê no Arraial.
18:32O que se vê no Arraial é a culminância de um longo processo, de um ano de produção,
18:38de ensaios.
18:39E neste longo processo de um ano, quase que ininterrupto, as pessoas se encontram e fazem
18:45afetos, redes de amizade, redes de solidariedade, de aceitação, de convivência com as diferenças.
18:53Porque tem gente de todos os créditos, de todas as cores, de todas as raças, de todos
18:56os gêneros, de todas as identidades sexuais.
18:59Tem muita inclusão também.
19:00Muita inclusão, muita inclusão.
19:02Então, tem muita gente de diversas formas.
19:04Essas pessoas estão lá, cotidianamente, por um tempo estendido, produzindo sociabilidade.
19:11A quadrilha ocupa um espaço que o Estado não tem ocupado, que é oferecer lazer e arte
19:17para as pessoas, para os subúrbios, para as periferias das grandes cidades, para as pequenas
19:22cidades do interior do Estado.
19:23Então, estamos todos juntos, fazendo uma família paralela dentro da quadrilha.
19:28Por isso que ela é tão importante e ela forma a gente.
19:30Então, quando eu fui estudar a quadrilha, eu já tinha essa experiência de quadrilheiro,
19:33eu já entendia bem como isso funciona, como é que as coisas se formam maior e mais potente
19:40do que aparecem no arraial.
19:41Agora, essas quadrilhas, como são hoje, elas surgiram, como você mesmo falou, nos anos 80.
19:49Elas foram mudando aquela ideia original que a gente tinha de quadrilha, daquela quadrilha
19:57que cada um se juntava na comunidade e fazia uma quadrilha, cada um vestido de um jeito.
20:02Hoje, as quadrilhas são muito coreografadas, as roupas são mais ou menos, todo mundo se
20:10veste mais ou menos do mesmo tipo.
20:13Isso também é cada vez mais luxuosa.
20:16Os concursos de quadrilha contribuíram muito para isso?
20:20Então, houve uma mudança estética, como eu te falei, porque as quadrilhas, a partir
20:26dos anos 80, as quadrilhas começam a olhar para a sua história e trazer novas referências.
20:31Então, o luxo, as grandes roupas, tudo isso também está ligado àquela origem lá na corte,
20:37lá em Portugal, lá na França.
20:41Então, essa tradição é um conjunto simbólico mobilizado pelos artistas quadrilheiros.
20:48É um repertório que eles vão lá tomar de volta para si e utilizar o que eles quiserem,
20:52abandonando a caricatura do Matuto, do Jocoso, do Rural.
20:56Agora, ao mesmo tempo, os mais antigos dizem que os concursos de quadrilha meio que descaracterizaram
21:02as quadrilhas tradicionais.
21:04Como é que você vê essa crítica?
21:05Era isso que eu ia te falar.
21:06Então, essa mudança estética é acompanhada por uma mudança em diversos sentidos, inclusive
21:09em outros concursos.
21:11Os concursos sempre existiram, mesmo nas quadrilhas tradicionais.
21:13Tem estados, Fernando, aqui no Nordeste, como Natal, Rio Grande do Norte, no caso, que fazem
21:19concurso de quadrilhas tradicionais.
21:22Então, ainda tem muitas...
21:24Nas escolas ainda se dança quadrilhas tradicionais.
21:28Nos bairros, nas festas públicas, no momento dos shows, os artistas cantam um arrasta-pé e
21:34as pessoas vão dançar na avantua, na ria e balancê.
21:37Vão dançar.
21:38Acontece ainda a existência de elementos tradicionais.
21:41O que é importante pensar é que a tradição não é enrijecida.
21:44Veja como a quadrilha mudou.
21:45Ela era da corte e virou outra coisa.
21:47Ela vai continuar mudando daqui para frente.
21:48Os concursos fazem parte dessa mudança, sim.
21:51Eles produzem situações que colaboram com as mudanças.
21:55Mas, entretanto, não são os grandes responsáveis.
21:58A dinâmica da festa e o poder, a autonomia dos brincantes quadrilheiros são também elementos
22:05importantes para pensar as mudanças.
22:06Muda-se para manter a tradição.
22:08Se não fosse a mudança, talvez não existisse nem quadrilha em Pernambuco.
22:12Esse conjunto, esse movimento quadrilheiro enorme, potente de grandes quadrilhas, talvez
22:17nem existisse.
22:18Porque mudou para poder continuar, permanecer.
22:20Entendi.
22:21Vamos falar um pouquinho mais dos ritmos, né?
22:23Você falou rapidamente, no primeiro bloco, do forró, baião, chote, chachado.
22:30Você falou até do coco, que eu não estava lembrado, né?
22:32Tem a ciranda também, que faz parte também do ciclo junino.
22:36Esses ritmos todos ainda estão muito presentes na festa?
22:40Muito, muito.
22:41E é uma boa, para fazer uma relação com a pergunta que você fez anterior, né?
22:45As quadrilhas, por exemplo, continuam usando esse repertório.
22:47Coco, chachado, baião, ciranda, o forró, né?
22:51O gênero forró, que abriga tudo isso de alguma forma.
22:54Então, a festa continua sendo uma festa com uma sonoridade própria, uma musicalidade
22:59própria.
23:00Que é essa musicalidade ligada ao forró, ligada a esses ritmos.
23:04A gente vira uma chave quando chega no mês de junho.
23:08A gente só quer ouvir isso.
23:09E isso é o momento da nossa festa.
23:11Porque celebra, são músicas e ritmos que celebram essas nossas, digamos que, origens,
23:17né?
23:17Origens sertaneja, origens agrestinas, origens da mata, das zonas da mata, origens desse
23:24som que nos constitui enquanto sujeito cultural.
23:28Nós somos pernambucanos, nordestinos, a gente ouve isso há muito tempo, né?
23:31Então, é o momento da gente reafirmar quando a gente está ouvindo na rua, quando está
23:35andando na rua, no ônibus, no metrô, na cidade, na nossa vida cotidiana.
23:41Quando a gente escuta isso, as músicas que contam essa história, o repertório gonzaguiano
23:45que conta essa história, é o momento de reafirmação de quem somos nós.
23:49E é para isso que serve a festa.
23:51Queria, você falou do repertório gonzaguiano, eu queria exatamente perguntar qual o papel
23:55de Luiz Gonzaga, né?
23:57Nessa, nesse, na construção desse imaginário junino que a gente tem, né?
24:03Ele continua, essa força de Luiz Gonzaga, continua sempre.
24:08Todo São João, ela volta.
24:09Ele é importantíssimo.
24:11As quadrilhas, por exemplo, continuam usando Luiz Gonzaga em seus repertórios.
24:14As festas públicas continuam usando.
24:16Os artistas populares continuam usando.
24:18Os grandes artistas renomados, nacionais, continuam usando Luiz Gonzaga porque ele é muito
24:22forte, porque ele tem essa inserção no nosso imaginário popular.
24:26Como estudioso do ciclo junino, do São João como um todo, como é que você vê essas festas
24:31nas cidades, hoje as festas se tornaram grandes espetáculos com bandas no palco, multidões.
24:41Qual a avaliação que você faz dessa festa com multidão e não aquela festa do São João
24:49tradicional?
24:50Eu acho que é bom a gente lembrar que existem muitas festas dentro da festa.
24:55Assim é o Carnaval, assim é o São João, as festas juninas, que a gente chama de São
24:59João, todas as festas do mês de junho, né?
25:01Isso.
25:01Elas são muitas festas dentro da festa.
25:04Essa festa dos palcos, dos grandes palcos, dos artistas renomados, dos grandes artistas
25:10que compõem programações, inclusive com uma dimensão forte turística, elas são
25:15uma das festas dentro do São João.
25:18Porque o São João é uma festa das famílias, das comunidades, é uma festa que se faz no
25:23quintal de casa, que reúne o vizinho da vizinhança.
25:27O São João de rua, na sua opinião, então, ele não está ameaçado, ele continua?
25:30Eu acho que o São João de rua precisa de mais incentivo público.
25:34Mas eu quero dizer com isso que a gente nunca deixou de viver o São João, porque o poder
25:40público resolveu, há alguns anos, produzir festas públicas subvencionadas pelo Estado
25:46com grandes palcos.
25:47Eu acho que elas convivem.
25:49A minha ressalva é que acho que, como estou falando de dinheiro público, de dinheiro das
25:54pessoas, que esse dinheiro seja bem distribuído para todas as pessoas.
25:59Os artistas nordestinos e pernambucanos precisam ganhar melhor, tão bem quanto os artistas
26:07contratados, porque são nomes nacionais.
26:10Então, o incômodo que gera, necessariamente, não é o valor pago ao artista X ou Y, porque
26:15ele é nacional ou ela é nacional.
26:17É o quanto essa pessoa ganha a mais e o quanto o outro, nossos artistas populares, forrozeiros
26:23de vida, que ajudam a fundamentar nossa festa, que é Santana, Flávio José, Petro Samorim,
26:31José do Sá, artistas que estão aqui conosco, Alcimar Monteiro, há décadas produzindo forró.
26:38Essas pessoas precisam também, devem, é um dever do Estado, equalizar a distribuição
26:44do recurso público.
26:45E a grande festa torna-se grande quando todo mundo ganha com isso, né?
26:50Não é mais que ganha menos.
26:51Para a gente fechar, eu queria falar muito rapidamente sobre a importância da culinária
26:56no ciclo junino.
26:57Essas comidas todas de milho que a gente come, todas maravilhosas.
27:01É importantíssima, importantíssima essa contribuição da culinária, porque, como
27:06eu falei, é uma festa que instaura o interior aqui, né, na capital.
27:09É uma festa que nos rememora quem somos nós.
27:12É uma festa que reforça valores e que tem um cheiro e um gosto próprio.
27:16A comida instaura a festa.
27:18É a partir do mês de junho que a gente só quer comer canjica, pamonha, milho assado,
27:22milho cozido, porque a culinária festiva informa que é o período e a experiência da festa.
27:29A gente comer a comida de milho, a gente está celebrando o ciclo junino de plantio e colheita.
27:36Ao reconhecer o cheiro, ao comer essa comida, a gente está vivendo a experiência festiva.
27:42Então, ela é, sim, de comensalidade.
27:45Ela é, sim, de comer e de trocar, Fernando.
27:47A gente troca o prato da pamonha, da canjica.
27:50Minha mãe fazia isso, a minha avó fazia isso, de mexer a canjica.
27:53Fazer a canjica e trocar com o vizinho, porque a gente reforça laços de vizinhança,
27:56de afeto, de família e de solidariedade e cooperação.
28:00Muito bem, professor Hugo Menezes, eu agradeço demais, foi uma ótima entrevista.
28:04Eu também, Fernando, muito obrigado.
28:06E a você que acompanhou até aqui, obrigado pela companhia e audiência.
28:10O Ponto de Vista volta na semana que vem.

Recomendado