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00:08Olá, bem-vindos e bem-vindas ao Ponto de Vista.
00:12Hoje vamos falar sobre um tema que é cada vez mais discutido na nossa sociedade,
00:18o envelhecimento saudável.
00:20Estamos vivendo cada vez mais, mas como envelhecer com saúde?
00:24Para falar sobre isso, eu recebo aqui o médico geriatra Alexandre de Matos,
00:30professor da Universidade de Pernambuco e diretor do IMED, o Instituto de Medicina do Idoso.
00:37Doutor Alexandre, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite, seja muito bem-vindo.
00:42Muito obrigado, Fernando. É um prazer estar aqui para debatermos esse tema
00:46tão cada vez mais atual e necessário.
00:49Muita gente, doutor, associa a velhice, a chegada das doenças, né?
00:54E também a perda de autonomia.
00:56O senhor é uma das pessoas, um dos profissionais de saúde que defendem que não precisa ser exatamente assim, né?
01:04A pessoa pode envelhecer, mas não necessariamente perdendo autonomia e cheio de doenças.
01:11É, exato. Esse é um ponto muito importante, porque a sociedade, de forma geral,
01:15principalmente na sociedade ocidental, tende a trazer a ideia de que estar velho, né?
01:23Ter a idade avançada é sinônimo de incapacidade, é sinônimo de decrepitude e não é necessariamente assim.
01:31Obviamente que a gente não é favorável também àquela visão muito romantizada do envelhecimento,
01:37a melhor idade, é uma idade de novos desafios, é uma idade também que aumenta o número de doenças crônicas,
01:44mas não é uma idade que necessariamente a pessoa está anulada para a vida,
01:48ou está incapacitada, ou está inexoravelmente porque ficou idosa em decrepitude.
01:54Então, é importante a gente ter essa visão, né?
01:58Qual a importância, qual a importância, doutor, de viver mais com saúde, né?
02:05Envelhecer com saúde e com qualidade de vida.
02:08O que é que a pessoa deve fazer para envelhecer com saúde?
02:12Bom, envelhecer de forma bem-sucedida, que a gente chama envelhecimento ativo, bem-sucedido,
02:18envelhecimento saudável, é um projeto de vida.
02:22Então, não adianta a gente começar a pensar em envelhecer bem apenas quando já estiver idoso.
02:27Então, é um projeto de vida, é algo que começa desde jovem, desde a juventude,
02:33porque o envelhecimento saudável, com qualidade de vida, com menos doença,
02:38é 75% ou 80%, depende do estilo da vida que a gente adotou durante toda a vida.
02:44É como um capital de saúde, é como uma poupança.
02:47Essa poupança, quando a gente for tirar os dividendos lá na frente,
02:50depende de quanto a gente, para ter o juro composto e tal,
02:53é essa que a gente fez lá atrás, é o que a gente vai ter lá na frente.
02:56Então, assim, é fundamental que a gente tenha essa visão, né?
03:00Que isso vai... a genética, vai ter um peso, não se fie muito na genética.
03:04Às vezes, muitas vezes a gente vê, a pessoa, ah, não, mas na minha família todos vivem muito,
03:08todos chegam aos 90, 100 anos,
03:09mas isso daí só tem um peso de 20%, 25% a genética.
03:14A maioria depende do estilo de vida que a pessoa teve durante a vida.
03:18E aí, alimentação saudável, não sedentarismo, atividade física,
03:23o controle dos fatores de risco, muitas vezes a hipertensão,
03:27o colesterol alto, que é a deslipidemia ou a diabetes,
03:29começa ainda com a pessoa, ainda com uns 40, 50 anos,
03:33ou até antes disso.
03:34Se você detectar e tratar isso de forma precoce, bem feita,
03:38além do estilo de vida saudável,
03:41lá na frente, nos 80 anos, você vai chegar com menos doença
03:44e, principalmente, o que importa,
03:46menos incapacidade para as atividades da vida diária.
03:50Quer dizer, tomando essas precauções,
03:52a gente consegue fazer com que o passar dos anos não pese tanto, né?
03:57Não pese tanto.
03:58É, e não tem um LX.
03:59Isso é uma coisa importante que eu queria deixar também, né,
04:02para os nossos ouvintes aqui,
04:04que não tem um LX da juventude.
04:07Às vezes, de vez em quando, a gente escuta por aí, né,
04:10os polivitamínicos, o medicamento para turbinar a memória,
04:13ou vai ter isso para...
04:14Não, não, esse LX é falso, é falsa ciência,
04:18é pseudociência.
04:19Na verdade, o caminho correto, científico,
04:22para um envelhecimento bem-sucedido,
04:24é um projeto de vida, de estilo de vida,
04:26que começa ainda quando jovem.
04:28E qual a importância da prática dos exercícios físicos
04:32para a gente tentar envelhecer com mais saúde?
04:36Eu diria que exercício físico, dentro de todo esse estilo de vida,
04:39se a gente tivesse que escolher um dos mais importantes,
04:42ou o mais importante, seria esse.
04:44O exercício físico tem um papel muito importante
04:47em você criar reserva funcional futura,
04:51reserva orgânica, né, para o futuro envelhecimento.
04:54Então, você vai ter reserva de músculo,
04:57porque você tem um grande risco, quando ficar idoso,
05:00de ter sarcopenia e perda de massa e força muscular.
05:03Essa reserva depende de criar mais cedo.
05:06Reserva cognitiva, reserva cardiorrespiratória.
05:10Então, assim, o exercício físico é fundamental
05:12para um envelhecimento bem-sucedido.
05:14Sendo que não é...
05:15Aí, a questão desde jovem é importante,
05:17mas, assim, nunca é tarde.
05:18Se a pessoa já está idoso,
05:20eu também não quero deixar aqui...
05:21Você não fez quando jovem, então...
05:23Não adianta mais.
05:24Perdeu a janela do que podia ganhar.
05:28Não, não é assim.
05:29Nosso corpo é extremamente adaptável.
05:31Eu diria assim, a pessoa já está idoso,
05:32nunca fez, sempre foi sedentário,
05:34mas dentro daquela condição que ele está,
05:37se já está com alguma doença,
05:38se já tem algum...
05:39Não consegue fazer um exercício mais vigoroso.
05:41Aquilo que ele consegue fazer com a fisioterapeuta,
05:44que ele faz ali com um personal especializado,
05:46vai trazer um ganho muito significativo ainda no envelhecimento.
05:50Falam muito também, doutor,
05:51da importância de movimentar as pernas, né?
05:56Parece que as pernas são muito importantes para a circulação,
05:59para mandar o sangue de volta para o cérebro, né?
06:03Isso tem sido uma coisa cada vez mais falada até pelos médicos.
06:08Exato.
06:09Para que as pessoas se conscientizem de que, por exemplo,
06:13envelhecendo e, de repente, ficar muito em casa, parado,
06:16é importante caminhar, é importante fazer exercícios
06:20e as pernas são muito importantes.
06:22Eu queria que o senhor falasse um pouquinho
06:23por que elas são tão importantes.
06:25É verdade.
06:25Se fala muito, inclusive, hoje, tem se falado,
06:28nos últimos três, quatro anos para cá,
06:30bastante comparando a nossa panturrilha
06:32com o segundo coração, né?
06:35Porque realmente tem que bombear o sangue e tal.
06:37Mas não só isso.
06:39Existe essa questão também, o sangue.
06:41Mas, assim, um dos locais que a gente mais consegue detectar, né?
06:44Do ponto de vista de avaliação clínica,
06:47a sarcopenia é exatamente nas pernas.
06:50Embora exista perda de massa e força muscular no organismo todo,
06:53mas na perna isso é mais detectável.
06:55Tanto é que a gente mede circunferência de panturrilha
06:59no exame físico, né?
07:00Então, assim, a musculatura de boa qualidade,
07:06a melhora da força e massa muscular,
07:08evitar a sarcopenia ou tratar quando ela já está instalada,
07:13sarcopenia, a perda dessa massa e força muscular,
07:16é muito importante porque diminui muito o desfecho negativo em saúde.
07:21Então, ter músculo não é só uma questão estética, né?
07:24Como se pensa, ah, vai o idoso para não pensar,
07:26ele não quer fazer a musculação para ficar musculoso.
07:29É porque esse músculo é uma reserva de saúde também.
07:33Quando a pessoa tem pouca musculatura, tem sarcopenia,
07:37quando ela adoece de uma doença aguda,
07:39ela vai voltar com muito mais incapacidade funcional.
07:42Outra coisa, tem maior chance de morrer também
07:45quem tem mais sarcopenia.
07:46Ela é um marcador negativo em saúde.
07:50Sarcopenia também, essa força muscular que a gente vê muito, né?
07:53Na questão das pernas, tem uma relação muito grande hoje também
07:56com cognição.
07:57O músculo é um órgão ativo metabolicamente na secreção de algumas substâncias,
08:05como a irisina, por exemplo, que tem ação na neuromodulação,
08:10na diminuição de perdas cognitivas.
08:12Então, essa questão da força muscular, da força nas pernas,
08:15vai muito além da questão de diminuir risco de queda,
08:19que é muito importante para isso,
08:20porque o idoso tem um risco de queda, pode ter um risco de queda muito alto
08:23quando tem perda de força e massa muscular, mas vai para uma saúde global.
08:27Você diminui riscos cardiovasculares, diminui risco de perda de cognição e demência,
08:32diminui... Então, o músculo é um marcador de saúde muito importante.
08:36Recentemente, no Jornal da Tribuna, a gente exibiu uma reportagem,
08:39era falando exatamente do envelhecimento com saúde, né?
08:43E tinha uma personagem, Dona Estela, de 73 anos, que nadava, corria,
08:49fazia exercícios de musculação e, assim, vendendo saúde, né?
08:55É o exemplo a ser seguido, né?
08:57Você envelhecer mantendo a atividade física.
09:03É, exato. E, assim, é aquilo que eu coloquei.
09:06Também, a gente não tem que buscar essa perfeição, essa performance como Dona Estela.
09:13Dona Estela é uma exceção.
09:14É uma exceção. Nem todo mundo vai conseguir isso.
09:16Mas, assim, se a pessoa, por exemplo, que tem uma artrose grave,
09:20uma sequela de AVC, que tem pouca mobilidade,
09:23ele já tem ali um exercício para fortalecimento, melhora de equilíbrio,
09:28melhora de marcha, para poder ele ter a capacidade de, por exemplo,
09:32usar o banheiro, o toalete sozinho, sem precisar de ajuda,
09:34conseguir levantar a bacia sanitária,
09:37imagine o quanto de dignidade essa pessoa está tendo
09:39porque conseguiu reabilitar a sua força muscular,
09:42ou seja, ele não vai correr uma maratona, não vai nadar uma piscina,
09:48mas ele, num grau ali menor, ele teve um impacto positivo na sua saúde.
09:54Então, você pode ter desde a Dona Estela,
09:56com aquele endurance, uma performance maior,
10:00até aquela pessoa que já tem muito comprometimento,
10:02mas que sempre fazer alguma atividade, fortalecer, ganhar função e força muscular
10:08vai trazer benefício à saúde.
10:10E a alimentação, doutor? A alimentação equilibrada é muito importante
10:15para que a gente envelheça bem?
10:16É, é muito importante porque a alimentação não equilibrada,
10:20os fast food, as comidas que aumentam a inflamação no organismo,
10:25eles vão causar lesão nos nossos vasos, vão causar lesão.
10:29Isso, desde cedo, quando estivermos idosos,
10:32vamos ter um maior risco de ter demências,
10:34de ter doenças cardiovasculares, doenças renais,
10:38uma série de problemas.
10:39Então, tem relação com isso.
10:41E, quando a pessoa já está idosa,
10:44tem que lembrar também que a alimentação continua também sendo importante,
10:49e aí a gente começa a ter uma visão para outras questões,
10:52como, por exemplo, a quantidade de proteína que essa pessoa come.
10:57Porque, por exemplo, a gente estava falando há pouco
10:58de ter a física ou atividade física ou personal,
11:01se ela não tem um aporte suficiente de proteína por dia,
11:04um grama de proteína ou 1,2 grama por quilo de peso dia,
11:08se não fizer esse cálculo, não tiver esse aporte,
11:10não tiver essa quantidade,
11:12você não vai ganhar o que conseguiria ganhar do exercício físico.
11:16Então, a alimentação é tanto importante desde cedo
11:19em relação ao estilo de prevenção de doenças crônicas no futuro,
11:24os alimentos ultraprocessados,
11:26que traz um risco muito grande,
11:27como a visão também, já depois de idoso,
11:30o cuidado com a aporte, a quantidade de proteína.
11:34Então, a alimentação sempre tem um papel importante na saúde.
11:37Muitas vezes o envelhecimento, doutor,
11:39ele vem acompanhado de outras doenças,
11:42de outras, não, de algumas doenças,
11:45como diabetes, hipertensão, alguma doença cardíaca.
11:49As pessoas que envelhecem com algum desse tipo de doença,
11:54elas têm que ter um cuidado maior,
11:56um acompanhamento mais frequente por um médico.
12:00Como é que deve proceder?
12:02É, é um fato, como a gente falou aqui no início da entrevista,
12:06que assim, quanto mais idosos nós ficamos,
12:09mais a maior chance de ter doenças crônicas,
12:11de acumular, às vezes, mais de uma doença crônica.
12:15E uma coisa também muito importante,
12:17quando a gente fala de envelhecimento saudável,
12:19hoje pelo OMS e tal,
12:21a gente não tem como dizer mais,
12:22até porque seria utópico,
12:23considerar que a pessoa envelheceu de forma saudável,
12:28ou tem um envelhecimento saudável,
12:30porque tem ausência total de doenças.
12:32Isso ia frustrar muita gente,
12:34porque talvez seja utópico para grande parte dos idosos
12:38não chegar em idades avançadas com nenhuma doença crônica.
12:41Hipertensão, nem que seja hipertensão,
12:44uma artrose, osteoartrite, diabetes, alteração de colesterol,
12:48até outras doenças, das mais simples às mais graves,
12:51mas tendem a ter uma ou mais,
12:54às vezes, até cinco doenças acumuladas crônicas.
12:57Então, assim, a gente vai tirar o foco da lente
12:59de ver se tem doença para dizer que é saudável,
13:02mas para o envelhecimento saudável,
13:04a gente vai dizer assim,
13:05se ele tem capacidade funcional apesar das doenças.
13:08E para ele ter capacidade funcional,
13:10ele realizar, executar suas atividades,
13:13ter sua autonomia preservada e tal,
13:15é muito importante que a gente controle
13:17essas doenças crônicas adequadamente,
13:20com gerenciamento médico,
13:21com uso dos medicamentos,
13:23com controle de exames,
13:25tratamentos farmacológicos e não farmacológicos,
13:28para que essa pessoa,
13:30mesmo que não cure essas doenças crônicas,
13:32as chamadas crônicas degenerativas,
13:34ou doenças crônicas não transmissíveis,
13:36que são essas mais comuns,
13:38hipertensão, diabetes, tal, atrose,
13:40elas não curam,
13:41mas elas podem ser muito bem controladas
13:44para que não cause lesões,
13:46não tenha impacto na funcionalidade,
13:48não cause sequelas,
13:49que vai deixar a pessoa incapacitada
13:52para as atividades da vida diária.
13:53Então, esse é o grande paradigma da saúde
13:56e do envelhecimento saudável hoje,
13:58não é fazer com que não tenha nenhuma doença,
14:00isso é quase que utópico,
14:01mas é que tendo essas doenças,
14:03essas devem ser adequadamente controladas
14:06e gerenciadas,
14:06para que a capacidade funcional desse idoso
14:09não seja atacada.
14:12Muito bem, vamos fazer um rápido intervalo,
14:14doutor, você que está acompanhando a gente,
14:16não saia daí,
14:17a gente volta já já.
14:32Estamos de volta hoje aqui no Ponto de Vista,
14:34eu recebo o médico geriatra Alexandre de Matos.
14:39Doutor, eu queria continuar a nossa conversa
14:41falando também da importância da saúde mental.
14:43Tem muita gente que se aposenta
14:45e aí fica lá numa cadeira de balanço,
14:48ou no sofá mesmo, totalmente parada,
14:51e isso, é claro, não vai fazer bem para ela.
14:54Vai ter uma consequência na condição mental dela também.
14:58Então, é importante cuidar também da saúde mental
15:01e não deixar,
15:04porque se aposentou,
15:06parar de viver quase,
15:07isso não faz bem a ninguém.
15:10Perfeito, isso é muito importante,
15:12porque eu costumo muito dizer
15:15que a pessoa tem que planejar,
15:17a pessoa deve planejar a aposentadoria.
15:19Se a pessoa deixa lá,
15:21aposentou, não planejou,
15:23ficou em casa,
15:23colocou um pijama e ficou na cadeira de balanço,
15:26o risco disso levar a adoecimento
15:28e aumentar a chance de mortalidade mais precoce
15:33é altíssima,
15:34porque a perda de propósito na vida
15:37é um grande vetor de adoecimento e morte.
15:41Então, muito do propósito que nós temos da vida
15:43depende do que a gente faz na nossa vida,
15:46enquanto da vida profissional, do trabalho.
15:49Então, assim,
15:49se a pessoa depois que se aposentar
15:52deve programar, pensar,
15:53se for, fizer sentido para ela,
15:55um voluntariado,
15:57se manter ativo,
15:58se faz também sentido para ela
16:00na parte de espiritualidade e religiosidade.
16:03Outra coisa também muito importante
16:05é que a aposentadoria aumenta muito
16:08a chance de ocorrer
16:09é isolamento social,
16:10que pode ocorrer também,
16:12independentemente da aposentadoria ou não,
16:14mas, assim,
16:15a aposentadoria aumenta muito
16:16essa chance de isolamento social.
16:17Então, você perdeu o propósito
16:19e perder também...
16:19A pessoa já não sai mais de casa
16:21quando sair,
16:21do trabalho, por exemplo.
16:23Então, isso tudo são agravantes, né?
16:25A pessoa vai ficando mais tempo em casa,
16:27mais tempo parada,
16:28sem se relacionar com outras pessoas.
16:31E perder essa conexão,
16:33esses vínculos sociais de relacionamento
16:35é tão grave hoje
16:37que tem alguns estudos mostrando,
16:39a OMS traz uma alerta muito grande,
16:41a OPAS traz alerta muito grande
16:43para isso como um fator de risco
16:44de adoecimento e morte muito grande.
16:46E tem até alguns estudos
16:47que comparam
16:49um isolamento social mais grave
16:53como sendo o equivalente
16:54a um tabagismo de 15, 20 cigarros por dia
16:57do ponto de vista de adoecer e morrer.
17:00Então, assim,
17:01é um fator de risco muito grande
17:03para adoecimento e morte.
17:04E não é à toa que a gente vê
17:06que os locais do mundo
17:08que se chama Blue Zones, né?
17:09Que são aqueles locais
17:11Okinawa,
17:11o sul do Japão,
17:13Loma Linda,
17:14na Califórnia,
17:15a Península da Nicóia e tal,
17:17eles têm...
17:18onde se vive mais de 100 anos,
17:20onde tem um grande percentual
17:21de pessoas que chegaram
17:22à idade centenária,
17:24mais de 100 anos.
17:25Tem grupos lá
17:26que eles chamam de supercentenários,
17:27aqueles com 110 anos ou mais.
17:29Esses locais têm um percentual maior
17:31dessas pessoas de longevidade
17:32muito avançada,
17:34mais do que a média
17:35do resto do mundo.
17:36E aí tem sido estudado muito,
17:37principalmente Okinawa,
17:38esse conjunto deles,
17:39ao sul do Japão,
17:40o que é que levou
17:41essa população a ter
17:42esse envelhecimento.
17:43Claro, existe também
17:44um componente genético
17:45um pouco diferente
17:46nesses locais,
17:48mas ainda continua sendo
17:49o estilo de vida
17:50e da vida toda.
17:51E um das questões
17:52que se viram
17:53nesses locais
17:54que se chamam lá
17:54de blusones
17:55é o alto grau
17:56de conectividade social
17:58e o pouco isolamento
17:59social do idoso.
18:01Isso foi o ponto
18:02de maior peso
18:04na longevidade
18:06e longevidade com qualidade
18:07que esses locais do mundo
18:09onde tem esses longevos
18:10centenários,
18:11teve como ponto principal.
18:14Tem muito pouco
18:15isolamento social,
18:17tem uma cultura
18:18de comunidade
18:19e de família
18:20muito forte.
18:21O senhor falou aí
18:22da atividade
18:23de voluntariado
18:24que é muito importante
18:25e existem outras coisas
18:27também, né,
18:27que podem ajudar
18:28a pessoa que está
18:29aposentada.
18:30Por exemplo,
18:32estudar alguma coisa nova,
18:34fazer algum hobby,
18:35tudo isso ajuda
18:36a pessoa
18:37a envelhecer bem.
18:38Ajuda e muito, né.
18:40Eu tenho pessoas
18:41que eu cuido pacientes
18:44que se aposentaram,
18:45tem uma agora
18:46muito recente
18:47que eu fiquei muito feliz
18:48que ela dê juíza,
18:49né,
18:50a magistrada
18:50que está se aposentando
18:51e aí começou
18:53a cursar psicologia,
18:55né,
18:55e tem várias...
18:56Então, assim,
18:58porque ela sabe
18:59que se a vida toda
19:00foi muito ativa,
19:01se ela parar
19:01e ficar dentro de casa
19:02vai adoecer.
19:03E cursando psicologia
19:04ela vai conviver
19:04com outros alunos.
19:06com outros alunos,
19:06vai aprender coisas novas,
19:08vai manter a conexão social,
19:09vai ter um propósito, né,
19:11de fazer a prova,
19:13de apresentar um trabalho,
19:14de sair de casa
19:14com um propósito.
19:15Então, isso é muito importante
19:17para a saúde.
19:18Tem a ver com aquilo
19:19que o senhor falou
19:19de planejar
19:20o que é que vai fazer
19:21quando parar, né?
19:22Isso.
19:23Ter planos para a vida, né?
19:25Não parar
19:25porque se aposentou,
19:27parar de tudo.
19:28Exato.
19:28Exatamente.
19:30E falando também
19:31nessa parte
19:32de saúde mental,
19:34uma coisa muito importante
19:35que eu queria alertar
19:37é que no idoso,
19:39depressão,
19:40depressão e transtorno de ansiedade
19:41são os problemas principais
19:43em relação à saúde mental.
19:44A depressão muitas vezes
19:46se apresenta de forma
19:47muito atípica
19:47nesses pacientes,
19:49nessa faixa etária
19:50e muitas vezes
19:51é subdiagnosticada
19:52por causa disso.
19:53Porque muitas vezes
19:54a gente não tem
19:55aquele sintoma típico
19:56e clássico
19:57de estar chorando,
19:58da pessoa estar se dizendo
19:59que está deprimido,
20:00está acamado,
20:02que é aquele quadro típico
20:04que a gente conhece
20:05tradicional da depressão.
20:06A pessoa pode estar apenas
20:07um pouco menos participativa
20:08em questões que gostava
20:09de fazer,
20:10jogava um dominó
20:11com os amigos e não quer mais,
20:12brincava com o neto,
20:14quer mais,
20:14mas ainda sai,
20:15não está chorando e tal.
20:16Mas nessa população
20:17eles passam a ter
20:17muitos sintomas físicos,
20:19passam a ter muitas dores,
20:21fadiga,
20:22alteração de sono,
20:23ou dormem demais
20:23ou não dormem bem à noite,
20:25perde apetite,
20:26perde peso,
20:27e aí se busca ali
20:28várias doenças,
20:29tem um monte de sacola
20:30ali de exames
20:31e na verdade
20:32é uma depressão.
20:33Então a gente tem
20:34que ficar atento a isso
20:35porque muitas vezes
20:36esses casos
20:38correm o risco
20:39de entrar na questão
20:40do idadismo
20:41que pode
20:42o idadismo
20:43ou o etarismo
20:44que é você
20:44aquele preconceito
20:45contra a pessoa idosa
20:46nem sempre é feito
20:47por maldade
20:48mas muitas vezes
20:49por desconhecimento
20:50e às vezes a pessoa
20:51ah, mas está assim
20:52menos participativo
20:53mas também
20:54já tem 80 anos
20:55tem que estar assim mesmo,
20:56não está ouvindo bem
20:58mas é assim mesmo
20:59já fez 85 anos
21:00não está
21:01está esquecendo direto
21:03está passando a perguntar
21:04a mesma coisa várias vezes
21:05mas é isso mesmo
21:06é da idade.
21:06então doenças que são comuns
21:08as demências
21:10com a idade avançada
21:12mas que passa a ser naturalizada
21:14como fazendo parte
21:15do envelhecimento normal
21:16e que não necessariamente
21:18precisaria ser daquele jeito
21:19isso, não precisaria
21:20você falou a expressão
21:20isso é da idade
21:21e às vezes a gente ouve
21:23até do médico
21:23o paciente vai no médico
21:25reclamar de algum problema
21:26de saúde
21:27e o médico diz
21:28não, isso é da idade
21:30não se preocupe com isso não
21:31mas não é o que o paciente
21:34deveria ouvir
21:35ele deveria
21:36mesmo com
21:37o problema que ele está
21:39enfrentando
21:39não necessariamente
21:40é da idade
21:41o senhor até antes
21:42da gente começar o programa
21:43o senhor conversava
21:44e lembrava de uma história
21:45que o paciente
21:46foi do médico
21:47reclamando de um joelho
21:48e o médico disse
21:49que era da idade
21:50ele disse não é
21:51porque esse outro joelho
21:52tem a mesma idade
21:53o outro joelho tem a mesma idade
21:55doutor
21:55e não dói
21:56como é que esse aqui
21:57e é isso
21:59e aí esse paciente
22:00traz uma lição
22:01muito grande
22:02quando dá essa resposta
22:03porque a gente deixa
22:05muitas vezes
22:06de dar um diagnóstico
22:07de algo que seria tratável
22:09e que você poderia melhorar
22:13aquela qualidade de vida
22:14pelo idadismo
22:16ou etarismo
22:16que está intrínseco
22:17na sociedade
22:18mas às vezes
22:19até para alguns profissionais
22:20de saúde
22:21não consegue enxergar
22:23fora dessa lente
22:24do idadismo
22:25e termina prejudicando
22:27esse paciente
22:28porque deixa
22:29de dar o diagnóstico
22:30de fazer um tratamento
22:31de algo que seria importante
22:33de ser feito
22:33eu queria agora
22:34levantar um outro aspecto
22:36doutor
22:36a questão da
22:38aceitação
22:39do processo de envelhecimento
22:41todos nós
22:41a partir do momento
22:42que nascemos
22:43vamos envelhecer
22:45mas tem gente
22:46que está envelhecendo
22:47e às vezes
22:47não reconhece
22:48que está envelhecendo
22:49não aceita
22:50que já não pode fazer
22:51tudo o que fazia
22:52quando era mais jovem
22:54como é que
22:55se trabalha
22:57para que o idoso
22:57aceite isso
22:59sem necessariamente
23:00ser um problema
23:01na vida dele
23:01eu costumo até dizer
23:03que assim
23:04já começa envelhecendo
23:06bem
23:06quem aceita
23:07que está idoso
23:09é um dos pontos
23:10de você
23:11você aceitar isso
23:12com naturalidade
23:14que está
23:14eu sou idoso
23:15mas isso vem muito
23:17a questão de não aceitar
23:18ou negar
23:19ou não querer
23:20aceitar
23:21que está idoso
23:22ou não aceitar
23:23o envelhecimento
23:23vem muito da nossa cultura
23:24principalmente a cultura ocidental
23:26que vê a idade avançada
23:29o envelhecimento
23:29como algo negativo
23:31como uma decrepitude
23:33como um carimbo
23:35de incapacidade
23:37o oriente já vê isso
23:39de forma muito diferente
23:40já vê com muita reverência
23:42ao idoso
23:43e assim
23:45uma coisa que a gente
23:46até estava conversando também
23:47que o contrário
23:48de não envelhecer
23:48todos nós já estamos envelhecendo
23:50cada segundo
23:51vamos terminar essa entrevista
23:52mais velho
23:53do que entramos na entrevista
23:54do que quando começamos
23:56e isso é inexorável
23:58nós estamos envelhecendo
23:59muito tempo de vida
24:00do século passado
24:02do século retrasado
24:03para cá
24:03ganhamos aí
24:04décadas e décadas
24:05de longevidade
24:06a mais do que
24:07as pessoas viviam antigamente
24:09e aí o contrário
24:11de não envelhecer
24:13só se a pessoa morrer cedo
24:14um acidente
24:15uma doença trágica
24:16um problema
24:16que leva a vida
24:18da pessoa
24:19se não
24:20todos nós vamos envelhecer
24:22mas isso é um fato
24:23inexorável
24:24mas mesmo assim
24:26a nossa sociedade
24:26ainda insiste
24:28em ver envelhecimento
24:29ou o idoso
24:30como algo distante
24:31quem está jovem dela
24:32ou algo que não pertence a ela
24:33ou algo que é negativo
24:35ou algo
24:36então essa cultura
24:37termina
24:38que começa lá
24:39ainda quando jovem
24:40mas a pessoa fica idoso
24:41e leva a mesma cultura
24:42da sociedade
24:44da sociedade ocidental
24:45de que valorizar muito
24:47a juventude
24:47e achar
24:48o envelhecimento
24:49como um aspecto
24:51apenas negativo
24:52o senhor falou rapidinho
24:53sobre espiritualidade
24:54e religião
24:55qual a importância disso
24:57para quem está envelhecendo
24:59isso ajuda
25:01a espiritualidade
25:02de certa forma
25:03ajuda o idoso
25:04a enfrentar o envelhecimento
25:05ajuda e muito
25:06a gente vê isso
25:07inclusive isso tem sido
25:08muito estudado hoje
25:09cientificamente
25:11a espiritualidade
25:14a religiosidade
25:16melhora a questão
25:18imunológica
25:19diminui risco cardiovascular
25:20diminui inflamação crônica
25:22nível de cortisol
25:23então a parte biológica
25:25da espiritualidade
25:26tem sido muito estudada
25:27atualmente
25:28e voltando ao que eu tinha
25:29citado aqui há pouco
25:30aquelas blusones
25:31aqueles locais do mundo
25:32onde tem idosos
25:34muito idosos
25:35centenários
25:35os locais que tem
25:36mais centenários
25:37no mundo
25:38a gente falou
25:38que o isolamento social
25:40lá quase não existe
25:41esse é um fator
25:42importantíssimo
25:42para que essas pessoas
25:43tenham atingido
25:44idades tão avançadas
25:45mas outro fator
25:46que eles viram também
25:47foram três
25:48os principais
25:49propósitos que a gente
25:50já falou também
25:51é muito forte lá
25:52o propósito de vida
25:53mesmo depois de idoso
25:54ele continua tendo
25:56esse propósito
25:57mas um outro
25:57que eles viram lá
25:58muito forte também
25:59foi a espiritualidade
26:00e religiosidade
26:01então assim
26:02os locais onde as pessoas
26:03vivem muito
26:04no mundo
26:05é muito forte
26:06espiritualidade
26:07e religiosidade
26:08e tem sido muito estudado
26:09na ciência
26:10na medicina
26:11qual é a alteração
26:13que faz fisiológica
26:15no organismo celular
26:16hormonal
26:18química
26:19inflamatória
26:20que está por trás
26:21dessa religiosidade
26:22doutor
26:23num país que está
26:24com a população
26:25envelhecendo
26:25tanto como a nossa
26:26qual a importância
26:28das políticas públicas
26:30voltadas
26:31para os idosos
26:32é fundamental
26:33a gente é uma população
26:34que envelheceu
26:35muito rápido
26:37se a gente comparar
26:38com a Europa
26:39com a França
26:40o que a gente
26:41passou
26:43quase menos
26:44de três décadas
26:45para dobrar
26:45o número de idosos
26:46a França fez isso
26:47em dois séculos
26:49as nossas políticas públicas
26:50são positivas
26:52são boas
26:53mais importantes
26:54são respeitadas
26:55pois é
26:55então assim
26:56eu diria que
26:59do ponto de vista
27:00de legislação
27:00nós temos boas políticas
27:02nós temos
27:02a política nacional
27:04do idoso
27:05o estatuto
27:06que era o estatuto
27:07do idoso
27:07foi revisto
27:08mais recentemente
27:09que passou a se chamar
27:09estatuto da pessoa idosa
27:11algumas outras políticas
27:12específicas
27:13para a área de saúde
27:14no idoso
27:14então assim
27:15de lei
27:16como é muito comum
27:17aqui no Brasil
27:17a gente tem lei suficiente
27:19a legislação
27:20para ser implantada
27:22a questão é que
27:23um dos problemas
27:25é que a gente não teve tempo
27:26talvez suficiente
27:27pelo envelhecimento
27:28muito rápido
27:29pode não ter sido
27:31prioridade
27:32de vários governos
27:33e de implantar
27:35adequadamente
27:36mas o fato
27:37é que a gente ainda
27:38está distante
27:38no Brasil
27:39de ter
27:40uma sociedade
27:42uma política
27:43pública
27:43adequada
27:44para a gente ter
27:45por exemplo
27:45calçadas
27:46e ruas seguras
27:47para esse idoso
27:48ter sua funcionalidade
27:50preservada
27:50e poder fazer
27:51a caminhada
27:52que a gente disse
27:52que é tão importante
27:53a segurança
27:54nesses locais
27:55a violência
27:56contra a pessoa idosa
27:57na própria
27:57atenção primária
27:58à saúde
27:59a gente deixar
28:00de ver
28:01a saúde
28:02como aquele tratamento
28:03isolado
28:03de doenças
28:04e passar a entender
28:05o idoso
28:06que tem multimorbidades
28:07crônicas
28:08que precisa de um
28:08gerenciamento global
28:10que tem síndrome
28:11geriátrica específica
28:12como síndrome
28:12de fragilidade
28:13e tal
28:14então a saúde
28:15também precisa
28:16avançar nisso
28:16desde a sua
28:17atenção primária
28:18então a gente tem
28:19ainda muito
28:20o que percorrer
28:21
28:21muito bem
28:22doutor
28:23chegamos ao final
28:24da nossa entrevista
28:25eu agradeço
28:26foi muito esclarecedora
28:27falamos de vários
28:28aspectos aí
28:29do bem
28:29envelhecer
28:30pois é
28:31eu agradeço também
28:32o convite
28:33estou sempre à disposição
28:34e a você que acompanhou
28:36até aqui
28:36obrigado pela audiência
28:37e companhia
28:38a gente volta
28:39na semana que vem
28:40e aí
28:42e aí
28:44e aí
28:44e aí
28:48Obrigado.

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