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  • há 9 horas
Título do livro: As Aventuras do Capitão José Bates
Autor do livro: José Bates

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Transcrição
00:00As Aventuras do Capitão José Bates
00:04Capítulo 12
00:05Cruzando os pampas de Buenos Aires, preparativos para enfrentar o Oceano Pacífico,
00:13decidido a nunca mais tomar vinho, à vista do céu estrelado,
00:19em uma situação alarmante em Cabo Horn, dobrando o cabo,
00:24a ilha de Juan Fernandes, as montanhas do Peru, a chegada ao Calau,
00:33viagem a Pisco, a paisagem e o clima de Lima, terremotos,
00:40a destruição de Calhau, um navio fora da água, o cemitério dos mortos.
00:49Enquanto estávamos em Ensenado, nossa comunicação comercial em Buenos Aires
00:55nos obrigou a atravessar os pampas, vastas pradarias ao longo do sul daquela província.
01:01Para fazermos isso e também nos protegermos dos possíveis ladrões na estrada,
01:06nos unimos em grupos e nos armamos a fim de nos defendermos.
01:10Primeiro percorremos cerca de trinta quilômetros pelas pradarias e mais trinta pelas lomas,
01:17terras altas até alcançarmos a cidade.
01:21Andar por aquela vasta pradaria sem um guia era mais ou menos como estar na imensidão do oceano sem uma
01:28bússola.
01:29Não havia uma árvore, um arbusto, nem nada para avistarmos ao longe,
01:33a não ser juncos e grama alta selvagem.
01:37Os ocasionais rebanhos de ovelhas, porcos, bois, carnudos e cavalos,
01:42que se alimentavam sossegadamente, conforme seu próprio modo de se organizarem,
01:48eram as únicas coisas que atraíam a atenção e aliviavam a nossa mente
01:53enquanto passávamos pelos enlameados brejos com juncos,
01:57pelos pântanos com lodo e água estagnada e pelos vaus de riachos e córregos.
02:02Podíamos ver, em cima dos bois e cavalos, pássaros grandes e pequenos,
02:08tranquilamente empoleirados nas costas desses animais, sem nenhum outro lugar para repousar.
02:15Montados em nossos cavalos semiselvagens alugados e colocando nosso bem-pago condutor à frente,
02:22passamos como soldados rasos seguindo seu líder, por aqueles trinta quilômetros de pradarias,
02:28seguindo as pegadas do gado deixadas na lama,
02:32na maior parte do tempo com nossos braços ao redor dos pescoços dos cavalos,
02:37temendo sermos jogados em uma poça de lama entre os juncos ou deixados a nadar no riacho.
02:43Depois de viajarmos por cerca de quatro horas, os lomas apareceram à frente.
02:49Em seguida passamos por uma casa de fazenda e, então, já na metade do caminho,
02:54paramos em uma taberna para o jantar e troca de cavalos.
02:59Logo, uma tropa de cem cavalos ou mais foi recolhida das pradarias e colocada num tipo de curral,
03:05e ali ficavam correndo a toda velocidade,
03:08enquanto homens muito hábeis, com laços ou longas cordas de couro com um nó corrediço na ponta,
03:15laçavam os cavalos e os prendiam em postes.
03:19Em seguida começava o treinamento de montaria nos cavalos, selvagens ou não.
03:25Depois disso, o cavaleiro-guia os colocava de volta nas pradarias,
03:29e os cavalos, então, obedientemente, se punham a seguir o cavalo condutor
03:35sem se desviarem em meio àquele imenso campo.
03:39O mesmo ritual foi observado ao retornarmos para encenado.
03:44Durante a nossa estadia ali, as inúmeras chegadas de mercadorias dos Estados Unidos
03:50abasteceram em grande quantidade o mercado ali,
03:53o que me permitiu comprar um carregamento para levar ao Pacífico
03:57em condições financeiras bem razoáveis.
04:00O Chatsworth, por fim, estava carregado,
04:04e então partimos para Lima, no Peru.
04:07Como eu havia decidido na viagem anterior
04:10nunca mais beber bebidas alcoólicas, a não ser para fins medicinais,
04:15agora, ao deixar Buenos Aires,
04:17decidi também nunca mais beber um copo sequer de vinho.
04:21Nesse trabalho de reforma de hábitos de vida,
04:24me vi completamente sozinho,
04:26além de ficar exposto aos comentários ombeteiros daqueles com quem posteriormente me associava,
04:32especialmente quando me recusava a beber com eles.
04:36Apesar disso, mesmo após todos os comentários deles,
04:39de que não era impróprio e nem perigoso beber moderadamente,
04:44eles tiveram que admitir que minha postura era, de fato, o caminho mais seguro.
04:49Quando se passa do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul,
04:53é admirável perceber a mudança notável no céu estrelado.
04:57Antes de uma embarcação chegar à linha do Equador,
05:01a famosa estrela polar aparentemente se põe no horizonte norte,
05:05e uma grande parte das estrelas bem conhecidas no Hemisfério Norte
05:09se distanciam da visão dos marinheiros.
05:12Mas isso é substituído pela vista esplêndida, nova e variada no céu do sul,
05:18à medida que o barco prossegue em direção às regiões polares do sul.
05:23Ali, nos céus do sudoeste,
05:26seguindo o rastro da Via Láctea nas noites estreladas,
05:29podem-se ver duas pequenas nuvens brancas paradas,
05:33chamadas pelos marinheiros de nuvens de Magalhães.
05:36Ferguson diz,
05:38Com a ajuda do telescópio,
05:40elas parecem ser uma mistura de pequenas nuvens e estrelas.
05:44Contudo, a mais notável de todas as estrelas nubladas
05:48é, segundo Ferguson diz,
05:50a que está no meio da constelação de Órion,
05:53onde sete estrelas,
05:55três das quais estão muito próximas umas das outras,
05:58parecem brilhar através de uma nuvem.
06:01Parece existir uma abertura no céu,
06:04através da qual é possível ver, por assim dizer,
06:07uma parte de uma região muito mais brilhante.
06:10Embora a maioria desses espaços
06:12se estendam por apenas alguns minutos
06:14na escala das coordenadas geográficas,
06:17por se localizarem entre as estrelas fixas,
06:20elas devem ser espaços bem maiores
06:23do que o que é ocupado pelo nosso sistema solar,
06:26e nos quais parece haver um dia ininterrupto e perpétuo
06:30entre mundos inumeráveis que nenhuma engenhosidade humana
06:34jamais poderá descobrir.
06:37Essa abertura ou lugar no céu
06:39é, sem dúvida, a mesma mencionada nas Escrituras.
06:43Ver João, capítulo 1, verso 51,
06:46e Apocalipse 19, verso 11.
06:48O centro dessa constelação, Órion,
06:52está a meio caminho entre os polos do céu,
06:55precisamente sobre a linha do Equador
06:57e chega até ao Meridiano no vigésimo terceiro dia de janeiro,
07:01às nove horas da noite.
07:03As Escrituras inspiradas atestam
07:05que foi o universo formado pela palavra de Deus.
07:09Hebreus, capítulo 11, verso 3.
07:11Ele estende o norte sobre o vazio
07:14e faz pairar a terra sobre o nada.
07:17Pelo seu Espírito ornou os céus.
07:20Jó, capítulo 26, versos 7 e 13.
07:24Em nossa viagem de Buenos Aires para o Cabo Horn,
07:27chegamos às proximidades das Ilhas Malvinas,
07:30a cerca de 400 ou 600 quilômetros ao nordeste do Cabo.
07:35Ali nos esforçamos para aportar durante uma tempestade,
07:38indo de encontro ao Canal de São Carlos.
07:41O crescente vendaval, porém, nos obrigou a zarpar
07:44e continuar o curso rumo ao sul.
07:48Ao chegarmos próximo ao Cabo de Horn,
07:50por volta de julho e agosto,
07:52durante a estação mais fria e mais tempestuosa do ano,
07:56lutamos por 30 dias contra os fortes ventos incessantes do oeste
08:00e contra as ilhas flutuantes de gelo das regiões polares,
08:05tentando, como dizem os marinheiros,
08:07dobrar o Cabo Horn.
08:09Certo dia, enquanto o nosso navio se encontrava com a vela de carangueja equilibrada,
08:15a certa distância do Cabo Horn,
08:17devido a um forte vendaval do oeste,
08:21fortes ondas nos atingiram a bombordo,
08:24quebrando nossas amuradas e escapes,
08:26rachando os sarrafos da borda do navio
08:29e jogando-os contra o mastro de perto do morinete
08:32até o corredor da cabine.
08:35Naquela condição exposta e perigosa,
08:37com o navio sujeito a encher de água e afundar imediatamente,
08:42armamos a vela grande da gávea e colocamos a embarcação contra o vento.
08:47E para deixarmos o navio ainda mais estável,
08:50largamos também a vela de traquete com pouco pano,
08:53o que fez com que a velocidade do navio aumentasse com tanta fúria
08:58que enormes quantidades de água entravam pelos espaços
09:01que ficaram abertos na borda do navio,
09:03devido aos estragos.
09:06Felizmente tínhamos em mãos uma nova lona impermeável.
09:09Àquela altura estávamos todos empenhados
09:12em tapar esses espaços abertos com a lona,
09:15quando surgisse a oportunidade,
09:17prendendo-a com pregos para então voltarmos aos nossos abrigos
09:21até que o navio virasse outra vez a sota-vento.
09:24Durante duas horas protegemos assim temporariamente os espaços abertos.
09:30Passado o perigo, guardamos a vela grande da gávea e a vela de traquete
09:35e colocamos o navio novamente contra o vento
09:38para que seguisse na direção que queríamos
09:41sob uma vela de carangueja equilibrada e encurtada.
09:45Então, depois de bombearmos a água para fora e limparmos os destroços,
09:50tivemos tempo de refletir sobre como havíamos escapado por pouco
09:54da completa destruição e de como a bondade de Deus abriu caminho
09:58para nos salvar naquela hora de provação.
10:02No dia seguinte, quando a tempestade finalmente diminuiu,
10:06reparamos os danos mais minuciosamente.
10:09Depois de uns 30 dias de combate perto do Cabo Horn,
10:12contra os vendavais do oeste e impetuosas tempestades de neve,
10:18conseguimos dobrar o Cabo e rumar para a ilha de Juan Fernandes,
10:21dois mil e trezentos quilômetros ao norte dali.
10:25Os ventos do oeste estavam agora a nosso favor,
10:29de modo que em alguns dias o tempo mudou
10:31e passamos por aquela ilha famosíssima que um dia fora o mundo de Robson-Cruzoé.
10:37Depois de navegarmos por uns 4.100 quilômetros daquele cabo tempestuoso,
10:43podemos avistar distintamente as imponentes montanhas do Peru,
10:47embora ainda estivéssemos a cerca de 128 quilômetros de distância da costa.
10:53Seguindo adiante, jogamos a âncora na espaçosa Baía de Calhau,
10:57cerca de quase 10 quilômetros a oeste da famosa cidade de Lima.
11:02A demanda por produtos norte-americanos estava em alta naquela época no Peru.
11:07Assim, algumas das minhas primeiras vendas de farinha chegaram a 70 dólares por barril.
11:14Algumas cargas que chegaram logo depois de nós reduziram o preço para 30 dólares.
11:21Naquele lugar, aluguei o Shatsworth a um comerciante espanhol
11:25para uma viagem a Pisco, que fica uns 180 quilômetros mais ao sul.
11:30Um negócio vantajoso para ambos,
11:33pois eu poderia vender a carga em Pisco e ele retornaria com a dele.
11:37Logo depois de chegarmos a Pisco,
11:40dois homens, juntamente com o imediato, foram até a aldeia,
11:44a cerca de 5 quilômetros do porto,
11:46para conseguir carne e legumes para o jantar.
11:49Porém, os dois homens voltaram com a notícia de que soldados patriotas
11:54haviam descido das montanhas e cercado a aldeia,
11:57saqueando as lojas onde parte da nossa carga estava à venda.
12:01Contaram também que os soldados haviam levado imediato à periferia da aldeia
12:06a fim de matá-lo a tiros.
12:09Os soldados ainda avisaram aos nossos homens
12:11que desceriam até o porto para tomar o nosso navio e se livrar de mim,
12:16tudo isso porque tínhamos trazido a bordo de Lima o comerciante espanhol.
12:21Logo, o imediato apareceu na praia.
12:24Depois que o barco o trouxe a porto,
12:26ele nos disse que os soldados, ao descobrirem que ele era o imediato do Shatsworth,
12:31o levaram para o extremo da aldeia, a fim de matá-lo.
12:35Ao chegarem ao local, um dos soldados convenceu os outros a não matar.
12:40Então, eles decidiram deixá-lo ir,
12:43mas o espancaram sem misericórdia com suas espadas.
12:47Nós então nos preparamos para nos defendermos,
12:50mas os nossos inimigos acharam melhor não se expor ao alcance das nossas balas de canhão.
12:55Apesar dos nossos adversários que continuavam a nos ameaçar,
12:59vendemos todo o nosso carregamento ali a preços melhores do que os que oferecemos em Calhau.
13:05Assim, retornamos ao Calhau com o carregamento do comerciante espanhol.
13:10Enquanto estávamos em Calhau, uma baleia apareceu na Bahia.
13:14O navio baleeiro Nantucket estava lá naquela ocasião
13:18e seguiu a baleia com os botes, fisgando-a com um arpão.
13:22A baleia precipitou-se em meio às embarcações como um raio na água espumante,
13:27arrastando o barco que a havia alvejado
13:30e lançando-se com ímpeto para baixo de um grande navio americano.
13:34Aquela fúria foi apenas um pequeno aviso a seus caçadores
13:38para pararem de segui-la e salvarem suas vidas.
13:42Era como se estivesse deixando a seus inimigos desconhecidos a seguinte recomendação.
13:47Se vocês me seguirem, nunca mais arpoarão outra pobre baleia.
13:53A baleia ainda passou rapidamente por entre a frota
13:57e seguiu em direção à extremidade da bahia em águas rasas.
14:01O bote a seguiu e a fisgou outra vez com um arpão
14:04no momento em que ela saiu da bahia zig-zagueando.
14:08E assim, em pouco tempo, pudemos avistar o bote à distância
14:12à medida que o sol se punha com suas bandeirolas tremulando,
14:15um sinal de que a baleia estava morta.
14:18O tenente Conner, agora comodoro,
14:21que comandava a escuna Golfinho dos Estados Unidos,
14:24foi em busca da grande pesca e chegou no dia seguinte,
14:28rebocando a baleia e o bote.
14:31No outro dia, ele convidou os cidadãos de Lima
14:33para testemunhar como os norte-americanos cortavam
14:37e preparavam as grandes baleias capturadas em águas estrangeiras.
14:41O clima dessa região é salubre e à vista muito agradável.
14:46Ali há nuvens brancas flutuantes.
14:49Além delas, é possível avistar um céu azul escuro,
14:52aparentemente o dobro da distância da terra
14:54em relação à América do Norte.
14:57E há também o ar salutar e fresco,
15:00os fortes ventos alísios, os campos sempre verdes
15:03e árvores carregadas de frutos deliciosos.
15:07Sem falar do solo repleto de vegetação exuberante,
15:10tanto para os homens quanto para os animais.
15:14Não se vê em tempestades de chuva
15:16e as pessoas dizem que ali nunca chove.
15:19A cidade é murada e guardada ao leste
15:22por montanhas imponentes de fácil escalada,
15:25até mesmo acima das imensas nuvens brancas
15:28que passeiam abaixo do espectador
15:30até que elas se elevam a uma posição maior na montanha
15:34e em seguida flutuam sobre o vasto Oceano Pacífico ao oeste.
15:39E ainda mais longe, ao leste, a cerca de 90 léguas,
15:43pode-se ver a enorme cordilheira dos Andes,
15:46coberta de neve, totalmente visível a olho nu,
15:49despejando torrentes de água que regam as planícies embaixo.
15:54Essa água é também levada às ruas da cidade
15:57por meio de canais delimitados por muros.
15:59Eu ainda poderia acrescentar muitas coisas a essa descrição
16:04que criaria um desejo de morar naquele lugar.
16:07Mas apenas um tremor de terra
16:09e os terremotos são frequentes naquela região,
16:12às vezes nas altas horas da noite,
16:14fazendo os moradores saírem desesperados pelas ruas,
16:17em busca de proteção contra desabamentos de edifícios,
16:21correndo aos choros e gritos por misericórdia,
16:24já é suficiente para fazer alguém mudar rapidamente de ideia
16:28e ir para qualquer região onde a terra repousa sossegadamente
16:32e em seus próprios fundamentos.
16:35O Sr. Haskell afirma em seu livro
16:38Chronology of the World
16:39a cronologia do mundo
16:41que Lima foi destruída por um terremoto em outubro de 1746.
16:47Acho que não foi a cidade de Lima,
16:49mas sim o porto da cidade chamado de Calhau,
16:52pois a parte mais famosa e central da cidade de Lima
16:56é a Praça do Palácio.
16:58De um lado dela, quando lá estivemos,
17:00ficava um grande e comprido edifício de um andar,
17:04muito antigo e feito de madeira,
17:06onde os oficiais da cidade faziam negócios.
17:10Frequentemente me diziam que esse edifício
17:12tinha sido a moradia de um aventureiro espanhol
17:15chamado Pissarro,
17:16depois de ele ter conquistado o Peru.
17:18Se essa afirmação estiver correta,
17:21podemos concluir que ele morou ali
17:23muito antes do terremoto de 1746.
17:27Assim, aquela parte da cidade
17:29não poderia ter sido destruída,
17:32mas sim o porto de Calhau.
17:34A cidade de Lima
17:35situa-se a cerca de 10 quilômetros
17:37do porto de Calhau
17:39e está aproximadamente 200 metros
17:41acima do nível do mar,
17:43num plano inclinado.
17:45Durante minha estadia ali naquela cidade,
17:47em 1822 e 1823,
17:5077 anos depois do terremoto,
17:54visitei várias vezes o local
17:56para ver as pilhas de tijolos maciços
17:58que podiam estar a 45 centímetros
18:01abaixo d'água
18:02ou até onde meus olhos podiam ver.
18:05Esses tijolos faziam parte dos edifícios
18:08e paredes do lugar na época do terremoto.
18:11Disseram-me que uma fragata espanhola
18:14estava atracada no porto
18:15quando o terremoto aconteceu.
18:17E depois que o terremoto o destruiu,
18:20essa fragata foi encontrada
18:22a 5 quilômetros terra adentro,
18:24mais ou menos na metade do caminho
18:26entre o porto de Calhau e a cidade,
18:29a cerca de 100 metros
18:30acima do nível do mar.
18:32Se isso for verdade,
18:34eu nunca vi ninguém tentar contestar
18:36e desmentir.
18:37Então provavelmente deve ter sido
18:39o terremoto que fez
18:40com que a terra do fundo do mar
18:42primeiramente se elevasse,
18:44impelindo com tanta força
18:45a massa de água
18:46entre o mar e a terra
18:48que a fragata foi elevada
18:50ao plano inclinado.
18:51E quando a água recuou,
18:53ela foi deixada
18:54a cerca de 5 quilômetros da praia.
18:56Pelo que parece,
18:58o porto de Calhau
18:59foi inundado pelo mar,
19:00pois suas ruínas
19:02estão quase no mesmo nível do mar
19:04e estão debaixo
19:05de um lago de água
19:06separado do oceano
19:07por um banco de areia.
19:09Ouvi e também observei
19:11que ali a maré
19:11não sobe nem desce
19:13em determinados períodos,
19:14como acontece em quase
19:16todos os outros portos
19:17e lugares.
19:19Conclui-se, portanto,
19:20que a massa de água
19:21que cobre as ruínas de Calhau
19:23não vem do mar.
19:25Outra curiosidade singular
19:27que descobri naquele lugar
19:28foi o cemitério,
19:30a uns 8 quilômetros da cidade,
19:32diferente de qualquer coisa
19:33que eu já tinha visto.
19:35Na entrada havia
19:36uma igreja com uma cruz.
19:38Parte do caminho
19:39em volta do cemitério
19:40era feito de um muro duplo.
19:42O espaço,
19:43ou a passagem
19:44entre aqueles muros,
19:45parecia ser
19:46de 12 metros de largura.
19:48Os muros tinham
19:502,5 metros de altura
19:51e 2 metros de espessura,
19:53com três fileiras
19:54de túmulos
19:55onde os mortos
19:56eram depositados.
19:57Aqueles túmulos
19:59eram alugados
20:00para as pessoas
20:00que podiam dar-se ao luxo
20:02de sepultar seus mortos
20:03em grande estilo.
20:05Um aluguel
20:06que podia ser
20:06de seis meses
20:07ou pelo tempo
20:08que fosse combinado.
20:09Alguns desses túmulos
20:11tinham paredes
20:12e outros tinham
20:13portas de ferro
20:14trancadas.
20:15Os túmulos desocupados
20:17estavam abertos
20:18para tomar um ar.
20:20No centro,
20:21entre os muros,
20:21havia câmaras mortuárias
20:23fundas,
20:24cobertas com grades
20:25de ferro,
20:26onde podíamos ver
20:27corpos mortos,
20:29todos empilhados
20:30sem nenhuma organização.
20:32Fiquei sabendo
20:33que quando acabavam
20:34os seis meses
20:35ou o tempo
20:35do aluguel combinado,
20:37os corpos
20:38eram retirados
20:38dos túmulos
20:39e jogados
20:40naquela câmara
20:41mortuária ao centro,
20:43ficando os túmulos
20:44liberados
20:45para o sepultamento
20:46de outros mortos.
20:48Em outra área
20:49do cemitério,
20:49os mortos
20:50eram enterrados
20:51em fileiras.
20:52Perto da igreja
20:53havia uma grande
20:54câmara mortuária
20:55circular
20:56com uma torre
20:56no teto,
20:57que ficava
20:58sobre pilares
20:59a vários metros
21:00acima da câmara.
21:01Ali era mais
21:03um lugar
21:03para enterros.
21:05Ao olhar
21:05por cima
21:06do corrimão
21:06colocado em volta
21:08daquela câmara
21:08para evitar
21:09a queda
21:10de gente
21:10viva ali,
21:11a vista
21:12era mais revoltante.
21:14Alguns
21:15estavam de pé,
21:16outros de cabeça
21:17para baixo,
21:18ou seja,
21:18os mortos
21:19ficavam em todas
21:20as posições
21:21imagináveis
21:22após serem lançados
21:23da maca
21:24em que eram trazidos,
21:25caindo ali
21:26com roupas
21:27esfarrapadas
21:27e imundas
21:28com que haviam
21:29morrido.
21:30Esses,
21:30evidentemente,
21:31eram os pobres
21:32desprezados,
21:33cujos amigos
21:34e familiares
21:35não tinham recursos
21:36para pagar
21:36o aluguel
21:37de uma sepultura
21:38no subsolo
21:39ou num dos túmulos
21:40caiados no muro.
21:42Soldados mortos
21:43eram levados
21:44dos fortes
21:44e jogados ali
21:45com pouca cerimônia.
21:47O ar ali
21:48era tão salubre
21:49que nenhum odor ruim
21:51subia daqueles cadáveres.
21:53Eles literalmente
21:54haviam definhado
21:55e se secado.
21:56e se acertou.
21:58E se acertou.
21:58Obrigado.
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