- há 2 dias
Categoria
📚
AprendizadoTranscrição
00:00:22Sou mãe do Léo, um menino que está em poder do Antônio José,
00:00:29quero aqui relatar meu desespero.
00:00:33Há exatamente dois anos e dois meses,
00:00:36meu filho recebeu uma proposta de fazer um teste na malhação.
00:00:55Eram três horas da manhã e o telefone tocou.
00:00:58Mãe, eu estou achando isso aqui tudo errado.
00:01:01Sai daí! Foge daí! Foge agora!
00:01:03Foge agora que eu estou com tudo da delegacia,
00:01:06eu consegui ter ele.
00:01:07Tem mais de 16 ocorrências por isso eu como estrelatário,
00:01:09como abuso sexual.
00:01:11Igor, sai daí!
00:01:17O maior medo foi o dia que eu fugi de lá.
00:01:26Fiquei daí para a hora que eu estava me procurando.
00:01:30O cara da boate disse para uma delas lá, das gurias,
00:01:35que quem encontrar a Tayana, que se matasse ela,
00:01:38ninguém ia ficar sabendo.
00:01:45Daí lá ela foi mantida, trancada no quarto.
00:01:49Ela não podia parar de trabalhar, era 24 horas,
00:01:52e não dormia, não dava comida direito.
00:02:03A gente tinha uma condição de ter um futuro maravilhoso.
00:02:06E agora o que a gente tem? Um passado doloroso.
00:02:11Abdiquei de todos para ir em busca do meu sonho.
00:02:17Eu tinha todo um futuro pela frente, né?
00:02:21As pessoas, todo mundo queria se aproximar de mim.
00:02:27Hoje em dia, as pessoas querem até se afastar de mim.
00:02:31Quando eu começo a falar da minha vida assim,
00:02:35quando eu começo a mostrar que eu tenho um passado triste,
00:02:38as pessoas começam a querer se afastar.
00:02:42Começam a se afastar.
00:02:50Olle?
00:02:55Nele?
00:03:17Olle?есте
00:03:20o palco. Onde
00:03:20Tchau, tchau.
00:04:08Me conta um pouco a tua história de vida, um pouco do seu passado até você partir.
00:04:16Nossa.
00:04:31O pai dela colocou uma boate.
00:04:34Eu pressenti alguma coisa ruim naquilo ali.
00:04:37Eu já me separei assim, né?
00:04:39No caso, a minha mãe se separou do meu pai, né?
00:04:42E daí a gente foi morar tudo com o pai.
00:04:43Então nós morávamos separados da casa do pai.
00:04:46Nós morávamos na esquina e o pai morava quase na outra esquina.
00:04:51Nós praticamente abandonados numa outra casa, sendo que eu era menor de idade ainda cuidando deles.
00:04:59Então a minha irmã acho que ficou, né?
00:05:01Um pouco revoltada.
00:05:03Então como ela era criança, tá?
00:05:05De vez em quando ela fugia nas amigas dela.
00:05:06Então o pai ia buscar ela e o pai batia nela.
00:05:12Então eu acho que foi por isso.
00:05:16Porque não tem outra coisa.
00:05:18Porque nós nunca fizemos, tipo, nada tem mal pra ela.
00:05:24Ele batia muito na Thayana.
00:05:26As mulheres me contavam, batia muito na Thayana.
00:05:28Qualquer coisinha, né, era culpa dela.
00:05:31Eu, pra mim, era revolta na Thayana, mas é por isso, eu acho.
00:05:37E eu fui na casa da minha guria.
00:05:39Aí ela me disse, mãe, a Thayana vai pra Santa Catarina com a amiga dela.
00:05:44Eu disse, como assim?
00:05:46E eu saí correndo.
00:05:48Eu vi que passou um carro branco e tinha umas mulheres loiras junto, né?
00:05:52E eu pensei, deve ser ali, porque meio suspeito.
00:05:56Eu suspeitei desse carro, né?
00:05:58Aí eu dizia, Thayana, volta, Thayana, volta, Thayana.
00:06:02Thayana foi, né?
00:06:16Eu tinha 15 anos de idade.
00:06:20Eu e a minha mãe só brigavam, falei, eu peguei e saí.
00:06:24Falei que eu parei lá no Belém de Pará.
00:06:30Porque até chegar em Altamira, isso levou cinco dias, olha-se, né?
00:06:35Devão, acho que elas foram, né?
00:06:38Quando eu cheguei em Altamira, o homem que estava levando nós,
00:06:43ele levou nós na boate lá.
00:07:13Daí, nós tivemos que ficar lá.
00:07:14Ela não tinha como voltar.
00:07:16Não queriam levar nada de volta.
00:07:20Ela recebeu uma oportunidade de ganhar, como ele falou, uma fortuna, né?
00:07:27Era promessa de emprego, de um ganho exorbitante
00:07:30por causa da barragem de Belo Monte.
00:07:33Então, por isso que todas que vieram, vieram nessa esperança
00:07:37de trabalharem daquela forma,
00:07:39mas ganharem bem para poder ajudar as famílias.
00:07:44Ganharam, ganhava dinheiro, só que ficava tudo para os donos da boate.
00:07:50Pois no outro dia que eu me dei por conta que a minha carteira de trabalho tinha sumido.
00:07:54Então eu disse, ah, foi ela?
00:07:56Falei na minha irmã, daí foi ali que peguei a carteira de trabalho dela,
00:08:01porque eu era de menor.
00:08:02Ela veio do sul do país já com a promessa de trabalhar neste ramo.
00:08:10Ela veio, não veio enganada.
00:08:13Mas, chegando aqui, as condições de trabalho, digamos assim,
00:08:18não eram aquelas prometidas pelos aliciadores, entendeu?
00:08:22Um dos problemas mais frequentes encontrados
00:08:24na construção de hidrelétricas e grandes obras na Amazônia
00:08:28é a exploração sexual comercial indevida.
00:08:31Muitas vezes, utilizando, é claro, a exploração escrava, análoga de escrava.
00:08:37Isso é conhecido.
00:08:39Isso qualquer engenheiro barragista conhece.
00:08:43Agora, uma coisa é você,
00:08:45é uma trabalhadora do sexo que trabalha de forma independente.
00:08:49Outra coisa é alguém ser obrigado
00:08:51a preencher uma cota diária
00:08:55a prestar serviços sexuais
00:08:58para um cafetão ser obrigado a isso.
00:09:01Senão, não come, senão, não ganha, senão, não volta pra casa.
00:09:05A comida tinha horário.
00:09:08Senão, não podia comer mais.
00:09:10Dei trancar na cozinha.
00:09:12A bebida lá,
00:09:15tipo, quando a gente se acompanhava com o homem,
00:09:17eles pagavam pra gente beber.
00:09:20Senão, não podia beber.
00:09:26O Jornal do Rio vai mostrar, a partir de hoje,
00:09:30uma série de reportagens
00:09:31sobre um golpe que acontece há mais de 10 anos.
00:09:34O homem que alicia modelos masculinos
00:09:36e chega a abusar sexualmente deles.
00:09:38E quem decide denunciar o suspeito
00:09:40vive com medo.
00:09:52Eu trabalho como modelo profissional há sete anos, né?
00:09:54Desde 2009 que eu viajo.
00:09:56Morei na Ásia durante bastante tempo.
00:09:58Morei na Alemanha, tive a oportunidade de morar na Europa também.
00:10:00Morei nos Estados Unidos e Miami.
00:10:01E tudo isso com um contrato de trabalho.
00:10:13Eu, como modelo, assim,
00:10:14eu sou muito grato
00:10:16aos anos que eu trabalhei com moda.
00:10:17Mas eu sempre quis fazer algo além, sabe?
00:10:19Trabalhar algo que vem de dentro,
00:10:21que você consegue estar desenvolvendo mais.
00:10:28A música sempre fez parte da minha vida.
00:10:30Sempre tive esse sonho de trabalhar com música.
00:10:32Sempre quis cantar, sempre gostei.
00:10:41Numa dessas vezes que eu vim aqui pro Brasil,
00:10:43meus amigos me convidaram,
00:10:44eu fui pra um sarau.
00:10:45Daí toquei um pouquinho lá,
00:10:47cantei com o pessoal,
00:10:48foi bem bacana.
00:10:49O pessoal veio falar comigo,
00:10:49pô, legal, foi, pô, legal,
00:10:51que bom que gostaram e tal.
00:10:53Um dia depois,
00:10:54eu recebi uma mensagem no Facebook,
00:10:56por um rapaz chamado Michael Cunha,
00:10:58falando, ó,
00:10:59você foi indicado através de uma produtora,
00:11:02que é um projeto relacionado à área da música.
00:11:04O Igor me ligou muito feliz.
00:11:05Mãe,
00:11:06porque a gente participa o tempo todo, né?
00:11:08Mãe, que felicidade.
00:11:09Eu tô no Brasil
00:11:10e eu acho que vai ter um trabalho
00:11:11aqui pra eu fazer aqui por enquanto,
00:11:13antes de eu viajar pra Nova York.
00:11:14Porque o Igor tava só de passagem.
00:11:15E isso era um sonho,
00:11:16poder ser músico,
00:11:17tocar seu violão.
00:11:23Fui encontrar com o Michael na Barra da Tchup.
00:11:26Daí chegou lá,
00:11:27um rapaz muito bem esclarecido,
00:11:29conversamos,
00:11:29ele me explicando sobre o projeto,
00:11:31que era um projeto de orna,
00:11:32qual eles preparam talentos.
00:11:34Falou sobre Luan Santana,
00:11:35falou sobre outras pessoas
00:11:36que estão na mídia,
00:11:38desenvolvendo,
00:11:39poder preparar pro mercado internacional,
00:11:41nacional de música.
00:11:43então não vai ter mais
00:11:43essa questão de moda,
00:11:45tua vida mudou, cara.
00:11:46Aí eu achei que fosse
00:11:48uma entrevista normal,
00:11:50mas não sabia
00:11:51que era uma coisa tão radical.
00:11:52Mas eu achei ao mesmo tempo bacana
00:11:54estar trabalhando com algo
00:11:55que eu sempre quis fazer.
00:11:58Depois de uma hora
00:11:59veio o Antônio José.
00:12:00Daí sentamos,
00:12:01conversamos,
00:12:01ele é um cara
00:12:02muito bem esclarecido,
00:12:04muito direto,
00:12:05muito focado.
00:12:06Ele me falou
00:12:06se eu tinha que fazer tudo,
00:12:08tudo seria tudo
00:12:10pra eu topar
00:12:11esse sonho
00:12:12que seria me tornar
00:12:13uma pessoa
00:12:14que venha trabalhar
00:12:15com a música.
00:12:16E eu realmente acreditei
00:12:17e falei
00:12:18é o que eu mais quero
00:12:20na vida, entendeu?
00:12:28Nesse primeiro contato
00:12:29que eu tive com o Antônio José,
00:12:30eles me colocaram
00:12:31no hotel Nuna Barra,
00:12:32que é o Promenade,
00:12:33que eles diziam
00:12:33esse hotel do Big Brother,
00:12:34pra gente dar continuidade
00:12:36ao processo.
00:12:37É uma coisa
00:12:38meio assustadora, né?
00:12:40Mas eles
00:12:41muito bem articularam,
00:12:42falavam de uma maneira
00:12:43muito precisa,
00:12:44muito clara.
00:12:51Então elas ficavam
00:12:52fascinadas com o projeto,
00:12:54era um projeto,
00:12:54segundo eles,
00:12:55melhor do que o The Voice.
00:12:58E essas pessoas
00:13:00iam a jantares com ele,
00:13:02iam a peças,
00:13:04teatrais,
00:13:05e eles acabavam
00:13:06se convencendo
00:13:08de que aquela encenação
00:13:09poderia ter um fundo
00:13:10de verdade, né?
00:13:14Nessa mesma noite
00:13:16eu tive com
00:13:17os outros filhos dele,
00:13:19que diziam ser filhos dele,
00:13:20que é o
00:13:22Leonardo Frosio e o Júlio César.
00:13:25Todos os maiores de 18 anos,
00:13:27infelizmente,
00:13:28embora tenham a maioridade penal,
00:13:31não têm
00:13:35experiência de vida.
00:13:47A beleza do Léo
00:13:49começou a se destacar
00:13:52na adolescência,
00:13:54daí onde que
00:13:55caça-talentos,
00:13:57procuravam ele,
00:13:58procuravam ele no colégio.
00:14:02mãe, ele tem perfil
00:14:03internacional,
00:14:05ele não vai ficar
00:14:06no Brasil.
00:14:07O sonho, sonho dele
00:14:09era ser jogador
00:14:10de videogame.
00:14:11Esse era o sonho dele,
00:14:12que ele só falava.
00:14:15Só que aí
00:14:15surgiu esse modelo
00:14:16logo no início,
00:14:18então ele já tinha
00:14:19na cabeça dele
00:14:20que ele ia terminar
00:14:21a escola
00:14:22e ia ser modelo.
00:14:28Olha, o Leonardo
00:14:29tem uma personalidade
00:14:31incrível,
00:14:31ele era um garoto
00:14:32super do bem.
00:14:33Todo mundo gostava dele,
00:14:35na agência,
00:14:36nos trabalhos,
00:14:37nos clientes.
00:14:39Ele era um pouco tímido,
00:14:41tinha uma timidez,
00:14:43um certo mistério,
00:14:44mas ele foi um garoto
00:14:45super do bem.
00:14:47Uma pessoa focada,
00:14:49centrada,
00:14:53que sabia mais ou menos
00:14:54o que queria
00:14:55e sabia que não ia ser fácil
00:14:57de conseguir.
00:15:00mas acho que com o passar
00:15:01do tempo
00:15:03foi ficando mais difícil
00:15:04do que ele achava,
00:15:05talvez.
00:15:07Na China foi tão sucesso,
00:15:09o fã clube,
00:15:10porque havia aquele
00:15:10menino louro,
00:15:11ele ficava de príncipe,
00:15:12né?
00:15:12Uma visibilidade enorme,
00:15:14tinha um milhão de seguidores
00:15:15nas redes sociais dele
00:15:17e muitas mensagens
00:15:18e carinhos e presentes.
00:15:20Então ele chegou daqui
00:15:21todo assim, né?
00:15:22Falei, olha,
00:15:22calma, pé no chão,
00:15:23porque lá na China
00:15:24é uma coisa,
00:15:25aqui é outra.
00:15:26Então aqui você é
00:15:27mais um modelo mesmo,
00:15:28não é mais
00:15:29o famosão da China, né?
00:15:32Por que você está me filmando?
00:15:33Porque está bonitinha
00:15:34você falando.
00:15:38Quantas horas
00:15:39a rua se dividirá
00:15:42para mais de um caminho.
00:15:44E quanto mais rápido
00:15:45você chega,
00:15:46você cai
00:15:47mais facilmente também.
00:15:50Beijo, tchau.
00:15:51Câmbio e desligo.
00:15:52Eu amo você, Carol.
00:15:56E aí logo depois
00:15:57ele fez Seul
00:15:58e depois Milão,
00:16:00que foi o último
00:16:02contato que a gente teve.
00:16:05Na Itália,
00:16:06ele conseguiu fazer
00:16:07alguns trabalhos
00:16:08ali e aqui,
00:16:09mas não conseguiu
00:16:10pegar coisa o suficiente
00:16:12para render, né?
00:16:15Foi mais uma decepção,
00:16:18um obstáculo
00:16:19que foi criado
00:16:19e foi enfraquecendo, né?
00:16:21uma motivação.
00:16:23Logo depois
00:16:24ele voltou ao Brasil
00:16:25e rolou esse convite
00:16:28para ele entrar
00:16:29nesse esquema
00:16:29que eu não sei
00:16:31o que é até hoje
00:16:32e fico bastante preocupado.
00:16:35Eu sentia que ele estava
00:16:38decepcionado,
00:16:39se sentia fracassado mesmo,
00:16:41sabe?
00:16:41E aí vendo uma coisa
00:16:42cair do céu,
00:16:43assim,
00:16:44acho que quando a pessoa
00:16:44está mais desanimada,
00:16:45ela acredita, né?
00:16:47Com mais facilidade.
00:16:52O Maicon entrou em contato
00:16:54com ele via Face,
00:16:58fazendo uma proposta
00:16:59de alguma participação
00:17:01na malhação.
00:17:07Vem para o Rio
00:17:08que eu preciso você
00:17:11amanhã aqui.
00:17:16Daquele dia em diante,
00:17:17nosso contato
00:17:18começou cada vez menos,
00:17:20cada vez menos.
00:17:22A gente combinou
00:17:23de vir junto, né?
00:17:24Eu cheguei num dia,
00:17:25ele chegava no outro.
00:17:27E aí,
00:17:27quando ele chegou,
00:17:28eu nem vi.
00:17:29Porque ele foi dormir
00:17:30num hotel na barra
00:17:31para preparação de elenco
00:17:32e eu fiquei assim,
00:17:34gente,
00:17:35isso está muito estranho.
00:17:36E daí a namorada dele
00:17:38entrou em contato
00:17:38com a gente,
00:17:40preocupada,
00:17:41apavorada,
00:17:42que o Léo tinha sumido,
00:17:43que o Léo tinha desaparecido.
00:17:44Cheguei aí à noite
00:17:45na polícia civil
00:17:47e aí o cara policial
00:17:49chegou assim,
00:17:49ah, não,
00:17:49você tem certeza
00:17:50que ele não está com outra?
00:17:58Depois de um dia,
00:17:59se não me engano,
00:17:59ou dois dias,
00:18:00a gente conseguiu o contato
00:18:02e ele falou
00:18:03que teve uma entrevista
00:18:04e que o projeto
00:18:06na verdade era outro,
00:18:07era só dizer assim,
00:18:08precisam confiar em mim,
00:18:10que eu preciso mostrar
00:18:11que eu sou leal aqui.
00:18:13Ele tinha que ter foco
00:18:14só no projeto.
00:18:16Uma das exigências
00:18:17do Antônio,
00:18:18na primeira semana,
00:18:21já terminar
00:18:22com a namorada,
00:18:24eles já estavam juntos
00:18:26três anos.
00:18:35não existia essa,
00:18:36sabe,
00:18:36de trabalho
00:18:37influenciando
00:18:38a sua vida pessoal.
00:18:39Isso é uma viagem.
00:18:43E aí foi assim.
00:18:45Até que teve
00:18:45uma última no final,
00:18:47assim,
00:18:47falando que
00:18:48eu espero que você encontre
00:18:49alguém,
00:18:49porque eu já estou com alguém.
00:18:53Aí eu,
00:18:54ué,
00:18:55mas não tinha que estar solteira?
00:18:56Mudou de novo?
00:19:04Essa conduta
00:19:06por parte
00:19:07dessa pessoa
00:19:08é repetitiva
00:19:10no tempo.
00:19:11Ela vem
00:19:12desde a época
00:19:12que existia o Orkut.
00:19:14E o primeiro
00:19:16canto da sereia
00:19:18desse empregador
00:19:19é de dizer
00:19:20que através
00:19:21do acúmulo
00:19:23de dinheiro,
00:19:24há esse passaporte
00:19:25para a entrada
00:19:26na Rede Globo.
00:19:43O Rafael
00:19:44era um menino
00:19:45muito bonito.
00:19:46As pessoas
00:19:46sempre falavam
00:19:48comigo,
00:19:48ah,
00:19:48por que ele não pode
00:19:49ser um ator,
00:19:50um modelo?
00:19:51O modelo
00:19:52não podia
00:19:53porque ele não
00:19:53tinha muita altura.
00:19:55mas ele era
00:19:56um rapazinho
00:19:58que chamava
00:19:59muita atenção
00:20:00pela pureza,
00:20:02pela beleza
00:20:03que ele tinha.
00:20:07Em 2009,
00:20:09o Rafael
00:20:10teve um convite
00:20:12para fazer
00:20:13um comercial.
00:20:15Era Búzios,
00:20:17não era um lugar
00:20:17muito longe
00:20:18e também
00:20:18não seria
00:20:19uma coisa definitiva.
00:20:20Ele iria
00:20:21para fazer
00:20:22um comercial
00:20:22e voltaria.
00:20:26o projeto
00:20:27era muito maior
00:20:27do que aquele
00:20:29que ele tinha
00:20:29falado
00:20:30porque é um
00:20:30projeto
00:20:30muito sigiloso.
00:20:32Ele falou
00:20:32bem assim
00:20:33que quando ele
00:20:34tinha a minha idade
00:20:35o sonho dele
00:20:35era ser cantor
00:20:36e ninguém nunca
00:20:37deu apoio
00:20:38para ele.
00:20:39E ele perguntou
00:20:40se eu estava
00:20:41disposto
00:20:41a me arriscar,
00:20:43a abandonar
00:20:43toda a minha vida
00:20:44e falou que ele
00:20:45ia até me chamar
00:20:46de filho.
00:20:47Aí eu perguntei
00:20:48eu posso te chamar
00:20:49de pai também?
00:20:49Ele falou
00:20:49não.
00:20:51Aí não.
00:20:52Só eu posso te chamar
00:20:53de filho,
00:20:54você não pode
00:20:54me chamar de pai,
00:20:55não.
00:20:55Ele falou
00:20:56que o tempo
00:20:56dele vale ouro
00:20:57e que ele
00:20:57assinava um cheque
00:20:58de 20 mil reais
00:20:59ali para mim
00:20:59na hora
00:21:00para eu não
00:21:01fazer ele perder
00:21:02o tempo dele
00:21:02para eu voltar
00:21:03para minha casa.
00:21:05E na hora
00:21:05eu pensei
00:21:06bem assim
00:21:06que o projeto
00:21:07valia muito mais
00:21:08do que 20 mil reais.
00:21:09Eu achei
00:21:09que eu tinha
00:21:11condição de passar,
00:21:12eu achei
00:21:12que eu tinha
00:21:12potencial de passar
00:21:13e falei
00:21:13que não queria
00:21:14o cheque
00:21:14que eu queria
00:21:16participar do projeto.
00:21:18E aí na hora
00:21:19que a gente
00:21:19saiu do baile
00:21:21ele falou
00:21:21agora você
00:21:22passou pela
00:21:23pré-seleção,
00:21:24agora você
00:21:25vai para a
00:21:26primeira etapa.
00:21:27Muito prazer,
00:21:28o meu nome é
00:21:29Antônio,
00:21:29Antônio José.
00:21:39Todos eles
00:21:40eram a mesma
00:21:40história.
00:21:41Ele contava
00:21:42olha,
00:21:42você vai fazer
00:21:43parte desse projeto,
00:21:44você tem o perfil
00:21:44e aqueles meninos
00:21:45vão acreditando,
00:21:46vão acreditando.
00:21:47A fraude,
00:21:47no caso,
00:21:48o ardi,
00:21:48o embuste
00:21:49consistia em dizer o seguinte
00:21:50para esses jovens,
00:21:50eu vou te dar o estrelato,
00:21:52mas você tem que
00:21:54me obedecer cegamente.
00:21:56E mesmo jovens
00:21:57que tinham
00:21:57algum tipo
00:21:58de discernimento,
00:21:59como por exemplo
00:21:59o Igor,
00:22:00já tinha uma carreira
00:22:01de sucesso internacional,
00:22:02mesmo assim
00:22:03ele foi convencido
00:22:04de que era
00:22:04uma excelente ideia
00:22:05largar todo
00:22:06aquele mundo
00:22:07que ele conhecia
00:22:08porque ele queria
00:22:08fazer sucesso.
00:22:09Geralmente jovens
00:22:12cuja família
00:22:13era composta
00:22:13só pela genitora,
00:22:14só a mãe.
00:22:17Eu morava
00:22:17com o pai dele,
00:22:19mas nós nos separamos
00:22:21quando ele ainda
00:22:21era bebê,
00:22:22ele tinha um ano e meio.
00:22:23A gente era muito unido,
00:22:25mas sozinhos.
00:22:36meu pai ficou muito distante
00:22:37de mim na minha infância,
00:22:38eu nem sei porquê,
00:22:40assim,
00:22:40exatamente,
00:22:41porque ele fala uma coisa,
00:22:42minha mãe fala outra.
00:22:46que uma vez que ele me levou,
00:22:47ele falou,
00:22:47eu te amo, filho.
00:22:50E eu falei pra ele,
00:22:51também te amo, pai.
00:22:53Porque isso tudo
00:22:54mexeu muito com a gente.
00:22:55Me afastou demais.
00:22:57Me afastou demais.
00:22:59Meu pai,
00:22:59até hoje,
00:23:00ele não entende
00:23:01o que aconteceu no Rio.
00:23:03Ele não entende.
00:23:05Eu já expliquei,
00:23:06mas ele não entende.
00:23:19Desde que tudo isso começou,
00:23:21parece que ele não tem pai, né?
00:23:24Porque ele não se envolve
00:23:25com nada.
00:23:26Por isso que o Leonardo
00:23:28ainda tem contato com ele,
00:23:29porque o que ele não se impõe,
00:23:34ele não se impõe como pai,
00:23:35filho, vem,
00:23:37vem pra cá,
00:23:38vem pra casa.
00:23:39Se eu tivesse mais ajuda,
00:23:41de repente,
00:23:41ele já estava conosco.
00:23:43Talvez não, né?
00:23:44Mas,
00:23:45mas eu acho.
00:23:50O pai do Hugo
00:23:51foi um amor.
00:23:52Eu engravidei,
00:23:54eu tinha 18 anos
00:23:55quando eu engravidei
00:23:55da minha primeira filha.
00:23:56E o pai do Hugo
00:23:57era meu melhor amigo.
00:23:59E ela trabalhava
00:23:59com Brilhante
00:24:00no Rio de Janeiro.
00:24:01E nós,
00:24:02nós éramos jovens,
00:24:03morávamos na Barra,
00:24:04tinha tudo, assim,
00:24:05era tudo tão bacana.
00:24:07De repente,
00:24:08meu marido foi sequestrado,
00:24:09o pai do Hugo.
00:24:11Ele era meu melhor amigo,
00:24:14ele...
00:24:18Eu quis vir pra cá
00:24:19pra poder ficar aqui
00:24:20quietinha, sabe?
00:24:21E ficar longe,
00:24:22fazer a minha utopia
00:24:23de vida aqui.
00:24:24Viver da arte,
00:24:25e tá tudo bem.
00:24:28E o Hugo foi criado aqui.
00:24:32Eu sempre fui muito agarrado
00:24:33com a minha mãe,
00:24:33então a gente está no dia a dia aí,
00:24:35eu tô lá fora.
00:24:36A gente sabe o valor
00:24:36que um tem pro outro,
00:24:38A gente tem aquela
00:24:38que, porra, sabe?
00:24:40Batalhou muito
00:24:40pra que pudesse estar
00:24:41hoje aqui,
00:24:42do jeito que eu tô.
00:24:42Correu muito atrás,
00:24:43porque eu perdi meu pai cedo,
00:24:45Então minha mãe foi
00:24:45minha mãe,
00:24:46meu pai,
00:24:47não tem caminhão de dinheiro
00:24:49que vai fazer eu sair
00:24:50do amor que eu tenho
00:24:52com a minha mãe.
00:24:52Só que ele não queria
00:24:53nem que a gente
00:24:54tivesse esse contato.
00:24:55Então lá a gente
00:24:55não podia ter comunicação
00:24:57de nada.
00:25:07Eu ficava trancada
00:25:08num quarto,
00:25:10tinha um cadeado
00:25:11na porta,
00:25:12e daí quando a gente
00:25:13ia lá pra frente
00:25:14da boate,
00:25:15tinha dois homens
00:25:16cuidando da gente.
00:25:18A gente só ficava
00:25:19trancada num quarto.
00:25:21Eu ficava em três
00:25:22categoria num quarto,
00:25:23e tinha dois
00:25:24ficando no outro também.
00:25:26E aí também não tinha
00:25:27janela nesse quarto.
00:25:29O ventilador
00:25:29não funcionava.
00:25:34Uma das três
00:25:35organizações criminosas
00:25:36mais rentáveis no país
00:25:38é o tráfico de pessoas,
00:25:40tráfico de exploração sexual,
00:25:43o tráfico de substâncias
00:25:44entorpecentes
00:25:44e o tráfico de armas.
00:25:46É muito rentável.
00:25:47Esse rufião,
00:25:48o que ele faz?
00:25:49Ele vê a oportunidade
00:25:50de ganhar dinheiro
00:25:51em cima da miséria.
00:26:00Folga não tinha.
00:26:03Tinha trabalhado
00:26:04todo dia.
00:26:05De tarde também.
00:26:10O que foi feito
00:26:11foi uma boate,
00:26:13um ponto estratégico,
00:26:14onde passava ali
00:26:16a linha de ônibus
00:26:17dos trabalhadores
00:26:18de Belo Monte.
00:26:19A vantagem
00:26:20para o dono
00:26:20da boate
00:26:20era imensa.
00:26:22Eu cheguei
00:26:23a ouvir
00:26:23da boca de pessoas
00:26:24que estavam lá dentro
00:26:25que parava o ônibus,
00:26:27desciam 30, 40 funcionários
00:26:30do CCBM,
00:26:30época de pagamento,
00:26:32e iriam gastar na boate.
00:26:37Eu fechava lá
00:26:38mais ou menos
00:26:39umas 4, 5 horas.
00:26:41Eu dormia até as 8 horas
00:26:42da manhã,
00:26:43porque eu tinha que levantar,
00:26:45daí tomar banho,
00:26:47daí esperar o almoço
00:26:48e depois tinha que trabalhar.
00:26:56Eu não atendia o telefone
00:26:58e eu ligava,
00:26:59eu ligava,
00:26:59eu mandava mensagem,
00:27:00eu disse,
00:27:01meu Deus,
00:27:01até eu nunca fiz isso
00:27:02e nada,
00:27:03e nada.
00:27:04Porque eu pensei,
00:27:05alguma coisa aconteceu,
00:27:06eu tiro o telefone dela,
00:27:07o quê,
00:27:08como é que tinha acontecido.
00:27:25Desde que eu fui
00:27:27a primeira vez
00:27:27lá no apartamento do Léo,
00:27:30era tudo bem monitorado,
00:27:32quando o Léo
00:27:33precisava fazer alguma coisa,
00:27:34ele precisava de permissão,
00:27:36ele tinha que ir lá
00:27:37e pedir como se o Antônio
00:27:39fosse meio que um pai
00:27:40para ele, sabe?
00:27:43Há relatos de familiares
00:27:45que tiveram muita dificuldade
00:27:46de manter contato
00:27:48com seus filhos,
00:27:49geralmente quando as pessoas
00:27:50entram em contato
00:27:51com os familiares
00:27:53e ele autoriza esse contato
00:27:56para que não haja assim
00:27:57um hiato tão grande
00:27:58e as pessoas acham
00:27:59que houve alguma coisa,
00:28:01mas ele está sempre perto
00:28:03ou então o Maicon.
00:28:04E aí ele já pegou
00:28:04a minha máquina digital,
00:28:06o meu celular,
00:28:07porque eu não podia
00:28:08mais ter contato
00:28:09com minha mãe,
00:28:10com amigos,
00:28:11com ninguém.
00:28:12Ele falou que
00:28:13eu tinha que passar
00:28:15a minha senha do banco
00:28:16para ele.
00:28:17Não lembro nem qual argumento
00:28:19que ele usou,
00:28:20só que eu passei.
00:28:22eu não desconfiava de nada.
00:28:25Quase todo dia
00:28:26eu mandava dinheiro
00:28:28porque eu recebia
00:28:29muita mensagem.
00:28:30Mãe,
00:28:30teve uma viagem urgente,
00:28:32um compromisso urgente
00:28:34e eu ia mandando
00:28:35uma questão de
00:28:36mil e poucos reais
00:28:39por dia.
00:28:41E eu comecei
00:28:42a ter que me virar em dinheiro.
00:28:44Comecei a fazer
00:28:45empréstimos.
00:28:46Ele é o meu único filho,
00:28:48então eu vi ali
00:28:49numa chance
00:28:50dele realizar
00:28:52o grande sonho dele,
00:28:53que era ser ator.
00:28:56Uma hora eu ficava
00:28:57até eufórica,
00:28:59mas eu não tinha
00:29:00contato com ele.
00:29:00Aí eu comecei
00:29:01a passar umas mensagens.
00:29:02Bom dia,
00:29:03meu filho,
00:29:04e que tudo,
00:29:04que Deus te abençoe.
00:29:06e o Igor demorava
00:29:07para responder.
00:29:08E eu respondia
00:29:08muito,
00:29:09muito rígido.
00:29:10Uma coisa estranha.
00:29:12Eu falei,
00:29:12porra,
00:29:12será que é o Igor?
00:29:13A gente começou
00:29:14a desconfiar
00:29:15porque,
00:29:17filho,
00:29:18que dia que você vem?
00:29:20A gente via ele
00:29:21muito mais,
00:29:22falava muito mais
00:29:23com ele
00:29:24morando na China
00:29:25do que aqui no Brasil.
00:29:30Eu ligava para ele
00:29:32e ele nunca
00:29:33atendeu o telefone na hora.
00:29:35nenhuma das vezes.
00:29:37Ele me retornava,
00:29:38assim,
00:29:39depois de duas,
00:29:40três horas.
00:29:42Geralmente era noite,
00:29:44com uma voz
00:29:45muito estranha,
00:29:46embargada.
00:29:49Aí eu dizia,
00:29:50o que você tem?
00:29:52Você está com sono?
00:29:53Eu te acordei?
00:29:55Não, mãe,
00:29:55tudo bem.
00:29:56Mas essa voz
00:29:57não é tua.
00:29:58O Antônio José,
00:29:59como verdadeiro psicopata,
00:30:00ele tinha o controle
00:30:02total da vida
00:30:03desses jovens.
00:30:04E eu ouvi
00:30:05e eu posso garantir,
00:30:06porque eu ouvi das mães,
00:30:07inclusive eu li laudos,
00:30:08de que a maioria
00:30:09sai de lá viciada.
00:30:12Ele falou que
00:30:13todos os candidatos
00:30:14tomavam um complexo
00:30:16vitamínico
00:30:16para ter a alimentação
00:30:18balanceada,
00:30:19completa,
00:30:20bem nutrido.
00:30:21Eu tinha que tomar
00:30:21todo dia
00:30:22e de manhã.
00:30:24Ele nos falou
00:30:24que tomava
00:30:25vitaminas diárias
00:30:27porque ele era muito fraco,
00:30:28porque ele passou mal
00:30:29na China.
00:30:30A mudança do humor
00:30:30dele era muito rápida.
00:30:32Explodia muito fácil.
00:30:34Nunca vi o Léo
00:30:35dessa forma.
00:30:36Sempre foi muito
00:30:38tranquilo,
00:30:38muito bom.
00:30:39Então,
00:30:40não sei.
00:30:42Todos eram comprados
00:30:44com prescrição médica
00:30:45lá na farmácia
00:30:46e os jovens
00:30:47tomavam achando
00:30:48agora você vai ficar melhor,
00:30:49você precisa de uma
00:30:50ritalina,
00:30:51você está debilitado
00:30:51de saúde.
00:30:52Isso tudo está te impedindo
00:30:53de atuar.
00:30:54Você não consegue atuar.
00:30:55É assim que ele faz.
00:30:57Tudo que era feito
00:30:58tinha que ter
00:30:59uma total
00:31:00subordinação a ele.
00:31:02De tudo.
00:31:02Vai para a academia,
00:31:03chega e manda uma mensagem.
00:31:04Tem que mandar
00:31:04eu te amo,
00:31:05eu não sei o que.
00:31:06Uma pressão psicológica,
00:31:08sabe?
00:31:10Parece um filme mesmo.
00:31:11Ele tinha que criar
00:31:12um vínculo
00:31:12com um candidato
00:31:14muito forte,
00:31:15que às vezes
00:31:16ele tinha que fazer
00:31:17algumas coisas
00:31:18que ele
00:31:19não gostava,
00:31:21mas ele tinha que fazer
00:31:22para criar vínculo.
00:31:23Como dizer,
00:31:24eu te amo.
00:31:25Ele pegou e falou
00:31:26para mim,
00:31:26eu te amo.
00:31:27Aí mandou eu falar
00:31:28que amava ele também.
00:31:30E tinha que falar,
00:31:30eu te amo muito,
00:31:33mostrar esse sentimento,
00:31:34essa coisa forte
00:31:35de ter essa ligação
00:31:38entre um com o outro.
00:31:43aí ele mandou eu
00:31:44deitar na cama,
00:31:45deitei na cama
00:31:46e barriga para cima.
00:31:49Aí ele deitou
00:31:50do meu lado,
00:31:51começou a passar a mão
00:31:51no meu corpo
00:31:52e eu fiquei paralisado,
00:31:54fiquei sem reação.
00:31:56E passou a mão
00:31:57por dentro da minha bermuda,
00:32:00só que também
00:32:00não reagi de nenhuma forma.
00:32:04Ele se irritou,
00:32:06ficou nervoso,
00:32:07pegou e levantou.
00:32:08e aí nunca mais
00:32:10tentou fazer nada
00:32:11de cunho sexual comigo.
00:32:15Logo que as pessoas chegavam,
00:32:18o Antônio José
00:32:21fazia,
00:32:23além daquela conversa,
00:32:25um que ele chamava
00:32:26de teste de pudor.
00:32:28O teste de pudor
00:32:30era para verificar
00:32:31até onde a pessoa
00:32:32poderia ir em razão
00:32:34na busca da fama.
00:32:36Algumas pessoas
00:32:38diante daquela
00:32:40possibilidade
00:32:41de crescer,
00:32:42de ter um acesso
00:32:43a uma carreira
00:32:46promissora,
00:32:48aceitavam
00:32:48esse tal teste de pudor.
00:32:53Eu falava para ele,
00:32:55cara,
00:32:55eu não vou conseguir ir.
00:32:56Ele, ao mesmo tempo,
00:32:56muito companheiro,
00:32:58um cara muito, sabe,
00:32:59mostrava um afeto
00:33:00muito grande
00:33:01e tal,
00:33:02ele dizia que tudo
00:33:03aquilo que estava
00:33:04sendo passado
00:33:05era necessário
00:33:06para se chegar
00:33:06onde eu queria chegar
00:33:08e tal.
00:33:09Eu não tive nenhum problema
00:33:10dessa questão afetiva
00:33:12porque rolou
00:33:12uma coisa afetiva,
00:33:15então eu fiquei
00:33:16amarradão
00:33:16de estar ali
00:33:17com eles,
00:33:18com o feliz e tal.
00:33:21Minha mãe sempre me criou
00:33:21de uma maneira
00:33:22muito liberta
00:33:23de cabeça,
00:33:23você faz o que
00:33:25você tiver que fazer,
00:33:26você tem que ser feliz,
00:33:27entendeu?
00:33:28Só que eu me senti
00:33:29um pouco desconfortável
00:33:30da pressão
00:33:31que estava sendo
00:33:32e ele sempre passou
00:33:33uma coisa muito
00:33:34de ter que ser homem
00:33:35e quando chegava
00:33:35num momento assim
00:33:36que era uma coisa
00:33:37meio constrangedora
00:33:37para mim,
00:33:38a gente tinha que ver
00:33:39como um desafio e tal
00:33:40e eu estava me surpreendendo
00:33:42comigo também,
00:33:43falando,
00:33:43pô, cara,
00:33:43você é capaz de fazer
00:33:44então,
00:33:45você ficava um pouco
00:33:45forte, sabe?
00:33:47Você quer que seja real,
00:33:48né?
00:33:50Você quer que seja real.
00:33:52Ele vai ali,
00:33:53ele sabe como falar,
00:33:56ele sabe como chegar
00:33:57em você
00:33:58e ver os seus sonhos
00:33:59e o Hugo já tinha
00:34:00conversado tudo com ele,
00:34:02ele já tinha se aberto
00:34:03normalmente,
00:34:04porque...
00:34:07Tudo ele usava
00:34:08o nome de Deus,
00:34:09ele usava
00:34:10aqueles argumentos
00:34:11que eu passava
00:34:12muita mensagem
00:34:13para Rafael
00:34:14falando de Deus,
00:34:15os versículos bíblicos,
00:34:17então ele,
00:34:18ele em poder
00:34:19dessas informações,
00:34:21ele me atingia ali
00:34:22usando minha própria arma
00:34:24que eu dei para ele
00:34:25e achava até
00:34:26que o Antônio
00:34:27era um anjo
00:34:29da guarda.
00:34:29Começou a criar
00:34:30esses questionamentos
00:34:32na minha cabeça,
00:34:32o que que Deus exige?
00:34:33Pessoa tão boa,
00:34:35doava
00:34:37dinheiro
00:34:37para instituições
00:34:38carentes,
00:34:39depois teve câncer,
00:34:41que Deus é esse
00:34:42que faz isso
00:34:42com uma pessoa?
00:34:43Eu,
00:34:43desde o primeiro dia
00:34:44que eu cheguei lá,
00:34:45eu já comecei a me questionar
00:34:46se eu mesmo acreditava
00:34:46em Deus,
00:34:47eu não sabia mais
00:34:48se eu acreditava em Deus,
00:34:49até que eu deixei de acreditar
00:34:50no período que eu estive lá.
00:34:55E o Igor me ligou
00:34:56e falou,
00:34:57mãe,
00:34:59o Antônio José
00:35:00quer conhecer você,
00:35:01eu o esperei,
00:35:03eu recebi muito bem
00:35:04e desde o primeiro momento
00:35:05o Maico se
00:35:07se apresentou
00:35:08como ator
00:35:09da Rede Globo,
00:35:10aí o José já veio,
00:35:11falou,
00:35:11olha,
00:35:11eu sou empresário,
00:35:12queria uma certa distância
00:35:14para mostrar um pouco
00:35:15de influência
00:35:16muito bem arrumada,
00:35:17pessoas assim,
00:35:19muito bem arrumadas,
00:35:20carros,
00:35:20mas isso para mim
00:35:21não é nada.
00:35:22E ele falou,
00:35:22a voz do Igor
00:35:24tem tudo com o Elvis,
00:35:25o Igor só precisa
00:35:26se aperfeiçoar,
00:35:27era meu ponto fraco também,
00:35:28porque eu sou apaixona
00:35:29pelo Elvis,
00:35:30ele tocou lá
00:35:31no meu ponto fraco.
00:35:32Ok,
00:35:33que bom que o Igor
00:35:33vai ter um trabalho
00:35:34então como música,
00:35:35seu filho inclusive
00:35:35já está fazendo,
00:35:36vou matricular ele
00:35:37na aula de música.
00:35:41Que horrível isso
00:35:42quando eu leio
00:35:42o nosso livro.
00:35:45Eu estava morando
00:35:47junto com o Júlio César
00:35:47e com o Leonardo,
00:35:48junto com o Antônio José
00:35:49diretamente,
00:35:49a gente não trabalhava.
00:35:51Então a gente ficava
00:35:52dia a dia com ele lá
00:35:53e tal,
00:35:55ele me levou
00:35:55para fazer aula de música
00:35:56e tal,
00:35:57mas chegava ali
00:35:57naquele ambiente
00:35:58a gente não fazia nada.
00:35:59Entendeu?
00:36:00Eu ficava ali com ele
00:36:01frequentando lugares
00:36:01e tal,
00:36:02eu não estou ali para isso,
00:36:03não queria estar
00:36:04indo para um restaurante caro,
00:36:05indo para o teatro
00:36:07toda semana,
00:36:07três vezes na semana,
00:36:08frequentando.
00:36:09E daí,
00:36:10entendeu?
00:36:10E quem eu sou assim,
00:36:11eu estou trabalhando,
00:36:12eu estava numa de jade,
00:36:13cara,
00:36:14eu quero trabalhar,
00:36:15entendeu?
00:36:15Eu quero desenvolver,
00:36:16eu estou fazendo
00:36:16uma aula por semana só.
00:36:37Duas vezes por semana o Léo,
00:36:40uma ele tinha aula de canto,
00:36:43outra ele tinha aula de violão,
00:36:45e era só o único trabalho,
00:36:48digamos,
00:36:49que eu via ele fazer,
00:36:50era isso.
00:36:51O Léo nunca foi de ser cantor,
00:36:53ele não...
00:36:55nunca foi de cantar,
00:36:57nem de se interessar por música.
00:37:01e, na minha opinião,
00:37:03ele também não é um bom cantor
00:37:04para ficar famoso por isso,
00:37:07né?
00:37:12Ficava trancado ali naquele quarto
00:37:13o dia inteiro,
00:37:14ninguém podia sair,
00:37:16não podia falar com ninguém,
00:37:16só podia ver se ele era.
00:37:17Minhas costas chegavam a doer.
00:37:19Foi em cinco meses
00:37:20que a gente ficou lá.
00:37:21Ele falou bem assim
00:37:21que eu não servia
00:37:22para ser candidato,
00:37:23mas que ele gostou muito
00:37:26da minha mãe,
00:37:27que minha mãe era uma pessoa
00:37:29maravilhosa,
00:37:30que ela não merecia
00:37:30o filho que ela tinha.
00:37:34Ele ia me ajudar
00:37:36a realizar o meu sonho,
00:37:37mas não por mim,
00:37:38pela minha mãe.
00:37:40E aí eu passei
00:37:43a ser tratado
00:37:45de forma diferente.
00:37:47Acabou esse negócio
00:37:48de dizer que te amo,
00:37:49já não era mais candidato.
00:37:51Para aquelas que,
00:37:53segundo o Antônio José,
00:37:55não estavam de acordo
00:37:57com o projeto,
00:37:58ou não cediam
00:38:00às investidas
00:38:01da natureza sexual,
00:38:04eles eram passados
00:38:05para um outro núcleo,
00:38:06que a gente aqui
00:38:07na Procuradoria
00:38:08chamou de núcleo de trabalho.
00:38:10Então existia um núcleo
00:38:12de convivência,
00:38:13entre aspas,
00:38:14familiar,
00:38:16que era composto
00:38:17pelo Antônio José
00:38:18e pelo menos
00:38:19mais duas pessoas.
00:38:21e esse núcleo,
00:38:23junto com o Michael,
00:38:25se beneficiava
00:38:27do trabalho
00:38:27desse outro grupo,
00:38:29que era
00:38:29como se fosse um grupo
00:38:31rejeitado
00:38:32para o projeto principal.
00:38:37ele começou a me mandar
00:38:38para o Projac
00:38:39fazer figuração
00:38:41e aí eu comecei
00:38:42a trabalhar,
00:38:43trabalhar,
00:38:43gravar todo dia,
00:38:44gravar direto.
00:38:46Então ele tinha conseguido
00:38:48um caminho muito bom
00:38:50que seria trabalhar
00:38:51numa novela
00:38:52que chamava Passione.
00:38:53Como o Rafael
00:38:54não aparecia nunca,
00:38:56ele começou a lançar
00:38:58na internet
00:38:59várias páginas
00:39:00de que o Rafael
00:39:02ia participar
00:39:03da segunda etapa
00:39:04da novela.
00:39:05Em início,
00:39:06ele me pedia,
00:39:07ó,
00:39:08vai lá,
00:39:08tira bastante foto
00:39:09para você deixar
00:39:10sua mãe feliz,
00:39:11para sua mãe ver
00:39:12que você está trabalhando.
00:39:13E esse personagem
00:39:14ia gravar na Itália.
00:39:16E que para isso,
00:39:18o Rafael precisaria
00:39:19de muitas roupas
00:39:20de frio.
00:39:21Eu tinha de comprar
00:39:21umas malas bonitas,
00:39:23umas malas plateadas,
00:39:25tinha de comprar,
00:39:25inclusive,
00:39:26terno,
00:39:28armani.
00:39:29Ele falava
00:39:30que não era problema
00:39:31eu me endividar
00:39:32porque o próprio trabalho
00:39:34do Rafael
00:39:34iria cobrir
00:39:35todas aquelas despesas.
00:39:38Eu mandava até
00:39:39de 40 mil
00:39:40e mais.
00:39:42Me obrigava a trabalhar,
00:39:43virar, dobrar,
00:39:45triplicar,
00:39:46quadriplicar,
00:39:47se fosse possível.
00:39:49Teve um dia
00:39:50que eu dormia na rua,
00:39:51teve um dia
00:39:51que eu dormia
00:39:52no quiosque da praia.
00:39:53Eu fiz uma gravação
00:39:55no Faustão,
00:39:56saí do Faustão,
00:39:57eu fui fazer
00:39:58um filme
00:40:00no metrô
00:40:01que terminou
00:40:02de madrugada,
00:40:02eu fiquei
00:40:03três e meia
00:40:04num quiosque
00:40:04lá na praia
00:40:06do recreio
00:40:06porque tinha
00:40:07uma gravação
00:40:08seis horas da manhã.
00:40:09Como eu já tinha
00:40:10feito muita gravação,
00:40:11já tinha bastante
00:40:11da sacolinha de lanche,
00:40:13peguei as sacolinhas
00:40:14que eu tinha,
00:40:14abri,
00:40:15eram umas quatro sacolinhas,
00:40:17forrei o chão
00:40:17com plástico
00:40:18e deitei ali
00:40:19umas duas horas,
00:40:20descansei um pouquinho,
00:40:22gravei no outro dia
00:40:22seis horas da manhã,
00:40:23segunda-feira,
00:40:25gravei lá,
00:40:25trabalhei.
00:40:29Um claro caso
00:40:32de exploração
00:40:34da dignidade
00:40:36da pessoa humana
00:40:37e de constituição
00:40:39de uma servidão
00:40:40por dívida,
00:40:41porque eles
00:40:42não tinham
00:40:43essa possibilidade
00:40:44de ter,
00:40:45inclusive,
00:40:46um amparo
00:40:48familiar
00:40:49por força
00:40:50da homofobia
00:40:51de alguns familiares
00:40:54que, se soubessem
00:40:55de segredos,
00:40:58poderiam romper
00:40:59com essas pessoas.
00:41:01Nós fizemos
00:41:02duas inspeções
00:41:05no próprio local
00:41:07onde eles moravam.
00:41:08Nós estivemos lá,
00:41:10chegamos por volta
00:41:11de seis horas
00:41:12e pouquinho da manhã.
00:41:27São só três
00:41:28que estão aqui?
00:41:29São quatro.
00:41:31A juíza do trabalho
00:41:32já se convenceu
00:41:33que vocês estão vivendo
00:41:34uma situação
00:41:35de trabalho escravo.
00:41:37Alguns,
00:41:38não sei a história de todos,
00:41:40mas alguns,
00:41:40inclusive que já saíram,
00:41:42passaram, inclusive,
00:41:43por assédio sexual.
00:41:49Eles trabalham
00:41:50dia e noite
00:41:51lá fazendo figuração,
00:41:52fazendo eventos,
00:41:53completamente excluídos
00:41:54dos demais
00:41:55porque elas realmente
00:41:56ficam no submundo.
00:41:59Os outros meninos,
00:42:00eles hoje estão onde?
00:42:03Trabalhando.
00:42:06E ficam lá
00:42:07três, quatro anos,
00:42:08entendeu?
00:42:08Tipo, que essa molecada
00:42:09estava lá trabalhando
00:42:10no apartamento de Curicica.
00:42:12Por que é trabalho escravo?
00:42:13Porque houve mentira,
00:42:15porque as condições
00:42:16de moradia
00:42:17e de vida
00:42:18eram degradantes,
00:42:19eles moravam mal,
00:42:21comiam mal,
00:42:22trabalhavam muitíssimo,
00:42:23num sistema
00:42:25que o Ministério Público
00:42:26de Trabalho
00:42:27chamou de escravidão
00:42:28por ganho.
00:42:29O escravo de ganho
00:42:31era também
00:42:32a forma da escravidão
00:42:33no Rio de Janeiro,
00:42:34no século XIX,
00:42:36na escravidão legal.
00:42:37o patrão,
00:42:38muitas vezes,
00:42:39ele não tinha trabalho,
00:42:40ele mandava o trabalhador
00:42:41sair para buscar trabalho.
00:42:43E ele, então,
00:42:44trabalhava o dia inteiro,
00:42:45no final do dia,
00:42:46ia pagar a sua diária
00:42:47ao patrão,
00:42:48que era seu senhor.
00:42:50Agora, nós temos
00:42:51algo parecido
00:42:53quanto aos modelos.
00:42:59Nesse local,
00:43:00havia cadernos
00:43:02em que também
00:43:02eles tentavam
00:43:04controlar
00:43:04os valores
00:43:06que eles já tinham
00:43:06repassado ao Antônio José.
00:43:08E o cachê todo
00:43:09que eu recebia
00:43:10era para a minha conta,
00:43:11a conta que estava
00:43:13em posse dele.
00:43:14Depois ia pegar
00:43:14esse dinheiro todo
00:43:15e ia investir
00:43:16em mim.
00:43:17Não tinha mais como
00:43:18eu fazer muito empréstimo,
00:43:20eu pensei,
00:43:21eu vou vender minha casa.
00:43:23mas a minha intenção
00:43:25a princípio
00:43:26era pagar as pessoas,
00:43:27porque eu estava
00:43:27demorando demais
00:43:28eu pagar as pessoas.
00:43:30Mas ele foi me convencendo,
00:43:32foi arrumando
00:43:35histórias
00:43:35para eu poder mandar
00:43:36mais dinheiro
00:43:38para ele.
00:43:39Então,
00:43:39eu vendi a casa
00:43:41e aí eu fui
00:43:42mandando o dinheiro.
00:43:44500,
00:43:45500 mil reais.
00:43:47A venda da casa,
00:43:49os prejuízos
00:43:50que nos empréstimos
00:43:51que eu fiz
00:43:52que eu não paguei,
00:43:53que eu tenho
00:43:53os documentos aí
00:43:54na época.
00:43:58O Antônio José,
00:43:59o Maicon
00:44:00e o próprio Leonardo
00:44:02e mais uma pessoa,
00:44:04eles já estão sendo
00:44:05processados
00:44:06por trabalho escravo
00:44:08perante a justiça
00:44:09do trabalho,
00:44:10a justiça do trabalho,
00:44:11por quê?
00:44:12Pela exploração
00:44:13da mão de obra
00:44:14daqueles outros
00:44:14trabalhadores
00:44:15que supostamente
00:44:17não atenderiam
00:44:19a todos os requisitos
00:44:20para entarem
00:44:21no megaprojeto.
00:44:23E o Leonardo
00:44:24Froese,
00:44:25o Ministério Público,
00:44:26deu essa oportunidade
00:44:27para ele
00:44:28para verificar
00:44:30se até aquele momento
00:44:31ele estava sendo,
00:44:33entre aspas,
00:44:34vítima também
00:44:35do trabalho escravo
00:44:36ou se ele também
00:44:38estava se beneficiando
00:44:39daquilo.
00:44:41Que é um rapaz
00:44:42que para o Ministério Público
00:44:44foi ludibriado,
00:44:46ele tem as maiores
00:44:48dificuldades
00:44:49de retornar
00:44:49ao contato,
00:44:50ao convívio familiar,
00:44:53questões de vergonha,
00:44:54etc.
00:44:56mas formalmente
00:44:57para o Ministério Público
00:44:58ele é beneficiário
00:44:59dos recursos
00:45:02que são angariados
00:45:05pelos outros
00:45:06trabalhadores.
00:45:06Então, por isso
00:45:07que ele figurou
00:45:08como réu.
00:45:14Estou desesperada
00:45:15pedindo ajuda,
00:45:16mas sei mais
00:45:18o que fazer,
00:45:19preciso tirar
00:45:20meu filho de lá.
00:45:21Quando fala comigo
00:45:22não é mais ele,
00:45:23nestes telefonemas
00:45:24que tentamos resgatá-lo
00:45:26fazendo apelo
00:45:27por alguns instantes
00:45:29a voz ficava embargada,
00:45:31voltava a ser
00:45:32meu filho doce,
00:45:34mas logo em seguida
00:45:35ficava frio,
00:45:36não o reconhecendo.
00:45:38Não sei
00:45:39que domínio
00:45:40este homem tem
00:45:41sobre estes meninos,
00:45:42se é droga
00:45:43ou ameaça,
00:45:45sei lá.
00:45:46Sei que é
00:45:47de maior,
00:45:49mas tem que ter
00:45:50uma forma
00:45:51de tirá-lo.
00:45:52ele é um menino bom.
00:45:57O meu instinto
00:45:59me diz que ele
00:45:59está sendo coagido
00:46:02e não está agindo
00:46:04como ele gostaria
00:46:05de agir.
00:46:06A gente que foi
00:46:07confiando
00:46:08quando não deveria
00:46:09ter confiado,
00:46:10está empenhado,
00:46:11está se dedicando
00:46:13a esse projeto
00:46:14que na minha cabeça
00:46:16não existe.
00:46:19e eu estava
00:46:19naquele período
00:46:20quase dois meses
00:46:21sem trabalhar,
00:46:23sem fazer
00:46:23o meu ganha-pão,
00:46:26que não é que é
00:46:26o meu ganha-pão,
00:46:27mas é a minha arte,
00:46:28é o meu trabalho.
00:46:29Eu fui me afastando
00:46:30do meu eu,
00:46:31de uma certa forma,
00:46:32da pessoa que eu sou.
00:46:33aí eu procurei
00:46:35uma parente,
00:46:36a tia dele,
00:46:37falei tudo
00:46:38que estava acontecendo,
00:46:38que eu estava
00:46:39muito preocupada,
00:46:40que ao mesmo tempo
00:46:40que eu achava
00:46:41que era muito bom,
00:46:42tinha esse receio
00:46:43de não ser isso
00:46:44que estavam falando,
00:46:45e eu acabei
00:46:45tendo a ficha
00:46:47criminal do José.
00:46:51Comecei a ter
00:46:51as ocorrências todas
00:46:53que eram mais de 16
00:46:54que contam
00:46:55sobre estupro,
00:46:57estelionatário
00:46:57e por aí vai.
00:46:59E não tinha como
00:47:00eu chegar no Igor.
00:47:02Não tinha como
00:47:02eu chegar no Igor.
00:47:03Como é que eu ia fazer?
00:47:04Eu não podia
00:47:05falar um telefone com ele
00:47:06porque eu sabia
00:47:06que o telefone
00:47:07devia estar sendo grapeado.
00:47:08Quando foi de madrugada,
00:47:09estava dormindo,
00:47:10todo mundo,
00:47:11daí eu fui ligar
00:47:12para a minha mãe
00:47:12e falei,
00:47:12poxa,
00:47:12não estou me sentindo bem
00:47:13e tal.
00:47:14Ela, poxa,
00:47:15vem mesmo
00:47:15que a gente conseguiu
00:47:16uma...
00:47:17a sua prima
00:47:18conseguiu lá
00:47:19na delegacia e tal,
00:47:20puxar os antecedentes
00:47:22desse cidadão.
00:47:28Aí juntei umas coisas
00:47:29e fui embora,
00:47:30a porta estava aberta
00:47:30e tal,
00:47:31saí.
00:47:33O Igor fugiu.
00:47:35Ele conseguiu só disso
00:47:36porque ele teve
00:47:37coragem de sair.
00:47:39Mesmo dopado,
00:47:40mesmo doido
00:47:41do jeito que ele estava lá,
00:47:42sem falar coisa com coisa,
00:47:43ele teve um estalo.
00:47:47e tal.
00:47:55E tal.
00:48:01E tal.
00:48:03E tal.
00:48:05E tal.
00:48:17Não, quando eu fugi, eles não conseguiram me pegar.
00:48:23Eu já fui direto no conselho, né?
00:48:27Ela chegou assim, com um ar, estava à beira da morte mesmo.
00:48:31Estava tudo acabado para ela.
00:48:35Eu estava trabalhando, chegou um rapaz lá.
00:48:40Daí ele falou, por que eu estava lá?
00:48:44Um monte de coisa, eu contei para ele.
00:48:51Daí ele falou assim, não queria ir lá na casa dele, queria arrumar o jeito de eu ir embora.
00:48:59Ela chegou com uma pessoa no conselho tutelar, informando que estaria fugindo de um local e que estava sendo perseguida
00:49:12por algumas pessoas que iriam matá-la.
00:49:15Eu vi tanta fragilidade naquele momento, busquei um blusão e coloquei nela.
00:49:22Eu coloquei e abracei ela assim e falei para ela, você agora está protegida.
00:49:27Não te preocupas que agora você está perto de quem vai te proteger.
00:49:32Na verdade, ela foi o pivô de toda a operação.
00:49:39Sem a ajuda dela, nós acredito que não teríamos chegado ao conhecimento de que ele estava vendo essa exploração sexual.
00:49:48Porque a fachada era de uma boate normal, tudo estava legalizado.
00:50:13Havia um capataz na entrada
00:50:20E um rapaz no balcão.
00:50:22Foi justamente onde a gente encontrou aquele livro caixa, a gente via que elas pagavam por tudo.
00:50:26Elas pagavam pela comida, elas pagavam pela hospedagem, elas pagavam por tudo.
00:50:30Então, no final das contas, elas não tinham dinheiro nem para sair do município.
00:50:35Falamos com todas as meninas.
00:50:37Algumas começaram a chorar, dizendo que queriam ir embora, que estavam sendo mantidas em cárcere privado.
00:50:47Era só esse beco que vinha.
00:50:52Esse era o corredor que as meninas ficavam.
00:50:55Cada cômodo desse, vocês ainda observam o cadeado.
00:51:01Quarto, três, cadeado.
00:51:06Quatro, quatro, cadeado.
00:51:10E assim sucessivamente.
00:51:11No final do corredor, ficava a sala de banho.
00:51:15Que era comum a todas elas.
00:51:20Justamente essa parte aqui.
00:51:30Preso no Pará, um casal suspeito de chefiar um esquema de tráfico de pessoas para a prática de exploração sexual.
00:51:37Uma das boates do casal funcionava dentro do complexo da usina de Belo Monte.
00:51:43Adão Rodrigues e a mulher...
00:51:4513 de fevereiro, que eu estava fazendo o meu serviço ali, né?
00:51:51E pedi a Deus, Deus, assim, aonde a Tena tiver, que ela me ligue, que ela me dê notícias, ou
00:51:59me diga, estou bem, mãe.
00:52:00Eles são acusados de chefiar uma quadrilha de exploração sexual que trazia meninas do sul do país para Altamira.
00:52:08O cabelo dela, a mão dela, tudo que eu conheci é a Tayana, aquela.
00:52:14A gente vê que eu pedi e no mesmo dia ali descobri onde que estava a guria, né?
00:52:21Esse caso, pela repercussão e pela menoridade, chama muita atenção.
00:52:28Essa experiência, talvez, ela não esqueça nunca na vida dela.
00:52:31Ela vai levar para o resto da vida e, com certeza, se eu pude contribuir para que ela mudasse de
00:52:39vida,
00:52:39para que ela realmente quisesse um futuro melhor, eu acho que eu fiz a minha parte como conselheira e espero
00:52:47que ela esteja bem.
00:52:54Eu engravidei do Muriel com 17 anos.
00:52:59Eu estava só ficando com ele, no final do ano mesmo.
00:53:05A Emily foi a mesma coisa.
00:53:07Foi numa festa também, eu fiquei com o que ela, engravidei também.
00:53:12Deixou-me nos quatro meses, eu fiquei sem mental grávida.
00:53:16O que é mais importante na minha vida agora é meus filhos.
00:53:22Eu tenho vontade de ter a minha casa, de poder morar com meus filhos sem depender dos outros.
00:53:30Vontade de trabalhar, tem gente, tem isso aqui.
00:53:34Eu nunca trabalhei, né?
00:53:36Nem carteira de trabalho eu tenho.
00:53:43Naquela época eu não tinha muita noção de escravidão, não sabia que a gente podia ser escravo, assim, dessa forma,
00:53:52entendeu?
00:53:53E a gente sempre acha que a gente que está sendo beneficiado de alguma forma.
00:53:58Ele sempre faz a gente pensar que é ele que está ajudando a gente, enquanto na verdade ele está usando
00:54:04a gente.
00:54:07Ele queria que eu fosse lá onde minha mãe estava, em Bom Jesus da Vapuama, no interior do Espírito Santo.
00:54:12Buscar a procuração, me autorgando, poderes para receber o INSS dela.
00:54:17Vem aqui me ver, vem feio desse jeito?
00:54:21Todo mal arrumado?
00:54:23Cadê as roupas bonitas que eu mandei para você?
00:54:25Por que você está com essa roupa?
00:54:27Que roupa?
00:54:27Eu falei, peraí, então nada disso existe?
00:54:31Aí ela perguntou bem assim para mim, mas meu filho, me fala uma coisa.
00:54:38O nosso dinheiro está mesmo com você?
00:54:41Aí eu fiquei quieta.
00:54:43Pode falar, meu filho, pode falar.
00:54:46Porque se não tiver, eu acho que a gente caiu num golpe.
00:54:51E aí eu falei com ela, mãe, eu acho que a gente caiu num golpe, porque o dinheiro não está
00:54:56comigo.
00:54:57Então eu me arrepiei, ó.
00:54:59Naquela hora foi essa a minha sensação.
00:55:00A gente arrepiou, a gente ficou em choque na hora.
00:55:03Na hora?
00:55:05Eu pensei que eu ia até morrer.
00:55:09Aí a gente falou um para o outro.
00:55:12Calma, meu filho.
00:55:13Calma, mãe.
00:55:15Calma.
00:55:17Já foi.
00:55:18Agora a gente tem que manter a cabeça no lugar e ver o que a gente pode fazer.
00:55:23Agora já foi.
00:55:25Aí quando chegou em casa, o Igor ficou preocupado com os rapazes.
00:55:29A cabeça do Igor parou, mãe, não sou só eu que estou nisso.
00:55:32Existe uma casa que tem 15 rapazes lá trabalhando, que prestam serviço de figuração, de evento, que não param.
00:55:38Eu me expus muito, assim, de uma maneira, porque eu não queria, porque não é uma exposição legal, entendeu?
00:55:44Porque eu pense, mas foi um fato que aconteceu comigo.
00:55:49Então, de certa forma, é uma obrigação de chegar e falar o que estava acontecendo, entendeu?
00:55:53O modelo de 30 anos registrou queixa na polícia que agora investiga o caso.
00:55:58Se as denúncias se confirmarem, Antônio e Michael podem responder por diversos crimes.
00:56:03Entre eles, cárcere privado, redução à condição análoga de escravo,
00:56:08já que os jovens não recebem pelos trabalhos, além de constrangimento ilegal e estelionato.
00:56:13O Igor, ele entrou em contato com a gente, que ele achou tudo muito errado lá e que precisava ajudar
00:56:25o Léo a tirar ele de lá também.
00:56:27Todas as minhas desconfianças se confirmaram.
00:56:32Achava que eu estava maluca, pela minha intuição, e eu não estava maluca.
00:56:37E a coisa não acabou.
00:56:39A coisa não acabou, a coisa ainda continua.
00:56:43O Leonardo ainda está lá, os outros já saíram.
00:56:46A mãe do Leonardo, a Marli, eu sou, eu, eu, olha, eu fico imaginando ela esses anos, tem dois anos,
00:56:52eu passei isso com o meu filho meses.
00:56:55A minha cabeça doía, de tanta mentalização que eu fazia, meu filho, o coração, meu ardia,
00:57:00que eu tenha essa comunicação com meus filhos, é de ventre isso.
00:57:03Então, eu espero muito que tomem a juíza, se conscientiza, se ela é mãe também, e se colocar no lugar
00:57:17das mães, das famílias desses meninos.
00:57:20O juiz, que vai ser próxima etapa do criminal, que vê que isso é um crime, e que prendam esse
00:57:32homem, para ele não mais prejudicar ninguém, nenhum dos meninos.
00:57:40É isso que eu espero, muito.
00:57:44Com relação à prisão, o juízo da primeira vara criminal de Jacarepaguá recebeu a denúncia na íntegra,
00:57:52com todas as tipificações, todos os telionatos, cada um contra cada adolescente, frustração dos direitos trabalhistas de cada um também.
00:58:00A extorsão para recebimento de vantagem pecuniária com relação ao Rafael e sua mãe, então, duas vezes.
00:58:09E foi decretada a prisão preventiva dos dois, embora for agidos.
00:58:13E o primeiro requisito que convenceu o juízo foi que havia necessidade de uma garantia da aplicação da lei penal,
00:58:24evitando com que os denunciados, agora réus, porque a denúncia foi recebida, ficassem foragidos.
00:58:31E foi exatamente o que aconteceu.
00:58:32Com denúncia recebida, eles não foram mais encontrados, mas é uma questão de tempo.
00:58:36O cerco está se fechando, é difícil, mas a gente está num país, num determinado momento, muito conturbado,
00:58:42em que se questiona muito a credibilidade do STF, da justiça, e...
00:58:49Enfim, é isso.
00:59:13É quase como se eu fosse sequestrado mesmo, só que confiando.
00:59:17Se a gente quiser sair embora a qualquer hora, a gente podia, só que aí, o tempo que a gente
00:59:21tinha ficado seria 5 mil reais por mês.
00:59:24Tipo, 5 mil reais por mês.
00:59:25Tipo, eu estou aqui há um ano, eu não quero mais ser músico, eu quero ir embora, eu quero ir
00:59:28para casa, tá, tudo bem,
00:59:29você vai ganhar 5 mil reais por mês, que é o tempo que você ficou aqui.
00:59:31Agora, o total foi quase 4 anos.
00:59:33Dava alguns problemas, aí era adiado o projeto, é adiado o projeto, é adiado o projeto.
00:59:37Mas aí você ficava tranquilo, porque pelo menos você teria um reembolso no final, sabe?
00:59:41Todo mundo sempre mostrou muito gratidão por ele, porque era obrigatório, claro.
00:59:46Então, só que você vê, assim, quando se parece real, assim, quando os outros estão fazendo, sabe?
00:59:51Quando você está fazendo, você sabe o que você tem que fazer.
00:59:53Mas quando você vê os outros fazendo, você acha que eles estão fazendo, que eles realmente sentem aquilo.
00:59:59Então, dá muita credibilidade para a pessoa.
01:00:03Então, não teve nada sério, mas como eu já vi algumas pessoas comentando, daquelas masturbações, essas coisas, não.
01:00:12Mas, assim, tive que ficar pelado na frente dele, mostrar que não tinha problema e até ele falava,
01:00:21não, isso é um negócio de pudor, você não pode ter pudor, assim, nesse sentido.
01:00:24Isso era uma coisa bem forte, só que para mim sempre foi bem mecânico mesmo.
01:00:29Todo o tempo que eu fiquei lá foi bem mecânico, eu nunca desenvolvi afeto por ele nesse sentido.
01:00:35De repente, ele mandou mensagem, arruma as malas que a gente estava viajando.
01:00:39E aí, chegando lá, no balneário, que ele começou a explicar o que tinha acontecido.
01:00:44Só que eu explicava do jeito dele.
01:00:46No dia da prisão, estava bem normal, eu estava jogando videogame.
01:00:50Aí, simplesmente, bateram na porta, perguntou, é, Antônio?
01:00:53Ele, sim.
01:00:54E aí, ele falou, aqui é a polícia, o senhor está por eles.
01:00:57E aí, ele ficou branco, assim, sabe, pálido.
01:01:00E falava baixinho, assim, bem, nossa, dava quase pena, assim.
01:01:05Quando ele ficou daquele jeito, eu percebi que não tinha mais jeito, que era tudo mentira mesmo,
01:01:09que esses anos que eu vivi tinham sido perdidos.
01:01:13A única coisa que eu aproveitei foi ter aprendido violão e canto.
01:01:20para a minha vida, que são coisas que eu gosto de fazer, então...
01:01:25Isso eu ainda tenho, pelo menos.
01:01:47Minha namorada, né?
01:01:48Eu terminei com ela para entrar nesse projeto.
01:01:50Eu sempre quis ter ela como minha esposa um dia, só que com uma vida melhor, não com a vida
01:01:58que a gente tinha.
01:01:59Eu tive que falar coisas duras para ela, para ela se desapegar.
01:02:03Então, ela, agora, ela se desapegou mesmo.
01:02:07E ela já disse que não tem nenhuma mágoa por mim, mas...
01:02:12Que é só isso.
01:02:13Porque eu, claro, tentei falar com ela porque ainda gosto dela.
01:02:17Nunca esqueci ela.
01:02:18Nunca nem...
01:02:19Mesmo depois de tanto tempo, eu sabia que era a única pessoa que eu pensava ainda.
01:02:22Então...
01:02:51Então...
01:03:05Legenda por Sônia Ruberti
Comentários