- há 2 dias
O episódio revela todo o processo de funcionamento da escravidão contemporânea sob a perspectiva dos próprios trabalhadores.
Categoria
📚
AprendizadoTranscrição
00:00:01O que é isso?
00:00:47O que é isso?
00:01:00O pai perguntou se podia levar uns três com ele, né?
00:01:03Diz que era um filho e um sobrinho.
00:01:07E nós fomos trabalhar na cavoeira.
00:01:15Aí fomos, né? Fomos enganados.
00:01:17Aí chegamos lá, cadê um fazendeiro?
00:01:21Então apareceu um gato.
00:01:22Eu digo, meu Deus, o que vem cair de novo?
00:01:25Já tive fazenda que o gato, que é o que pega os funcionários para levar uma equipe para trabalhar naquele
00:01:33serviço.
00:01:34Vi que não dava de ficar por faltar as coisas, era muito ruim o lugar.
00:01:39Pedi para vir embora.
00:01:40Aí ele chegou a falar para mim assim, se você for embora, eu te mato.
00:01:45Daqui você não sai.
00:01:48Como a gente, na minha posição, eu precisava, né?
00:01:52Os filhos pequenos, então eu tinha que enganar.
00:01:57Arriscando.
00:01:58Ou ganhar, ou morrer e os filhos perecer.
00:02:04Quando a pessoa sai do Nordeste para trabalhar, você não tem que escolher serviço.
00:02:08Caipir agudão, eu põe agudão.
00:02:12Eu fiz todo tipo de serviço.
00:02:14Para sobreviver, né? Ser digno do seu salário.
00:02:17Alguma vez você teve um emprego que te pagou direito?
00:02:21Todos os seus empregos sempre foram nessa situação.
00:02:24De lá para cá foi só isso.
00:02:26Escravidão. Sabe o que é escravidão?
00:02:28Como é que a senhora se sentiu?
00:02:30Senti, me senti bem.
00:02:33Por quê?
00:02:34Porque não.
00:02:35Porque aí ele saiu e ficava sozinha.
00:02:43Você sente saudade dele?
00:02:46Muito.
00:02:49Porque não é fácil ficar lutando com cinco meninos.
00:02:54Porque são três meus e dois da minha menina.
00:02:59Para ajudar a criar, ele trabalha lá e minha menina trabalha em Terezinha, para ajudar.
00:03:05Agora, é ruim.
00:03:07É muito ruim, é muito duro.
00:03:12Você ter uma pessoa aqui, você não pode fazer nada por ele.
00:03:16Porque se fosse em outro lugar, eu mesmo...
00:03:19Eu tinha me perdido.
00:03:22Porque eu tinha vingado a morte do próprio pai dos meus filhos.
00:03:26Eu já tinha me perdido.
00:03:27Eu já tinha me perdido.
00:03:48Eu já tinha me perdido.
00:03:52Tchau.
00:04:22Tchau.
00:05:02Tchau.
00:05:21Tchau.
00:05:53Tchau.
00:06:25Tchau.
00:06:52Tchau.
00:06:57Tchau.
00:06:59Tchau.
00:07:01Tchau.
00:07:01Tchau.
00:07:02Tchau.
00:07:04Tchau.
00:07:05Tchau.
00:07:06Tchau.
00:07:07Tchau.
00:07:08Tchau.
00:07:11Tchau.
00:07:13Tchau.
00:07:15Tchau.
00:07:16era partido para dois.
00:07:21Aí eu me desesperei, liguei para meu pai
00:07:23para mandar dinheiro para mim embora.
00:07:25Antes de, para eu poder ligar para ele,
00:07:27foi obrigado a eu vender a roupa para mim
00:07:28para comprar cartão e mandar dinheiro para mim.
00:07:33Para mim e me ir embora.
00:07:34Aí foi o que ele mandou, eu fui para Mato Grosso de novo de lá.
00:07:36Ele não ia embora, eu fui para Mato Grosso.
00:07:40O maior sofrimento que eu passei.
00:07:53Você começou a trabalhar com quantos anos?
00:07:56Olha, eu comecei bem cedo.
00:07:58Eu comecei com uma idade de 10 anos.
00:08:00No estado de São Paulo, eu já trabalhava
00:08:02andando em caminhão de boia fria, né?
00:08:05Saía 4 horas da manhã, quando era 8 horas,
00:08:08eu chegava no trabalho.
00:08:10Frio, né?
00:08:11Era frio, era com...
00:08:13É, do frio, chuva, então o caminhão não tinha a torre por cima,
00:08:17que nem se fala, né?
00:08:17Aquelas coberturas, né?
00:08:19Então, isso para mim foi um sofrimento.
00:08:24Os pais sempre falaram, né?
00:08:26Que a gente tinha que trabalhar, aprender a trabalhar, né?
00:08:31E nisso aí eu fui nessa onda e aprendi a trabalhar,
00:08:36mas o estudo...
00:08:52Trabalhava 10, 9 anos de idade lá em Alagoas.
00:08:55Mas eu trabalhava na roça, assim, agricultura familiar, né?
00:09:01Agricultura familiar, porque lá no Nordeste é difícil.
00:09:04O seu pai hoje, agora não, as pessoas falam,
00:09:07o nosso país evoluiu muito.
00:09:09Mas há 20, 30 anos atrás,
00:09:11não era todo mundo que tinha oportunidade de estudar.
00:09:16Quando eu completei 16 anos,
00:09:17eu comecei a trabalhar na roça, canal avião.
00:09:20E como é que eram as condições de trabalho lá?
00:09:22Ah, as condições lá eram degradantes.
00:09:26Antigamente, no Nordeste,
00:09:28vocês trabalhavam só com a própria sua roupa,
00:09:31de chinelo, de vaiana, não tinha botina,
00:09:34você não tinha condição de comprar.
00:09:3612, 15 toneladas de cama, 5, 4, 5 por dia.
00:09:41O salário, naquela época, uns 30 anos atrás,
00:09:45se for o salário de hoje,
00:09:47uns 20, 30 reais por dia.
00:09:51Comecei a trabalhar no tipo Cuiarruz,
00:09:54essas coisas, com uns 12 anos.
00:09:56E sempre sem carteira assinada,
00:09:59trabalhando em serviço muito precário,
00:10:02barraco de lona,
00:10:03bebendo água de rio,
00:10:04tomando banho em águas de rio, né?
00:10:06Perigo de cobra,
00:10:08sem os EPI,
00:10:10equipamento pra gente trabalhar
00:10:11conforme a regra.
00:10:14A primeira vez que eu saí,
00:10:15não tinha banheiro,
00:10:17não tinha...
00:10:18Assim, a comida era bem precária mesmo.
00:10:22Alojamento era multidão mesmo.
00:10:28Porque o alojamento alojava
00:10:3040, 50, 60 pessoas dentro do alojamento.
00:10:34Não tinha divisão, não.
00:10:36Primeiro foi meu marido,
00:10:37que foi trabalhar lá.
00:10:38Ele já era acostumado.
00:10:39Antes de nós se casar,
00:10:40ele já tinha trabalhado lá.
00:10:43Aí, quando ele veio,
00:10:44a gente casou,
00:10:45aí ele continuou trabalhando lá.
00:10:47Aí ele ficou 10 meses lá.
00:10:50Aí não liberava ele pra vir pra casa.
00:10:53E ainda hoje,
00:10:54ele continua trabalhando lá.
00:10:56Hoje mesmo ele tava aqui,
00:10:57voltou pra lá hoje.
00:11:00Deixa eu ver isso,
00:11:01que o salário não dava nem pra
00:11:03comprar o que comer.
00:11:28se for voltar aos passados.
00:11:33Eu sei que eu passei.
00:11:34Aí o que eu passei aí...
00:11:40Jogava nós no alojamento,
00:11:42dentro da mata.
00:11:44O colchão pra nós dormir,
00:11:45era um colchão velho.
00:11:47Tinha um quadro,
00:11:47nem porta tinha.
00:11:48Os poicos dormiam lá dentro,
00:11:49tá lameado lá,
00:11:50tinha um poico grande solto lá.
00:11:53Água pra nós beber,
00:11:53pra tomar banho não tinha água.
00:11:55Vamos tomar café.
00:11:56Cheguei lá,
00:11:57uma caixa bem grande,
00:11:59de mil litros lá,
00:12:00cheia d'água.
00:12:00A mulher ali lavava vazia,
00:12:03lavava aquela água ali,
00:12:05servia pra fazer comida,
00:12:06pra fazer café,
00:12:07tudo pra nós.
00:12:08Assim mesmo nós comíamos um pãozinho,
00:12:10um pão lá com o café,
00:12:11e ia pra roça.
00:12:13Eu digo, rapaz,
00:12:14isso foi que eu fui tocando,
00:12:15porque tem tanto lugar,
00:12:17veio bom do cara trabalhar dinheiro,
00:12:19e amarrado aí,
00:12:20escravidão.
00:12:21O cara vem de fora,
00:12:22que vem do Nordeste,
00:12:25procurava melhor,
00:12:26chega aqui e toca um negócio,
00:12:28esse negócio de escravidão.
00:12:42Eu tô aqui na Pastoral da Terra
00:12:44praticamente 20 anos.
00:12:47E desde que eu cheguei aqui,
00:12:49uma das principais atividades nossas
00:12:52foi atender trabalhadores,
00:12:54vítimas de trabalho escravo.
00:12:57Então, assim,
00:12:58nesses 20 anos,
00:12:59são incontáveis os casos,
00:13:01relatando situações diversas.
00:13:03desde sair da fazenda fugido,
00:13:09sem saber da estrada,
00:13:11andar uma semana,
00:13:13chegar aqui no escritório
00:13:14com os pés totalmente calejados,
00:13:18inflamados,
00:13:19infeccionados,
00:13:20com a roupa rasgada,
00:13:23com a fisionomia, assim,
00:13:26de quase que irreconhecível.
00:13:28E alguns casos
00:13:30que o trabalhador saiu da fazenda,
00:13:32chega aqui e diz,
00:13:34olha,
00:13:34eu não fui o primeiro a fugir.
00:13:37Antes de mim,
00:13:38teve o meu colega,
00:13:39o Raimundo,
00:13:39o Antônio, o José,
00:13:40que saiu para denunciar,
00:13:41mas nós não sabemos
00:13:42o que aconteceu com ele.
00:13:44Aí, qual foi o destino
00:13:45dos colegas que não chegou,
00:13:46que não voltou,
00:13:47que não deu mais notícia?
00:13:48Foram alcançados
00:13:49pelos pistoleiros
00:13:49e assassinados.
00:13:55Então, histórias como essas
00:13:57foram dezenas
00:13:58que a cada ano
00:14:00chegavam para a gente aqui
00:14:02e a gente relatava isso
00:14:04em um depoimento,
00:14:06encaminhava para Brasília,
00:14:08para o Ministério do Trabalho
00:14:10e pedia socorro
00:14:11a equipes de fiscalizações móveis.
00:14:20Quando eu cheguei ao Pará,
00:14:21eu fiquei um pouco espantada,
00:14:26porque eu não sabia
00:14:28que existia um Brasil
00:14:29daquele estilo.
00:14:31Com 20 dias de polícia,
00:14:33a gente já estava fazendo
00:14:34operações de trabalho escravo
00:14:36e eu via situações
00:14:39que eu não sabia
00:14:40que existiam no Brasil.
00:14:44e os caras matam no Pará-Mata mesmo.
00:14:47Um cara chegou lá
00:14:50pedindo para nós trabalhar
00:14:50com ele na cavoeira.
00:14:51Lá nós trabalhamos 15 dias,
00:14:53eu estava me achando,
00:14:54me ofendendo,
00:14:55porque o peso era muito alto,
00:14:56rola de pau,
00:14:57essa gossura assim.
00:14:59Se nós não trabalhásse,
00:15:00ia mandar nós ir embora,
00:15:01eu torço e ia mandar
00:15:02os caras puxarem nós.
00:15:05Puxar?
00:15:05Aham.
00:15:06Matar.
00:15:13Aí o cara não queria pagar nós,
00:15:15eu, mas o meu primo fumo,
00:15:16fugimos de madrugada.
00:15:19É 11 quilômetros da mata
00:15:22para a beira da pista.
00:15:24Aí todo o carro que nós escutava,
00:15:26nós caía no mato,
00:15:27mas o cara não pega nós.
00:15:29Então ele sai de um município
00:15:31para outro,
00:15:31normalmente enganado.
00:15:33E essa fraude
00:15:36também é um crime.
00:15:39Aquelas condições
00:15:40que são apresentadas para ele
00:15:42lá no município de origem
00:15:43onde ele é contratado,
00:15:44não se revelam verdadeiras.
00:15:47Oferece-se um salário
00:15:49que jamais será pago,
00:15:50oferece-se uma condição
00:15:52de alojamento
00:15:53que jamais existirá.
00:15:55Eu já passei muito por isso.
00:15:57trabalhar em fazenda,
00:15:59dentro de mato,
00:16:00dormir em barraco de lona,
00:16:02comer mal.
00:16:04A água, péssima,
00:16:06a água que gado bebia.
00:16:08Era terrível,
00:16:10porque você saber,
00:16:12você trabalhar o dia todinho,
00:16:15voltar,
00:16:16pensar que você tem
00:16:17um alojamento digno
00:16:18para você ficar,
00:16:20não,
00:16:20você dormir ali
00:16:21no barraco de lona,
00:16:23vendo a hora à noite,
00:16:24chover,
00:16:25dar um vento,
00:16:25você ficar no tempo.
00:16:27dormindo em rede,
00:16:28que geralmente eu mesmo,
00:16:29era só rede
00:16:30que levava para o mato,
00:16:32tanto faz de janeiro
00:16:33a dezembro,
00:16:34frio,
00:16:37sempre em rede.
00:16:38Quando chegava
00:16:39para dormir,
00:16:41eram cinco, seis pessoas
00:16:42em rua do outro.
00:16:43Tinha vaga nem para passar,
00:16:45para for para o banho,
00:16:46não tinha,
00:16:46tinha que passar
00:16:47para cima dos outros.
00:16:47Nós se acordarmos
00:16:48de madrugada
00:16:49para a vez urinar,
00:16:53não acertávamos mais
00:16:54com a rede.
00:16:55Tinha que ter
00:16:56um isqueiro
00:16:56no bordo direto.
00:16:57Bem poucas pessoas
00:16:58tinham conhecimento disso,
00:17:00que eu tinha passado
00:17:00por isso,
00:17:01nem minha família.
00:17:02Vocês hoje
00:17:03são os primeiros
00:17:03a saber.
00:17:05Fui um cara
00:17:06sofrido.
00:17:17depois que ele saiu daqui
00:17:19e que chegou lá
00:17:20na fazenda,
00:17:21eu ligava quase todo dia
00:17:23e não conseguia falar.
00:17:33O mundo é esse,
00:17:34não sei o quê,
00:17:35e nunca consegui
00:17:36falar mais com ele.
00:17:39Jeitinho.
00:17:41Morreu e nós não
00:17:42não sei falar.
00:17:46Foi dia de Nossa Senhora
00:17:47das Candeias,
00:17:48dia 2 de fevereiro.
00:17:51Eu estava aqui
00:17:51acendendo a luz
00:17:52aqui na janela,
00:17:53porque sempre o pessoal
00:17:54assim, mais velho,
00:17:55tem negócio de acender
00:17:56uma velhinha na janela,
00:17:57né,
00:17:58de Nossa Senhora das Candeias.
00:17:59E eu estava acendendo
00:18:00e o carro parou
00:18:01aqui na Pó.
00:18:03Eu vim lhe avisar,
00:18:04porque a gente
00:18:05quando é vivo,
00:18:06a gente espera
00:18:07qualquer coisa,
00:18:08qualquer notícia,
00:18:09de bom,
00:18:10de ruim,
00:18:10de qualquer maneira.
00:18:11E eu vim lhe dizer
00:18:12que seu marido
00:18:13não é mais vivo.
00:18:15Seu marido
00:18:15já é morto,
00:18:17mataram ele
00:18:18e ele já foi enterrado
00:18:19agora há seis horas.
00:18:21O Justino,
00:18:22que é seu cunhado,
00:18:23ligou pra mim
00:18:24e pra mim
00:18:24vim lhe avisar.
00:18:53O Justino,
00:19:05Em 1995, o Nilmário Miranda, que era deputado federal, fez uma discussão no Congresso sobre trabalho escravo.
00:19:12E ao chegarmos lá, chegou uma notícia, mais uma notícia de denúncia de trabalho escravo no sul do Pará.
00:19:20E nós chamamos, então, a doutora Ruth Vileira, chamamos um grupo de pessoas do governo e dissemos, olha, nós não
00:19:27vamos denunciar a Delegacia Regional do Trabalho, porque não adianta.
00:19:31Mesmo quando revelam que tinham homens armados, que teve informações de assassinatos, que havia dívida, é normal eles concluírem que
00:19:40não viram nenhum indício de trabalho escravo, que esse era o jeito de trabalhar na região.
00:19:44Então havia uma naturalização do crime.
00:19:45Possivelmente, os auditores têm medo, ou são cúmplices, ou são até amigos de quem pratica o crime. Então, não funciona.
00:19:54Muitas vezes, nós, procuradores e os auditores, saímos para fazer operações e, quando nós chegávamos nos locais das denúncias, as
00:20:06pessoas já estavam esperando por nós.
00:20:09Houve algumas situações em que nós estávamos sendo esperados com o café da manhã, em outras situações com o almoço
00:20:16na mesa.
00:20:17Houve uma situação extremamente grotesca, eu considero como grotesca, que estava no jornal, que nós íamos fazer a inspeção naquela
00:20:24empresa.
00:20:29Aí, a doutora Ruth decidiu, então, criar um grupo especial de fiscalização móvel do Ministério do Trabalho.
00:20:37E isso criou uma coisa nova.
00:20:41Pela primeira vez, ia ter fiscalização séria nas unidades de produção.
00:20:52Em Paragominas, sudeste do Pará, o grupo vivia em condições subhumanas, dormia em cocheiras e se alimentava das vísceras de
00:21:00gado servidas em baldes.
00:21:02As 150 pessoas libertadas trabalhavam em uma colheita de cacau.
00:21:07Elas não ganhavam salário, moravam em barracos e recebiam refeições sem as mínimas condições de higiene.
00:21:13Entre os trabalhadores, havia 30 crianças e adolescentes.
00:21:18Quantos anos você tem?
00:21:19Oito.
00:21:19Oito anos?
00:21:20Um deles ficou cego depois de caírem em um toco de árvore.
00:21:24O combate ao trabalho escravo no Brasil ganhou reconhecimento internacional.
00:21:28Mais de 1.700 fazendas foram fiscalizadas.
00:21:3123.400 trabalhadores foram libertados.
00:21:34As indenizações chegaram a 30 milhões de reais.
00:21:38O grupo móvel vem com o sentido de fazer a operação sem contar com o pessoal daquelas localidades.
00:21:44Então era uma organização direta em Brasília e é o principal responsável pelo resgate dos trabalhadores.
00:21:51A gente tem que ter um percentual de coragem e de desprendimento bem forte.
00:21:57Nós lidamos com empregadores destemperados.
00:22:01Sofremos várias agressões, sofremos ataques letais.
00:22:05E vira e mexe tem um colega nosso sofrendo ameaça, como aconteceu em Barreiras,
00:22:10sendo agredido, como foi agora um caso recente do Rio Grande do Sul.
00:22:14E uma colega no Pará também que levou um soco no seu rosto por estar fazendo o seu trabalho.
00:22:21Então isso acontece.
00:22:23Quando começou a Móvel, o Ministério do Trabalho não tinha absolutamente estrutura.
00:22:32Nós começamos a andar em carros inadequados, que não tinham sequer uma caixa de ferramenta.
00:22:39Era o motorista que levava dele.
00:22:41Nós trabalhávamos com o nosso material.
00:22:45A gente tirava os trabalhadores da frente de trabalho, por causa do risco, das condições de risco.
00:22:51E aí eu conversava para fazer toda a negociação.
00:22:56Era na hora do almoço, o Ministério chegou lá na fazenda.
00:22:59Aí a Federal entrou lá dentro e perguntou quem queria ir embora, né?
00:23:03Nós dissemos, mas nós quer ir embora, porque nós estamos num sofrimento grande.
00:23:08Comida, água.
00:23:10Nós estamos adoecendo demais e nós falamos e eles não fazem nada por nós.
00:23:16Tirou nós, fez ele fazer acerto tanto com esse que estava com 90 dias, nós que estava mais depois.
00:23:23Aí ele denizou nós três parcelas de seguros e o fundo de garantia.
00:23:30Um acerto de desempenho foi de mil reais.
00:23:33Mandou nós todo mundo embora.
00:23:34Foi onde eu pude entender que da forma que eu estava trabalhando, sempre eu estava trabalhando errado.
00:23:43Eu estava prejudicando não o fazendeiro, eu estava prejudicando eu mesmo.
00:23:47A minha saúde, até mesmo arriscando a minha própria vida, né?
00:23:51E isso não foi nenhum nem duas noites, não.
00:23:54Isso foi muito tempo.
00:24:04Quando eu chegava na rua, o dono da empresa estava na rua lá, oferecendo todo mundo.
00:24:09Se quisesse voltar, podia voltar de novo, deixar os caras da Federal e-se embora para nós voltar de novo
00:24:14para trabalhar.
00:24:16Aí eu disse assim, eu mesmo não aceito não, vou ir embora.
00:24:19Um bocado ficou, eu vim embora.
00:24:24É sofrimento.
00:24:27Essa foi qual fazenda, Duque?
00:24:29Pagriza.
00:24:30Era o que ela tinha que fazer?
00:24:32Corte de cana.
00:24:34Numa fiscalização que nós fizemos no Pará, por exemplo, numa empresa chamada Pagriza,
00:24:39quando o auditor fiscal identificou o trabalho escravo,
00:24:42desceu e ele colocou um senador da República naquela fazenda
00:24:44para defender o interesse do capital.
00:24:47Que não é, não vou dizer que isso é ilícito.
00:24:49Eu acho que um senador, ele defendeu o interesse de uma empresa
00:24:53enquanto ela é uma empreendedora, eu acho que é lícito.
00:24:56O que ele não pode é defender e acusar a fiscalização de se eleviando ao ponto de estar inventando uma
00:25:01história
00:25:01para prejudicar a empresa.
00:25:02Isso que não pode.
00:25:04Fabricante de álcool, a fazenda Pagriza, tem mais de 1.100 trabalhadores.
00:25:08Um grupo de senadores foi até o local para ver de perto as irregularidades apontadas em julho pelo Ministério do
00:25:14Trabalho.
00:25:14A principal seria a existência de trabalho escravo.
00:25:17Não havia nenhum trabalho escravo, nem remanescência, nem uma indicação que pudessem ter achado lá.
00:25:24Houve grandes exageros, grandes abusos em função dessa movimentação e dessa fiscalização.
00:25:32As pessoas até brincam.
00:25:33Eu ouvi muitas vezes no Congresso Nacional políticos me falarem
00:25:36Sakamoto, mas você está defendendo uma fiscalização que, na verdade, atua de forma comunista.
00:25:42Aí eu olho bem e falo, vocês estão de brincadeira, né?
00:25:45Porque a fiscalização do trabalho nada mais é do que o Estado, sobre rodas,
00:25:51chegando num local e fazendo valer o contrato de trabalho básico do capitalismo.
00:25:58O contrato básico do capitalismo diz o quê?
00:26:00Eu quero comprar sua força de trabalho, você vai me vender sua força de trabalho.
00:26:04Eu vou te pagar um salário, eu vou lucrar com você.
00:26:07Está todo mundo feliz com isso? Beleza.
00:26:09É esse o contrato básico.
00:26:10O fazendeiro está subvertendo o mercado, está aplicando uma concorrência desleal,
00:26:15está ganhando em cima dos seus vizinhos, roubando o trabalho dos outros.
00:26:18E a fiscalização simplesmente vai lá e fala assim,
00:26:20meu amigo, você não está sendo capitalista, você está sendo anticapitalista.
00:26:29Os auditores fiscais, com a Polícia Federal,
00:26:32entravam nas unidades de produção,
00:26:35multavam o proprietário,
00:26:37obrigavam ele a pagar a passagem de volta dos trabalhadores,
00:26:42obrigavam que pagassem décimo terceiro, férias,
00:26:45cumprisse toda a legislação trabalhista,
00:26:48mas os mesmos proprietários, meses depois, estavam correndo o mesmo crime.
00:26:54Por duas razões.
00:26:55Primeira razão, era muito barato o que pagava.
00:27:00Então, valia a pena correr o risco.
00:27:02Segunda razão, o fato de ter, por exemplo, numa unidade de produção,
00:27:07mil trabalhadores e o grupo móvel entraram,
00:27:10significava que eles encontravam os mil trabalhadores.
00:27:13Ele podia encontrar só 60,
00:27:14porque as unidades de produção eram muito grandes,
00:27:17fazendas de 100 mil, 150 mil hectares.
00:27:20Então, teria que ter um helicóptero para sobrevoar toda a unidade de produção,
00:27:23para localizar as pessoas.
00:27:25Isso não existia.
00:27:26Isso não tinha um...
00:27:27Era muito precário.
00:27:28Não tinha um carro direito, não tinha um computador,
00:27:31não tinha um telefone, tudo era precário.
00:27:33Então, a doutora Ruth, uma vez ela desabafou,
00:27:36ela disse, nós somos muito eficientes, mas nada eficazes.
00:27:46Não está funcionando.
00:27:48A Auditoria Fiscal do Trabalho, ela não consegue atingir, não sei,
00:27:53talvez 1%, 2% das situações de trabalho escravo que a gente sabe que existe.
00:28:01Primeiro, porque nós somos muito poucos hoje.
00:28:04Nós somos pouco mais de 2 mil auditores fiscais para todo o território nacional.
00:28:08Para haver trabalho escravo, trabalho infantil, inserção da pessoa deficiente,
00:28:13inserção da pessoa na aprendizagem, as fraudes.
00:28:16Então, nós precisamos hoje de um profissional que está diretamente ligado
00:28:20ao fronte trabalhista, que é o Auditor Fiscal.
00:28:23É o operador de direito mais presente, do direito de trabalho.
00:28:27Para isso, a gente precisa aumentar o número de fiscais, de uma maneira geral no Brasil.
00:28:32Não apenas os fiscais do grupo móvel.
00:28:34Cada fiscal do trabalho deveria estar pronto e capacitado para fazer esta ação,
00:28:40onde quer que estivesse.
00:28:42Infelizmente, a gente não tem.
00:28:44E aí tivemos uma das principais razões para isso foi uma reforma da Previdência
00:28:48que atingiu o setor público, que fez com que muitas pessoas se aposentassem.
00:28:53Então, o número de fiscais de trabalho na década de 90 caiu muito, foi caindo.
00:28:58E ano após ano, os auditores se aposentando sem que haja reposição.
00:29:03Os auditores saindo sem que haja reposição.
00:29:05Então, hoje, para as atividades cotidianas de fiscalização,
00:29:10já há uma enorme dificuldade,
00:29:12que dirá para atividades excepcionais, especiais,
00:29:17como são as atividades do grupo móvel.
00:29:19E aí, eu não posso não acreditar que houve uma desmobilização,
00:29:27porque o governo entendeu que aquelas situações não eram mais tão importantes.
00:29:31A importância que foi dada no início dos anos 2000,
00:29:36afinal, Fernando Henrique, começo do Lula, já não é mais a mesma hoje.
00:29:41A parte visível do trabalho escravo no Brasil, ainda hoje,
00:29:45é a ponta do mais velho.
00:29:47São os resgatados.
00:29:49Esses 50 mil, uma média de 3, 4 mil por ano,
00:29:53quatro anos atrás, uma média de 1.500 nos últimos quatro anos,
00:29:58não são a dimensão certa do problema.
00:30:05Se você consegue fazer uma quantidade pequena das situações que a gente sabe que existem,
00:30:11o número de reincidência também é subdimensionado.
00:30:14Mas eu diria que há uma boa quantidade de situação de reincidência do trabalho escravo,
00:30:21até porque a reincidência está ligada às condições sociais que nós falamos no início.
00:30:40E você vai lá, tem experiências, na maioria das vezes, ruins, né?
00:30:46Uhum.
00:30:47Mas você continua insistindo.
00:30:50Por quê?
00:30:52É porque o cara, aqui o cara não tem dinheiro,
00:30:55aí o cara tem que ir atrás de onde ganha dinheiro.
00:30:59Às vezes eu passo até de quatro meses rodado na cidade,
00:31:03sem arrumar serviço para o cara arrumar.
00:31:06E daí fica, geralmente, o Ministério pega,
00:31:09a gente recebe o seguro desemprego,
00:31:11tá tranquilo durante três meses.
00:31:14Mas depois desses três meses,
00:31:16vai ter que voltar para a mesma situação, né?
00:31:20Fica difícil, não tem condição de se manter,
00:31:25volta a trabalhar com fazendeiros, fazendo as mesmas coisas.
00:31:29Ele volta para casa, ele vê o que é que eu tenho agora,
00:31:33o que é que eu vou fazer.
00:31:34Eu não tenho um trabalho aqui.
00:31:37Eu não tenho o mínimo para pagar minhas despesas nem da minha família.
00:31:42É falta de condição mínima de sobrevivência.
00:31:46Ele não tem estudo e a única coisa que ele pode fazer
00:31:48é ir para uma zona rural, uma fazenda,
00:31:52e aí trabalhar na roça mesmo.
00:31:55Trabalhar porque é a única coisa que ele sabe fazer.
00:31:59Você já é avó, né?
00:32:01Uhum.
00:32:02Ele também.
00:32:03Uhum.
00:32:04O que você acha que você vai fazer para...
00:32:07Qual o plano seu e teu marido
00:32:09para vocês não ficarem mais tanto tempo separados?
00:32:13Para nós não ficarmos tanto tempo separados?
00:32:16No caso, só se ele arrumasse um emprego aqui.
00:32:20Porque para ele ficar aqui,
00:32:22sem nenhum emprego e nem eu,
00:32:24com esses meninos,
00:32:26não tem como.
00:32:33Quando você acha que ele vai voltar?
00:32:36Ele disse que a safra termina agora em novembro,
00:32:38continua no final de novembro.
00:32:46Aí, se não...
00:32:47É porque se não der o seguro para ele,
00:32:50porque lá só dão o seguro com seis meses.
00:32:53Aí, se não der o seguro,
00:32:54ele tem que fazer a virada lá,
00:32:55fazer o ano.
00:32:58As portas de entrada que levou ele para a escravidão
00:33:01são as mesmas que vão permanecer
00:33:03para ele nas outras situações.
00:33:05Geralmente, são as mesmas.
00:33:06Então, a residência é alta.
00:33:09O que nós costumamos resumir em dizer
00:33:13um, ganância,
00:33:15dois, miséria,
00:33:16três, impunidade.
00:33:18Esses três fatores também formam um ciclo.
00:33:22Ganância,
00:33:22Qualquer situação é possível
00:33:25desde que ela me traz mais lucro
00:33:27que o vizinho.
00:33:30Miséria,
00:33:31qualquer trabalho necessário para mim
00:33:34porque eu não tenho outro.
00:33:37Impunidade,
00:33:38é uma atividade arriscada,
00:33:40mas, afinal de contas, lucrativa.
00:33:43Não tem, até hoje,
00:33:44ninguém na cadeia
00:33:45para o trabalho escravo.
00:33:47Aparece para a sociedade
00:33:49uma enorme impunidade.
00:33:51É como se aquelas pessoas
00:33:52que praticaram um crime grave,
00:33:54porque é grave,
00:33:54mas a legislação penal
00:33:56não estabelece
00:33:58essa mesma gravidade
00:33:59quando define as penas.
00:34:01Então, permite uma transação penal.
00:34:03E aí fica aparecendo
00:34:05que você pode praticar aquilo,
00:34:07você pode fazer,
00:34:08e fazer novamente,
00:34:09porque você não vai ter punição.
00:34:10Fiscais flagraram trabalho escravo
00:34:13e empregado
00:34:14sem receber salário
00:34:15há meses
00:34:15numa usina de álcool
00:34:16em Poconé.
00:34:17Mesmo sem pagar os salários
00:34:19dos trabalhadores em dia,
00:34:20a usina Alcopan
00:34:21em Poconé
00:34:22continuava contratando.
00:34:23Os fiscais do Ministério do Trabalho
00:34:26encontraram 106 pessoas
00:34:27com os salários atrasados
00:34:29há meses.
00:34:30É escravo
00:34:31porque a gente sofre
00:34:32se acorda
00:34:33quatro horas da madrugada
00:34:34para vir trabalhar
00:34:35e trabalha
00:34:36e não recebe.
00:34:37Nunca vi ninguém trabalhar
00:34:38sem receber.
00:34:55Vim para a usina Alcopan
00:34:56que era falado,
00:34:57o meu irmão disse que era boa.
00:34:58E aqui em 2002
00:35:00eu cheguei e trabalhei
00:35:01sete meses aqui.
00:35:03Aí a usina estava atrasando demais
00:35:06e a minha família
00:35:07traz de ir para cá
00:35:08não tem nem condição
00:35:08de mandar dinheiro para lá.
00:35:10Trabalhar cada final do mês
00:35:12cadê o dinheiro para receber.
00:35:17Tanta ficha lá
00:35:18que é um castigo na Alcopan.
00:35:21Eu...
00:35:21O legado que a empresa
00:35:23trouxe para mim
00:35:23foi triste
00:35:24porque os anos
00:35:25que eu trabalhei lá
00:35:26ela nunca depositou
00:35:28o meu fundo de garantia.
00:35:30Até hoje
00:35:30está aí na justiça
00:35:31não sabe nem se não vai receber
00:35:34nunca recebi
00:35:36o legado que ela trouxe para mim.
00:35:44Nesse tempo eu trabalhava
00:35:45pegar as seis da manhã
00:35:46e as seis da noite.
00:35:47No caso era doze horas.
00:35:49Aí de domingo
00:35:50que tinha droga
00:35:52nós pegávamos as seis da manhã
00:35:54domingo de manhã
00:35:55e laigá na segunda-feira
00:35:57no outro dia de manhã.
00:35:57nós trabalhávamos
00:35:59o cartão não era batido
00:36:00era por conta do bode
00:36:02ninguém batia.
00:36:02Aí era lá
00:36:03agarrado
00:36:04dentro do cachoto
00:36:05com o cadeado
00:36:06para nós ver.
00:36:12A gente que precisa
00:36:13ia aguentando esse...
00:36:16Quando estava bem
00:36:17em dois meses
00:36:17chegou o ministério aí.
00:36:20Aí foram lá na roça
00:36:21tinha gente que botina rasgada
00:36:22a comida que eles botavam
00:36:24era uma mitinha assim
00:36:26de alumina
00:36:26só o osso.
00:36:27Os fiscais percorreram
00:36:29o canavial
00:36:29e constataram
00:36:30outros abusos.
00:36:32Nem banheiro
00:36:32nem alojamento
00:36:33para os empregados
00:36:34fazer as refeições
00:36:35no campo.
00:36:36Não são fornecidos
00:36:37os óculos de proteção
00:36:38para as vistas.
00:36:39Uma das irregularidades
00:36:40com relação à EPI
00:36:41foi essa.
00:36:42A empresa já foi notificada
00:36:44pelo Ministério do Trabalho
00:36:45sobre todas essas irregularidades.
00:36:47O procurador
00:36:48do Ministério Público
00:36:49do Trabalho
00:36:50defendeu que seja
00:36:51decretada a falência
00:36:52da Alcopan.
00:36:53Só assim,
00:36:54ele diz,
00:36:54os trabalhadores
00:36:55poderão receber
00:36:56os salários atrasados.
00:36:59Se você for analisar,
00:37:02o número de ações
00:37:05no âmbito administrativo
00:37:07do Ministério do Trabalho
00:37:09tem um patamar alto.
00:37:11o número de inquéritos
00:37:13policiais, idem.
00:37:15O número de atuações
00:37:18do Ministério Público
00:37:19do Trabalho, idem.
00:37:20Mas, em termos
00:37:21de condenação penal
00:37:23e concretização
00:37:25da condenação,
00:37:27esse número
00:37:28é incomparavelmente
00:37:30pífio
00:37:31em relação
00:37:32aos nossos números.
00:37:34e isso me fez
00:37:36enxergar que
00:37:37há um descompasso
00:37:38nesse país.
00:37:39O fazendeiro
00:37:41que comete
00:37:42esse tipo de crime,
00:37:45ele pouco paga
00:37:46por isso.
00:37:47Ele paga financeiramente
00:37:48uma indenização,
00:37:51ele fica,
00:37:52ele geralmente
00:37:53não é preso,
00:37:54mesmo preso
00:37:55ele sai em poucos dias
00:37:57e, de certa forma,
00:37:59a justiça ainda precisa
00:38:01dar mais valor
00:38:03a esse tipo de crime.
00:38:05Não o valor da pena,
00:38:07porque a pena
00:38:07é até oito anos.
00:38:10Mas, considerar
00:38:11na hora da aplicação
00:38:12que ali
00:38:13é um crime grave
00:38:17e concretamente
00:38:18penalizar de forma
00:38:20mais rigorosa
00:38:21o fazendeiro.
00:38:30não teve como
00:38:31trazer o corpo
00:38:32para cá
00:38:32porque ele já estava
00:38:33com três dias
00:38:34pegando só
00:38:34e serendo.
00:38:36Aí não trouxeram.
00:38:39Eu mandei celebrar
00:38:41a missão para ele.
00:38:42Aí, depois da visita
00:38:43que eu fiz aqui
00:38:44no cemitério,
00:38:45na missão,
00:38:46eu andei uma
00:38:47da tarde e eu viajei.
00:38:52Eu saí com longe,
00:38:53né, meio-dia.
00:38:54Aí eu viajei
00:38:55a tarde todinha,
00:38:57viajei à noite.
00:38:59Aí viajei no outro dia,
00:39:00o dia todinho
00:39:01para chegar lá
00:39:01no outro dia,
00:39:02cinco horas da tarde.
00:39:05E aí,
00:39:06não, nós vamos levar
00:39:06você para a cidade
00:39:07para a gente
00:39:08resolver os papéis dele.
00:39:10Eu passei
00:39:11vinte e nove dias
00:39:13lá na fazenda
00:39:16e nada dele
00:39:17resolveram, nada.
00:39:18Mas eu não falava
00:39:19com ninguém.
00:39:20O gerente
00:39:20não deixava eu
00:39:21falar com ninguém.
00:39:23e eu, toda vez
00:39:24que eu saía fora,
00:39:26assim, no pátio,
00:39:27quando eu passava
00:39:28aqui na frente,
00:39:29eu me encontrava
00:39:29com o cara
00:39:31que matou o marido
00:39:32e o motorista também.
00:39:34E foram dois.
00:39:40Aí, no dia
00:39:41que foram comigo lá
00:39:42onde ele morreu,
00:39:44acharam ele morto,
00:39:45eu fui botar a cruz
00:39:46lá,
00:39:48aí não deixaram
00:39:48eu botar a cruz.
00:39:50O fazendeiro,
00:39:51não,
00:39:51não pode botar a cruz,
00:39:53não.
00:39:53Mas por quê?
00:39:54Ele morreu,
00:39:55não foi aqui,
00:39:55de que ele julgar?
00:39:56Foi,
00:39:57mas não pode,
00:39:58meu,
00:39:58trouxe duas cruzes,
00:39:59uma para botar aqui
00:40:00no lugar,
00:40:00que ele morreu,
00:40:01e a outra para botar lá
00:40:02no outro lugar,
00:40:03essa é a futura dele.
00:40:04porque na minha terra
00:40:05é assim.
00:40:07Não,
00:40:07mas não é assim,
00:40:08não,
00:40:08aqui não é assim,
00:40:09não.
00:40:09Porque pode a polícia
00:40:10chegar aqui
00:40:11e ver essa cruz aqui,
00:40:13aí não vai dar certo.
00:40:15Aí também eu peguei
00:40:16a cruz e levei
00:40:17e a rapó
00:40:19está lá,
00:40:19está no cemitério.
00:40:30Aí fui botado
00:40:31na justiça,
00:40:32andou quando andou,
00:40:34e aí veio o direito,
00:40:35mas eu não recebi,
00:40:37o juiz não me deu,
00:40:39disse que estava errado,
00:40:40estava não sei o quê,
00:40:42lá eu não recebi o direito,
00:40:44que veio no valor
00:40:44de cento,
00:40:48cento e dez mil.
00:40:51Estou recebendo a pensão dele,
00:40:53mas o valor mesmo
00:40:54sobre a morte dele,
00:40:56não recebi não,
00:40:57nunca me deram,
00:40:58diz que eu não tinha direito.
00:41:04A aplicação da lei penal
00:41:05não mete medo
00:41:06daqueles que vivem
00:41:08dessa prática criminosa.
00:41:10Vai incomodar muito mais
00:41:11a ele
00:41:12a condenação
00:41:14no âmbito financeiro.
00:41:15O infrator,
00:41:16o escravocrata,
00:41:19ele tem mais medo
00:41:20da penalidade do bolso
00:41:23do que da lei.
00:41:24O Estado falha
00:41:25retumbantemente,
00:41:26uma vez que a pessoa,
00:41:27ela sistematicamente,
00:41:29ela é flagrada
00:41:31com o trabalho escravo.
00:41:32Não só o réu,
00:41:36ele deve ser punido
00:41:37de alguma forma,
00:41:38mas também o Estado brasileiro,
00:41:40ele é incompetente,
00:41:41ou ele é conivente
00:41:42e cúmplice
00:41:43nesse processo.
00:41:44Começa hoje
00:41:45mais uma reunião
00:41:46da Corte Interamericana
00:41:47de Direitos Humanos
00:41:48para analisar
00:41:49a denúncia de trabalho
00:41:50análogo à escravidão
00:41:51na Fazenda Brasil Verde
00:41:53no Pará
00:41:53entre os anos
00:41:54de 1980 e 2000.
00:41:56O caso teve
00:41:57grande repercussão
00:41:58e uma audiência pública
00:42:00está marcada
00:42:00para os próximos dias.
00:42:02A situação foi denunciada
00:42:03pela Comissão Pastoral da Terra
00:42:05e pelo Centro
00:42:06pela Justiça
00:42:07e o Direito Internacional.
00:42:09Os donos
00:42:09da Fazenda Brasil Verde
00:42:11no Pará
00:42:11não foram penalizados
00:42:13nem impedidos
00:42:14de manter trabalhadores
00:42:15em condições de escravidão.
00:42:17Durante as seis fiscalizações,
00:42:20340 pessoas
00:42:21foram resgatadas.
00:42:23Era a base
00:42:23de sete centavos
00:42:26por dia só.
00:42:27Estamos com muita expectativa
00:42:29dos próximos dias
00:42:31recebermos aqui no Brasil
00:42:33a notícia
00:42:33da sentença
00:42:34que a Corte Interamericana
00:42:36da OEA
00:42:37deve
00:42:39tomar
00:42:40a respeito
00:42:41do caso
00:42:42conhecido
00:42:42como o Brasil Verde,
00:42:43uma fazenda
00:42:44do sul do Pará
00:42:45onde
00:42:45entre 88 e 98
00:42:48várias denúncias
00:42:49levaram a algumas fiscalizações
00:42:51bem caóticas
00:42:53envolvendo
00:42:53em torno de 300
00:42:54trabalhadores,
00:42:55principalmente do Piauí.
00:43:01O que aconteceu
00:43:03na Fazenda Brasil Verde
00:43:04não foi
00:43:04uma novidade,
00:43:06mas
00:43:06ela foi
00:43:07um caso exemplar
00:43:08do que acontecia
00:43:09em outras propriedades
00:43:10no Brasil
00:43:11que repetidas
00:43:11vezes
00:43:12foram flagradas
00:43:13por trabalho escravo.
00:43:14Seja a destilaria
00:43:15gameleira no Mato Grosso
00:43:16flagradas repetidas
00:43:17vezes por trabalho escravo,
00:43:19sejam as fazendas
00:43:19de Gilberto Andrade,
00:43:21ou de Miguel de Souza
00:43:22Rezende
00:43:22no Maranhão,
00:43:24nem em vários lugares
00:43:25foram flagrados
00:43:26várias vezes,
00:43:27o que mostra
00:43:28que apesar dos flagrantes,
00:43:29o Estado brasileiro
00:43:30era incapaz
00:43:31de garantir
00:43:32que justiça
00:43:34fosse feita,
00:43:35não apenas
00:43:35para os trabalhadores,
00:43:36mas para que
00:43:37aquelas unidades produtivas
00:43:38não continuassem
00:43:40a explorar pessoas.
00:43:41De forma que
00:43:41esse caso também
00:43:43emblemático
00:43:44da omissão
00:43:45do Estado
00:43:46combate ao trabalho escravo
00:43:47foi levada
00:43:47ao conhecimento
00:43:48da Comissão Interamericana,
00:43:4915 anos
00:43:50de tramitação,
00:43:52finalmente
00:43:53a Comissão Interamericana
00:43:56levou o caso
00:43:57para a corte
00:43:58interamericana
00:43:58há dois anos.
00:43:59As audiências
00:44:00foram feitas
00:44:01em fevereiro
00:44:02deste ano
00:44:02em São José
00:44:03de Costa Rica
00:44:04e em Brasília
00:44:06em Maia
00:44:07ouvindo inclusive
00:44:08cinco representantes
00:44:09das vítimas
00:44:10do Piauí.
00:44:11E quantas horas
00:44:12vocês trabalhavam?
00:44:14Começava quando?
00:44:15Nós começávamos
00:44:16às cinco horas
00:44:18da manhã
00:44:19até às cinco da tarde,
00:44:20eram de cinco às cinco.
00:44:22Vocês recebiam
00:44:24instrumentos de trabalho
00:44:25da fazenda?
00:44:26Recebiam assistente,
00:44:27recebiam foice,
00:44:29chapéu,
00:44:31de graça?
00:44:32Era pagamento.
00:44:33como pagamento?
00:44:35Foi esse chapéu
00:44:36e bota,
00:44:38mas irmeriu.
00:44:40Mas quando
00:44:41não empreste de conta,
00:44:43a gente pagava.
00:44:45Alguma vez
00:44:47o senhor
00:44:47se sentiu enganado?
00:44:49Eu me senti
00:44:51sim, senhor,
00:44:51porque disseram
00:44:52que era um salário
00:44:53e no final
00:44:54ia ser
00:44:55setenta centavos
00:44:55a diária, né?
00:44:56Setenta centavos
00:44:58a diária?
00:44:59A diária.
00:45:00E não
00:45:00um salário?
00:45:01Eu dizia
00:45:02que era um salário.
00:45:04Era isso
00:45:04que foi prometido?
00:45:06Um salário?
00:45:06Um salário.
00:45:07Agora,
00:45:08nessa corte,
00:45:10nesse tribunal,
00:45:12o senhor sabe
00:45:13que vai se decidir
00:45:14coisas importantes.
00:45:15O que o senhor
00:45:15espera?
00:45:17o que eu espero
00:45:18é justiça, né?
00:45:28As organizações
00:45:29da sociedade civil
00:45:30que levaram
00:45:31a questão
00:45:32do caso Brasil Verde
00:45:34para a Comissão Interamericana
00:45:35de Direitos Humanos
00:45:36e de lá
00:45:37apoiaram
00:45:38a ida
00:45:38para a corte,
00:45:39eles reconhecem
00:45:40que houve
00:45:41a evolução
00:45:41do combate
00:45:43ao trabalho escravo,
00:45:44que a repressão
00:45:45avançou bastante,
00:45:47mas eles acham
00:45:48que os instrumentos
00:45:49preventivos
00:45:50que impedem
00:45:51que o trabalhador
00:45:52se torne um escravo
00:45:53estão apenas
00:45:54engatinhando no Brasil.
00:45:57É um caso exemplar
00:45:58porque é a primeira vez
00:45:59que a corte interamericana
00:46:00vai julgar
00:46:01um caso
00:46:02de trabalho escravo
00:46:03nas Américas.
00:46:04Portanto,
00:46:05o que ela vai dizer
00:46:05a respeito desse caso
00:46:07vai estabelecer
00:46:09uns parâmetros
00:46:11válidos
00:46:12para o conjunto
00:46:12das Américas
00:46:13sobre, um,
00:46:14o que é trabalho escravo,
00:46:16dois,
00:46:17quais são as obrigações
00:46:18de um Estado
00:46:19de combate ao trabalho escravo.
00:46:20para defender
00:46:21a continuidade
00:46:23dessa experiência
00:46:24que hoje
00:46:24está sendo
00:46:25seriamente
00:46:25ameaçada
00:46:27pelo novo governo
00:46:30que tomou o poder
00:46:32no Brasil
00:46:33e que pretende
00:46:34retroceder
00:46:35ou apoiar
00:46:36projetos de retrocesso
00:46:37que já existiam
00:46:38no Congresso,
00:46:40visando, um,
00:46:41a desnaturar
00:46:42a definição
00:46:43do trabalho
00:46:44análogo
00:46:44de escravo,
00:46:45reduzir ainda
00:46:46vários instrumentos
00:46:48de combate ao trabalho escravo.
00:46:49Em primeiro lugar,
00:46:50a lista surge
00:46:51e eles estão decididos
00:46:53a eliminar também.
00:47:01Esse cadastro
00:47:02nada mais é
00:47:03do que a publicização
00:47:05dos nomes,
00:47:06dos infratores
00:47:07das pessoas,
00:47:08dos empregadores,
00:47:09seja pessoa física
00:47:10ou jurídica,
00:47:11que se utilizaram
00:47:12desse tipo
00:47:12de mão de obra,
00:47:13que tiveram
00:47:14suas autuações,
00:47:15a caracterização
00:47:16desse crime
00:47:18confirmada
00:47:19em primeira
00:47:20e segunda instância
00:47:21administrativa
00:47:22pelo Ministério
00:47:22do Trabalho
00:47:23e aí esse nome
00:47:24vai para uma lista
00:47:25que permanece lá
00:47:26por dois anos.
00:47:30Eu percebi
00:47:31que muitas das fazendas
00:47:33que a gente ia
00:47:34vinham aquelas placas
00:47:35de financiamentos bancários.
00:47:37Aí eu percebi,
00:47:38nossa,
00:47:39nós estamos financiando
00:47:40o trabalho escravo.
00:47:41Não com essa intenção,
00:47:43mas estamos,
00:47:44porque nós injetamos
00:47:45dinheiro nessa história,
00:47:47o governo,
00:47:48os bancos,
00:47:49injetam dinheiro nisso
00:47:50com privilégios fiscais,
00:47:52com privilégios de juros,
00:47:53e depois esse dinheiro
00:47:54volta na mão do trabalhador
00:47:56de uma forma
00:47:56muito sofrida.
00:47:57Era preciso fazer
00:47:58com que esse sistema
00:47:59financeiro
00:48:00que opera
00:48:00com dinheiro público
00:48:04ficasse sensibilizado
00:48:05de que não podia
00:48:06continuar prestando dinheiro
00:48:07para financiar
00:48:08a exploração
00:48:08do trabalhador.
00:48:09A partir de uma pesquisa
00:48:11realizada em cima
00:48:12desses dados oficiais,
00:48:14se tornou possível
00:48:16examinar quais são
00:48:18as cadeias produtivas
00:48:19onde mais está presente
00:48:21o trabalho escravo.
00:48:24Aquela carne
00:48:26que foi infeccionada
00:48:27pelo trabalho escravo
00:48:28no interior do Pará,
00:48:29onde é que ela
00:48:30foi vendida finalmente?
00:48:35E começamos a fazer reuniões
00:48:37com o Ministério
00:48:38da Integração Nacional
00:48:39à época
00:48:40para que os financiamentos
00:48:42constitucionais
00:48:43para essa atividade
00:48:44fossem bloqueados.
00:48:46Quando o cadastro
00:48:47começou a ser aplicado,
00:48:49eu me recordo
00:48:50de receber ligações
00:48:52do BNDES.
00:48:53Eu era o coordenador
00:48:54nacional de erradicação
00:48:55do trabalho escravo
00:48:56do Ministério Público do Trabalho,
00:48:57então pessoas do BNDES
00:48:58falavam,
00:48:59nós estamos pedindo aqui
00:49:00o financiamento
00:49:02desse pessoa física
00:49:03ou jurídica
00:49:04que está aqui no cadastro.
00:49:05Como é que é isso?
00:49:06Explica para a gente.
00:49:07Então, aquilo foi um processo
00:49:09de convencimento
00:49:12dos bancos
00:49:13que operam
00:49:14com dinheiro público
00:49:15de que não deveriam
00:49:16emprestar dinheiro
00:49:17porque aquele dinheiro
00:49:18estava financiando
00:49:19o trabalho escravo
00:49:20contemporâneo no Brasil.
00:49:24Em 2005,
00:49:26a FEBRABAN,
00:49:27a Federação Brasileira de Bancos,
00:49:28soltou uma recomendação
00:49:29para todos
00:49:30os seus associados
00:49:31para checar a lista suja
00:49:33antes de emprestar dinheiro.
00:49:35Avisando,
00:49:35gente,
00:49:35é um gerenciamento
00:49:36de risco importante
00:49:37porque de repente
00:49:38o Ministério Público do Trabalho
00:49:40processa o sujeito,
00:49:42bota uns 15 milhões
00:49:42nas costas dele,
00:49:43ele não tem dinheiro
00:49:44para pagar a cota
00:49:45do empréstimo,
00:49:47o banco roda.
00:49:48Isso aqui tem um peso fantástico.
00:49:51Inclusive,
00:49:52um peso tão fantástico
00:49:53que incomodou tanto
00:49:55esses outros setores
00:49:57muito mais,
00:49:59eu diria,
00:50:00atrasados
00:50:01ou simplesmente
00:50:02preocupados
00:50:02pelo lucro imediato,
00:50:04que hoje está
00:50:07sendo discutida
00:50:09a opção
00:50:09de eliminar
00:50:11a lista suja,
00:50:12de acabar com ela.
00:50:20É por isso
00:50:21que eu juro
00:50:21que eu não entendo
00:50:22quando as pessoas
00:50:22atacam
00:50:23esse tipo de instrumento,
00:50:25eles estão atacando
00:50:27o quê?
00:50:27O livre mercado?
00:50:28A livre competição?
00:50:30Eles querem o quê?
00:50:31Uma planificação soviética?
00:50:33Quer que a gente
00:50:33estabeleça
00:50:34um sistema cubano?
00:50:36Então estabelecemos,
00:50:37a gente pode estabelecer
00:50:37um sistema cubano
00:50:38em produção.
00:50:39É isso que vocês querem?
00:50:40O que eu sabia
00:50:40era o contrário.
00:50:43Nós temos que ter
00:50:44ações de repressão
00:50:46mais fortes,
00:50:47senão aqueles
00:50:48que praticam o crime
00:50:49vão continuar tranquilos,
00:50:50não vão se sentir
00:50:51incomodados.
00:50:52Além disso,
00:50:53existem as chamadas
00:50:54medidas de prevenção,
00:50:56que são aquelas medidas
00:50:57que evitam
00:50:58que o problema
00:51:00aconteça,
00:51:01que o crime
00:51:01ocorra.
00:51:03E essas medidas
00:51:04de prevenção
00:51:04também não têm sido
00:51:07prioridade
00:51:07para o poder público.
00:51:09A falta de uma
00:51:10política pública,
00:51:11que abordasse,
00:51:12que enfrentasse
00:51:13essa questão,
00:51:15levou
00:51:16à superintendência
00:51:18regional em Mato Grosso,
00:51:19através do colega
00:51:21Valdinei,
00:51:21que é o editor fiscal
00:51:22do trabalho,
00:51:24e junto com outros
00:51:25colegas,
00:51:25idealizar um projeto
00:51:27que acabou culminando
00:51:29no Ação Integrada.
00:51:34Na minha vida,
00:51:36eu também tenho
00:51:37história
00:51:38de trabalho escravo.
00:51:40Eu tenho um tio
00:51:41que,
00:51:43nos anos 80,
00:51:45ele foi para as fazendas
00:51:47também trabalhar
00:51:48de forma de braçal.
00:51:50A história
00:51:50que nos chegaram
00:51:51é que ele foi
00:51:52recrutado
00:51:53para uma fazenda
00:51:53de trabalho escravo,
00:51:54que ele tentou fugir
00:51:55junto com mais um amigo.
00:51:56Um amigo dele
00:51:56conseguiu chegar
00:51:57na cidade aqui,
00:51:59em Cuiabá,
00:52:01disse que na época
00:52:02ele estava com malária
00:52:03e ele não conseguiu
00:52:04acompanhar
00:52:07esse colega dele
00:52:08e a gente nunca mais
00:52:10conseguiu notícia
00:52:11desse meu tio.
00:52:14Isso me fez motivar
00:52:15a querer participar
00:52:18das ações,
00:52:20querer me integrar
00:52:22aos grupos
00:52:23de combate ao trabalho escravo
00:52:24e futuramente
00:52:26vir criar
00:52:26o Programa Ação Integrada
00:52:28aqui em Mato Grosso.
00:52:36O projeto,
00:52:37eles procuraram eu.
00:52:40telefonaram para mim
00:52:41e falaram,
00:52:41nós estávamos tendo
00:52:42esse curso
00:52:43de implementos
00:52:44de máquinas agrícolas
00:52:46e se você se interessa
00:52:48a fazer.
00:52:49Eu falei,
00:52:49sim,
00:52:49se interessa,
00:52:50que é uma oportunidade
00:52:53imensa para nós.
00:52:56Nós chegar no final
00:52:57do projeto,
00:52:58pegar uma profissão
00:52:59para nós é bom,
00:53:01que daí nós vamos
00:53:02sair daquela rotina,
00:53:03né?
00:53:07Então,
00:53:07os trabalhadores,
00:53:08após o seu resgate,
00:53:09nós fazemos uma busca
00:53:11imediata junto
00:53:12à fiscalização
00:53:13desses trabalhadores,
00:53:14identificando um perfil
00:53:16socioeconômico
00:53:16para inserção deles
00:53:18nas prováveis
00:53:20ações que o projeto
00:53:22possa disponibilizar.
00:53:23Através desses dados,
00:53:25o projeto vai até
00:53:26o município
00:53:27onde ele declarou
00:53:27residir.
00:53:33ação integrada.
00:53:33Olha,
00:53:33quando nós estávamos no chumbo,
00:53:35parado,
00:53:36nós estávamos parados,
00:53:36não estávamos trabalhando,
00:53:37né?
00:53:37A projeto ação entregada
00:53:39foi lá,
00:53:40atraí das pessoas,
00:53:42as pessoas falaram,
00:53:43tem um projeto.
00:53:45Aí eu vim com o objetivo,
00:53:47a minha vida inteira
00:53:48só era trabalhar
00:53:49em alcino,
00:53:50trabalhar em fazenda.
00:53:52Aí eu tive a oportunidade
00:53:53em 2011
00:53:54de vir trabalhar,
00:53:55né?
00:53:56Um projeto ação integrada.
00:53:58Teve a oportunidade
00:54:00de vir trabalhar
00:54:00na Arena Pantanal.
00:54:01Eu fiz de um tudo.
00:54:03Tudo que precisava
00:54:04na Arena,
00:54:04eu fiz, né?
00:54:05Todos.
00:54:05Até várias
00:54:07parede dessa aqui
00:54:08que vocês viram.
00:54:09Na Avenaria,
00:54:10eu consegui
00:54:12assentar broco,
00:54:13né?
00:54:13Aprendi a assentar broco.
00:54:17Então,
00:54:18há uma qualificação mínima
00:54:20desses trabalhadores
00:54:21e também
00:54:22naquelas situações
00:54:23e que são a maioria
00:54:24e que é a maioria
00:54:26onde você
00:54:27encontra o trabalhador
00:54:28analfabeto,
00:54:29você faz a elevação
00:54:30educacional mínima dele
00:54:32pra que ele consiga
00:54:34também
00:54:35entrar,
00:54:36ter maior facilidade
00:54:37pra entrar
00:54:38no mercado formal
00:54:39de emprego.
00:54:43O ônibus
00:54:44veio pegar nós
00:54:45e nós saímos daqui
00:54:46fechados.
00:54:47Tinha que ter
00:54:48palestra, né?
00:54:49Muita coisa aí
00:54:50eu fui na roda
00:54:51dos caras
00:54:52e vim-me embora.
00:54:53Os outros fechou.
00:54:55Então, passou
00:54:55três, quatro dias
00:54:56fechados, né?
00:54:57Só que nós
00:54:58estávamos ganhando.
00:54:59Nós estávamos lá
00:54:59dando palestra,
00:55:00conversando,
00:55:01mas nós estávamos ganhando.
00:55:02Nós saímos daqui
00:55:03já ganhando.
00:55:04Nós vim-me embora.
00:55:09fiquem pensando,
00:55:09o que foi que eu vim,
00:55:10meu Deus?
00:55:11Vim pra aqui
00:55:12sem ter serviço,
00:55:13o serviço
00:55:14na minha mão lá
00:55:16e eu vim pra aqui.
00:55:17Aí fiquei,
00:55:18bem-mei.
00:55:20Depois chegou
00:55:21de novo
00:55:21o ministério.
00:55:23Você tem vontade
00:55:23de voltar pra lá?
00:55:24Eu digo,
00:55:24rapaz,
00:55:25me arrependi
00:55:26porque eu vim embora
00:55:26de lá pra cá.
00:55:28Isso aí,
00:55:30deram oportunidade
00:55:31pra você voltar de novo.
00:55:33e eu vou agarrar
00:55:34essa oportunidade
00:55:34de casa de duas mãos.
00:55:35Existe a situação
00:55:36também
00:55:37de os trabalhadores,
00:55:38eles começam
00:55:39a perceber
00:55:40que foram explorados
00:55:41o trabalho escravo
00:55:42depois que
00:55:44passou
00:55:44pelo projeto.
00:55:46Até então,
00:55:47eles acham
00:55:47que a fiscalização
00:55:48foi a prejudicar eles.
00:55:49Eu estava trabalhando,
00:55:51recebia pouco,
00:55:53mas eu tinha o que comer.
00:55:54A fiscalização
00:55:55me tirou de lá.
00:55:56Hoje,
00:55:56não trabalho em lugar nenhum
00:55:57e estou passando fome.
00:55:59Porque ele, sim,
00:55:59ele vai sempre precisar
00:56:00de uma pessoa
00:56:01que cate raiz.
00:56:02sempre vai precisar
00:56:03de uma pessoa
00:56:03que cate pedra,
00:56:04mas com dignidade,
00:56:06com seu respeito,
00:56:07com EPIs correto,
00:56:09com salário correto.
00:56:19O lojamento bom,
00:56:21comida boa,
00:56:22tratava nós melhor
00:56:23do que em casa mesmo.
00:56:26Eu não sabia
00:56:26como é que fala,
00:56:28desenhar o nome,
00:56:29porque fazer,
00:56:30é nós que não sabemos
00:56:30mas desenhar.
00:56:31eu desenhar o nome.
00:56:33Eu não sabia
00:56:33o que era isso.
00:56:35Conta,
00:56:35eu não sabia.
00:56:37Lá eu aprendi
00:56:38bastante coisa,
00:56:39umas cotinhas de somar,
00:56:41multiplicar.
00:56:42O meu nome,
00:56:42eu sei,
00:56:43desenhar em qualquer lugar
00:56:44que eu chegar,
00:56:45eu faço ele.
00:56:47E melhorou muitas coisas.
00:56:49Esse lá foi uma benção.
00:57:00não é porque eu não tenho estudo,
00:57:03muitas vezes me atrapalha,
00:57:06mas que eu vou desistir não.
00:57:08Eu quero ir até o fim,
00:57:09tem fé em Deus
00:57:10que eu vou conseguir
00:57:11e vou passar.
00:57:12O pouco que eu aprendi aqui,
00:57:15passar para os meus filhos,
00:57:16aprender a trabalhar,
00:57:18mas também estudar.
00:57:19Para o dia da manhã
00:57:22não ficar que nem eu.
00:57:24Eu tenho quatro filhos?
00:57:25Tenho quatro rapazes
00:57:26e uma moça.
00:57:29Não é o estudo
00:57:31que vai fazer eu parar,
00:57:33não é muitas vezes
00:57:35a distância,
00:57:37que eu estou longe da família
00:57:41e a idade.
00:57:44Eu vim nesse objetivo
00:57:47de fazer esse curso
00:57:48e vencer ele.
00:57:49Tenho fé em Deus
00:57:50que eu vou conseguir.
00:57:55É muito mais caro
00:57:57reprimir trabalho escravo
00:57:58do que prevenir trabalho escravo.
00:58:00Não apenas pelo custo
00:58:02de fiscalização,
00:58:03mas pelo custo
00:58:04é relacionado
00:58:06a julgamentos,
00:58:07a processos,
00:58:09a tanta dor de cabeça,
00:58:10a punições,
00:58:11envolvimento do setor econômico
00:58:13e tudo isso mais.
00:58:14O ideal seria
00:58:15que a gente tivesse
00:58:16garantido estrutura
00:58:17e qualidade de vida
00:58:18para esses trabalhadores
00:58:19e que houvesse justiça
00:58:22sobre esses empregadores real
00:58:24para que se eles fossem
00:58:25realmente punidos
00:58:26e que se esses trabalhadores
00:58:27tivessem qualidade de vida,
00:58:28isso certamente
00:58:29não teria acontecido.
00:58:31Então eu costumo
00:58:32chamar isso de esperança
00:58:33e de alternativa.
00:58:35Nós precisamos dar
00:58:36a esses trabalhadores
00:58:37alternativas,
00:58:39questões que são reais,
00:58:41ele precisa ter
00:58:42uma condição
00:58:43de escapar
00:58:44daquele ciclo
00:58:45e ter esperança
00:58:46que um dia
00:58:46a vida dele
00:58:47vai melhorar.
00:58:52e aí, papai,
00:58:53como é que está?
00:58:53E aí, como é que está?
00:58:54Tudo bem?
00:58:54Tudo bem,
00:58:55como é que está você?
00:58:56Eu estou vivendo.
00:58:57E aí, como você foi?
00:58:58Tudo bem.
00:59:01Você tem orgulho
00:59:02do seu filho?
00:59:04Tenho orgulho.
00:59:07O orgulho que eu tenho
00:59:08é que ele me ajuda
00:59:09e eu ajudo ele.
00:59:11No momento mais difícil,
00:59:13mais que ele ter me ajudado.
00:59:16como é que ele te ajuda?
00:59:18Ele me ajuda
00:59:19porque na parte
00:59:20que quando eu comecei
00:59:21a adoecer,
00:59:22tudo que ele tinha,
00:59:24ele só trabalha
00:59:25para gastar comigo.
00:59:26É trabalhador.
00:59:28É?
00:59:28É.
00:59:29O que você espera
00:59:31para o seu futuro
00:59:33da sua filha,
00:59:35da sua família?
00:59:36O que é que...
00:59:37Não passar
00:59:37para o que eu passei.
00:59:41Porque é tudo
00:59:42que acontece para ele.
00:59:44De bom,
00:59:45é que eu sofri muito.
00:59:48Você tem algum sonho,
00:59:49algum desejo
00:59:50que você gostaria
00:59:51de realizar?
00:59:54Tem.
00:59:59ter uma vida
01:00:00mais melhor.
01:00:05Meu futuro é o que é
01:00:06que eu estou vivendo.
01:00:07Estou levando minha vida
01:00:08devagar mesmo em casa
01:00:10com meus filhos.
01:00:12Todos os dois
01:00:13encostados em mim,
01:00:14saem para trabalhar.
01:00:16De manhã,
01:00:17com uma canta
01:00:17na hora,
01:00:18a sexta,
01:00:18meio-dia
01:00:18para pegar o feijão,
01:00:20está em casa.
01:00:22À noite,
01:00:22seis horas,
01:00:22está em casa.
01:00:24Ele sai mesmo
01:00:24aqui pertinho
01:00:25daquela vizinha
01:00:25para jogar um baralho.
01:00:27Dez horas,
01:00:28nove horas,
01:00:28para ir em casa.
01:00:29E eu vou levando
01:00:30a vida assim devagarzinho
01:00:31até o dia que Deus quiser.
01:00:33O dia que Deus
01:00:34é terminado de me levar,
01:00:36eu vou deixando
01:00:37todos os três criados
01:00:38já sabendo comer
01:00:39com a mão deles.
01:00:40e o dia que Deus quiser
01:01:10e o dia que Deus quiser
01:01:11Amém.
01:01:44Amém.
01:02:10Amém.
Comentários