- há 2 dias
O episódio aborda o assunto da escravidão dimensionando-o em termos globais.
Categoria
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AprendizadoTranscrição
00:28A CIDADE NO BRASIL
00:31Quando eu saí da Bolívia foi por causa de que a empresa tinha fechado.
00:36Aí a gente ficou sem chão, porque sem trabalho.
00:45Na época ele era costureira mesmo já, ele não.
00:49E sempre a gente ouvia falar, trabalho no Brasil, que tem muita costura.
00:55Tínhamos amigos que tinham vindo para cá.
00:58Ele se comunicava com minha irmã através de cartas.
01:02Ele, o Francisco, o nome dele, ele mora lá em São Paulo, na rua Amambaí.
01:07E o telefone desse meu amigo.
01:10Mas a gente não conhecia nada.
01:12Foi ele que pesquisou pela internet por qual fronteira a gente tinha que sair, né?
01:20Não estava caindo a ficha que a gente ia deixar a Bolívia, né?
01:25Eu não sentia isso.
01:29A parte mais dolorosa de tudo que foi, foi deixar...
01:34Despedida, né?
01:35Despedida, deixar minha filha.
01:37Porque ela era muito pequenininha.
01:39Ela nem falava na época.
01:46Aí sim, começou a caia a ficha.
01:48Aí meu pai falou, né?
01:50Quando eu estava saindo no...
01:51No ônibus.
01:52No, como se chama?
01:53Um cerrado.
01:55Estava deixando a cidade, né?
01:57Porque tem as casas.
02:00Deixando isso para trás.
02:02Entrando no mato.
02:04Aí que caiu a ficha.
02:05Agora que vai começar outra carreira.
02:08Outra vida.
02:09Outra vida.
02:16A viagem foi muito sofrida para mim.
02:20Na fronteira...
02:22Pior.
02:23Descriminação total.
02:26Se você não fala português, você lascou.
02:29Brasileiro é super ignorante.
02:31Na fronteira é assim.
02:33Tem criança.
02:34Você pode ver um horror estar na fronteira.
02:38Aí que começou tudo.
03:00Cheguei no dia 7 de agosto de 2004.
03:05Nessa casa aí.
03:07Com outras...
03:08Mais 5 pessoas que trabalhavam lá dentro.
03:17Não foi uma coisa bonita para me lembrar agora.
03:20Só tenho coisas ruins na minha cabeça.
03:24Era tudo controlado.
03:26Tudo, tudo, tudo controlado.
03:31Eu achava que pessoas na minha terra iam me ajudar.
03:39Porque a gente não vem com outro propósito aqui.
03:43A gente vem com a intenção de trabalhar, sabe?
03:46De ter umas coisas melhores, talvez, lá.
03:50Porque lá é porque ela estava muito ruim.
03:52Chegar aqui, passar pelo que eu passei, não foi legal.
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05:10O estado do tráfico de pessoas está principalmente ligado à exploração do trabalho de estrangeiros na fabricação de bombas.
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15:06Eles trabalhavam tudo de forma manual.
15:09Tudo era anotado pelo empregador numa caderneta.
15:15Então era difícil você saber as quantidades, os pesos, os preços.
15:21E aí era uma exploração total.
15:24E a pessoa que veio para trabalhar, necessitando do trabalho, não ia reclamar nunca.
15:29Eu entrava às seis e meia da manhã,
15:31trabalhava até duas horas e meia da manhã.
15:35De domingo a domingo, não descansava.
15:44O quarto era do lado da cozinha.
15:47Ela se parou com a madeira, né?
15:49Não tinha quarto, era a cama, só.
15:53O banheiro era, nossa, um desastre.
15:57Nossa, eu chorava tanto, tanto,
16:00porque era saudade da minha terra, era saudade da minha comida, do ar.
16:06Porque aqui era muito quente, o ar entrava quente pelas minhas narinas, descia quente, sabe?
16:11Era tanta coisa, vinha a minha cabeça.
16:14O mais que eu tenho aqui na minha cabeça foi a saudade da minha filha.
16:19Porque eu deixei ela muito pequenininha, né?
16:21Aí eu tinha uma foto dela, né?
16:24Eu só olhava e chorava, e chorava, e chorava, e chorava.
16:36Era tanta pressão para costurar, costurar, costurar, costurar,
16:39eu costurei meu dedo.
16:41Agulha, às vezes, como se você está com pressa, né?
16:44Pega a agulha, né?
16:47E aí, quando eu fiz o primeiro acidente de trabalho que eu tive,
16:52quando eu estava sendo explorada,
16:55a agulha entrou por aqui no meio,
16:57e saiu três pedaços do meu dedo aqui.
17:01Aí eu comecei a chorar.
17:02A mulher nem deu importância.
17:04Ela falou, tira você sozinha.
17:06Aí peguei o alicate e fui tirando as agulhas do meu dedo.
17:11Ela não falou nada, ela me mandou colocar o dedo no olho da máquina.
17:17Não sei se pegou parte do nervo daqui, mas é doloroso, né?
17:23Quando eu tenho, dei uma apertadinha aqui, aí dói.
17:37E a gente tinha se passado uns três meses.
17:41Como a gente trabalha muitas horas,
17:44ela colocava a rádio, aí de onde falava, da comunidade boliviana.
17:49E atenção, uma última notícia.
17:52O taller do irmão René Cucarico acabou de ser assaltado.
17:57Eu falei, Cucarico, esse é o irmão do meu amigo.
18:05Depois de trabalhar duas horas da manhã, a gente foi dormir.
18:08E como eu dormia do lado da cozinha,
18:10e o telefone ficava na sala, onde era a oficina,
18:15a mulher ligou, sabe, bem baixinha.
18:17Ela falou, oi, meu irmão René.
18:20Aqui fala a Elissa, falando como ela se conhecesse bem.
18:26Quando eu entrei nessa casa, falei, eu tenho esse número de telefone e esse endereço,
18:29porque meu amigo morava aqui.
18:30Passei o nome dele, falei, o nome dele é Francisco Cucarico.
18:34Luiz Francisco Cucarico.
18:36O irmão é René Cucarico.
18:38Eu tinha passado os nomes pra ela.
18:40Ela falou que não conhecia.
18:42Quando no outro dia eu questionei, eu falei, olha, você conhece o Cucarico.
18:46Você disse que não conhecia.
18:48Me dá o telefone do Cucarico.
18:50Me dá o telefone.
18:51Eu obriguei ela a dar o telefone.
18:54Aí eu liguei pro meu amigo, falei, tô na tua casa antiga.
18:58Aí ele me falou, que meu irmão...
19:01Traspassou a casa dessa mulher.
19:03Você está ganhando quanto?
19:05Ele perguntou quanto.
19:06A gente falou a verdade, né?
19:07Ganhar 10 centavos.
19:09O que ele falou?
19:10Porque calça geralmente paga um real.
19:12Ele falou, né?
19:13Na época, né?
19:14Ela está te explorando.
19:15Está te explorando.
19:16Ele falou direto.
19:18Aquele dia eu fiquei perto da vida.
19:19Sabia que ela mentiu pra mim, porque ela conhecia meu amigo.
19:23Ela tinha mentido sobre o pagamento das calças que eu fazia.
19:28Uma ovelha de espressão de lobo, né?
19:30Ela tirou, né?
19:31Tinha essa cara que...
19:33Gente boa, menos do outro lado era ruim.
19:37Ruim mesmo.
19:38Chegamos, aquele dia eu falei, a gente vai embora.
19:41Ai, ela ficou medo.
19:42Porque você está me pagando muito pouco.
19:45Eu vou.
19:45Aí ela falou, ai...
19:46Pode ir.
19:47Aí ela falou, pode ir aqui, bora, pode ir.
19:48Mas você termina esse serviço primeiro.
19:51Se a gente saía de lá sem terminar...
19:54A gente não ia receber.
19:55A gente não tinha a receber.
19:56Mas eu tinha que receber, porque eu mandava dinheiro pra Bolívia.
20:00O pouco que eu ganhava, eu mandava.
20:02Aí foi dia sábado que a gente terminou, acho que meia-noite, né?
20:06Terminamos.
20:07Aí eu falei, então, eu estou indo embora amanhã.
20:09Então, você tem que me pagar.
20:11Aí ela falou, ah, não tenho.
20:14Eu tenho só dólar.
20:16Ela falou, então, me paga dólar.
20:18O meu último salário que eu recebi dela foi 350 reais.
20:23Na época era 100 dólares, né?
20:24Na época.
20:25Falou, ah, a gente, eu te abri as portas da minha casa.
20:30E vocês venham assim.
20:31Eu te ajudei.
20:33Ela me ajudou nada.
20:34Ela me explorou sim.
20:35Ela não me ajudou.
20:36Ela me pegou pro benefício dela.
20:51Eu saí dessa casa chorando.
20:55É que eu me lembro.
20:58Eu deixei muita coisa aí.
21:02Porque eu cheguei da Bolívia com outro pensamento.
21:06E depois ver que uma boliviana, outra boliviana, tinha me feito isso.
21:13Foi muito...
21:17Foi muita coisa pra mim.
21:45É cíclico.
21:47A passagem da condição de explorado pra explorador.
21:52Esse ciclo, ele demonstra a dramaticidade do problema.
21:58Na cabeça daquele explorador, o que tá se passando é justamente assim.
22:04Eu passei aqui 15, 10 anos comendo o pão que o diabo amassou no Brasil.
22:11Pra conseguir ter essa ascensão, né?
22:15Eu consegui vencer nesse modelo.
22:18E vocês vão aparecer agora.
22:21Por que que vocês não apareceram há 10 anos, 15 anos atrás, quando eu tava comendo grama?
22:28E agora que eu tô por cima da carne seca, vocês resolvem aparecer?
22:32O problema está na grande empresa.
22:37Onde o grande lucro vai pras grandes multinacionais.
22:42E foi onde a visão, a mudança de visão do poder público e do Ministério do Trabalho começou a entender
22:51que,
22:52na cadeia produtiva, existia uma grande exploração dos trabalhadores no setor de confecção.
23:00O que nos tornou conhecidos foram grandes casos rumorosos que todos eles saíram daqui, né?
23:06Eles não se iniciaram em Ministério Público, nem no Judiciário, nem em outro âmbito.
23:11Caso Zara, caso Marisa, caso Renner, caso Brooksfield, Jamie Officer.
23:20Em São Paulo, o próximo passo dos fiscais é encontrar a empresa que manda as roupas para os bolivianos costurarem.
23:27A gente sabe que isso é o ganha-pão.
23:30Por isso a gente tá notificando o dono da produção e não a oficina.
23:35Porque a oficina, a gente tá vendo aqui, que é o lado mais fraco dessa relação.
23:48Os bolivianos costuravam para a empresa espanhola Zara.
23:51Os fiscais descobriram que um fornecedor da multinacional havia contratado 33 oficinas.
23:56E todas tinham algum tipo de irregularidade.
24:05O caso Zara foi um dos casos mais rumorosos.
24:08E o grande detalhe é que envolve a maior multinacional do setor textil do mundo, né?
24:42A Zara, ela encomenda.
24:45Pagando para uma confecção, pagando para essa confecção, em torno de 40 reais essa peça.
24:57Essa confecção, ela conta com apenas alguns costureiros altamente qualificados,
25:05que são chamados de piloteiros,
25:07pois são pessoas que vão fazer o molde, a peça piloto.
25:12Só que não vai ser essa confecção que vai produzir, não.
25:16Ela vai contratar uma oficina, onde teremos, então,
25:21trabalhadores bolivianos, peruanos, paraguaios,
25:27pagando de 5 reais a 4,50 a peça.
25:33E daí essa oficina vai pagar um terço desse valor para o seu costureiro por peça.
25:41Então, 120 é o preço para o consumidor,
25:4540 é o que vai da Zara para a confecção,
25:504,50 da confecção para a oficina,
25:53e um terço disso que vai da oficina para o trabalhador.
25:58Para a Auditoria Fiscal do Trabalho ficou claro, ficou nítido,
26:01que havia uma situação fraudulenta em curso,
26:04que havia vários intermediários,
26:06mas que isso tudo estava apenas mascarando
26:08uma verdadeira relação de emprego que existia
26:11entre esse trabalhador e a marca.
26:13Foi verificado que ela era detentora do poder econômico relevante
26:19nessa sua cadeia,
26:20era a empresa que detinha, por seu porte,
26:23condições de ditar as regras desse jogo,
26:26e a ela foi imputado aquilo que ocorria na oficina.
26:32Mas fato é que depois do fato que ocorreu em 2011,
26:34a empresa, no mesmo ano,
26:37se comprometeu perante o Ministério Público do Trabalho
26:39a regularizar a situação,
26:41levantar, fazer uma completa devassa em sua cadeia produtiva
26:46e proporcionar planos de correção dessas situações semelhantes.
26:51Isso foi compromisso que a empresa tinha em 2011.
26:58O que aconteceu?
27:00O fornecedor, do qual a Zara estava comprando os artigos,
27:06ele fez uma terceirização dessa confecção
27:10para duas oficinas de costura,
27:12das quais a Zara não tinha o menor conhecimento.
27:14Intensificamos todo o processo das auditorias sociais,
27:20nos comprometemos nesse termo de ajuste de conduta
27:23a realizar essas auditorias em prazos menores,
27:27para a checagem das condições de trabalho,
27:29para a verificação do cumprimento do código de conduta da empresa.
27:33O outro eixo foi o eixo dos investimentos sociais,
27:37visando a integração dessa comunidade de imigrantes vulnerável,
27:41junto a organizações não governamentais
27:43que lidam diretamente com a temática
27:45e que oferecem uma série de serviços e de atendimentos
27:49a essa população imigrante.
27:51Quando você tem esse olhar,
27:53que é de responsabilidade sobre essa cadeia de fornecimento,
27:56pela questão do trabalhador,
27:58que em certa medida ele participou daquele processo de confecção da peça,
28:02na visão de Zara,
28:03a gente entende que a gente tem essa responsabilidade social
28:06sobre esse trabalhador
28:08e que, portanto, a gente tem que apurar sim
28:10e que a gente tem que trabalhar
28:11para que ele tenha todos os seus direitos garantidos.
28:22É muito fácil para uma empresa que utiliza trabalho escravo.
28:24Eu usei trabalho escravo, mas eu vou doar cesta básica,
28:26eu vou doar roupa, eu vou doar uniforme,
28:28eu vou doar não sei o que lá, eu vou comprar tal coisa,
28:30ou eu vou doar um milhão para projetos de combate ao trabalho escravo.
28:34Isso é legal.
28:35Mas, mais legal seria se essa empresa,
28:38na hora de produzir, eu olhasse e falasse,
28:39pera lá, os meus fornecedores, eles estão de acordo com a lei?
28:45Os fornecedores, os meus fornecedores estão de acordo com a lei?
28:49Aquela matéria-prima que eu estou comprando,
28:52está com trabalho escravo ou não está com trabalho escravo?
28:54Isso é uma etapa da produção,
28:56isso é uma etapa da responsabilidade empresarial
28:58que as pessoas evitam.
29:00Porque significa o quê?
29:01Significa você mexer no seu core business,
29:03significa você mexer no seu centro de produção,
29:06no seu negócio, no coração do seu negócio
29:08e tornar ele realmente responsável.
29:11Todo o processo de controle e monitoramento
29:14da cadeia de fornecimento,
29:15existe uma ferramenta que ela foi desenvolvida
29:18e ficou muito robusta,
29:20que é a ferramenta da rastrabilidade.
29:23100% de todos os artigos que a empresa compra no país
29:28e que o cliente vai encontrar em loja
29:31apresentam uma etiqueta do projeto,
29:34do fabricado no Brasil.
29:36Aí o cliente acessa por meio de um smartphone,
29:39ele acessa o aplicativo,
29:41que vai dizer para ele
29:42de que fornecedor a Zara comprou aquela peça
29:45que ele está adquirindo na loja
29:47e que oficina de costura
29:49esse fornecedor utilizou para confeccionar essa peça.
29:53Isso dá uma garantia,
29:55traz um conforto para esse consumidor,
29:57dizendo que essa peça foi confeccionada
30:00em condições dignas de trabalho,
30:02respeitando os direitos dos trabalhadores,
30:05em cumprimento com a legislação trabalhista local
30:07e, obviamente, em cumprimento com o Código de Conduta da Zara.
30:12Por que que, enfim, não investem dinheiro
30:15no que foi acordado com os poderes públicos
30:18em vez de preferir iniciativas alternativas
30:23que têm muito pouca efetividade?
30:25Qual que é a efetividade dessa, por exemplo?
30:27O problema é muito mais complexo.
30:29E um problema não é um problema de rastreabilidade da peça,
30:32é um problema da produção,
30:34de como é que essa produção é feita,
30:35qual que é a forma de organização do trabalho,
30:38como que esses trabalhadores podem ser mais produtivos,
30:41ou seja, produzir mais com menos custos,
30:43com menos prejuízos,
30:45mas ela prefere tomar iniciativas cosméticas,
30:49pontuais, extemporâneas e completamente externas
30:54à questão produtiva,
30:56que essa, sim, continua gerando pressão
30:58sobre a sua cadeia produtiva.
31:18Quando você passa pela vitrine, né, na rua...
31:20Eu que fiz.
31:21Olha, olha, pensa, Paula, eu fiz isso.
31:24Olha o meu trabalho.
31:31Olha essa camisa,
31:33essa coisa que você achou nos outros,
31:34essa é a naranja daí?
31:36Bonito, né?
31:38É, legal, como é que é isso aí?
31:45É tudo mão de obra nossa, né?
31:49O que fez isso?
31:50Legal, né?
31:51Ai, estou chorando.
31:57As nossas peças, eu vi na TV.
32:00O blazer que a gente costurou
32:01veio na jornada da Globo, né?
32:04Porque ela estava usando um blazer
32:06que a gente tinha feito.
32:07por que a gente se conhece,
32:09porque a modelagem que a gente fez,
32:13o desfio que ela tinha,
32:15era o nosso.
32:16Falei, nossa, olha a nossa peça,
32:18ela está lá, com aquela mulher.
32:22E esse trabalhador que participa
32:24do processo produtivo,
32:25ele também tem direito à felicidade, né?
32:28E essa felicidade vai se dar
32:29com uma parcela daqueles lucros,
32:32também distribuídos a eles, né?
32:34Então, você não pode ter sempre
32:36o desenvolvimento de uma atividade
32:39que leve a uma linha de exploração
32:41que as pessoas mal têm,
32:42condição de se alimentar,
32:44de se vestir.
32:45As pessoas têm que ter direito.
32:53A grande luta do operário no mundo
32:56era dos três oitos, né?
32:58Isso levantou a Inglaterra
33:00o berço do sindicalismo mundial.
33:02Oito horas para lazer,
33:04oito horas para dormir,
33:06oito horas para trabalhar.
33:07Não se quer nenhuma situação
33:09em que o trabalhador
33:10não cumpra com as suas tarefas.
33:11É óbvio que ele tem que trabalhar.
33:14Todos nós trabalhamos.
33:15Aqui, nesse momento,
33:16estamos todos nós trabalhando.
33:18Na verdade,
33:19a exploração do trabalho
33:21sempre existia,
33:22porque o sistema capitalista
33:23é aquele que explora
33:25na China, no Japão,
33:27nos Estados Unidos,
33:28no Brasil,
33:29na Bolívia, na Argentina,
33:31em qualquer parte do mundo.
33:32O Brasil, ele é sempre lembrado
33:34no mundo inteiro
33:35como um local com trabalho escravo,
33:36exatamente porque a gente combate
33:38esse trabalho escravo.
33:39A gente dá visibilidade a isso.
33:42Então, de certa forma,
33:43o Brasil, nesse sentido,
33:44acaba prejudicado
33:46diante de um país
33:47como a Argentina,
33:48ou diante de um país africano,
33:50ou asiático,
33:51ou europeu,
33:52ou norte-americano,
33:53que chega e fala
33:54olha, vocês têm trabalho escravo,
33:55a gente não.
33:56Então, não, espera aí.
33:57Todos os países do mundo
33:58têm trabalho escravo.
33:59O Brasil faz parte
34:00de um processo que é global.
34:12na Carolina do Norte,
34:16ou na Flórida,
34:18encontrei haitianos, mexicanos,
34:21guatemaltecas,
34:22fazendo serviço de colheita de tomate,
34:27tomate ou outro de cultura de tabaco,
34:31tratado também,
34:34como gente não sendo gente,
34:37que não precisa de lugar
34:39para dormir,
34:40para comer,
34:41para...
34:42E pode ser tratado,
34:44se vira.
34:45O que me interessa
34:46é a tua produção,
34:48é a tua contribuição produtiva,
34:51é um preço,
34:51se possível, zero.
34:53Mesmo Estados Unidos
34:54possui trabalho escravo,
34:56a França possui trabalho escravo,
34:58vai checar a situação
34:58da exploração das argelinas
35:00e das argelinas
35:01como empregadas domésticas,
35:03na Alemanha tem trabalho escravo.
35:06Mas por que um país rico
35:07tem trabalho escravo?
35:08Porque um país rico,
35:09ele explora trabalhadores pobres,
35:11que podem ser da sua própria nacionalidade
35:14ou podem ser estrangeiros.
35:24Quando a gente fala de país rico,
35:26a gente tem que lembrar
35:27que não é todo mundo
35:27que é rico num país.
35:29Ele é um país
35:29cuja média da população
35:31vive numa condição,
35:33uma qualidade de vida,
35:34desenvolvida,
35:35tudo,
35:36só que não significa
35:37que dentro do país
35:38você não tenha exploração.
35:40Você tem exploração.
35:41Você tem essa busca
35:43por reduzir custos,
35:45seja para competir globalmente
35:47numa cadeia
35:47ou seja para fazer valer
35:49o seu negócio local
35:49de exploração sexual.
36:04Existe um patamar
36:07civilizatório mínimo
36:09que é aceito
36:11por todas as nações
36:12como práticas
36:15que não podem ocorrer.
36:17O nome técnico disso
36:19no direito internacional
36:21é juscógenes.
36:23Não pode ocorrer.
36:24Desde 1926,
36:26que a gente tem
36:27compromissos internacionais
36:28mais robustos
36:29para erradicar
36:31trabalho escravo e tráfico.
36:33E somente recentemente
36:34vim com o protocolo de Palermo,
36:37que foi incorporando
36:38a compreensão
36:40que traficar,
36:43como diz o Papa Francisco,
36:44é o nome moderno
36:46da escravidão.
36:47Tudo isso é escravidão.
36:49Seja para a finalidade
36:51da exploração sexual,
36:54do casamento forçado,
36:57da mendicância forçada,
36:59do tráfico de órgãos
37:00e do trabalho escravo.
37:02Tudo isso é escravidão.
37:03Tudo isso trata
37:05alguém como coisa,
37:08instrumentalizar.
37:16Nós temos muita facilidade
37:19de movimento
37:20da mercadoria,
37:22do capital financeiro,
37:24assim,
37:25em segundos.
37:26Mas nós temos
37:27muita dificuldade
37:28de permitir que as pessoas
37:29se movimentem.
37:38temos muitos muros físicos,
37:42muros políticos,
37:43muros legais,
37:45que impedem
37:47a livre circulação
37:49da mão de obra,
37:51especialmente dos migrantes.
37:53Então aí entra toda a questão
37:54do tráfico de pessoas,
37:57a questão da exploração,
37:59da escravidão,
38:01dos coiotes,
38:03do tráfico de drogas,
38:05justamente porque
38:06as pessoas são impedidas
38:08de circular livremente.
38:11O Protocolo de Palermo,
38:12que é o tratado internacional
38:14que rege
38:15todas as formas de proteção
38:17ao tráfico de pessoas,
38:18inclusive tráfico de pessoas
38:19para fins de trabalho
38:20análogos ao escravo,
38:22ele garante
38:23a prerrogativa
38:25de todos esses estados
38:26que o ratificaram,
38:27o Brasil ratificou
38:28o Protocolo de Palermo,
38:29no sentido de que
38:30esse país
38:31deve criar mecanismos
38:34para manter o trabalhador
38:35em solo nacional
38:36e não ser deportado,
38:38ainda que ele esteja
38:39em situação migratória
38:40irregular.
38:41não são apenas razões
38:43de ordem humanitária
38:46que empolgam o combate
38:48ao trabalho escravo,
38:50são razões de ordem econômica.
38:54Trata-se de proteger
38:56o empregador cumpridor
38:58da legislação
38:59da concorrência desleal
39:01de quem deliberadamente
39:03a inobserva.
39:04e é isso que eu queria dizer,
39:07ainda que isso não traga
39:08uma imagem tão midiática
39:12ou emocionante,
39:13é um problema cultural
39:14e é um problema
39:16de ordem econômica,
39:18não apenas humanitária.
39:25O capital procura regiões
39:27onde o trabalho
39:28é desregulamentado,
39:29onde as regras ambientais
39:31também são mais frouxas,
39:32explora o trabalho,
39:33explora o ambiente.
39:35A entrada do capital
39:36leva,
39:37de recursos,
39:38de investimento,
39:39leva ao desenvolvimento
39:41de uma massa crítica local,
39:42inclusive,
39:43os trabalhadores
39:43começam a perceber
39:44e se encontrar
39:45como explorados,
39:46começam a reivindicar,
39:48começam a se gerar lei,
39:49começa a se melhorar,
39:50aquilo começa a se estruturar
39:52e aí essa nuvem
39:53de investimento
39:54procura outros lugares
39:55do mundo
39:55onde o negócio
39:56é desregulamentado.
39:57O Brasil,
39:58há 50 anos,
39:59no boom,
39:59o mês do boom
40:00durante a ditadura,
40:01foi isso, né?
40:02Durante o seu estado,
40:03os oficores alunos
40:04visitam a cidade
40:05de Sao Paulo.
40:07Neste centro industrial,
40:08o Partido toura
40:09várias fárricas modernas.
40:11Esta produção de automóvel
40:12e a linha de assembleia
40:14é uma das novas
40:15e mais eficientes
40:16do mundo.
40:17Os produtos Nestle,
40:17e a companhia de sandbra
40:20são mais exemplos
40:22de uma nação
40:22que rapidamente
40:23expande a sua produção.
40:25O que o Brasil tem
40:27que difere
40:28de outros países
40:29são os elementos
40:32do conceito penal,
40:34do tipo penal brasileiro,
40:36do trabalho degradante
40:37e a jornada exaustiva.
40:39Só o trabalho degradante
40:41sem o cerceamento
40:43da liberdade
40:44já configura o crime
40:45e em outros países
40:47às vezes
40:48isso não é considerado,
40:49não é caracterizado
40:50como trabalho escravo.
40:59nós estamos indo fazer uma inspeção
41:01para verificar uma denúncia
41:03de trabalho escravo
41:04que foi apresentada por e-mail.
41:06A denúncia de que há seis trabalhadores
41:08vivendo em condições degradantes
41:10e essa notícia de fato
41:11diz que eles são
41:12trabalhadores chineses
41:13a verificar se eles têm,
41:15se eles estão legalizados,
41:16se eles foram trazidos regularmente,
41:20se eles não foram de alguma forma
41:25submetidos ao tráfico de pessoas.
41:26Os empregadores, nesses casos,
41:28eles também são chineses
41:30e eles, às vezes,
41:32também já foram submetidos
41:33a essas condições
41:35e as mesmas condições
41:37que eles hoje,
41:38hoje,
41:39compõem aos seus trabalhadores.
41:41Para o empregador,
41:42a mão de obra estrangeira
41:44acaba sendo uma mão de obra barata
41:46porque ele simplesmente
41:50admite esse empregado
41:52sem direitos trabalhistas
41:55e explora, por exemplo,
41:58a mão de obra de chineses.
42:00Eles já estão acostumados
42:01no ritmo de trabalho lá na China,
42:04diferentemente do Brasil.
42:05Eles não têm uma jornada
42:06de oito horas apenas
42:08e 44 semanais.
42:10Então, eles trabalham
42:11dia e noite, horas a fio,
42:13porque no país deles
42:15não têm esse respeito
42:17aos direitos trabalhistas.
42:19E, então,
42:20acaba sendo uma mão de obra barata
42:23onde eles conseguem lucrar mais
42:25e concorrer de forma desleal
42:27no mercado.
42:50nos criações.
43:01Isso já é malvado.
43:03Isso já é malvado.
43:06Você quer saber o que é bom?
43:07Ele disse que a gente está uma semana aqui.
43:10Não, mas ele vem com a culpa do mundo.
43:14Ele não entende o que você está falando bem, entendeu?
43:19Ele não fala muito bem, mas ali ele também não fala muito bem.
43:22É ótimo.
43:23E quanto horário de cavar para ele?
43:26Oito horas por dia.
43:30Segunda, domingo, cavar?
43:31Oito horas por dia.
43:33Oito horas por dia.
43:34Oito horas por dia.
43:34Oito horas por dia.
43:35A gente está aqui, para jogar.
43:39E a garantia de trabalho é minimalizado.
43:43O artigo 7º da Constituição prevê que os direitos trabalhistas
43:47são aplicáveis tanto a trabalhadores brasileiros e estrangeiros.
43:52Então não há diferença de tratamento em âmbito nacional.
43:56Chegou há oito meses, começou a trabalhar aqui.
44:00E...
44:01Veja a história.
44:02O tv fica puxado para eles.
44:04Se a gente quiser comprar alguma coisa, eles caramнали.
44:07operator.
44:09Vamos ver, vamos ver...
44:28Pode vir, pode tomar.
44:38E o outro dorme onde? Embaixo?
44:43É um banheiro único para todo mundo?
44:46Ah, é só.
44:52A gente acorda às sete horas aqui,
44:54fiz ombro na loja, a feitura...
44:57E aí, até o fechamento?
44:59Não, o fechamento saiu.
45:01Entendeu?
45:01Eles tomaram um pouco menos.
45:03Aí, isso aí, assim, está de momento.
45:05O que mais eles não tiveram? Quatro horas.
45:09E o salário deles? Como é que o seu pago?
45:11Ó, eles quando vêm aqui,
45:13é uma segunda alta, entendeu?
45:15Não me perguntou quanto de pago, não ganha.
45:17Só precisa de agente do trabalho,
45:18pago bonita.
45:27Um salário...
45:27E o mais paciente que teria,
45:29um pareceria quem gaste tanto.
45:31Entendeu?
45:31Mas isso aqui,
45:33ou são mil, alguma coisa, né?
45:36Mas o senhor entrega o dinheiro para eles?
45:38Não, eu só falava.
45:39Se precisar, bato.
45:41Se não precisar, a gente lembrando...
45:42Sempre tem que pedir ao senhor,
45:43toda vez que precisa.
45:44Mas ele não competiu.
45:46Seu menino não é economizado.
45:47Não competiu.
45:48Mas e é esse dinheiro que eles estão juntando?
45:50Eles estão juntando?
45:51Está fazendo uma poupança?
45:52Como é que é isso?
45:53É...
45:54De vez eles querem, entendeu?
45:56Se eles querem assim,
45:57também é bom, entendeu?
45:58Um poupado, não tanto...
46:00Porque na época eu também
46:02não falava nada disso também, entendeu?
46:05Estão alojados.
46:06São vulneráveis porque não falam o nosso idioma.
46:09Oito meses estão aqui.
46:10Não tem repouso semanal remunerado.
46:12Trabalho de segunda a domingo,
46:14nessa jornada de 12 às 24 horas.
46:17Jornada exaustiva,
46:19que é uma exploração demasiada.
46:21preenche a retenção de salário,
46:23que forma uma espécie de servidão por dívida,
46:24ardilosa, fraudulenta.
46:27Preenche a retenção de documento.
46:28Então já tem três,
46:29já tem um tripé aí pra me apoiar.
46:31Concordo com essa tese.
46:32Trabalho escravo.
46:37Tem o pior caso,
46:39que foi o caso do Ian.
46:41Ele era torturado pelo empregador.
46:45Ele veio para o Brasil, né,
46:48atraído pela falsa promessa
46:50de um excelente trabalho,
46:52morar bem no Brasil,
46:53e mais tarde ele traria a família.
46:57E houve atuação já lá na China,
47:01de coiotes,
47:02pra que ele pudesse ingressar no país.
47:05e a partir daí ele começou a trabalhar nessa pastelaria.
47:11Ele trabalhava mais de 15 horas por dia.
47:15Ele não tinha salário,
47:18porque ele tinha que pagar passagem, né,
47:20o deslocamento da China para o Brasil.
47:23E ele não interagia no balcão.
47:27Ele trabalhava escondido, fazendo pastel.
47:31Então ele não aparecia pro público.
47:35A equipe acredita que ele começou a ficar deprimido.
47:39E com isso, e cansado também,
47:41e com isso ele passou a não render
47:43o que o empregador desejava.
47:46E aí ele começou a ser agredido,
47:50torturado,
47:51jogado a panela de azeite quente nas costas.
47:53Ele levou, numa das agressões,
47:56uma concha, sabe aquela concha de sopa,
47:59na orelha.
48:00Até hoje ele tem essa orelha deformada.
48:02Então ele foi torturado.
48:05Por diversas vezes,
48:07a vizinhança próxima
48:10ouvia aqueles gritos, aqueles choros,
48:13aquele gemido, né, de dor.
48:16Mas, ao mesmo tempo,
48:17não ouvia um pedido de socorro.
48:19Começou a achar tudo muito estranho.
48:21Até que um belo dia,
48:23ele saiu, teve que sair da pastelaria
48:26pra ir na farmácia comprar uma pomada
48:28pra queimadura.
48:30Aí foi onde viram que havia um chinês ali
48:32e que estava queimado.
48:35O último dia da agressão foi quando ele,
48:37novamente, ele recebeu uma panelada
48:40de azeite quente no corpo.
48:43E aí ele urrava de dor
48:46e os vizinhos, então, chamaram a polícia civil.
48:50O escravocrata foi preso
48:51e ele foi conduzido ao hospital.
48:53E, a partir dali, nós atuamos,
48:55o Ministério Público do Trabalho
48:57e o Ministério do Trabalho e Emprego.
48:59Não convidamos esforços pra ficar,
49:01nós colhemos depoimento por duas vezes
49:06desse trabalhador,
49:08seis horas cada um em pé no leito do hospital,
49:13pra que ele pudesse falar.
49:15Ele estava muito mal ainda.
49:17pra que ele pudesse contar um pouco
49:19da situação dele.
49:20A partir dessas provas,
49:22o Ministério Público do Trabalho
49:23ingressou com uma ação
49:25em face desse empregador.
49:28O trabalhador recebeu
49:30as verbas recisórias,
49:31mais um dano moral individual
49:33e mais um dano moral coletivo.
49:37Na esfera criminal,
49:39esse escravocrata foi condenado
49:42por tortura e redução de trabalhador
49:45à condição análoga de escravo.
49:46É a primeira condenação no Rio de Janeiro
49:49que temos de trabalho escravo
49:52na esfera criminal,
49:53que envolveu também o crime de tortura.
50:15o crime de tortura.
50:19Eu fiquei com muita,
50:21muita mágoa dessa mulher,
50:23mas nunca denunciei ela.
50:26Eu saí de lá pra não olhar pra trás.
50:30Depois de tanto tempo que eu venho agora aqui,
50:34vem tudo isso na minha cabeça.
50:38Por gratidão a tudo.
50:40Eu falei, deixa lá.
50:42A gente não denuncia a ele.
50:43Por gratidão.
50:45Porque no momento não se acolheu, né?
50:46Não se acolheu, talvez um...
50:48Nos deu um teto.
50:49Tempo errado, tudo.
50:52Mas a gente deixou.
50:53E como é que vocês chegaram aqui?
50:56Conta agora um pouco dessa...
50:57Santo André.
51:00A gente foi pra São Mateus, né?
51:04Saímos das confecções.
51:07Onde eu trabalhei foram quatro confecções
51:09que a gente trabalhou.
51:10E aqui chegamos a uma oficina de um brasileiro.
51:13Aqui em Santo André.
51:14Aqui em Santo André.
51:15Ele praticamente não sabia nada de costura.
51:19Nada, nada, nada.
51:20Mas tinha máquina.
51:21Tinha máquina.
51:22Aí começamos a costurar com ele.
51:25Aí conhecíamos duas pessoas, né?
51:27Eles que falaram assim...
51:29Sandy, monta a sua oficina.
51:31Aqui vocês estão trabalhando pros outros ganharem.
51:34Você sabe.
51:35Você faz tudo.
51:36Então faz.
51:37Fazia 24 horas direto pra trabalhar.
51:40E eles viram que a gente era esforçado.
51:43Que a gente merecia, sabe?
51:45Uma chance pra sair disso.
51:47De costureiro pra oficinista.
51:50Pra ter nosso próprio negócio.
51:52Pela minha gente.
51:54O próprio boliviano.
51:56Não vi.
51:58Esse...
51:59Esse...
52:00Esse abraço.
52:01Essa ajuda.
52:02Sabe?
52:08Sou brasileira que me ajudou a montar a oficina.
52:11Há quantos anos vocês estão aqui?
52:14Doze.
52:15Doze anos.
52:16A gente caiu, mas se levantou.
52:35Então eu sou aqui na feira faz três anos.
52:38Essa feira é parte pra fazer, sabe?
52:40Encontro da comunidade boliviana e latina.
52:43Então tudo isso que a gente vê aqui é nosso, sabe?
52:47A nossa comida típica.
52:49Tem nossos sucos.
52:51Tem chá, sabe?
52:53Então tudo isso aqui é um pedacinho da Bolívia.
52:57Bom, Roberto.
52:59Então esse é meu trabalho, né?
53:01Fora de semana.
53:02Trabalho aqui.
53:05Tem minha barraca.
53:07Comecei com a máquina sorvete.
53:10Descoloquei um freezer, um salgado de lá, né?
53:17Antigamente não tinha isso em mim.
53:22Aquele...
53:22Aquela cultura...
53:26Aquele patriotismo que fala.
53:28Agora, quando comecei a dançar,
53:31conhecer mais minha cultura,
53:33me enriqueci muito.
53:34Eu gosto de onde eu saí, sabe?
53:37É bom lembrar porque eu não posso me esquecer de onde eu vim.
53:50Eu tenho nove irmãos.
53:52Dos nove, oito vieram pra cá, né?
53:55A gente ajudou muito.
53:56Meu pai, minha mãe e meus irmãos.
53:58Minhas irmãs, o que aconteceu com elas?
54:00Saíram da minha casa de costureira
54:02pra ser cuidadora de idoso.
54:04De cuidadora de idoso, fizeram curso de cuidadora de idoso.
54:07Agora são enfermeiras.
54:08Três são enfermeiras.
54:13Trabalhei por cinco anos.
54:15Desde meus 13 anos até 2017.
54:18A gente ganhava pelo que fazia.
54:21Eu trabalhei registrada já.
54:23Trabalhei com comércio, numa banca de jornal.
54:26Estou grávida, então não tem como eu trabalhar agora.
54:29Estou fazendo oito hoje.
54:33É pequeno, né? Menina.
54:36Agora a minha tremada já está na faculdade.
54:39Entendeu? Só falto eu.
54:41Então, eu cheguei primeiro e vou ficar pro último, mas eu vou conseguir.
54:45O ano que vem, eu quero fazer mesmo.
54:48Eu quero fazer curso de enfermagem.
54:50Pra ser instrumentista pra fazer cirurgias.
54:54Quero fazer isso.
54:55E eu vou conseguir.
54:56Né?
54:57Porque assim, não foi à toa que eu cheguei aqui, né?
55:01Só pra morrer, talvez, sem costura.
55:04Não é que ser um trabalho denigrante.
55:07Não é.
55:08É um trabalho bom.
55:09Dá pra ganhar.
55:10Você coloca seu horário.
55:12Mas é bom pra mim, como pessoa.
55:15Né?
55:15E o seu grande sonho?
55:18Eu tranquei estudo lá com dois anos de carreira lá.
55:23Bioquímica, né? Farmácia.
55:25Estava fazendo lá.
55:26Deixei.
55:27Mas a gente não podia ficar parado.
55:30Aqui fiz curso de informática.
55:34Me formei.
55:35Mas não errei sua profissão.
55:37Porque não tem espaço.
55:39Muito espaço.
55:40Então a única opção que a gente teve é trabalhar.
55:44Mas continuar.
55:46Nesse ramo de informática, eu gosto, né?
55:51Eu colo pra Sandy.
55:53Eu sou mais brasileiro que brasileiro.
55:57Eu amo o Brasil.
56:01Amo a rua.
56:02A rua.
56:04Amo o pessoal que passa mesmo.
56:06Sem conhecer.
56:07Sous-titrage.
56:14Tchau.
56:15Tchau.
56:19Tchau.
56:21Amém.
56:52Amém.
57:23Amém.
57:54Amém.
58:25Amém.
58:50Amém.