00:00Volto a falar agora da situação envolvendo o conflito no Oriente Médio, porque agora há pouco publicou nas redes sociais
00:05o presidente americano
00:06um post prometendo ali o inferno para o Irã se nada se resolver no prazo de 48 horas.
00:14Vou ler pra você novamente esta informação de agora há pouco, nas redes sociais, o presidente americano dizendo o seguinte
00:19Lembra-se de quando dei ao Irã 10 dias para fazer um acordo ou abrir o Estreito de Hormuz?
00:25O tempo está se esgotando, 48 horas antes que o inferno se abata sobre eles. Glória a Deus, presidente Donald
00:34J. Trump.
00:36Deixa eu chamar, pra nos ajudar a entender esta situação, a gente recebe agora o professor Waldir Bezerra, que é
00:44da área das relações internacionais
00:47vai nos ajudar a entender do que está falando Donald Trump nessa promessa de inferno para o Irã, professor.
00:55Bem-vindo, boa tarde.
00:58Boa tarde, agradeço novamente o convite para falar com vocês da Jovem Pan.
01:03Bem, o Donald Trump sabe que a partir do momento que a guerra começa a se prolongar, os efeitos domésticos
01:10vão se intensificando
01:11sobretudo na questão do aumento do preço da gasolina, do diesel, e isso vem trazendo certo desconforto
01:19para a base eleitoral mais ampla do Donald Trump nos Estados Unidos, e isso faz com que ele comece a
01:25subir
01:26as ameaças contra o Irã, porque o entendimento que ele tinha quando ele começou essas operações
01:33era de que ele obteria resultados mais rápidos do que vem ocorrendo, e conforme a guerra vai se estendendo,
01:41esses efeitos domésticos negativos vão se acumulando, e ele precisa realmente obter um resultado prático
01:48nos próximos dias. Caso contrário, a situação pode ficar um pouco complicada em relação à opinião pública,
01:56doméstica, em relação à continuidade do conflito.
01:59Professor, eu vou chamar o Rodolfo Maris para participar dessa nossa conversa, ele vai te fazer a próxima pergunta.
02:05Professor, boa tarde. O povo americano, eu estava lendo aqui, na minha leitura, já estou acompanhando essa guerra,
02:12esse atrito entre Donald Trump e o Irã, já tem um tempo, e o povo americano hoje está reagindo de
02:19uma forma muito negativa.
02:21O que o senhor pensa sobre isso em relação a Donald Trump?
02:24Ele parece que não está ligando muito para o povo americano, ele está muito focado, está com hiperfoco no Irã,
02:32sobretudo no esteito de Hormuz, e ligando pouco para o que o eleitorado americano está pensando.
02:38É correto fazer essa análise?
02:41A base mais enxuta de apoiadores do Donald Trump e os seus apoiadores dentro daquele movimento chamado Mega,
02:50Make America Great Again, nessa base, ele tem um apoio significativo, cerca de 70% desses eleitores específicos
03:00que eles apoiam essas operações. Contudo, quando a gente olha a população americana de uma forma mais ampla,
03:06esse apoio é menor do que 40%.
03:10Não é o interesse, tanto de uma grande parte dos conservadores como dos republicanos,
03:17que esse conflito se estenda bastante. Por quê?
03:21Porque ele tem causado consequências domésticas bastante sentidas pela população comum.
03:26A gente viu, por exemplo, o preço do barril de petróleo sair de pouco mais de 60 dólares
03:34antes do início desse conflito, em fevereiro.
03:38Hoje já está a mais de 100 dólares.
03:41Algumas estimativas chegam a dizer que o preço do barril pode chegar a 150 dólares,
03:46a depender da continuidade do bloqueio do Estreito de Hormuz.
03:49Então, me parece que ele está atendendo a um anseio de uma base de eleitores menor
03:59e, sim, ignorando a opinião da maior parte dos americanos,
04:04quando a gente enxerga esse cenário mais amplo,
04:06em que pelo menos 60% da população não apoia a continuidade do conflito.
04:13O mesmo fenômeno tem acontecido em Israel.
04:17Em Israel também tinha ocorrido uma certa diminuição no apoio à continuidade dessa operação militar.
04:24Professora, quero entender como o senhor avalia a notícia do adiamento,
04:29da votação pelo Conselho de Segurança da ONU, da proposta que veio do Bahrein,
04:32que pedia ali o uso da força para a reabertura do Estreito de Hormuz.
04:39O que está por trás desse adiamento?
04:42Teria alguma chance de ir adiante essa proposta? Explica para a gente.
04:47Seria muito dificultoso abrir o Estreito de Hormuz à força,
04:51porque você tem uma situação de guerra simétrica entre o Irã e os Estados Unidos,
04:56e o Irã tem uma vantagem estratégica evidente naquela região,
05:00porque ele é um estado costeiro,
05:02ele tem tecnologia missilística de terra, navio,
05:07ele tem também a tecnologia de drones,
05:10que tem sido utilizada bastante frequentemente naquela parte.
05:14Isso causaria uma escalada do conflito, por quê?
05:17Porque exigiria a participação de outros atores,
05:20não só atores regionais, como, por exemplo, algumas potências europeias.
05:24A gente sabe que o Trump tem feito clamores para que países europeus
05:29também ajudem, participem desse processo de tentar reabrir o Estreito de Hormuz.
05:35A França tem se manifestado contrário a esses pedidos.
05:41Emmanuel Macron vê que a única solução para a questão da abertura de Hormuz
05:45tem que ser diplomática.
05:48Trump tem um certo apoio tácito da Grã-Bretanha,
05:51mas nenhum grande movimento nesse sentido,
05:52de envio factual de navios ou de força militar para abrir o Estreito,
05:57porque isso, como eu disse anteriormente, vai escalar o conflito
06:02e vai ser muito dificultoso.
06:04O Irã tem uma grande vantagem naquela região.
06:07Professor, uma outra questão que eu quero trazer para o senhor
06:10é como que fica a situação de Israel no meio desse conflito
06:14que agora envolvem diretamente os Estados Unidos e o Irã.
06:18Porque a gente viu o Irã tendo as suas participações ali
06:21como o endossante das ações dos grupos terroristas ali ao redor de Israel,
06:30os Estados Unidos defendendo os interesses do seu aliado histórico
06:34e agora a gente tem os dois já diretamente no conflito.
06:38Israel fica a par porque o Irã promete, em retaliação a qualquer medida nova dos Estados Unidos,
06:44atacar os Estados Unidos e Israel novamente,
06:47como a gente viu nas manifestações recentes dos líderes iranianos.
06:50A situação de Israel vai se complexificando
06:58porque você tinha um apoio popular também alto no começo das operações,
07:04era um apoio de mais de 60%.
07:06Passado um mês de operações,
07:10sem que, novamente, se obter um resultado claro,
07:15essa porcentagem de apoio vem diminuindo,
07:18hoje há cerca de 45%.
07:21O governo de Netanyahu é um governo historicamente muito contestado,
07:26do ponto de vista doméstico,
07:28por algumas medidas de restrição de liberdades individuais,
07:32também tentativas de submeter o judiciário de Israel.
07:36E isso pode ser um problema se o conflito continuar,
07:41tanto para os Estados Unidos como para Israel.
07:44As forças de Israel também estão bastante utilizadas no sul do Líbano,
07:50em outros teatros de operação, não só no Irã.
07:54E um chefe de comando militar israelense
07:57veio ao público recentemente dizendo que
07:59o exército israelense pode sofrer de faltas de pessoal,
08:03porque são muitas frentes sendo operacionalizadas ao mesmo tempo.
08:08Então, se essas operações continuam,
08:13tanto o apoio doméstico vai continuar diminuindo,
08:16a tendência pelo menos é essa,
08:18e o governo de Netanyahu vai ser mais pressionado
08:21conforme o tempo for passando.
08:23Professor, mais uma pergunta do Rodolfo Maris.
08:26Professor, na quinta-feira foi anunciado pela Casa Branca
08:30que o Irã havia dito que estaria disposto a um cessar-fogo.
08:35Muito bem, na sexta-feira foram abatidos um F-15 e um A-10,
08:42dois caças de extrema tecnologia.
08:44O que isso significa?
08:46Donald Trump estava, de fato, blefando
08:48quando deu essa notícia do cessar-fogo com o Irã,
08:50ou o Irã ainda não jogou a toalha
08:52e está disposto, de fato, a ir à guerra com os Estados Unidos.
08:58O Irã certamente não jogou a toalha.
09:00O ministro das Relações Exteriores do Irã,
09:04o Abbas Arati, veio a público também dizendo que
09:06o Irã só concordaria com um acordo
09:10que Teherã considerasse um acordo justo
09:13e condizente com os interesses nacionais do país.
09:17Um cessar-fogo por si só não vai resolver
09:22os objetivos estratégicos americanos,
09:24que é desmantelar completamente a capacidade nuclear iraniana,
09:30desmantelar a capacidade iraniana de suportar,
09:34de apoiar alguns grupos terroristas ali na região,
09:39é o caso dos Houthis, é o caso também do Hezbollah,
09:42e também promessas de uma abordagem política
09:48mais amigável com a Casa Branca.
09:51Um cessar-fogo não vai resolver nenhum desses três objetivos.
09:54Por outro lado, a via militar tem se mostrado também muito difícil.
09:58É possível que o Irã venha a sentar na mesa de negociações
10:02se o país parar de ser atacado?
10:06Então, será que a questão é que essa Casa Branca
10:09estará disposta a realizar essa paralisação dos ataques
10:15para que negociações possam ser entabuladas
10:18com o mínimo de confiança entre as duas partes?
10:26Professor, para a gente fechar,
10:27o que o senhor entende por inferno
10:30quando o presidente americano faz essa ameaça?
10:33O que pode acontecer daqui a 48 horas,
10:36nesta segunda-feira, quando se encerra o prazo
10:38dado por Donald Trump?
10:41O inferno é simbolizado por mais ataques aéreos,
10:45mais bombardeios em regiões estratégicas,
10:49mas que, infelizmente, também acabam tendo
10:51uma consequência indireta sobre a população civil.
10:56É fundamentalmente uma escalada dos ataques americanos,
11:00mesmo uma maior frequência de ataques,
11:03uma maior escala de ataques,
11:05ataques em outras, em mais regiões.
11:08Então, o Irã, novamente, o Irã,
11:11ele teve a sua capacidade balística,
11:14de defesa antiaérea degradada,
11:17mas não completamente anulada.
11:21Então, ainda assim,
11:23vai demandar bastante tempo
11:25para que o país se sinta,
11:28de uma certa forma,
11:29acuado a ir para as negociações
11:33de uma forma beligerante.
11:36Ainda acredito que o Irã continua a exercer
11:39uma defesa por um tempo bastante significativo,
11:43o que vai, novamente aqui,
11:44causar problemas domésticos,
11:46tanto nos Estados Unidos,
11:47como até mesmo no próprio Israel.
11:50Professor, agora sim, para fechar,
11:52o senhor acha que essa ameaça
11:55é capaz de fazer com que o Irã
11:57ceda a um acordo
11:58ou reabra o Estreito de Hormuz?
12:02Vai depender do nível de destruição
12:04causado dentro do Irã.
12:05A gente já tem percebido
12:06que as mortes civis,
12:08elas somam cerca de 2 mil mortes,
12:12desde o começo do conflito,
12:13cerca de 25 mil feridos.
12:16Isso vai depender bastante
12:17de quais os alvos serão atacados,
12:20qual o nível de destruição
12:21que os Estados Unidos são capazes
12:23de infligir ao Irã,
12:25de modo a fazer com que eles
12:27negociem a força.
12:29Me parece que o Irã
12:30não está disposto a negociar a força.
12:32Ainda tem uma capacidade de defesa
12:35significativa para levar
12:37esse conflito,
12:38para poder se defender,
12:40por algumas semanas.
12:41Então a gente vai precisar
12:43verificar qual vai ser o nível
12:44desses ataques,
12:45qual vai ser o nível de destruição
12:47que eles podem causar.
12:48Ainda é muito incerto
12:49essas duas conjecturas.
12:52Agora sim,
12:53eu quero agradecer demais
12:54a participação aqui
12:55do professor Waldir Bezerra,
12:56professor de Relações Internacionais,
12:58sempre conosco aqui na Jovem Pan.
13:00Muito obrigado, professor.
13:02Eu quero agradecer o convite.
13:03Obrigado.
13:04Até a próxima.
13:04Obrigado, professor de Relações Internacionais,
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