00:00O planejamento militar dos Estados Unidos para o Irã chegou a um estágio avançado.
00:05As opções incluem ataques a líderes específicos e até a tentativa de mudança de regime em Teherã,
00:11caso haja a ordem do presidente Donald Trump.
00:14E para analisar a crescente tensão entre os países,
00:18o Jornal da Manhã conversa agora com o professor de Relações Internacionais,
00:22Marcos Vinícius de Freitas.
00:24Professor, bom dia. Seja bem-vindo aqui ao Jornal da Manhã.
00:29Bom dia, é um prazer conversar com vocês sempre.
00:31Donald Trump deve levar essa queda de braço aí até o fim.
00:35Ele já anunciou que esse ataque poderia ocorrer neste fim de semana, inclusive, né?
00:41E esse que é o grande problema, né?
00:43Porque, por um lado, Trump negocia e afirma que está negociando a questão da paz com o Irã,
00:51mas não tem claros efetivamente os seus objetivos.
00:55Ele disse no primeiro ataque, né, que havia obliterado todas as instalações nucleares do Irã
01:03e agora afirma que precisa, novamente, que o Irã assine um acordo,
01:08afinal, eles não conseguiram os resultados esperados.
01:11Então, o grande problema é que quem negocia com a Casa Branca
01:16não sabe efetivamente quais são os objetivos
01:19ou se aquilo que está sendo negociado naquele momento
01:23não é uma forma de preparar uma guerra ao mesmo tempo.
01:29E o fato de ele colocar uma presença militar tão grande na região
01:34deixa muito clara a perspectiva de que seria uma enorme frustração
01:40para os Estados Unidos e para o governo Trump de não atuar
01:44e de não utilizar estes momentos também para expor a tecnologia militar
01:49que os Estados Unidos têm e do qual o presidente Donald Trump se orgulha muito.
01:53E ele tem utilizado muitas destas operações justamente para enfatizar
01:58o primado tecnológico militar dos Estados Unidos.
02:02Então, a impressão que se tem é de que as negociações existem
02:08mas elas não serão aí o impedimento de uma ação dos Estados Unidos
02:14particularmente neste momento que a Casa Branca enfrenta também
02:17alguns problemas domésticos.
02:19Agora, professor, em relação também a esse programa nuclear iraniano
02:24de que forma que ele preocupa tanto o Ocidente?
02:28Existe a percepção, já há muito tempo, de que países deveriam não ter.
02:36Nós temos aí um tratado de não proliferação nuclear
02:40justamente com a preocupação de que menos países no mundo
02:45tenham acesso a armamentos nucleares e renunciem aos armamentos nucleares
02:51com a promessa de que os países nuclearmente armados
02:55eles necessariamente não prestariam tecnologia nuclear
03:01não cederiam energia nuclear
03:04energia não, equipamentos militares nucleares
03:07e assim se estabeleceria um balanço de paz no mundo
03:11entre aqueles que não têm e aqueles que têm armas nucleares.
03:14Mas o que nós vimos é que, por exemplo, o Estado de Israel tem armas nucleares
03:20é sabido que têm armas nucleares e isto gera para os países da região
03:25uma certa, um certo temor com a possibilidade de Israel
03:30aí utilizar equipamentos nucleares na região.
03:35A mesma preocupação que Israel tem, por exemplo,
03:38caso haja uma aliança entre Irã e Paquistão
03:41e que sejam utilizados equipamentos nucleares que o Paquistão tem.
03:45Mas o fato é de que os países que pretendem ter aí uma proteção do seu regime
03:52entenderam que o argumento nuclear ele é extremamente persuasivo.
03:58Veja, Trump não faz o mesmo tipo de ameaça, por exemplo, com relação à Coreia do Norte.
04:04E isso é o que gera a estabilidade que o regime de Kim Jong-un precisa,
04:10Kim Jong-un necessita e precisa do seu país para garantir o seu regime político.
04:18Então o argumento nuclear ele é muito importante nesse tipo de contexto.
04:24Porque nós observamos uma série de intervenções que aconteceram no mundo,
04:28por exemplo, no Iraque, na Síria, na Líbia.
04:33E esses países tiveram justamente, sofreram as consequências dessas intervenções.
04:40Muitos não conseguiram se recuperar até hoje dessa intervenção,
04:45particularmente dos Estados Unidos, nesses lugares.
04:48E aí que se criou uma instabilidade política interna
04:52que fez com que esses países não se recuperassem.
04:54E a preocupação com o Irã é justamente com o fato de que
04:58um Irã nuclearmente armado poderia oferecer duas áreas de contenção.
05:06Uma com o Estado de Israel, com o qual o Irã tem aí
05:11um histórico positivo no passado, mas tem durante o regime dos ayatolás
05:18uma bandeira antisionista muito grande.
05:23e no caso também da própria Arábia Saudita,
05:27em razão daquela disputa que existe religiosa entre sunnis e xiitas.
05:33Então é por essa razão que o Irã, que foi um império grande do passado,
05:38ameaça e cria expectativas negativas caso tenha também armas nucleares.
05:44Para o mundo de uma forma geral, mais uma instabilidade militar naquela região.
05:49A gente já tem a guerra na Ucrânia, a questão da faixa de Gaza.
05:53Com relação, por exemplo, também à questão do petróleo, a questão energética.
05:57Como é que fica o mundo inteiro diante de mais um possível conflito?
06:03Existe só uma coisa que eu esqueci de mencionar.
06:06Existe uma fátua do atual ayatolá dizendo que o Irã é contra armas nucleares.
06:12Isso é importante sempre de dizer, porque essa é a alegação primeira que o Irã afirma.
06:17Existe uma ordem religiosa do atual ayatolá proibindo a questão de armas nucleares,
06:24porque muitos no islamismo afirmam que armas nucleares são contrárias à vontade do próprio Jalá
06:33e dos seus princípios religiosos.
06:35Agora, o mundo tem aí no Oriente Médio sempre um polo de instabilidade.
06:42Este polo de instabilidade tem muito a ver também com a questão do preço do petróleo
06:47e com o fato de que esses países dominam a tecnologia do petróleo.
06:52E claro que toda e qualquer instabilidade na questão do petróleo gera aí impactos globais enormes.
06:58Isso é só nós lembrarmos, no caso do Brasil, aí na América Latina,
07:02que nós tivemos a década perdida de 80 em razão das crises do petróleo de 73 e 79.
07:09E isto foi aí extremamente prejudicial ao crescimento econômico.
07:14Agora, o que nós notamos é que existe uma redução paulatina da dependência do petróleo,
07:22globalmente falando, com a ascensão de carros elétricos, com energias alternativas ao petróleo,
07:30mas ainda assim o petróleo é importante como combustível
07:34e também como uma série de outras utilizações que o petróleo tem,
07:39que é um elemento que faz parte da nossa vida.
07:42Então, a região sofre deste problema, dessa instabilidade criada já há muito tempo,
07:49não só pelos norte-americanos, mas pelos britânicos também,
07:53que sempre viram nesta tentativa de dividir para conquistar
07:57uma forma de manter o controle sobre a região
08:01e, de fato, com este controle fazer com que a região tenha uma dependência
08:07e essa dependência militar faz com que eles não consigam aí
08:12o desenvolvimento necessário, muitas vezes,
08:15para alcançar os objetivos de crescimento econômico ou de estabilidade política.
08:22O fato de a região ter sido dividida em países menores
08:26enfraquece aí todo e qualquer posicionamento militar e também de proteção.
08:32Então, nós notamos que essa instabilidade é grande
08:35e tem um último fator a enfatizar também,
08:38é que a tentativa de criar instabilidade no mercado do petróleo
08:43afeta também e, principalmente, o principal concorrente dos Estados Unidos,
08:48que é a China, porque a China não tem ali a independência energética
08:55que os Estados Unidos têm.
08:57Os Estados Unidos são aí o grande consumidor,
09:00produtor e consumidor de petróleo mundiais
09:02e tem aí a sua independência energética
09:05e a China, desde 1993, é dependente de petróleo
09:09e necessita deste petróleo que também vem do Oriente Médio.
09:14É, a gente fica até pensando, né, professor,
09:16se não é uma estratégia de Donald Trump,
09:18visto que fez aquela incursão também na Venezuela,
09:22o ouro disparou, o petróleo, como o senhor bem enfatizou,
09:25nos últimos sete meses também teve essa elevação,
09:28a maior desse período,
09:30e aí realmente parece uma ação estratégica,
09:33não tanto uma preocupação com a questão nuclear,
09:35e sim com o mercado e, dessa forma,
09:38os Estados Unidos se fortalecerem?
09:41Sim, não é?
09:42E tudo isso faz parte da estratégia do presidente Trump
09:46de fazer com que os Estados Unidos
09:49permaneçam na sua posição de potência hegemônica principal do mundo.
09:55E isto é fundamental porque ele tem enfrentado justamente
09:59as consequências de um país que vem num declínio,
10:03não só econômico, mas também num declínio de liderança.
10:07E você veja, veja, por exemplo,
10:09essa questão da junta da paz que o presidente Trump criou.
10:13A probabilidade de esta junta da paz se tornar um fiasco
10:18é muito grande, não é?
10:20Porque ele presume que vai ser o líder supremo
10:23e todos os países têm que ter uma relação ali
10:27de vassalagem com relação aos Estados Unidos.
10:31Então, o presidente Trump observa um declínio norte-americano,
10:36tenta reverter isso por meio do discurso
10:39e por meio das medidas que tem adotado,
10:42mas já começa, e ontem foi um caso muito claro,
10:46a enfrentar as resistências internas.
10:49Porque as medidas que ele tem tomado
10:52e a maneira como ele tem feito nos Estados Unidos
10:55são justamente contrárias àquelas instituições
10:58que os Estados Unidos sempre fizeram questão
11:01de enfatizar com uma regra e com um modelo global.
11:05E, por exemplo, a decisão da Suprema Corte
11:07de retirar de Trump a possibilidade de utilizar tarifas
11:11como política de punição global
11:15justamente para forçar os países
11:17a atenderem as demandas dos Estados Unidos,
11:20este chicote que ele utilizava muito,
11:24ele perdeu, não é?
11:25A partir de ontem, inclusive, ficou furioso
11:28com relação à forma como membros da Suprema Corte agiram.
11:31Então, talvez a guerra venha aí no sentido de Trump
11:35querer enfatizar a necessidade de que precisa,
11:39como presidente, reter e manter todos os mecanismos possíveis
11:44para atuar.
11:45Mas o que nós vimos é que este imperialismo
11:50característico desta fase do governo de Trump
11:55começa, de alguma forma, a diluir
11:57em razão do desgaste político,
12:00como nós observamos nessa situação da decisão da Suprema Corte,
12:04mas também com resultados econômicos
12:06que estão ficando abaixo
12:08daquilo que se esperava ou que se projetava.
12:11Professor Marcos Vinícius de Freitas,
12:14obrigada pelos seus esclarecimentos aqui ao Jornal do Manhã.
12:17Tenha um bom fim de semana.
12:19Eu que agradeço pela oportunidade sempre.
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