00:00A escalada militar no Oriente Médio leva atenção ao Estreito de Hormuz, com 150 petroleiros parados e o petróleo branco
00:08disparando hoje.
00:09Chegou a subir mais de 8%, agora está subindo aproximadamente 5% depois dos ataques ao Irã.
00:15Para analistas, as consequências desse cenário são muito imprevisíveis ainda.
00:19E a gente recebe agora aqui o Hildo Sauer, que é vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente da
00:25USP.
00:25Professor, seja muito bem-vindo a essa edição do Radar.
00:29Muito obrigado pela oportunidade.
00:32Bom, eu queria que o senhor explicasse para a gente quais são os riscos, agora com o Estreito de Hormuz
00:37parcialmente bloqueado,
00:39de a gente ter, de fato, um choque na oferta global de petróleo e, possivelmente, um aumento duradouro do preço
00:47do petróleo.
00:50Veja, surpreendentemente, o preço aumentou os 10%.
00:54Ele, historicamente, flutua entre 60 e 80 dólares.
00:59Estava num limite inferior, em torno dos 60.
01:03Isso depende se é Brent, se é WTI ou outros parecidos, mas o preço de referência costuma ser o Brent.
01:12É evidente que isto é resultado de uma espécie de acordo informal da visita do Trump, presidente Trump, à Arábia
01:21Saudita,
01:22onde houve uma espécie de acordo com o príncipe regente da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman,
01:29onde, no ano passado, apesar de a economia mundial ter baixado seu nível de atividade, em parte por causa das
01:40ações tarifárias do governo norte-americano,
01:44a Arábia Saudita, que lidera a OPEP, e junto com a OPEP+, outros 10 países, 12 da OPEP, 10
01:54da OPEP+,
01:54constituem o cartel que controla o preço.
01:57Do outro lado, mais está a Rússia, entre outros países.
02:01Pois bem, mantiveram o aumento de produção de 411 mil barris do ano passado,
02:07e no começo desse ano iam manter também o outro aumento.
02:10Isso, em parte, fez com que o preço, que historicamente oscilava entre 60 e 80 dólares, caiu para um nível
02:17inferior.
02:17E, surpreendentemente, agora, com o bloqueio parcial do Estreito de Hormuz, onde há dois fluxos importantes,
02:26o primeiro, obviamente, é do petróleo, lá fluem aproximadamente 20 milhões de barris,
02:326 milhões da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes, tem outra produção grande,
02:37o Catar, Bahrein, Catar, principalmente, é gás natural e perfeito.
02:42Então, para minha surpresa, os preços de referência hoje estão em 72, 73 dólares.
02:49Bom, isso é uma conjuntura atual, porque talvez haja uma espécie de otimismo
02:53de que aquele canal seja desobstruído.
02:58Mas, do outro lado, nós precisamos lembrar de uma coisa.
03:01Até recentemente, 4, 5, 10 anos atrás,
03:05os Estados Unidos eram altamente dependentes de importação.
03:08O fato novo é que, em mercê da atuação a norte-americanária,
03:14chamado shale oil, shale gas,
03:16os Estados Unidos eram exportadores de gás natural e perfeito,
03:20inclusive para a Europa, junto com o Catar,
03:22depois da decisão de parar de usar o gás russo,
03:27que é uma outra discussão,
03:30e se tornaram praticamente autossuficientes em petróleo.
03:34Então, nesse sentido, ironicamente,
03:37o ataque conjugado de Israel e dos Estados Unidos ao Irã
03:44vai ter um efeito grande sobre a Europa,
03:48vai ter um efeito sobre o preço,
03:50e, acima de tudo, o fluxo para a China,
03:52que a China tem grande parte do seu petróleo,
03:55dessa região,
03:57e tem que passar pelos treinos de Urbuns,
03:59para depois seguir em direção ao leste.
04:01Então, é difícil fazer previsões,
04:05porque a informação que nós tínhamos
04:07é de que, parcialmente,
04:09o fluxo de navios do Estreito de Urbuns
04:11estava paralisado.
04:13Havia uma grande quantidade de navios,
04:15esperando eu não ter informação atualizada
04:17de hoje, de manhã, de agora,
04:19mas, aparentemente, a conflagração está lá,
04:22e, além de obstruir a passagem do petróleo,
04:26que não teve uma resposta tão acentuada
04:30como eu esperaria, pelo menos, no curto prazo,
04:34em parte, como expliquei,
04:36a autossuficiência norte-americana
04:38e, talvez, alguns estoques,
04:40o outro impacto importante
04:42é no preço do gás natural,
04:44de perfeito,
04:45onde um dos grandes provedores,
04:47especialmente com a central lá de Ras Lafano,
04:51que fica ali no Golfo Pérsico,
04:52eu estive lá, alguns anos atrás, visitando,
04:55e, então, o Qatar, inclusive,
04:58parou a produção por razões de segurança,
05:01assim como na Arábia Saudita,
05:03uma grande refinaria,
05:05talvez a maior deles,
05:06teve um incêndio provocado
05:08por algum incidente com drones.
05:10De maneira que os fatos no campo
05:14são mais graves, na minha leitura,
05:18do que o que aconteceu até agora,
05:19especialmente no preço do petróleo.
05:22Esperava-se que, talvez, o surto
05:23fosse mais elevado
05:25e a sua manutenção ou não do preço elevado,
05:28em torno de 80,
05:29ou até mesmo 100 dólares,
05:31que era de se esperar,
05:32mesmo em junho do ano passado,
05:34que foi uma ação mais limitada,
05:36o preço esteve maior do que está agora.
05:39Chegou próximo dos 80 dólares,
05:4178, e hoje está inferior.
05:43Então, esse é o quadro que nós temos em relação.
05:46Agora, se este bloqueio continuar,
05:50não há dúvida nenhuma de que
05:52o mundo vai passar a depender,
05:53e muito mais, da produção do ódio russo,
05:57que, nesse sentido, então,
05:58a Rússia, as sanções e tal,
06:02voltariam os fluxos da Rússia,
06:05especialmente para a China
06:06e também para a Índia,
06:09a serem aumentados
06:11com receita maior
06:13para a Rússia,
06:15coisa que o governo americano
06:17e os europeus
06:18tentaram bloquear
06:20com várias ações
06:21que foram ineficazes até agora.
06:23Na verdade,
06:24o mundo tem um quadro
06:26muito, relativamente simples.
06:28O consumo e produção mundial
06:30de petróleo
06:31são na hora de 100 milhões de bairros.
06:33Como eu disse,
06:34de 20 a 25,
06:35saem ali dos quase 10 milhões
06:37da Arábia Saudita,
06:38mais Emirados Árabes,
06:40mais o Kuwait,
06:42mais o Iraque,
06:43que estão ali na volta,
06:44e passam pelo estreito de Ormuz
06:47e o próprio Irã.
06:50O restante,
06:53a Rússia exportava
06:54em torno de 8 a 10 milhões
06:57de barris
06:59e o restante
07:01vem de várias fotos.
07:02Canadá,
07:024 milhões
07:03e a Venezuela
07:05se tornou praticamente irrelevante.
07:08É uma inversão
07:09de posições.
07:09O Brasil,
07:10antigamente,
07:12produzia menos
07:13que a Venezuela.
07:14Hoje,
07:14o Brasil está produzindo muito
07:16e está exportando
07:171 milhão de barris por dia,
07:18embora reimporte
07:19derivados
07:20por causa da situação
07:21da capacidade de refino
07:24muito deficiente
07:25no Brasil.
07:25infelizmente,
07:26nas últimas décadas
07:27não houve avanço.
07:28Isso foi o caso brasileiro.
07:30De qualquer maneira,
07:32neste momento,
07:34surpreendentemente,
07:34na minha leitura,
07:36o impacto,
07:36o preço,
07:37acabei de ver aqui na tela,
07:39que estava em 77 dólares
07:40semelhante ao que foi
07:41em julho do ano passado.
07:42Eu acho que a tendência é
07:45que,
07:45à medida que a conflagração
07:47continuar,
07:48e se o Irã passar
07:50mantendo
07:51o estreito de Ormuz
07:53bloqueado,
07:53independentemente
07:55da ação
07:55naval norte-americana
07:57e, eventualmente,
07:58de outros países,
07:59só a conflagração lá
08:01já vai impedir
08:02por uma série
08:03de motivos
08:03o fluxo
08:04do petróleo.
08:05E aí,
08:06dependendo da duração
08:07desse bloqueio,
08:10teremos
08:11uma condição
08:12onde o preço
08:14tenderá
08:14a manter,
08:15vai manter,
08:16como o dia
08:17destapou,
08:18100 milhões
08:19de barris
08:19por dia.
08:20No fundo,
08:21o que há
08:21quando há essas crises
08:22é o rearranjo
08:24de origem e destino.
08:25Como houve
08:26quando a Rússia
08:28foi sancionada,
08:29o que foi feito?
08:30O petróleo russo
08:31que migrava,
08:32que ia para várias regiões,
08:34acabou sendo preferencialmente
08:35dirigido para quem?
08:36Para a Índia,
08:37que refinava o petróleo
08:38e exportava os privados
08:41para os Estados Unidos,
08:43para a Europa,
08:44com um belo acho.
08:46A China
08:47passou a comprar
08:48petróleo
08:49mais barato.
08:50Como o petróleo
08:50aumentou
08:51em relação
08:52ao preço anterior,
08:53a Rússia
08:54acabou tendo
08:55preços quase normais
08:56anteriores.
08:57Esse acordo
08:58Bin Laden,
09:00desculpe,
09:01Mohammed,
09:02desculpe,
09:03Mohammed Bin Salman
09:04e Trump
09:06no ano passado
09:07meio que estabilizaram
09:08o preço
09:09num patamar
09:10muito inferior.
09:11Em parte,
09:12esse acordo
09:13é uma espécie
09:14de compensação
09:16entre a Arábia Saudita
09:18e os Estados Unidos
09:18por uma série
09:19de relações.
09:20A Arábia Saudita
09:21que usava
09:21obrigatoriamente
09:22o dólar,
09:23que era um dos
09:24grandes ativos
09:26financeiros
09:26depois que em 72
09:28os Estados Unidos
09:28aboliram
09:29o padrão ouro,
09:31havia a exigência
09:32de que todo o petróleo
09:33do mundo
09:34devia ser comprado
09:34em dólar,
09:35meio que criando
09:36uma espécie
09:37de garantia paralela.
09:38Todo mundo
09:38precisava dólar,
09:39então as emissões
09:39americanas
09:40estavam garantidas.
09:41A Arábia Saudita
09:42deixou de fazê-lo
09:43e, em compensação,
09:44nesse acordo
09:45com o Trump
09:46do ano passado,
09:48a OPEP
09:48se comprometeu
09:49a aumentar
09:51as cotas
09:51de produção.
09:52Só esse conjunto
09:53de efeitos
09:54que me parece
09:54ainda ter um rescaldo
09:56está segurando
09:57o preço.
09:58Mas se o estreito
09:59de ouro
09:59fosse ficar bloqueado
10:00por um tempo
10:01longo,
10:02não há mínimas dúvidas
10:03de que os estoques
10:05que existem,
10:06Estados Unidos
10:07tem um grande estoque
10:08de petróleo
10:09para 80,
10:1190,
10:11100 dias
10:11de consumo,
10:13que o consumo
10:13anual há entre
10:14petróleo e líquidos
10:15de gás
10:16equivalente a petróleo,
10:18batendo 18 a 20 milhões
10:19de barris por dia,
10:21que é 20%
10:21do consumo mundial,
10:22e o resto
10:23dos países
10:24vão ter
10:26uma situação
10:26que me parece
10:29muito crítica
10:30se o bloqueio
10:32continuar.
10:33Estou vendo
10:33o número
10:34aqui na tela,
10:3477 dólares
10:36por barril
10:37mais alto
10:37do que era
10:38o de manhã.
10:38É isso,
10:39professor Edu Sauer,
10:40muito interessante
10:41tudo o que você
10:42trouxe para a gente
10:42aqui, viu?
10:43Edu Sauer,
10:44que é vice-diretor
10:45do Instituto de Energia
10:46e Ambiente da USP.
10:47Muito obrigado
10:47pela participação
10:48e até a próxima.
10:50Muito obrigado,
10:51um abraço a todos.
10:52Um abraço.
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