- há 4 meses
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00:09Esmeralda
00:31Esmeralda
00:33Me ves com a luz del corazón
00:40Esmeralda
00:44Esmeralda
00:46Esmeralda
00:48Tu amor escuro como el sol
00:56Esmeralda
01:01Esmeralda
01:02Esmeralda
01:06Esmeralda
01:10Esmeralda
01:12Esmeralda
01:18Esmeralda
01:19Esmeralda
01:21Esmeralda
01:26Esmeralda
01:28Esmeralda
01:35A CIDADE NO BRASIL
01:58O que faz aqui?
02:01Responda!
02:02Não me toque!
02:03Quem é você?
02:05Eu sou filha do Nagual.
02:08Do bruxo que pode me transformar em cobra.
02:10Se me tocar, eu te mordo e morrerá envenenado.
02:14O que você está dizendo?
02:16Eu também tenho o poder de me transformar em rio.
02:18Vivo na nascente do rio, entre essas pedras.
02:22Se tentar me fazer mal,
02:24saltarei sobre você, envolverei você
02:27e o arrastarei até lá embaixo,
02:29para o fundo da gruta,
02:31onde o riacho se perde embaixo da montanha.
02:33Você está louca?
02:35Você é mau.
02:36Tem cheiro de pólvora e enxofre,
02:39como deve ser o cheiro do próprio diabo.
02:43Você veio semear a morte.
02:45Vai embora!
02:46Vai embora da minha montanha!
02:48Não volte aqui nunca mais!
02:49Espere!
02:58Maldita!
03:19Foram momentos muito difíceis, Grisanta.
03:22Eu sei.
03:23Não só para você, mas para mim também.
03:26Parece que estou vivendo outra vez a angústia
03:28de quando disse ao seu marido que perderam os brincos.
03:31Ai, sim, Grisanta.
03:33Só de me lembrar, eu me angustio.
03:36Eu tive que dizer a ele que não tinha certeza
03:38de que tinha deixado na cidade.
03:40A questão era ganhar tempo.
03:42Ele gostava muito daqueles brincos de esmeralda.
03:47mais do que pelo valor,
03:49porque tinham pertencido à avó dele,
03:50depois à mãe.
03:52Era uma recordação de família.
03:54Talvez pudéssemos ter recuperado.
03:57Aquela mulher, na realidade,
03:59não queria aceitar nem as joias, nem o dinheiro.
04:03Durante todos esses anos,
04:06evitei voltar aqui.
04:09Eu pensava que neste lugar
04:10estivesse escondido o segredo.
04:14Esqueça isso, menina.
04:16Lembre-se de que seu marido
04:17veio outras vezes à casa grande
04:19e nunca descobriu qualquer indício
04:21que pudesse nos denunciar.
04:23Não tem por que ficar preocupada.
04:26É, mas ainda assim eu tenho medo, Grisanta.
04:30Não sabemos se aquela mulher
04:33ainda vive.
04:35Deve estar lá na montanha.
04:36Já disse para não deixá-la sair sozinha.
04:38E quem controla ela?
04:40Só mesmo se amarrar a perna dela.
04:42Foi criada com leite de cabra
04:44e anda como uma cabra saltando por aí.
04:47Até que um dia aconteça um acidente.
04:49Não tenha medo.
04:50Ela tem garras nos pés
04:52para poder se agarrar muito bem nas pedras.
04:56De qualquer modo, é muito perigoso
04:57ela andar sozinha pela montanha.
05:00Para Esmeralda, não tem perigo.
05:02Qualquer um diria que tem olhos
05:04nas pontas dos dedos.
05:06E do mesmo jeito,
05:07vai para onde quiser a luz do dia.
05:09E quando tem a sombra da noite,
05:11no meio da escuridão.
05:13Sabe encontrar muito facilmente
05:14todos os caminhos.
05:17Menos o que leva a minha casa.
05:21Há dois dias que ela não aparece lá.
05:23Ela é dona dos seus passos.
05:25Não posso obrigá-la.
05:29É melhor ter cuidado, Dominga.
05:33Sabe que eu poderia tirá-la de você.
05:35E o que eu faço?
05:37Diga a Esmeralda para ir me ver.
05:40Esta tarde, eu espero sem falta.
05:48Afaste-o, Santo Aleixo.
05:51Dá medo vê-lo.
05:53Nem o espantalho que tem no campo
05:55pode causar tanto medo.
06:05Então,
06:07já conseguiram tirar tudo das malas?
06:10Sim, Rodolfo.
06:11Está tudo em ordem.
06:12Ah, que bom.
06:13Eu estou vendo os livros.
06:15Quero me livrar disso
06:17o mais rápido possível
06:18para poder aproveitar melhor
06:20a nossa estada aqui.
06:21Mas o Dionísio sempre cuidou disso,
06:23todos esses anos.
06:24Ah, eu sei, Dionísio é muito honesto
06:27e eu tenho absoluta confiança nele,
06:28mas ele insiste
06:30que eu devo examinar a contabilidade.
06:32E José Armando, onde está?
06:35Foi dar uma volta pelas redondezas.
06:39Tem muito tempo que ele saiu?
06:43Há quase uma hora.
06:46Não vai ficar preocupada com ele.
06:48A essa altura seria ridículo.
06:51Ele já chegou.
07:00Olha lá, que figura.
07:04Monta o cavalo perfeitamente.
07:06Parece que tem isso no sangue.
07:08que tem isso no sangue.
07:28Finalmente, chegou.
07:36Aquele homem esteve aqui, procurou você.
07:42Disse que há dias não vai vê-lo.
07:44Ah, é que eu não quero mais ir.
07:48Eu fico entediada. Ele me tranca lá todo dia.
07:52E mantém horas e horas trancada lá.
07:54Devia agradá-lo, minha filha. Sabe o quanto deve a ele.
07:57Eu sei. Ele é muito bom comigo.
08:00Espero você hoje à tarde.
08:03Não tenho saída. Tenho que ir.
08:06Olha, mamãe, eu cortei para você.
08:08Que orquídeas mais lindas.
08:10Eu encontrei lá na montanha.
08:12Obrigada, filho.
08:14Gostei muito do passeio. Tem umas paisagens maravilhosas.
08:19Eu estava correndo pela montanha e encontrei uma gruta.
08:23A propósito, eu tive um encontro muito diferente.
08:26E onde?
08:28Eu atirei numas codornas.
08:31E quando fui buscar a presa, cheguei em entrada de uma gruta onde tem uma cascada.
08:36A água cai por umas pedras e se perde no Poço Natural, onde parece que corre um rio subterrâneo.
08:41Sim, fica quase nos limites da casa grande.
08:46E aí vi aquela moça.
08:47Uma moça?
08:49É. Linda.
08:52Aquele medroso do Menésio me deixou sozinha.
08:54Onde?
08:55Lá, na gruta da cascata.
08:57Ele levou uns morangos.
08:59Uns morangos grandes e suculentos, Dominga.
09:03Eu ia trazer.
09:05Mas com o susto que eu levei, eles caíram todos.
09:08Que susto?
09:09Com aquele homem que chegou.
09:12Que homem?
09:12Um desconhecido.
09:14Disse que o pai dele era o dono da casa grande.
09:19Estava comendo uns morangos que eu até aposto que eram da nossa fazenda.
09:24Eu reclamei e ela ficou furiosa.
09:26Disse um monte de coisas estranhas e quando eu segurei o braço dela para perguntar o nome,
09:30ela mordeu a minha mão como uma fera selvagem.
09:34Mas será possível?
09:36Eu vou mandar o Dionísio investigar quem é ela.
09:39Não, não, papai.
09:40Por favor, deixa assim.
09:41Realmente não me fez nada.
09:43Reagiu dessa forma mais por medo do que por outra coisa.
09:47Além disso, me olhava de uma forma estranha.
09:51Tinha um olhar vago, impreciso.
09:56Eu sou filha do Nagual.
09:58Do bruxo que pode me transformar em cobra.
10:02Se me tocar, eu te mordo e morrerá envenenado.
10:08Tudo o que disse foi tão absurdo, tanta bobagem.
10:12Eu tenho quase certeza de que essa pobre moça não está boa da cabeça.
10:16Mas quem pode ser? Você tem alguma ideia, Rodolfo?
10:21Provavelmente pertence a alguma família da Redondeza.
10:24Essa gente miserável.
10:27Entra na propriedade para roubar as coisas.
10:30É uma piana, pai. Porque realmente é muito bonita.
10:34Tão bonita que merecia um destino melhor.
10:38E de repente quis me segurar pelo braço.
10:41Então eu assustei ele, Dominga.
10:44Eu disse que eu era filha do Nagual.
10:46E quando quis me segurar outra vez, eu mordi ele e comecei a correr.
10:51Ele acreditou, Dominga. Ele acreditou porque não teve coragem de me seguir.
10:56Ele acreditou.
11:03Isso tinha que acontecer.
11:06Eles tinham que se encontrar.
11:12Perdoe por entrar sem bater, mas a porta estava aberta.
11:15Eu deixei aberta para entrar sol e ar. O que deseja, Dionísio?
11:19Estou procurando o seu Rodolfo.
11:21Está no escritório.
11:22Então, com licença.
11:25Dionísio.
11:25Eu queria te perguntar uma coisa.
11:29Pode falar?
11:31Aquela mulher.
11:32A que atendeu minha patroa quando ela deu à luz.
11:35Lembra-se?
11:36Sim, claro.
11:38É Dominga, não é?
11:39É.
11:40Tenho curiosidade, sabia?
11:43Ela ainda está viva?
11:44Sim, senhora.
11:45Pode-se dizer que vive por puro milagre.
11:50Por que disse isso, Dionísio?
11:53Foi uma tragédia que aconteceu.
11:56Que tragédia?
11:57O barraco onde ela morava queimou e ela se salvou por obra de Deus.
12:02É.
12:03Dionísio, você está aqui.
12:05Eu já ia procurar o senhor.
12:07Eu fiquei conversando um pouco com Dona Crisanta sobre os velhos tempos.
12:10Vamos ao meu escritório.
12:11Sim, senhor.
12:11Claro.
12:12Eu quero que você me explique um lançamento que eu não entendi.
12:15Ah, mas claro.
12:24Aquela mulher ainda está viva.
12:27Pensei que tivesse morrido.
12:29Que tivesse levado o segredo para o túmulo.
12:30Mas está viva.
12:33Viva.
12:35Viva.
12:36Não vai, filha.
12:38Ele disse que ia te esperar.
12:42Tá.
12:43Eu já vou.
12:45Tá pensando em quê?
12:47Em nada.
12:49E por que está suspirando?
12:52É que...
12:54Aquela voz...
12:57Me deixa triste ouvir uma voz nova e não saber como é a pessoa.
13:03E pode me dizer qual é essa voz que está ouvindo?
13:08Dominga.
13:11Por que eu sou cega?
13:15Por que eu nunca pude ver?
13:23Minha filha...
13:24As coisas são como são.
13:27Uns não são pretos e outros brancos.
13:31Uns com a cara feia e outros com a cara bonita.
13:35Uns que podem ver.
13:37E outros com os olhos sem luz.
13:40Mas por que tinha que ser eu?
13:43Por que tinha que acontecer comigo?
13:47Por que Deus decidiu assim?
13:50E com Deus não se pode discutir.
13:54Para quem me deixou viver?
13:57Se me tirou a alegria de poder ver.
13:59Cala a boca, menina.
14:01Não blasfeme.
14:09Você não ia viver.
14:11Estava morta quando chegou este mundo.
14:16Faltou um pouquinho assim para eu acender sua vela.
14:20Para fazer um velório de anjinho.
14:23E você ressuscitou.
14:32Se aquele...
14:33Que está lá em cima.
14:35Se ele quis devolver a sua alma.
14:39Deve ter sido por algum motivo.
14:42Deve ser verdade o que dizem.
14:45Que cada um tem o seu destino.
14:50Mas...
14:52Pode me dizer qual será o meu?
14:56E por que tanta pergunta?
14:58Diga.
14:59Por que tanta tristeza e tanta coisa estranha?
15:04Você nunca se queixou de não poder ver.
15:07Anda pelas montanhas com mais firmeza do que muitos que enxergam.
15:12Se apesar de sua desgraça sempre foi alegre e contente.
15:16Por que isso agora?
15:19Eu não sei.
15:24Esta cela é a de primeira.
15:26Quero que amanhã, quando sair, ponham esta montaria em meu cavalo.
15:29Pode deixar, patrão.
15:32Esta cela é minha.
15:38Nunca tinha me sentido assim, Dominga.
15:41Será que eu fico assustada ao encontrar uma coisa que eu não conheço?
15:47Desde que eu lembro...
15:49Enquanto eu fui crescendo neste mundo de sombras que me cerca...
15:54Cada coisa estava em seu lugar.
15:57Cada voz tinha um nome.
15:58Cada ruído.
15:59Cada cheiro era familiar.
16:02E quando eu não sabia como era uma coisa...
16:05Era só estender a minha mão.
16:08E tocar.
16:10E assim eu podia ver...
16:13É...
16:14A minha maneira.
16:16Você lembra, Dominga?
16:18Você lembra daquele gamo que Adrian aprendeu só para que eu pudesse tocá-lo?
16:22E eu perguntava...
16:25Como é um gamo?
16:27E ele me dizia...
16:29Ele tem patas longas...
16:31Olhos grandes...
16:33E um pelo fininho, fininho.
16:39Coitadinho.
16:41Tremia tanto.
16:43Mas com meu carinho ele foi se acalmando.
16:48Deve ter sentido o mesmo medo...
16:50Que eu senti na montanha quando ouvi aquele caçador chegar.
16:55Escute o que esta velha diz, Esmeralda.
16:59Não deixe que ele te perturbe.
17:03Afaste-se dele.
17:07Me desculpe.
17:08Eu não sabia que a cela era sua.
17:11Mas o que puseram no meu cavalo não era legal.
17:13E pensei que já que esta fazenda é do meu pai...
17:16Eu poderia usar tudo o que nela tem.
17:18Não. Nem tudo.
17:22Como foi seu passeio, doutor?
17:24Chegou no momento muito oportuno, Dionísio.
17:27Não ensinaram este homem a respeitar seus patrões?
17:29É meu filho, Adrian, doutor.
17:33Não sei por que. Me angustio.
17:36Toda vez que eu lembro da voz dele...
17:38Eu sinto uma coisa aqui.
17:41Acho que encontrei a ladra dos morangos.
17:45Não, filha.
17:47É melhor esquecer tudo.
17:49Logo ele irá embora daqui.
17:55Eu não sabia.
17:58Na última vez em que estive aqui...
18:00Você e eu brincamos juntos.
18:03Éramos muito crianças.
18:06Não te reconheci.
18:07Mas se Adrian fez alguma coisa que aborreceu o senhor, é só me dizer.
18:11Não, não. Nada de importante.
18:12Também é só uma cela de montar.
18:14Eu compro outra que me agrade e assunto encerrado.
18:17Não, senhor. Eu lhe cedo a minha.
18:20Não, não. De maneira alguma.
18:22Esta cela eu comprei com o meu dinheiro.
18:24Mas se gostou dela, eu lhe dou com o maior prazer.
18:28Mas...
18:28Aceite, doutor. Aceite.
18:30Faça essa gentileza, por favor.
18:32Está bem, homem. Obrigado.
18:36Sabe, Adrian...
18:37Eu gostaria de sair com você para caçar. O que você acha?
18:41Quando o senhor quiser.
18:42Não, não, não. Quando você puder.
18:45É só me avisar.
18:53Simpático, não?
18:55É, o filho do dono.
18:57Olha aqui. Tenha cuidado.
19:00Desde o pai de meu pai que trabalhamos nesta fazenda...
19:02e temos sido fiéis a esta família.
19:05E não gostaria que, por um mal-entendido, deixássemos de trabalhar.
19:20Acho que já terminei a lista do que temos que comprar na cidade.
19:24Deseja alguma coisa, Dona Branca?
19:26Não sei. Não sei. Eu não me lembro mais do que falta.
19:32Acabei de conhecer o filho do Dionísio.
19:34Que bom. Estava sentindo falta de alguém que andasse comigo por aí para caçar.
19:38Você está muito contente aqui na casa grande, não é, filho?
19:41Este lugar é maravilhoso, mãe. Eu vou aproveitar o máximo.
19:47Volto para a cidade logo para cumprir com as minhas obrigações.
19:50Fico feliz em ver você assim.
19:52Vamos comer? Estou com uma fome.
19:55Quando quiser, eu vou mandar a Jacinta preparar alguma coisa.
19:58Eu vou tomar um banho e trocar de roupa. Não demora.
20:04Ele está tão alegre.
20:07Em compensação, você parece muito preocupada.
20:11Eu não sei por que estou tão preocupada, Crisanta.
20:15Desde que eu cheguei aqui, eu sinto...
20:17eu sinto uma angústia no meu coração.
20:20Não deve ficar assim. Você não tem nada com o que se preocupar.
20:24Se Rodolfo soubesse...
20:25ele queria um filho e já tem, não é?
20:28Mas você não pode esconder uma mentira a vida toda, Crisanta.
20:32Cedo ou tarde, a verdade vem à luz.
20:55Cedo ou tarde, Crisanta.
20:56Vem lá.
20:57Não desculpe, Dr.
21:00Quem é?
21:01Um ferido trazido pelos familiares.
21:03Eu não posso.
21:03Mas é urgente, doutor, muito urgente.
21:05Sim, eu sei.
21:06Só vem me procurar quando se trata de um caso de emergência.
21:09Quando estão morrendo e não tem um lugar no hospital da cidade, é que vem me procurar.
21:14Diga que eu não posso.
21:15Mas, doutor...
21:16Não importa como está, mande-os embora. Não me incomode mais.
21:26Eu mandei ir embora. Não quero ver ninguém. Não vou deixar ninguém entrar.
21:31Lúcio.
21:33É você.
21:35Desculpe, minhas palavras não eram para você.
21:37Sabe o quanto é importante para mim, Esmeralda?
21:40Obrigada.
21:41E por que não venho mais? Senti sua falta.
21:44É que eu gosto de andar o dia todo pelas montanhas, pela nascente do rio.
21:48Sentir o sol, o ar.
21:50E ficar ouvindo o canto dos passarinhos e o ruído do rio.
21:55Tudo bem que goste de sentir essas coisas.
21:58Mas tem que se acostumar com a ideia de que um dia vai perder isso.
22:02O que você sabe muito bem que me pertence.
22:10E então o que acha?
22:12Um belésio que se joga no chão de barriga e que tampa a cabeça com as mãos...
22:16Pedindo ao Deus do céu que não desse outro tiro de rifle.
22:22Você é um ingênuo.
22:25Levou um susto danado só porque o filho do dono estava caçando.
22:29Então não fez nada?
22:32Não aconteceu nada com a minha Esmeralda?
22:36Onde está?
22:37Foi a cidade.
22:39E eu deixei ela sozinha.
22:44Deixei sozinha a minha Esmeralda.
22:48Eu não sabia que barulho era aquele domingo.
22:51E fiquei com medo.
22:55Eu vi essa gente...
22:57Domingo, eu vi essa gente quando chegou a casa.
23:02A casa grande.
23:03Eu estava na horta da casa grande e vi eles quando chegaram.
23:09Eles devem ser muito ricos.
23:13Não são?
23:15Sim.
23:16E comem comida quente.
23:20E a gente comendo o pão que o diabo amassou para acabar com a fome.
23:24Sim.
23:26A casa grande é deles.
23:31E os animais que correm pelo monte são deles.
23:35E a plantação cheia de morangos.
23:41E tudo, tudo o que você puder ver com os olhos do miga.
23:46Não é?
23:47É tudo deles.
23:49Sim.
23:51É tudo deles.
23:59Deus adene na santa paz.
24:15Que sorte, garoto.
24:18Você vai ter papai e mamãe.
24:22Se eu quiser...
24:24Minha mesa estaria tão bem servida...
24:27como a dos patrões.
24:30E se essa mulher ainda viver?
24:32Tenho certeza de que tem gravado na memória o momento que levou a minha filha morta e a trocou pelo
24:42José Armando.
24:46Afasta esses pensamentos tristes, menina.
24:49Andei investigando.
24:51Dominga morreu.
24:55Morreu?
24:57Não temos nada o que temer.
24:59Agora só deve pensar que tem seu filho que adora e uma família maravilhosa.
25:04E como eu vou apagar o passado, Crisanta?
25:08É muito doloroso aceitar que neste mesmo lugar estão os restos da minha filhinha.
25:16Sem saber sequer qual o túmulo dela para levar flores.
25:24Por que você me evita?
25:26Não, não te evito. É que eu não consigo respirar. Aqui está muito abafado.
25:31É como uma jaula para você, não é?
25:34O colibrí em gaiola morre, não importa a mão que lhe oferece comida.
25:39Prefere a montanha e os perigos que existem lá.
25:42É que a liberdade é bonita.
25:44E se tirarem desse colibrí, não poderia continuar vivendo.
25:47Mas também é verdade que na montanha tem muitos perigos que podem acabar com ele.
25:52Aprenda a viver em sua gaiola de ouro, Esmeralda. Aprenda a cantar nela.
25:55E você? Por que não aprende a correr comigo nas trilhas?
25:59A subir até o topo da montanha?
26:02A ficar embaixo da gruta da cascata para ouvir o som do rio?
26:07Por que fica sempre trancado nessa casa?
26:10Por que nunca sai daqui?
26:13Por que eu não preciso?
26:16Eu me irrito com gente imbecil. Eu prefiro ficar sozinho.
26:20Além disso, deve saber que uma pessoa inteligente jamais sente tédio.
26:24Eu tenho os meus livros.
26:26E a única companhia que eu desejo é a sua.
26:30Então eu sou inteligente.
26:32Porque eu nunca me tedio. Nunca.
26:34E também gosto dos livros.
26:37Só que alguém tem que ler para mim.
26:39Sou eu que leio para você.
26:42Sem mim você não saberia nada do que sabe.
26:44Você é muito bom.
26:45Se não fosse pelas suas aulas, eu estaria dizendo besteiras.
26:48Como a coitada da Dominga ou como o Bobo Melésio.
26:52Mas eu conheço essas palavras bonitas que tem dentro dos livros.
26:57Você realmente teve muita paciência comigo.
26:59É porque você não nasceu para viver nesse ambiente cheio de ignorância e de miséria.
27:03Você é diferente deles.
27:07Teria que arrancar você de lá de uma vez por todas.
27:13Algum dia você terá que vir morar comigo definitivamente.
27:20Você é bonita.
27:23Muito bonita.
27:25Meu sacrifício foi grande, mas valeu a pena.
27:28Porque sua enorme beleza, você também deve a mim.
27:31Sim, Lúcio.
27:35Porque poderia não existir.
27:38Poderia ter sido destruída, mas já esplandece em seu rosto por mim.
27:43Não me importo de ter destruído minha vida.
27:45Porque sei que você é minha.
27:48Só minha.
28:01Você não ligou para a Graziella, filho.
28:03Deve estar chateado.
28:04Eu já liguei, mamãe.
28:05Mas não a encontrei.
28:07Ainda estou estranhando porque você quis vir à casa grande.
28:10Pensei que não ia querer se separar dela nas suas férias.
28:14Nós ficamos separados muito tempo.
28:16Quando eu fui para o exterior, já estamos acostumados.
28:19Olha, José Armando, esse namoro de vocês é um pouco estranho.
28:24Por quê?
28:24Eu acho que não.
28:25Pelo contrário, eu acho muito natural.
28:28Ai, filho.
28:29Os namorados não se comportam tão friamente.
28:32E como, então?
28:33Eu sei lá.
28:34Fazem loucuras, procuram ficar sempre juntos.
28:37Não sei.
28:39Isso aí era na sua época, mamãe.
28:41Agora é diferente.
28:42Não.
28:43O amor é tudo o que não mudou desde que o mundo é mundo.
28:47Quando é verdadeiro, sempre é o mesmo.
28:51Com o que você disse antes,
28:53acho que está envelhecendo a sua mãe, José Armando.
28:56Isso eu não aceito.
28:58Está vendo?
29:00Papai, sente orgulho de você.
29:01Tanto quanto eu, mamãe.
29:03Nós também sentimos de você.
29:06Por isso, nos preocupamos com a sua felicidade.
29:09Quando voltarmos para a cidade,
29:10vamos pedir a mão da Graziella e marcaríamos a data do casamento.
29:13Ah, magnífico.
29:15Vocês formam um excelente casal.
29:18Bom, assim a fortuna do Espenha Real fica em família.
29:24Eu prometi a Branca dar uma passada pela casa dela para o caso de precisar.
29:29E fez com prazer, não foi, mamãe?
29:32Assim, você pode se acostumar com a ideia de que a dona da mansão tem a real.
29:36Na realidade, eu saberia desempenhar esse papel muito melhor do que a Branca.
29:41Ah, coitada, não tem caráter, não tem força nem personalidade.
29:47Mas teve a sorte de ter um filho homem.
29:49E foi aí que ela ganhou.
29:51E você, mal ou bem, teve que se conformar comigo.
29:55Por Deus, filha, por Deus.
29:58Qualquer um que a ouvisse pensaria que não a amo o suficiente.
30:01Estou muito orgulhosa de você porque é muito linda.
30:05E com sua beleza, fará com que seja possível o que sempre sonhei.
30:10Já imagino quando for a dona de toda essa fortuna.
30:14Quando se tornar a esposa de José Armando.
30:17Ah, já estou com vontade de estar casada com ele para você ficar tranquila.
30:21Você tem que ligar para ele mais vezes.
30:24A ausência é a pior conselheira para o amor.
30:27É preciso que mantenha vivo o carinho que há entre vocês dois.
30:32Tá, mamãe, não se preocupe.
30:34Às vezes você fala de uma forma tão indiferente
30:37que parece que não o amo o suficiente.
30:40Ai, mamãe.
30:41José Armando é muito bonito.
30:43E gosto dele.
30:45Filha,
30:47está apaixonada de verdade pelo José Armando?
30:49Mas é claro, mamãe, claro que sim.
30:52E ele por você?
30:54Também é lógico.
30:56Ele te disse?
30:58José Armando é pouco expressivo.
31:01Mas ele demonstra.
31:05Além disso,
31:08nós dois sabemos que fomos feitos um para o outro.
31:13Mas você deve exigir que fosse mais carinhoso.
31:16Nós seremos, mamãe.
31:18Nós gostamos muito.
31:20E já está decidido que quando ele voltar,
31:22eu diria a minha mão oficialmente.
31:24Nos casaremos em um ou dois meses.
31:28Graziella.
31:30Que bom.
31:32Tomara que seja realmente assim.
31:34E será?
31:35Acho que desde que nos conhecemos,
31:37somos namorados.
31:39Seremos muito felizes.
31:42Nós formamos um casal perfeito.
31:46Bom, com licença.
31:49Vou dar uma volta por aí.
31:51Ai, filho, mas já está quase anoitecendo.
31:53Deixa ele, mulher.
31:54A noite está clara, estrelada.
31:57Até daqui a pouco, mamãe.
32:08Fico muito feliz de ver José Armando arraigado a essas terras
32:13que pertencem à família Penha Real há muitas gerações.
32:17É porque o nosso filho tem as raízes deste lugar
32:20E o sang.
32:24A noite está linda,
32:29e o sangue.
32:37A noite está linda,
32:43e o sangue.
32:56Quem está aí?
33:00É você.
33:02Eu devia ter imaginado.
33:04Os mortos não fazem barulho.
33:07A única pessoa que vem ao cemitério nessa hora é você, Esmeralda.
33:11Você já sabe, Firmino.
33:13Eu trouxe flores para os meus pais, como sempre.
33:16E para os mortos esquecidos.
33:19Então vamos colocar algumas para um morto muito velho.
33:25Olha, é tão velho que já está há mais de 40 anos descansando embaixo dessa terra.
33:34Aqui está.
33:38Coitadinho.
33:40Não devem se lembrar mais dele.
33:42Ah, deixa eu apagar esta lanterna.
33:47Você não precisa de luz.
33:49E o cemitério fica mais bonito sob a luz do luar.
33:54Como é a lua, Firmino?
33:57Quantas vezes você quer que eu diga?
34:00Eu gosto de ouvir. Anda, anda, outra vez.
34:03Está bem, está bem.
34:05Algumas noites é redonda como uma laranja.
34:08Assim?
34:10Aham.
34:11Outras com a metade de uma laranja.
34:14Mas sempre brilha como a prata.
34:20E qual é o cheiro da prata, Firmino?
34:22Ah, ela não tem cheiro.
34:24Ah, não?
34:25Mas brilha.
34:27E é branca, branca.
34:29De as lunas, a de octubre é mais hermosa, porque nela se reflete a quietude.
34:59A Rúdio disse plena Rurentu.
35:04Você canta bem, Adrian.
35:07Faça o que posso, patrão.
35:09Não sabia que conhecia esta canção.
35:11Claro que conheço e gosto muito.
35:14Eu gostaria de saber tocar e cantar.
35:16E trabalhar no campo como vocês.
35:19Não me diga, doutor, que vai trocar a roupa branca pela camisa de fazendeiro.
35:24Não, não exatamente.
35:27Mas eu gosto desta vida.
35:31Já esteve alguma vez na cidade, Adrian?
35:34Só de visita.
35:36Por uns dias, e foi o bastante.
35:38Mas depois de tanto barulho e tanta casa junta, eu me cansei.
35:43Eu acho que você e eu vamos ser bons amigos.
35:46Tem que me levar aos lugares que conhece.
35:48Me apresentar às pessoas.
35:50As pessoas daqui são humildes.
35:53Não sei se serão de seu agrado.
35:55Por que não?
35:58Os Penha Real nunca se juntaram com os de baixo.
36:01Isso depende das circunstâncias.
36:02O que eu quero é me divertir um pouco.
36:05Passar umas férias inesquecíveis.
36:10Aqui?
36:11Sim.
36:13Eu quero conhecer as mulheres daqui.
36:15Pois fique sabendo, doutor.
36:17Que as mulheres daqui não são para se divertir.
36:23Vá para sua casa, Esmeralda.
36:26Daqui a pouco.
36:27Continua me falando do céu, Firmino.
36:29O que mais tem?
36:32Uma estrela cadente.
36:34O que é isso?
36:35Uma estrela que atravessa o céu.
36:37E dizem que podemos fazer três desejos.
36:40Temos que fazer antes que ela se apague.
36:43Que pena.
36:45Eu nunca poderei pedir porque eu não a vejo.
36:48E o que você pediria, Esmeralda?
36:53Que Dominga sempre tivesse comida.
36:57A luz para os meus olhos.
37:00Alguém que me amasse.
37:02E que eu amasse.
37:07Calma, rapaz.
37:08Não se ofenda.
37:10Eu não quis dizer nesse sentido.
37:13Eu gosto de respeitar as mulheres, sejam de onde forem.
37:16Os homens daqui não permitem que ninguém falte com respeito com as moças.
37:21Por falar em mulheres...
37:25Hoje de manhã eu conheci uma princesa.
37:27Você deve saber quem é.
37:29É possível.
37:31Eu a encontrei numa clareira distante.
37:33Onde tem uma gruta com uma cascada.
37:46Realmente era uma beleza.
37:48Quem é, Adriano?
37:51Você deve saber.
37:52Porque não se trata de uma moça que possa passar despercebida.
37:57Me diga quem é ela.
37:58Onde mora, como se chama.
38:23Onde mora, como se chama.
38:35Me ves com a luz do coração.
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