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  • há 3 meses

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Transcrição
00:12Esmeralda
00:30Esmeralda
00:32Flor del campo
00:35Me ves
00:37Con la luz
00:39Del corazón
00:44Esmeralda
00:46Esmeralda
00:48Esmeralda
00:50Amor
00:51Tu amor
00:54Es puro
00:55Como el sol
01:00Esmeralda
01:02Amor
01:03Esmeralda
01:06Amor
01:07Amor
01:09Tienes los ojos
01:11Del amor
01:16Esmeralda
01:17Amor
01:23Amor
01:25Esmeralda
01:27Amor
01:38Por falar em mulheres,
01:41hoje de manhã conheci uma princesa.
01:44Você deve saber quem é.
01:46É possível.
01:48Eu a encontrei numa clareira distante,
01:51onde tem uma gruta com uma cascata.
02:08Eu a encontrei um pouco mais de uma mulher que pode passar despercebida.
02:14Me diga, quem é ela? Onde mora? Como se chama?
02:18Olha, doutor...
02:19Por favor, por favor, não me trate com tanta formalidade.
02:22É que meu pai me ensinou a respeitar os patrões.
02:26Esqueça esse incidente.
02:28E considere seu amigo.
02:31Eu agradeço.
02:33Mas de qualquer forma que eu o trate,
02:36já que o senhor me pediu uma coisa,
02:37eu vou pedir outra.
02:38Pode pedir, Ana. O que quiser.
02:41Não ponha seus olhos nessa moça.
02:44E tem alguma razão em especial?
02:48É que o senhor, lá no exterior e na cidade grande,
02:51devia estar acostumado a tratar as mulheres
02:53de uma forma que aqui não nos agrada.
02:55Eu já disse que não...
02:57Aqui nós temos nossos costumes.
02:59E o senhor pertence a outro mundo.
03:01Eu não digo que seja melhor, nem pior,
03:04mas que é diferente.
03:06Eu entendo.
03:07Mas não fique pensando...
03:09Me perdoe, mas ainda tem mais.
03:11Se quiser passar o tempo,
03:13mesmo que seja sem má intenção,
03:15escolha a outra.
03:16Mas...
03:17Ela é uma pessoa sagrada.
03:19Compreende?
03:20Faça de conta que ela não existe.
03:23Boa noite.
03:46Não sei como pode andar à noite só com essa roupa.
03:50Sinto que o frio penetra até os ossos.
03:52Mas é claro, é a idade.
03:57O que houve, filha?
03:59Nada.
04:03Não vai se deitar?
04:05Vou agora.
04:10O bobo Meleza esteve aqui.
04:12Me contou que o pessoal da casa grande chegou.
04:16Chegaram cheios de coisas boas.
04:18Sorte que alguns têm quando nascem,
04:21enquanto outros têm tão pouco.
04:24Dominga,
04:26por que você nunca me falou dos meus pais?
04:32O que foi?
04:33Está pensativo?
04:36Eu estava lembrando daquela noite
04:38em que nasceu José Armando.
04:42A tempestade tornou tudo mais difícil.
04:49Não pense nisso agora.
04:51Estamos aqui juntos e com o nosso filho.
04:57Sempre que eu pergunto,
04:58você inventa coisas muito feias.
05:00Você sabe, eu já disse.
05:02É filha do Nagual e da cobra.
05:04Isso não é verdade.
05:05Não vai mais continuar me enganando.
05:07Não sou mais uma menina,
05:08nem sou ignorante para acreditar em suas histórias.
05:11Então por que pergunta?
05:12Umas vezes, você me diz que eu sou filha da cobra.
05:15Outras, que meus pais viviam aqui
05:17e estão enterrados no cemitério da cidade.
05:19Eu quero saber a verdade, Dominga.
05:22Eu não estou brincando.
05:24E eu tenho o direito de saber.
05:32Seu pai e sua mãe morreram.
05:33E eu te criei.
05:35Moramos no meu barraco.
05:37E depois...
05:39aconteceu aquilo.
05:59Eu lembro como se fosse um pesadelo.
06:02A fumaça me asfixiava.
06:04Eu queria fugir, mas...
06:06cada vez que eu dava um passo,
06:07as chamas vinham ao meu encontro.
06:16Ficamos sem teto.
06:17E viemos morar nesta casa que estava abandonada
06:20quando seus pais morreram.
06:22Foi só isso.
06:25Eu gostaria de ter sido como a Florzinha.
06:29Como essas meninas...
06:30que têm casa...
06:33família...
06:34têm irmãos...
06:36e que podem vir.
06:39O Lúcio disse que algum dia...
06:41eu terei que ir morar com ele.
06:44E eu não gosto disso, Dominga.
06:46É uma casa triste...
06:47que me sufoca.
06:50Mas ele é bom comigo e...
06:52e eu vou ter que ir...
06:54porque ele gosta de mim...
06:55como se eu fosse a filha dele.
06:59Como se eu fosse a filha dele.
07:11Como vai, Dionísio?
07:13Bom dia, Dona Branca.
07:14Bom dia.
07:15Bom dia.
07:16Bom dia, patrão.
07:18É a sua filha, Dionísio?
07:20A mulher da casa, Dona Branca.
07:22Veio cumprimentar a senhora...
07:24e se pôr à sua disposição.
07:26Obrigada.
07:26Como se chama?
07:27Flor da Caridade.
07:28As suas ordens.
07:29Mas me chamam de Florzinha.
07:30É o que você parece.
07:32Sabe, você é muito bonita.
07:34Gostei muito de você.
07:35Como é que se diz?
07:37Obrigada.
07:38Gostaria que viesse me visitar mais vezes.
07:41Quase não tenho ninguém para conversar.
07:43Ah, pois, com certeza.
07:44Não se preocupe, ela vem.
07:45Não é minha filha?
07:46Sim, senhora.
07:48E ela é muito prendada.
07:50E se tratando da senhora...
07:51fará com prazer tudo o que lhe pedi.
07:53Não é, filha?
07:54Sim, senhora.
07:57Bom, vou lembrar disso.
07:58Mas, por favor, sentem-se aqui.
08:00Florzinha, vem.
08:01Você senta aqui, perto de mim.
08:04Bebem alguma coisa?
08:05Não, não, dona Branca.
08:06Nós só viemos um momentinho...
08:08porque eu tenho várias coisas que preciso fazer.
08:11A propósito, Dionísio.
08:14Tem um assunto que eu queria falar com você.
08:17Pois não, patrão.
08:18Parece que tem uns intrusos dentro dos limites da minha propriedade...
08:23cometendo atos que eu não estou disposto a permitir.
08:26A gente sempre tenta evitar essas coisas, patrão.
08:28Mas é que...
08:29Acontece que meu filho José Armando encontrou a ladra dos morangos.
08:33Tudo era uma vitória pra mim.
08:36Aprendi a me sentar sozinho, a sorrir...
08:39a esticar um braço e sentir o instrumento que alguém tocava perto de mim.
08:44Tudo era motivo de alegria.
08:47Tudo isso fazia parte desse esforço...
08:50para me adaptar ao mundo dos videntes.
08:53Foi Nani quem me ensinou a pedalar em meu triciclo...
08:56e mais tarde a me equilibrar em minha bicicleta.
09:01Por hoje chega.
09:03Ah, você é muito mal.
09:04Me deixou cheia de curiosidade.
09:06Isso é pra você voltar.
09:08Senão você passa três ou quatro dias, como na última vez, sem aparecer por aqui.
09:11Às vezes eu tenho que ajudar a Dominga.
09:14Ela está muito velha.
09:15É.
09:16Bastante velha.
09:18Ela realmente já viveu demais.
09:20Mas...
09:21você não deseja que ela morra, não é?
09:24Não.
09:25Mas quando essa mulher deixar de existir...
09:27você terá que viver comigo.
09:29Isto é, você não pode...
09:31ficar morando lá sozinha, no meio da montanha.
09:36Lúcio.
09:38Você já leu esse livro?
09:39Já.
09:40Me fala.
09:42Você é o meu Nani, não é?
09:45Sim, Esmeralda.
09:47Lúcio, me diz uma coisa.
09:49Você é médico.
09:51Ah, algum dia...
09:53eu poderei vir.
09:55Não.
09:57Você nunca poderá ver.
10:04Você nunca poderá ver.
10:18Essa maldita ladra agrediu meu filho quando ele tentou segurá-la.
10:22Que estranho, patrão.
10:24Quem eu surpreendi roubando os morangos não era uma moça.
10:27Era um homem.
10:28O bobo da cidade.
10:29Eles devem ser cúmplices.
10:31E assim como entram para roubar umas frutas, podem roubar alguma coisa de valor.
10:35E isso nós não podemos permitir, Dionísio.
10:39Vigie bem.
10:42E quero que como castigo, aquele que for apanhado seja preso.
10:46Sim, senhor, claro.
10:47Pode deixar.
10:48Como é que foi acontecer isso, justo agora que estão aqui?
10:51Como é possível?
10:53Não, não fique assim.
10:55Mas aumente a vigilância.
10:57Isso é tudo.
10:59Não se preocupe, senhor Rodolfo.
11:02Bom, vamos.
11:06Despeça-se dos patrões.
11:08Tchau, dona Branca.
11:09Tchau.
11:09Tchau, patrão.
11:11Tchau, menina.
11:12Lembre-se da sua promessa.
11:13Venha me visitar.
11:14Sim, claro que sim.
11:16Com licença.
11:22Que linda.
11:23Essa menina é muito bonita.
11:28E por que você suspira assim?
11:31É que...
11:32Eu gostaria tanto de ter tido uma filha.
11:36Mas que bobagem.
11:38Você não pode compreender, Rodolfo.
11:40É que as mães sempre desejam uma filha porque...
11:44Bom, porque são mais doces e acompanham mais do que um homem.
11:49Se pudéssemos ter tido mais filhos, eu não me importaria.
11:53Mas para ter um só, eu prefiro mil vezes que tenha sido um homem.
11:58E olha que homem.
12:02E mais, hein?
12:04Eu confesso que se tivesse tido uma menina...
12:07Eu teria sofrido uma desilusão terrível.
12:11Felizmente, não foi assim.
12:15Se Rodolfo soubesse a verdade...
12:18O que pensaria?
12:19Não.
12:20Nunca deve saber.
12:24Pensei que ia sair hoje para caçar com o filho do Sr. Rodolfo.
12:27Não, senhor.
12:28Ele não quis ou você não disse nada?
12:30Não, eu não disse.
12:31E por que não o convidou?
12:33Tenho que engraxar esses ferros.
12:35Se eu não fizer isso, eles vão enferrujar.
12:37Não tente me enrolar, Adel.
12:39Está tentando me fazer de bobo.
12:40Está chateado com o que ele te pediu.
12:42E eu avisei muito claro que era para se dar bem com ele.
12:46Eu quero obedecer, pai.
12:48Mas para ser franco, esse cara não me agrada.
12:50E por que?
12:51É um metido.
12:53Tem razão, tem boa vida.
12:55São gente de classe, os donos de tudo isso.
12:58Olha, pai.
13:00Na sua época, tinha que se humilhar para os patrões...
13:02E aceitar tudo o que eles mandavam à força.
13:04Mas agora...
13:05Mas agora é como antes.
13:06Vale a mesma lealdade e gratidão de um homem para com o outro.
13:09E o que nós temos que agradecer a ele?
13:11Muito!
13:13Deles vem o pão que nós comemos todos os dias.
13:15Não, nada disso.
13:16Acontece que nós trabalhamos.
13:18Então, nós ganhamos.
13:20Além disso, tem muita consideração por nós.
13:22Temos que ser agradecidos.
13:23O senhor tem sido muito honrado e fiel.
13:26Isso valeu?
13:27Claro.
13:28Por isso mesmo, ganhei a confiança e a admiração de alguém...
13:31Que está muito acima de mim.
13:33O patrão ainda passa.
13:35Mas esse rapazinho...
13:38Ele ainda veio me dizer que gosta disso tudo...
13:41E que gostaria de ter a vida que nós temos.
13:43Hipócrita!
13:44Olha, filho...
13:46Eu não quero discutir mais.
13:48Você vai se convencer da bondade que eles têm com a gente.
13:52Agora mesmo, a patroa conheceu a sua irmã e gostou muito dela.
13:55Pediu que ela viesse visitá-la para fazer companhia e para conversar com ela.
13:59Claro!
14:01Ficam entediados e querem que a gente distraia eles.
14:03Como se fôssemos palhaços!
14:04Não é verdade.
14:06Isso não é verdade.
14:06Tratou-a com muito carinho como se fosse filha dela.
14:09E não vai me dizer que também tem alguma coisa contra a dona Branca...
14:13Porque não tem mulher mais doce e nem melhor que ela.
14:18Florzinha já é uma moça.
14:19E é muito bonita.
14:21Eu pedi que ela viesse nos visitar de vez em quando...
14:24Mas eu não sei se virá, porque parece muito tímida.
14:27Você precisava ter tido mais filhos, menina.
14:33Crisanta, eu quero pedir uma coisa.
14:35Pode pedir!
14:37Quero que você vá à cidade.
14:39Para quê?
14:40Para que visite o cemitério...
14:42E descubra o lugar onde está enterrada a minha filha.
14:59Esmeralda?
15:01Não está.
15:04Aonde ela foi, Dominga?
15:05Sei lá.
15:06Está por aí.
15:08Olha, foi exatamente por isso que eu vim vê-la.
15:10Diz para ela não se aproximar muito da casa grande.
15:12Para que não a vejam por lá.
15:16Posso saber o motivo?
15:18É que estão vigiando.
15:19E se pegarem ela, vai ser perigoso.
15:22O que está dizendo, menina?
15:25Parece que a Esmeralda levou uns morangos da fazenda dos patrões.
15:28E o filho dos patrões encontrou com ela na montanha...
15:31E por pouco não pegou a ladra dos morangos.
15:34O quê?
15:36Tem certeza?
15:38Eu mesma o vi, porque eu estava na casa.
15:41Meu pai me levou para eu conhecer a dona Branca.
15:44E o patrão avisou que tinha que dar um castigo ao ladrão.
15:49Um castigo, é?
15:51Deu ordens para que, quando pusessem as mãos do ladrão, levassem ele para a cadeia.
15:57E tudo isso por uns poucos morangos.
16:01Quando ela é quem tem mais direito.
16:04O quê, Dominga?
16:05Nada.
16:07São coisas que eu ia dizer e não devo dizer.
16:11São besteiras.
16:14Por dentro eu tenho a dor desse pequeno túmulo.
16:17Esquecido durante tantos anos.
16:19Esquecido, não.
16:21Abandonado, Crisanta.
16:22É a mesma coisa.
16:24Os supostos pais daquela criança infeliz que nasceu de mim morreram.
16:30Quem poderia se lembrar de visitar aquela sepultura e rezar pela alma da inocente?
16:36Eu precisava, Branca.
16:39Foi o anjinho que, sem abrir seus olhinhos para a vida, voou para o céu.
17:12Sabe, Crisanta?
17:32Não sofra assim, Branca.
17:35São coisas do passado, não tem mesmo jeito.
17:38Me diz como ela era, me diz.
17:40Eu também não vi, eu juro.
17:42Quantas vezes vou ter que repetir.
17:45Mas você estava lá.
17:47É que quando aquela mulher a acasalhou, eu estava muito atortuada.
17:51Eu segurava o castiçal e a luz da vela me ofuscava.
17:55E depois, ela levou.
18:00Se ela tivesse deixado aqui, talvez eu tivesse tido alguma curiosidade.
18:04Teria me aproximado para olhá-la.
18:07Mas ela levou quando foi buscar o menino.
18:14Parece até que você nunca vai se conformar.
18:18Como se José Armando não servisse de consolo.
18:21Eu cuidei dele e o amei como se fosse meu filho, Crisanta.
18:24Mas por isso mesmo eu sofro, porque aquela pobrezinha,
18:27tendo meu sangue, não tenha tido absolutamente nada meu.
18:31Nenhuma carícia.
18:33Nenhum olhar.
18:35Vai fazer o que eu pedi, Crisanta.
18:38Vou tentar, menina.
18:40Entenda que não vai ser fácil.
18:42Passarão-se muitos anos.
18:43Promete que vai investigar.
18:45Está bem, eu prometo.
18:47Eu farei o impossível.
18:50Quando souber aonde ir para rezar por ela e levar flores,
18:53me sentirei mais tranquila.
18:56Eu só quero isso, Crisanta.
18:57Eu só quero saber onde está o túmulo da minha filha.
19:20E aí
19:33Tchau.
19:55Tchau.
20:23O que você quer aqui?
20:24Não me mate, patrulhão. Não me mate, não.
20:29Levanta.
20:32Anda, levanta.
20:36Eu não ia fazer nada.
20:38Eu não ia fazer nada, patrulhão. Eu juro.
20:42Não, me mate.
20:43Mas quem vai matar você, homem?
20:45Fique tranquilo.
20:46Chegue perto, não tenha medo.
20:48Não vou te fazer mal.
20:50Eu já estava seguindo o cheiro.
20:55Que cheiro?
20:58Aquele cheiro que sai de dentro.
21:04Da cozinha?
21:05Sim.
21:06Você está com fome?
21:06Sim.
21:09Então fique por aqui. A Tula vai te servir alguma coisa.
21:12Sente aí.
21:17Qual é o seu nome?
21:22Melésio.
21:24Nunca ouviu falar de Melésio, o bobo?
21:31Sou eu.
21:32Sou eu.
21:33Eu sei. Já ouvi falar.
21:42Seu eu.
21:44É, meu patrão.
21:46Ah.
21:47Eu vi.
21:49De longe no outro dia...
21:51Quando chegaram aqui na casa grande de vocês...
21:57Sua namorada.
21:59Muito bonita.
22:04Eu acho que você não é tão bobo quanto parece.
22:11Olha.
22:15Toma.
22:22Patrão Gil, muito, muito bom. Moeda, moeda.
22:28Não machuca, não faz mal.
22:32Esse aqui solta fogo.
22:36É, é sim. Mas não está carregado.
22:41Eu estava na montanha no outro dia quando saiu fogo.
22:49Eu estava com a minha rainha.
22:56Quer dizer que tem uma rainha?
22:58Sim, sim. Eu deixei minha rainha sozinha pelo susto.
23:04Eu dei um salto e comecei a correr, correr, correr.
23:09E ela está brava comigo.
23:18Sua rainha é aquela moça bonita que eu encontrei na gruta da cascata?
23:23É. É. Linda. Linda.
23:43Você está muito calada esta tarde, Esmeralda. Em que está pensando?
23:49Um livro bonito que o Lúcio leu para mim.
23:54Você esteve na casa do Dr. Malavé?
23:57Estive bem cedinho.
23:59Gosta de ir lá?
24:01Um pouco, sim. E um pouco, não.
24:04Me dá aulas e eu gosto de aprender.
24:09Mas...
24:09Ele te trata mal?
24:11Não.
24:11Ao contrário.
24:13É muito bom comigo.
24:16Às vezes, me abraça.
24:19Me diz que gosta muito de mim.
24:22E depois, ele fala muito bonito.
24:25E eu sinto como...
24:28Como se estivesse flutuando.
24:30E eu esqueço tudo.
24:32Então, do que você não gosta?
24:35Daquela prisão firmino.
24:38Eu não posso ver.
24:41Mas eu sinto.
24:44Ao entrar lá...
24:46As sombras em que eu vivo...
24:49Ficam mais negras.
24:52Como um poço fundo.
24:56Fundo.
24:58Onde parece...
25:01Que eu vou caindo.
25:05Por que o Lúcio não sai?
25:08Por que ele não gosta de falar com ninguém?
25:12Me diz, Melésio.
25:14Como se chama sua rainha?
25:17Me diz.
25:19Doutor.
25:20O que foi, Adrien?
25:21Tenho um tempo livre.
25:23Vim ver se quer sair para caçar.
25:25Pegar alguma coisa.
25:26Claro.
25:27Eu estava, inclusive, limpando o rifle.
25:29Vamos agora?
25:31Depois será tarde.
25:32Vou pegar as palas.
25:37O que está fazendo aqui, Melésio?
25:42Conversando com o patrãozinho.
25:45Hum...
25:46Eu já imagino a sua conversa com ele.
25:49Estava contando da...
25:52Da minha rainha.
25:54Ele me perguntou como se chamava e eu...
25:57Eu...
25:58Eu ia dizer aquele nome lindo.
26:02Mas você chegou.
26:06De novo, Esmeralda?
26:09Eu disse para deixá-la em paz.
26:13Eu perguntei ao Lúcio por que ele é assim.
26:16E ele disse um monte de coisas que eu não entendo, Firmino.
26:20Ai, deve ser tão bonita a luz.
26:23É, sim.
26:25É bonita.
26:28Mas tem seres que preferem se esconder nas trevas.
26:31Por que fazem isso, Firmino?
26:34Que seres são esses?
26:35São verdadeiras raposas.
26:38Geralmente são pessoas monstruosas que se escondem...
26:42Para que os outros não possam se assustar com sua feiura.
26:47Coitadinhos.
26:48Por que Deus não os fez bonitos?
26:51Como dizem que são as borboletas e os pássaros?
26:55Deve ser para castigá-los.
26:57Porque são seres maus que fazem mal.
27:01Porque a feiura de seus corpos é o reflexo da feiura de suas almas.
27:07Ah, que pena que tenha seres assim no mundo.
27:11Deve ter cuidado com eles.
27:13Ah, Firmino, e o que eu posso fazer?
27:17Talvez estejam aqui pertinho e eu não posso ver quando eles saltarem sobre mim para me fazer mal.
27:24Não...
27:25Não se angustie, Esmeralda.
27:28Deus protege as criaturas inocentes como você.
27:33Então...
27:35Ele...
27:37cuida de mim?
27:38Mais do que de ninguém.
27:41Sabe que desde pequenininha andava sozinha pela montanha e nunca te aconteceu nada.
27:49Eu tenho que ir.
27:51Eu quero levar essas laranjas para domingo.
27:54Tchau, Firmino.
27:57Deus te proteja.
27:59Eu quero levar a...
28:00Eu quero levar a...
28:12Eu quero levar...
28:48Não aconteceu nada, levante-se.
28:51Não aconteceu nada, levante-se.
28:54Você não tem nada, menina.
28:56Não aconteceu nada, levante-se.
28:58Não percebeu? Ela é cega.
29:22Esmeralda! Desculpe, não sabia.
29:40Eu sou um estúpido.
29:42Eu sou um estúpido.
29:53Eu sou um estúpido.
30:20Eu sou um estúpido.
30:37O que você está fazendo aí?
30:44Por que fugiu correndo?
30:45Era um caçador.
30:47Ele me perseguia.
30:48Veio correndo atrás de mim.
30:50Eu senti o galope do cavalo dele.
30:52Eu sabia que era ele.
30:53Já passou, já passou.
30:55Não chore.
30:56Eu te aproximava.
30:58Me perseguia.
30:59Os cascos do cavalo voavam atrás de mim.
31:03Calma, calma.
31:05Não tenho o que temer.
31:06Não venho com você.
31:08Já foi?
31:08Já foi?
31:09Ele já foi.
31:13Deixa eu enxugar suas lágrimas.
31:17Olha só, está vendo?
31:18Acabou machucando o rosto.
31:23Onde tem remédio para fazer curativo?
31:26Tem álcool?
31:27Ai, uma garrafa perto do fogão.
31:39Olha, vai herder.
31:43Ai, ai, ai.
31:46Está a flor da pele, mas pode infeccionar.
31:48Ai.
31:50Pronto.
31:56A bolsa com as laranjas eu coloquei na mesa.
32:01Onde as conseguiu?
32:03Eu ganhei na casa do Lúcio, uma laver.
32:06Bom, eu já volto.
32:08Obrigada.
32:10Obrigada por tudo, Adrian.
32:19Por que você tem tanto medo do filho do patrão?
32:22É um homem como outro qualquer.
32:25Porque ele sabe matar.
32:27Por puro prazer.
32:29Derrama sangue das criaturas da montanha que não fazem mal a algum.
32:33É o caçador.
32:35É o caçador.
32:39Qual é o problema, filho?
32:41Parece tão chateado.
32:42É, realmente estou.
32:44Mas o que houve?
32:45Eu tive dois encontros nada agradáveis com uma moça caipira.
32:50Acontece que ela é cega.
32:51E quem é ela?
32:52Eu não sei.
32:53Eu perguntei ao Adrian.
32:54Ele cortou a conversa.
32:56É muito bonita, mas parece que ela não regula muito bem.
33:01Na primeira vez que a vi, tive a impressão de ver um animal selvagem surpreendido na montanha.
33:07Achei que estava assustado.
33:09Mas quando cheguei perto, me mordeu.
33:11Te mordeu?
33:12Mas que espécie de criatura é essa?
33:15É uma jovem tão especial.
33:18Que não combina com este lugar.
33:22Perguntei ao Adrian como se chamava e ele não disse.
33:25Só me avisou para não olhar para ela.
33:30Por que, Crisanta?
33:33Porque ela é cega?
33:35Ou porque ele ama?
33:37Não sei, filho.
33:39Mas, afinal de contas, eu acho que isso não deveria te interessar tanto.
33:43Não, não, claro que não.
33:46Mesmo assim, foi muito chato o que aconteceu.
33:50Tá, tá, tá, calma.
33:51Não pense mais nisso.
33:56Eu vou ver a sua mãe.
33:58Tenho que ir à cidade comprar umas coisas que ela precisa.
34:13Já está indo, Crisanta?
34:14Sim, menina.
34:15Quer mais alguma coisa?
34:18Não.
34:19Só isso.
34:20Eu quero que tente descobrir o que eu pedi.
34:22Vou fazer o possível.
34:24Mas nesta cidade tudo se sabe.
34:43Está aborrecido?
34:45Já me desculpei pelo que aconteceu.
34:48Não precisava.
34:50Geralmente, os patrões nunca se desculpam.
34:55Por isso mesmo, deve dar mais valor à minha atitude.
34:59Está bem.
35:00Eu disse que lamento o que aconteceu.
35:02Não tem por que me pedir desculpas.
35:04Não me fez nada.
35:05Fez a ela.
35:07Pensei que você tivesse algum laço afetivo com aquela menina.
35:10Eu não acredito que ela seja cega.
35:13Como é possível que uma pessoa sem visão ande por aí sem ninguém pare de ela?
35:19Eu vi o Iela correndo sem vacilar.
35:21Como se soubesse perfeitamente o caminho.
35:24Com uma segurança assombrosa do chão em que pisa.
35:28Realmente não vê nada?
35:30Absolutamente nada.
35:32Teve um tempo em que acho que podia distinguir entre o escuro e a luz.
35:36Mas agora vive na mais completa escuridão.
35:39Deve ser terrível.
35:43Desde menina anda por aí.
35:45Se virando como pode.
35:48Aposto que já se machucou muito.
35:51Mas é apanhando que se aprende.
35:54Quando ainda nem ficava de pé, saía para brincar com as flores e com os animaizinhos que encontrava.
35:59Quando cresceu, começou a conhecer as trilhas da montanha e a se afastar cada vez mais.
36:07Agora não tem lugar que ela não conheça melhor do que qualquer um de nós.
36:11Não se perde, nem tropeça, nem cai.
36:13A não ser que...
36:19Quem são os pais dela?
36:21Não tem.
36:23Foi criada por uma mulher daqui.
36:26Ela é órfã.
36:31Boa tarde.
36:34Boa tarde, senhora.
36:36O senhor é o responsável pelo cemitério.
36:40Sim, sou eu, senhora.
36:42E tem muito tempo que trabalho aqui?
36:44Ah, sempre trabalhei.
36:46São tantos anos que nem me lembro mais.
36:49Então, com certeza o senhor pode me dizer o que quero saber.
36:53Ah, pode falar.
36:55Há uns...
36:56Há uns vinte e poucos anos,
37:00enterraram aqui uma criança recém-nascida.
37:03Era uma menina.
37:05E a senhora sabe o nome?
37:08Bem...
37:09Não, eu não sei.
37:12Não chegou a ter...
37:14Porque nasceu sem vida.
37:16Ah, sempre se batiza.
37:18E se dá um nome.
37:20É que...
37:23Sinceramente, eu não sei.
37:26Mas posso lhe dar a data exata em que a menina nasceu.
37:31Tudo o que eu quero saber é...
37:34Onde está sepultada?
37:36Escuta.
37:37Eu acho que deve estar havendo algum engano.
37:40Por quê?
37:41Aqui só tem duas meninas recém-nascidas sepultadas.
37:45E tem mais de trinta anos enterradas.
37:50E aí
38:02Associação no scan station there,
38:04E aí
38:05E aí
38:05E aí
38:06E aí
38:08Amor, tu desnudez, se trata de um dos, mi coração esperada, esperada.
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