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00:24Esmeralda
00:31Me ves com a luz do coração
00:40Esmeralda
00:44Esmeralda
00:47Tu amor escuro como o sol
00:56Esmeralda
01:00Esmeralda
01:02Tu amor escuro
01:12Esmeralda
01:14Tu amor escuro
01:22Eu sou por pleno amor.
01:34Por falar em mulheres...
01:37Hoje de manhã conheci uma princesa.
01:40Você deve saber quem é.
01:42É possível.
01:44Eu a encontrei numa clareira distante.
01:46Onde tem uma gruta com uma cascata.
01:59Onde tem uma gruta com uma cascata.
01:59Realmente era uma beleza.
02:01Quem é, Adrian?
02:04Você deve saber.
02:05Por que não se trata de uma moça que possa passar despercebida?
02:10Me diga, quem é ela? Onde mora? Como se chama?
02:13Olha, doutor...
02:14Por favor, por favor, não me trate com tanta formalidade.
02:18É que... meu pai me ensinou a respeitar os patrões.
02:22Esqueça esse incidente.
02:24E considere seu amigo.
02:27Eu agradeço.
02:29Mas de qualquer forma que eu o trate...
02:31Já que o senhor me pediu uma coisa, eu vou pedir outra.
02:34Pode pedir, Adrian. O que quiser.
02:37Não ponha seus olhos nessa moça.
02:40E tem alguma razão especial?
02:43É que o senhor, lá no exterior e na cidade grande...
02:46Devia estar acostumado a tratar as mulheres de uma forma que aqui não nos agrada.
02:51Eu já disse que não...
02:52Aqui nós temos nossos costumes.
02:55E o senhor pertence a outro mundo.
02:57Eu não digo que seja melhor, nem pior.
03:00Mas que é diferente.
03:01Eu entendo.
03:02Mas não fique pensando...
03:04Me perdoe, mas ainda tem mais.
03:07Se quiser passar o tempo, mesmo que seja sem má intenção, escolha a outra.
03:12Mas...
03:12Ela é uma pessoa sagrada.
03:14Compreende?
03:16Faça de conta que ela não existe.
03:19Boa noite.
03:32Não sei como pode andar à noite só com essa roupa.
03:35Sinto que o frio penetra até os ossos.
03:38Mas é claro, é a idade.
03:43O que houve, filha?
03:45Nada.
03:49Não vai se deitar?
03:50Vou agora.
03:55O bobo Meleza esteve aqui.
03:58Me contou que o pessoal da casa grande chegou.
04:01Chegaram cheios de coisas boas.
04:04Sorte que alguns têm quando nascem.
04:07Enquanto outros têm tão pouco.
04:11Dominga...
04:12Por que você nunca me falou dos meus pais?
04:18O que foi? Está pensativo?
04:22Eu estava lembrando daquela noite em que nasceu José Armando.
04:27É...
04:27A tempestade tornou tudo mais difícil.
04:35Não pensem nisso agora.
04:37Estamos aqui juntos e com nosso filho.
04:42Sempre que eu pergunto, você inventa coisas muito feias.
04:46Você sabe, eu já disse.
04:48É filha do Nagual e da Cobra.
04:49Isso não é verdade.
04:51Não vai mais continuar me enganando.
04:53Não sou mais uma menina nem sou ignorante para acreditar em suas histórias.
04:57Então, por que pergunta?
04:58Umas vezes, você me diz que eu sou filha da Cobra.
05:01Outras, que meus pais viviam aqui e estão enterrados no cemitério da cidade.
05:06Eu quero saber a verdade, Dominga.
05:08Eu não estou brincando.
05:09E eu tenho o direito de saber.
05:18Seu pai e sua mãe morreram.
05:19E eu te criei.
05:21Moramos no meu barraco.
05:22E depois...
05:24Aconteceu aquilo.
05:43É...
05:44Eu me lembro como se fosse um pesadelo.
05:48A fumaça me asfixiava.
05:50Eu queria fugir, mas...
05:52Cada vez que eu dava um passo, as chamas vinham ao meu encontro.
06:02Ficamos sem teto.
06:03E viemos morar nesta casa que estava abandonada quando seus pais morreram.
06:07Foi só isso.
06:11Eu gostaria de ter sido como a Florzinha.
06:14Como essas meninas...
06:16Que têm casa...
06:19Família...
06:20Têm irmãos...
06:22E que podem vir.
06:25O Lúcio disse que algum dia eu terei que ir morar com ele.
06:29E eu não gosto disso, Dominga.
06:32É uma casa triste que me sufoca.
06:35Mas ele é bom comigo e...
06:38E eu vou ter que ir, porque ele gosta de mim como se eu fosse a filha dele.
06:45Como se eu fosse a filha dele.
06:57Como vai, Dionísio?
06:59Bom dia, Dona Branca.
07:00Bom dia.
07:01Bom dia, patrão.
07:04É a sua filha, Dionísio.
07:06A mulher da casa, Dona Branca.
07:08Vem cumprimentar a senhora e se pôr à sua disposição.
07:11Obrigada. Como se chama?
07:13Flor da caridade. Suas ordens. Mas me chamam de Florzinha.
07:16É o que você parece.
07:18Sabe, você é muito bonita. Gostei muito de você.
07:21Como é que se diz?
07:22Obrigada.
07:24Gostaria que viesse me visitar mais vezes.
07:26Quase não tenho ninguém para conversar.
07:28Ah, com certeza. Não se preocupe. Ela vem.
07:31Não é minha filha?
07:32Sim, senhora.
07:34E ela é muito prendada.
07:36E se tratando da senhora, fará com prazer tudo que lhe pedi.
07:39Não é, filha?
07:40Sim, senhora.
07:42Bom, vou lembrar disso. Mas, por favor, sentem-se aqui.
07:46Florzinha, vem. Você senta aqui perto de mim.
07:50Bebem alguma coisa?
07:51Não, não, Dona Branca. Nós só viemos um momentinho.
07:54Porque eu tenho várias coisas que preciso fazer.
07:57A propósito, Dionísio.
08:00Tem um assunto que eu queria falar com você.
08:03Pois não, patrão.
08:04Parece que tem uns intrusos dentro dos limites da minha propriedade.
08:08Cometendo atos que eu não estou disposto a permitir.
08:11A gente sempre tenta evitar essas coisas, patrão. Mas é que...
08:14Acontece que meu filho José Armando encontrou a ladra dos morangos.
08:19Tudo era uma vitória pra mim.
08:22Aprendi a me sentar sozinho, a sorrir.
08:25A esticar um braço e sentir o instrumento que alguém tocava perto de mim.
08:30Tudo era motivo de alegria.
08:33Tudo isso fazia parte desse esforço para me adaptar ao mundo dos videntes.
08:39Mas foi Nani quem me ensinou a pedalar em meu triciclo.
08:42E mais tarde a me equilibrar em minha bicicleta.
08:47Por hoje chega.
08:48Ah, você é muito mal. Me deixou cheia de curiosidade.
08:52Isso é pra você voltar.
08:53Senão você passa três ou quatro dias, como na última vez, sem aparecer por aqui.
08:57Às vezes eu tenho que ajudar a Dominga. Ela está muito velha.
09:01É. Bastante velha.
09:03Ela realmente já viveu demais.
09:05Mas você não deseja que ela morra, não é?
09:09Não.
09:11Mas quando essa mulher deixar de existir, você terá que viver comigo.
09:15Isto é, você não pode ficar morando lá sozinha no meio da montanha.
09:21Lúcio.
09:23Você já leu esse livro?
09:25Já.
09:26Me fala.
09:28Você é o meu Nani, não é?
09:31Sim, Esmeralda.
09:33Lúcio, me diz uma coisa.
09:35Você é médico.
09:37Algum dia...
09:39...eu poderei ver.
09:40Não.
09:42Você nunca poderá ver.
09:50Você nunca poderá ver.
09:53Essa maldita ladra agrediu meu filho quando ele tentou segurá-la.
09:57Que estranho, patrão.
09:59Quem eu surpreendi roubando os morangos não era uma moça.
10:01Era um homem. O bobo da cidade.
10:04Eles devem ser cúmplices.
10:06E assim como entram para roubar umas frutas, podem roubar alguma coisa de valor.
10:10E isso nós não podemos permitir, Dionísio.
10:14Vigie bem.
10:17E quero que, como castigo, aquele que for apanhado seja preso.
10:20Sim, senhor, claro. Pode deixar.
10:22Como é que foi acontecer isso, justo agora que estão aqui?
10:26Como é possível?
10:28Não, não fique assim.
10:30Mas aumente a vigilância.
10:32Isso é tudo.
10:33Não se preocupe, Sr. Rodolfo.
10:37Bom, vamos.
10:41Despeça-se dos patrões.
10:42Tchau, dona Branca. Tchau.
10:44Tchau, patrão. Tchau, menina.
10:47Lembre-se da sua promessa. Venha me visitar.
10:49Sim, claro que sim.
10:51Com licença.
10:57Que linda. Essa menina é muito bonita.
11:03E por que você suspira assim?
11:05É que eu gostaria tanto de ter tido uma filha.
11:10Mas que bobagem.
11:12Você não pode compreender, Rodolfo.
11:15É que as mães sempre desejam uma filha porque...
11:19Bom, porque são mais doces e acompanham mais do que um homem.
11:24Se pudéssemos ter tido mais filhos, eu não me importaria.
11:28Mas para ter um só, eu prefiro mil vezes que tenha sido um homem.
11:32E olha que homem.
11:37E mais, hein?
11:39Eu confesso que se tivesse tido uma menina...
11:41Eu teria sofrido uma desilusão terrível.
11:46Felizmente, não foi assim.
11:50Se Rodolfo soubesse a verdade, o que pensaria?
11:55Não. Nunca deve saber.
11:58Pensei que ia sair hoje para caçar com o filho do seu Rodolfo.
12:01Não, senhor.
12:03Ele não quis ou você não disse nada?
12:05Não, eu não disse.
12:06E por que não o convidou?
12:08Tenho que engraxar esses ferros.
12:10Se eu não fizer isso, eles vão enferrujar.
12:11Não tente me enrolar, Adel.
12:14Está tentando me fazer de bobo. Está chateado com o que ele te pediu.
12:17E eu avisei muito claro que era para se dar bem com ele.
12:20Eu quero obedecer, pai.
12:23Mas para ser franco, esse cara não me agrada.
12:25E por quê?
12:26É um metido.
12:28Tem razão, tem boa vida.
12:30São gente de classe, os donos de tudo isso.
12:33Olha, pai.
12:35Na sua época tinha que se humilhar para os patrões
12:37e aceitar tudo o que eles mandavam à força.
12:39Mas agora...
12:39Mas agora é como antes.
12:41Vale a mesma lealdade e gratidão de um homem para com o outro.
12:44E o que nós temos que agradecer a eles?
12:46Muito!
12:47Deles vem o pão que nós comemos todos os dias.
12:50Não, nada disso.
12:51Acontece que nós trabalhamos, então nós ganhamos.
12:54Além disso, tem muita consideração por nós.
12:56Nós temos que ser agradecidos.
12:59O senhor tem sido muito honrado e fiel.
13:01Isso valeu?
13:02Claro.
13:03Por isso mesmo ganhei a confiança e a admiração de alguém
13:06que está muito acima de mim.
13:08O patrão ainda passa.
13:10Mas esse rapazinho...
13:13Ele ainda veio me dizer que gosta disso tudo
13:15e que gostaria de ter a vida que nós temos.
13:18Hipócrita!
13:19Olha, filho.
13:20Eu não quero discutir mais.
13:23Você vai se convencer da bondade que eles têm com a gente.
13:27Agora mesmo a patroa conheceu a sua irmã e gostou muito dela.
13:30Pediu que ela viesse visitá-la para fazer companhia
13:32e para conversar com ela.
13:34Claro!
13:35Ficam entediados e querem que a gente distraia eles.
13:38Como se fôssemos palhaços.
13:39Não é verdade. Isso não é verdade.
13:41Tratou ela com muito carinho como se fosse filha dela.
13:44E não vai me dizer que também tem alguma coisa contra a Dona Branca?
13:47Porque não tem mulher mais doce e nem melhor que ela.
13:52Florzinha já é uma moça.
13:54E é muito bonita.
13:56Eu pedi que ela viesse nos visitar de vez em quando,
13:58mas eu não sei se virá porque parece muito tímida.
14:02Você precisava ter tido mais filhos, menina.
14:06Crisanta, eu quero pedir uma coisa.
14:10Pode pedir?
14:11Quero que você vá à cidade.
14:13Para quê?
14:15Para que visite o cemitério e descubra o lugar onde está enterrada a minha filha.
14:22Esmeralda?
14:24Não está.
14:27Onde ela foi, Dominga?
14:29Sei lá. Está por aí.
14:31Olha, foi exatamente por isso que vim vê-la.
14:33Diz para ela não se aproximar muito da casa grande,
14:35para que não a vejam por lá.
14:40Posso saber o motivo?
14:41É que estão vigiando. E se pegarem ela, vai ser perigoso.
14:46O que está dizendo, menina?
14:48Parece que a Esmeralda levou os morangos da fazenda dos patrões.
14:52E o filho dos patrões encontrou com ela na montanha
14:54e por pouco não pegou a ladra dos morangos.
14:58O quê?
15:00Tem certeza?
15:01Eu mesma o vi, porque eu estava na casa.
15:05Meu pai me levou para eu conhecer a Dona Branca.
15:08E o patrão avisou que tinha que dar um castigo ao ladrão.
15:13Um castigo, é?
15:14Deu ordens para que, quando pusessem as mãos do ladrão,
15:17levassem ele para a cadeia.
15:21E tudo isso por uns poucos morangos?
15:24Quando ela é quem tem mais direito.
15:27O quê, Dominga?
15:29Nada.
15:31São coisas que eu ia dizer e não devo dizer.
15:35São besteiras.
15:37Por dentro eu tenho a dor desse pequeno túmulo,
15:40esquecido durante tantos anos.
15:42Esquecido não.
15:44Abandonado, Crisanta.
15:45É a mesma coisa.
15:47Os supostos pais daquela criança infeliz que nasceu de mim morreram.
15:53Quem poderia se lembrar de visitar aquela sepultura
15:56e rezar pela alma da inocente?
15:59Eu precisava, Branca.
16:02Foi o anjinho que, sem abrir seus olhinhos para a vida, voou para o céu.
16:08Sabe, Crisanta, olhando a filha do Dionísio, eu pensei nela.
16:14Como seria ela agora?
16:17Teria a mesma idade do José Armando.
16:20Como seria, Crisanta?
16:23Doce.
16:25Bonita.
16:26Carinhosa.
16:28Ai, minha pobre filhinha.
16:31Nem sequer cheguei a vê-la.
16:34Ai, filhinha querida.
16:45Não sofra assim, Branca.
16:48São coisas do passado, não tem mesmo jeito.
16:50Me diz como ela era, me diz.
16:52Eu também não vi, eu juro.
16:55Quantas vezes vou ter que repetir.
16:57Mas você estava lá.
16:59É que quando aquela mulher a acasalhou,
17:01eu estava muito atortuada.
17:04Eu segurava o castiçal.
17:05E a luz da fé, ela me ofuscava.
17:08E depois...
17:10Ela levou.
17:12Se ela tivesse deixado aqui, talvez eu tivesse tido alguma curiosidade.
17:17Teria me aproximado para olhá-la.
17:19Mas ela levou quando foi buscar o menino.
17:27Parece até que você nunca vai se conformar.
17:30Como se José Armando não servisse de consolo.
17:33Eu cuidei dele e o amei como se fosse meu filho, Crisanta.
17:37Mas por isso mesmo eu sofro porque aquela pobrezinha,
17:40tendo o meu sangue, não tenha tido absolutamente nada meu.
17:43Nenhuma carícia.
17:45Nenhum olhar.
17:47Vai fazer o que eu pedi, Crisanta.
17:50Vou tentar, menina.
17:52Entenda que não vai ser fácil.
17:54Passarão-se muitos anos.
17:56Promete que vai investigar.
17:58Está bem, eu prometo.
18:00Eu farei o impossível.
18:02Quando souber aonde ir para rezar por ela e levar flores,
18:06me sentirei mais tranquila.
18:08Eu só quero isso, Crisanta.
18:10Eu só quero saber onde está o túmulo da minha filha.
18:39Eu só quero saber onde está o túmulo da minha filha.
18:46Tchau, tchau.
19:23Tchau, tchau.
20:09Tchau, tchau.
20:12Tchau, tchau.
21:09Tchau, tchau.
21:12Tchau, tchau.
21:26Tchau, tchau.
21:33Tchau.
22:21Tchau, tchau.
22:58Tchau, tchau.
23:36Tchau, tchau.
23:44Tchau, tchau.
24:15Tchau, tchau.
24:44Tchau, tchau.
25:10Tchau, tchau.
25:22Tchau, tchau.
25:45Tchau, tchau.
25:57Tchau, tchau.
26:27Tchau, tchau, tchau.
26:42Tchau, tchau, tchau.
26:54Tchau, tchau, tchau.
27:00Tchau, tchau, tchau.
27:01Tchau, tchau, tchau.
27:04Tchau, tchau.
27:07Tchau, tchau.
27:27Tchau, tchau, tchau.
27:34Tchau, tchau.
27:42Tchau, tchau.
27:51Tchau, tchau, tchau.
27:57Tchau, tchau, tchau.
27:59Tchau, tchau.
28:00Tchau, tchau, tchau.
28:02Tchau, tchau.
28:04Tchau, tchau, tchau.
28:12Esmeralda.
28:15Desculpe, eu não sabia.
28:32Eu sou um estúbido.
29:26Eu sou um estúbido.
29:30Eu sou um estúbido.
29:33O que está fazendo aí?
29:36Por que fugiu correndo?
29:37Era um caçador. Ele me perseguia.
29:40Veio correndo atrás de mim.
29:42Eu senti o galope do cavalo dele.
29:44Eu sabia que era ele.
29:45Já passou. Não chore.
29:48Ele se aproximava. Me perseguia.
29:51Os cascos do cavalo voavam atrás de mim.
29:55Calma, calma.
29:56Não tenho o que temer.
29:58Não venho com você.
29:59Já foi?
30:01Ele já foi.
30:04Deixe-me enxugar suas lágrimas.
30:09Veja. Acabou machucando o rosto.
30:15Onde tem remédio para fazer curativo?
30:17Tem álcool?
30:19Uma garrafa perto do fogão.
30:30Onde tem que ser?
30:31Olha...
30:32Vai herder?
30:36Ai...
30:36Ai... Ai... Ai...
30:38Está à flor da pele, mas pode infeccionar.
30:41Ai...
30:47A bolsa com as laranjas eu coloquei na mesa.
30:53Onde as conseguiu?
30:55Eu ganhei na casa do Lúcio Malaver.
30:58Bom...
30:59Eu já volto.
31:00Obrigada.
31:02Obrigada por tudo, Adrian.
31:11Por que você tem tanto medo do filho do patrão?
31:14É um homem como um outro qualquer.
31:17Porque ele sabe matar.
31:19Por puro prazer.
31:21Derrama sangue das criaturas da montanha que não fazem mal a algum.
31:24É um...
31:25É um caçador.
31:27É um caçador.
31:31Qual é o problema, filho?
31:33Parece tão chateado.
31:34É, realmente estou.
31:35Mas o que houve?
31:37Eu tive dois encontros nada agradáveis com uma moça caipira.
31:41Acontece que ela é cega.
31:43E quem é ela?
31:44Eu não sei.
31:45Perguntei ao Adrian e ele cortou a conversa.
31:48É muito bonita, mas...
31:50Parece que ela não regula muito bem.
31:53Na primeira vez que vi tive a impressão de ver um animal selvagem surpreendido na montanha.
31:59Achei que estava assustado.
32:01Mas quando cheguei perto, me mordeu.
32:03Te mordeu?
32:04Mas que espécie de criatura é essa?
32:06É uma jovem tão especial...
32:09Que não combina com este lugar.
32:14Perguntei ao Adrian como se chamava e ele não disse.
32:17Só me avisou para não olhar para ela.
32:21Por que, Crisanta?
32:25Porque ela é cega?
32:27Ou porque ele ama?
32:29Não sei, filho.
32:31Mas, afinal de contas, eu acho que isso não deveria te interessar tanto.
32:35Não, não, claro que não.
32:38Mesmo assim...
32:39Foi muito chato o que aconteceu.
32:42Calma, não pense mais nisso.
32:48Eu vou ver a sua mãe.
32:49Tem que ir à cidade comprar umas coisas que ela precisa.
33:04Já está indo, Crisanta?
33:06Sim, menina.
33:07Quer mais alguma coisa?
33:10Não.
33:11Só isso.
33:12Eu quero que tente descobrir o que eu pedi.
33:14Vou fazer o possível.
33:15Mas nesta cidade tudo se sabe.
33:24Está aborrecido?
33:25Já me desculpei pelo que aconteceu.
33:28Não precisava.
33:30Geralmente os patrões nunca se desculpam.
33:35Por isso mesmo.
33:36Deve dar mais valor à minha atitude.
33:39Está bem.
33:40Eu disse que lamento o que aconteceu.
33:42Não tem por que me pedir desculpas.
33:44Não me fez nada.
33:45Fez a ela.
33:47Pensei que você tivesse algum laço afetivo com aquela menina.
33:51Eu não acredito que ela seja cega.
33:54Como é possível que uma pessoa sem visão ande por aí sem ninguém pare de ela?
33:59Eu vi ela correndo sem vacilar.
34:01Como se soubesse perfeitamente o caminho.
34:04Com uma segurança assombrosa do chão em que pisa.
34:08Realmente não vê nada?
34:10Absolutamente nada.
34:12Teve um tempo em que acho que podia distinguir entre o escuro e a luz.
34:16Mas agora vive na mais completa escuridão.
34:19Deve ser terrível.
34:24Desde menina anda por aí.
34:26Se virando como pode.
34:28Aposto que já se machucou muito.
34:31Mas é apanhando que se aprende.
34:34Quando ainda nem ficava de pé saia para brincar com as flores e com os animaizinhos que encontrava.
34:39Quando cresceu começou a conhecer as trilhas da montanha e a se afastar cada vez mais.
34:47Agora não tem lugar que ela não conheça melhor do que qualquer um de nós.
34:51Não se perde, nem tropeça, nem cai. A não ser que...
34:59Quem são os pais dela?
35:02Não tem.
35:03Foi criada por uma mulher daqui.
35:06Ela é órfã.
35:11Boa tarde.
35:14Boa tarde, senhora.
35:17O senhor é o responsável pelo cemitério?
35:20Sim, sou eu, senhora.
35:23E tem muito tempo que trabalha aqui?
35:25Sempre trabalhei.
35:26São tantos anos que nem me lembro mais.
35:29Então, com certeza o senhor pode me dizer o que quero saber.
35:33Pode falar.
35:35Há uns...
35:36Há uns vinte e poucos anos...
35:39enterraram aqui uma criança recém-nascida.
35:43Era uma menina.
35:45E a senhora sabe o nome?
35:49Bem...
35:49Não, eu não sei.
35:52Não chegou a ter...
35:54porque nasceu sem vida.
35:56Ah, sempre se batiza e se dá um nome.
36:00É que...
36:04Sinceramente, eu não sei.
36:06Mas posso lhe dar a data exata em que a menina nasceu.
36:10Ah...
36:10Tudo o que eu quero saber é...
36:14onde está sepultada.
36:16É, escuta. Eu acho que deve estar havendo algum engano.
36:20Por quê?
36:21Aqui só tem duas meninas recém-nascidas sepultadas.
36:26E tem mais de trinta anos enterradas.
36:41Conversa.
36:45Gjsk.
36:47E tem mais de trinta anos.
36:53O que eu quero saber é só.
36:58Nunca estamos aqui.
36:59It's made all day
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