00:00A gente vai conversar sobre isso agora com o Leonardo Trevisan, que é economista e professor de relações internacionais da
00:07SPM.
00:08Professor, seja muito bem-vindo a essa edição do Radar.
00:12Boa tarde, boa tarde a vocês e a todos que nos escutam.
00:18Bom, professor, a gente já viu manifestações muito maiores na Argentina,
00:22embora essa seja uma reforma que mexe profundamente com o direito dos trabalhadores,
00:27a gente nota que nos últimos anos vem havendo um enfraquecimento das centrais sindicais por lá,
00:33que em outros momentos da história foram muito mais poderosas.
00:39Professora, tenho a impressão que o seu áudio está fechado.
00:43Será? Não é aqui.
00:46Agora abriu, é.
00:47Não, não era aqui.
00:48O que nós temos que observar, Marcelo, é que, quando nós olhamos para a crise argentina,
00:59havia uma espécie de encontro marcado com essa reforma trabalhista.
01:05A Argentina tem uma séria defasagem tecnológica com vários outros,
01:12mesmo com países latino-americanos.
01:14tem também acumulada, além dessa defasagem tecnológica,
01:22tem também acumulada uma defasagem legislativa.
01:25Há uma série de mudanças que pediam uma alteração
01:30nas relações de trabalho na Argentina.
01:33Vários fatores.
01:35O que se viu é que essa mudança recebeu, por parte do governo,
01:42essa necessidade de mudança, uma pressão maior, uma pressão muito mais forte.
01:48Talvez nós estejamos frente, nessa proposta de Milley,
01:53a um claro...
01:54Sabe aquela história dos dois bodes na sala, que é para ficar só um?
01:58É possível, sim, que nós tenhamos uma redução dessas tensões e a aprovação,
02:04que é isso que interessa ao governo.
02:06Por enquanto, o que nós temos é uma reforma muito dura, Marcelo.
02:10A redução das indenizações por demissão,
02:14um fato que fica bem pesado no contexto argentino,
02:19permite pagamentos em espécie.
02:22A empresa paga por hora trabalhada, paga por bens da própria empresa,
02:28estende as jornadas até 12 horas.
02:31O mundo inteiro está discutindo redução da jornada de trabalho.
02:36Isso me parece difícil de passar.
02:38E limita também o direito de greve.
02:41Fora umas questões menores, como, por exemplo,
02:45aumentar muito o período de experiência do profissional.
02:50O que, evidentemente, sugere uma intensidade muito maior
02:56de você troca de um profissional por salários mais baixos.
03:00Então, esse processo sinaliza, de alguma forma,
03:04que o governo Milley decidiu, vamos dizer deste modo,
03:08como dizemos bem no nosso bom português,
03:12cutucar a onça com varacurta.
03:14As imagens que vocês mostraram
03:16é de que essa repercussão da greve,
03:20ela é intensa nos setores que têm mais força,
03:24principalmente transporte.
03:26Mas ela é reduzida na presença popular na rua,
03:30o que era uma tradição argentina.
03:34Professor, como é que o senhor explica a popularidade
03:37do governo Milley até agora,
03:39mesmo tomando tantas medidas impopulares?
03:41Na campanha, ele já falou que precisaria de um período
03:44de remédio amargo para consertar o país.
03:47Mas o senhor acredita, por exemplo,
03:48que o fato da inflação na Argentina ter caído
03:51de uma média de 200% ao ano
03:54para um patamar de 30 e pouco por cento,
03:56ainda que dá algum crédito para o Milley fazer isso?
04:00Olha, nós temos que entender um fato que é real.
04:04Todos os economistas das mais variadas tendências
04:09dizem o mesmo diagnóstico da reforma argentina.
04:14A Argentina vai muito bem, obrigado, depende para quem.
04:19Se você olhar para o capital financeiro,
04:22sem dúvida nenhuma, é isso que você acabou de falar.
04:25Aquilo que o Milley prometeu,
04:29a famosa cortadora, a motosserra que ele prometeu,
04:35ele está cumprindo.
04:36Ele cortou forte o déficit fiscal
04:39e cortar o déficit fiscal significou conter a inflação.
04:43Então, de alguma forma, as medidas foram no caminho certo
04:47e parte considerável da sociedade argentina
04:51que não suportava mais viver esse número,
04:57ano de 200%, Marcelo, era ano bom.
05:01O Muzú teve ano de mais de 400%.
05:04Então, quando se olhava para essa situação,
05:07que beirava sempre a hiperinflação,
05:10qualquer controle é bem-vindo.
05:12Porém, para o setor produtivo argentino,
05:17esse remédio foi muito duro.
05:22Há um número corrente, bem justificado,
05:26de que nos últimos dois anos,
05:27mais de 20 mil empresas perderam charo na Argentina.
05:33Ficou muito impactante o que aconteceu na semana passada.
05:37A maior fábrica de pneus na Argentina,
05:40Cafate,
05:42ela fechou e deixou de uma hora para outra
05:45900 empregados absolutamente bem qualificados,
05:49sem trabalho.
05:50Era só um sinal.
05:52Se fala na Argentina,
05:54isto é informação sindical,
05:56precisa confirmar,
05:57numa perda de mais de 300 mil empregos.
06:01Então, o setor produtivo argentino,
06:04se você sentar com o empresário argentino
06:06do setor produtivo,
06:07ele tem um rosário de queixas.
06:10Agora, de alguma forma,
06:12no setor, na ordem financeira,
06:15o modelo argentino conseguiu avançar sim.
06:18Talvez, é a tua pergunta,
06:20a população tenha preferido,
06:23de algum modo,
06:25esse sacrifício
06:26para ter alguma estabilidade econômica.
06:30Rapidamente, a gente está com o tempo acabando,
06:32professor,
06:33como é que o senhor acha que
06:34a experiência do Javier Milley na Argentina
06:36vai ser usada na eleição aqui no Brasil?
06:39Ah,
06:40essa pergunta é complicada,
06:42porque eu acho que nós estamos vivendo na Argentina
06:46e na América Latina como um todo,
06:50na América Latina, no mundo todo,
06:52um setor de fortíssima polarização.
06:55Me chamou muita atenção,
06:57não compare com o Brasil,
06:59compare, por exemplo, com o Japão.
07:02Imagina,
07:02hoje ela foi aprovada com 350 votos,
07:07a Takaishi.
07:08algo que é inédito
07:11naquele contexto
07:11de uma economia superestável
07:13como a economia japonesa.
07:15Há uma ansiedade
07:16nas sociedades,
07:17não é aqui,
07:18no mundo inteiro,
07:19por algum tipo
07:22de compensação
07:23para essa mudança
07:25muito forte
07:26tecnológica.
07:27Quem está oferecendo
07:29essa mudança
07:30é muito mais
07:31áreas de direita
07:32do que áreas
07:33mais progressistas.
07:35não precisa nem falar em esquerda,
07:37em áreas mais progressistas.
07:39Acho que a Argentina
07:39vai um pouco nessa linha.
07:41É muito cedo
07:42para a gente fazer
07:44alguma comparação
07:45imediata com o Brasil,
07:47mas os índices eleitorais,
07:49as pesquisas eleitorais,
07:52sinalizam um profundo equilíbrio.
07:55É mais ou menos
07:56o que acontece na Argentina.
07:57O governo argentino
07:59tem pouco mais
08:00de 50%,
08:01153%,
08:0255%
08:03de aprovação popular.
08:05De alguma forma,
08:06é um sinal forte
08:07de que essas medidas
08:08têm sim
08:09uma validade,
08:11vamos dizer deste modo,
08:13têm sim
08:13uma compreensão
08:14de parte considerável
08:16do eleitorado.
08:17Professor Leonardo Trevisan,
08:19muito obrigado
08:19pela sua participação.
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