00:00Quero mudar de assunto agora porque hoje os portugueses vão às urnas para eleger um novo presidente.
00:04A disputa no segundo turno acontece pela primeira vez em 40 anos e está entre os candidatos
00:10Antônio José Seguro, de centro-esquerda, e André Ventura, do Chega, que é da direita.
00:16Sobre isso a gente conversa agora com Demetrios Pereira, que é professor de Relações Internacionais da ESPM.
00:21Professor, seja muito bem-vindo, obrigado por nos atender nesse domingo de pré-carnaval.
00:25E eu gostaria que o senhor trouxesse essa análise sobre, embora Seguro esteja à frente nas pesquisas eleitorais,
00:34há uma percepção de que o Chega, que é um partido mais relacionado à direita radical,
00:41consiga um posto que em muitos anos não foi visto ali de representatividade em Portugal.
00:48Como é que a gente tem que olhar para essas mudanças políticas que também chegam ao país
00:54e que, de certa forma, vão fortalecendo esse lado da direita também naquela região da Europa?
01:01Bom dia.
01:03Bom dia, Evandro.
01:05Obrigado pela pergunta, obrigado pelo convite.
01:08Realmente, a direita mais radical vem se fortalecendo não só em Portugal,
01:13mas em toda a Europa, especialmente no Legislativo, mas agora no Poder Executivo.
01:20Então, o cargo do presidente em Portugal é um cargo bastante importante.
01:26Apesar disso, Portugal não é um sistema presidencialista.
01:33Então, Portugal seria mais próximo do que a gente chama de República Parlamentarista,
01:38em que há um presidente e um primeiro-ministro.
01:40E o presidente tem poderes um pouco mais cerimoniais, menores que o primeiro-ministro.
01:46O primeiro-ministro seria o chefe de governo e o presidente chefe de Estado.
01:50Então, mas é um cargo bastante importante.
01:53É um cargo de representação internacional de Portugal.
01:58E a direita mais radical, chegando muito próximo desse cargo pela primeira vez,
02:05já demonstra aí um crescimento da direita mais radical em Portugal.
02:12Apesar disso, as pesquisas realmente demonstram que a esquerda tradicional
02:17parece que vai ganhar aí esse segundo turno das eleições portuguesas.
02:23Professor, você tocou num ponto, né?
02:25Que é o formato de gestão em Portugal.
02:27Bastante diferente do que a gente está acostumado aqui no Brasil,
02:30em que temos a figura do presidente da República com mais protagonismo na administração do país.
02:36Em Portugal, esse regime também, chamado muitas vezes ali de semipresidencialismo,
02:41divide a gestão pública com o primeiro-ministro e também com o legislativo.
02:46Como que ocorreria com uma vitória da centro-esquerda, nesse momento,
02:52como indicam as pesquisas, essa gestão compartilhada,
02:56já que a figura do presidente acaba sendo muito simbólica ao encontro da opinião popular?
03:04Bom, então, provavelmente haveria um compartilhamento,
03:08já que o primeiro-ministro é da direita e com o presidente mais à esquerda,
03:13haveria o que alguns analistas chamam de coabitação,
03:18em que há um chefe de cada cargo.
03:23Então, alguns analistas chamam aí o sistema português de semipresidencialista,
03:28apesar de eu achar que, por exemplo, a França seja mais próximo de um semipresidencialismo,
03:34em que o presidente é mais importante que o primeiro-ministro,
03:38e Portugal é o inverso.
03:39Portugal, eu diria que seria mais próximo de países como a Alemanha,
03:44como a Itália, em que também há um presidente e um primeiro-ministro,
03:47porém a figura do primeiro-ministro detém aí mais poderes.
03:51Professor, eu queria também que o senhor analisasse aqui o fato de ser o segundo turno em 40 anos.
03:58O que isso indica sobre a movimentação política também em Portugal
04:02e uma possibilidade de ampliação de uma polarização que já atinge outras partes do mundo?
04:10Realmente há uma polarização política bastante grande no mundo inteiro,
04:14inclusive aqui no Brasil.
04:18E a figura do presidente geralmente é uma figura um pouco mais consensual
04:24nesses países em que há essa república parlamentarista,
04:30em que há um presidente e um primeiro-ministro.
04:32Então, esse segundo turno demonstra que há uma divisão da sociedade
04:40que é bastante rara, porque em 40 anos haveria um consenso muito maior.
04:47Então, nos países em que há esse sistema,
04:50realmente é bastante consensual essa figura,
04:54figura de união do país, já que ele é o chefe de Estado.
04:59Então, realmente demonstra uma divisão em Portugal,
05:03uma divisão que vai afetar também a União Europeia,
05:08já que Portugal é um membro bastante importante da União Europeia.
05:13Ele não é fundador, ele entrou na comunidade europeia lá nos anos 80,
05:19mas ajudou a fundar o que a gente chama hoje de União Europeia.
05:23Então, nessa transformação, Portugal tem um papel relevante na Europa
05:28e demonstra também essa divisão política mundial.
05:33Professor de Relações Internacionais da ESPM,
05:36Demetrios Pereira, ao vivo conosco aqui no Jornal da Manhã.
05:39Professor, para a gente já também trazer aqui um ponto de conclusão,
05:43eu gostaria que o senhor explicasse sobre o temor da abstenção em Portugal.
05:47Já no fim da campanha eleitoral, muita chuva,
05:50fortes temporais atingiram aquela região da Europa.
05:55Existe algum candidato que pode ser mais impactado com isso?
06:00E também sobre o que a guinada do processo eleitoral em Portugal
06:04pode trazer de repercussão aqui para o Brasil,
06:08que acaba de fechar o acordo do Mercosul,
06:11se isso tem algum tipo de interferência
06:13ou se o tamanho de Portugal dentro da União Europeia
06:16não tende a repercutir tanto aqui para nós no Brasil.
06:20É bom, duas perguntas bastante relevantes aí, né?
06:24Bia, a questão da abstenção é bastante importante nos países europeus,
06:33já que em geral não há essa obrigatoriedade de voto como há aqui no Brasil,
06:40ainda mais com esses eventos climáticos extremos,
06:44as mudanças climáticas que vêm ocorrendo e afetando Portugal.
06:47Isso pode afetar a presença nas eleições
06:50e eu acredito que talvez a direita radical possa ser beneficiada,
06:57já que os eleitores têm essa conexão mais próxima ali do Chega, né?
07:04Então, é um candidato antissistema,
07:07geralmente esses candidatos antissistema
07:09levam a população a essa percepção de aproximação aí
07:15e de maior vontade de ir ali e votar, né?
07:19Já o socialista talvez venha a ser prejudicado por isso.
07:23Já em relação ao Brasil,
07:25Portugal tem uma importância bastante grande
07:30nas relações entre o Brasil e a União Europeia,
07:32o Mercosul e a União Europeia.
07:34Então, talvez os portugueses sejam os europeus
07:38que melhor conhecem o Brasil, né?
07:40Já fomos o mesmo país por muitos anos,
07:43a questão da história, cultura, colonização,
07:45o idioma que estamos falando aqui.
07:49Então, apesar de a economia portuguesa
07:51não ser tão grande,
07:52Portugal foi um dos grandes incentivadores
07:54do acordo Mercosul-União Europeia.
07:56Então, apesar de o cargo de primeiro-ministro
08:00ser um pouco mais importante,
08:02é claro que o cargo de presidente
08:03pode sim ter repercussões, né?
08:07O acordo já está na fase aí de ratificação.
08:10Portugal sempre foi muito favorável
08:12ao acordo Mercosul-União Europeia.
08:15O acordo na Europa foi dividido em duas partes,
08:18a parte comercial e a parte política.
08:21E a parte comercial não vai precisar passar
08:23pelo parlamento português,
08:25mas a parte política sim.
08:27Então, Portugal vai ter aí um papel relevante
08:29para aprovar esse acordo
08:31e também pressionar os demais países europeus,
08:34já que Portugal tem esse papel aí de ponte
08:37entre a Europa e o Brasil e o Mercosul.
08:41Professor Demetrios Pereira,
08:43professor de Relações Internacionais da ISPM,
08:45obrigado pela participação conosco
08:47no Jornal da Manhã.
08:47Ótimo domingo.
08:49Bom domingo, obrigado pelo convite.
08:51Até a próxima.
08:52Obrigado.
08:54Obrigado.
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