00:00Depois de um período de forte alta, o mercado internacional de cacau começa o ano em movimento de queda,
00:06com melhora na oferta e recomposição de estoques.
00:09A dúvida agora é como isso muda custos, estratégias da indústria e decisões de investimento.
00:15E quando esse alívio chega ao consumidor?
00:18Para analisar esse cenário, nós vamos conversar agora com a Ana Paula Lozzi,
00:22ela que é presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau.
00:28Oi Ana Paula, muito boa tarde para você, seja bem-vinda aqui ao Radar.
00:32Tudo bem contigo?
00:36Ana Paula está nos escutando?
00:39Já já a gente vai auferir aqui a escuta, a conexão com a Ana Paula e já já a gente vai falar com ela,
00:49porque é um mercado importante, né?
00:52Porque o chocolate, quem não gosta de chocolate, né?
00:54E no ano passado teve um aumento significativo do chocolate.
00:57Vamos ver se a Ana Paula já está nos ouvindo, já está em contato conosco.
01:01Oi Ana Paula, tudo bem contigo?
01:03Seja bem-vinda aqui ao Radar.
01:05Olá Eric, obrigada, é um prazer estar aqui com você.
01:08O prazer é todo nosso de tê-la aqui no Times Brasil, licenciada exclusiva do CNBC.
01:14Ana Paula, a gente viu no ano passado,
01:16havia um problema, um déficit, né?
01:18Até de cerca de 400 mil toneladas de cacau.
01:21A gente viu o preço do cacau passar de 2 mil dólares para até 7 mil dólares ali a tonelada, né?
01:28E quem gosta de chocolate ficou preocupado, né?
01:31Afinal, o chocolate deu uma encarecida.
01:34Quando que a gente vai começar a acompanhar ali uma queda gradativa, por exemplo, do chocolate?
01:39E por que essa mudança nesse cenário agora em 2026?
01:45Muito bem, é uma excelente pergunta.
01:48A gente tem realmente uma commodity que ela tem passado por volatilidade desde o final de 2023.
01:55Num primeiro momento, em razão de um déficit, como você mesmo comentou, de mais de 400 mil toneladas.
02:03E essa alta do preço ali no início de 2024, meados de 2024, ela demorou para chegar até o consumidor, né?
02:12Foram ali oito, nove meses para que realmente o consumidor final sentisse a alta do preço do cacau nos produtos finais.
02:21E ainda assim não foi tudo repassado para o produto final,
02:25porque senão a gente teria tido um colapso na venda de chocolates,
02:29porque seria mais de 200% de reajuste se tudo tivesse sido passado.
02:34Só que esse cenário agora inverteu.
02:37A gente tem aí uma previsão de superávit para o próximo ciclo.
02:42A gente está encerrando um ciclo que também deve ser de superávit na casa de 216, 220 mil toneladas.
02:51O próximo ciclo na casa das 280 mil toneladas.
02:54E isso traz uma expectativa de maior volume à mercê da indústria para que ela possa produzir.
03:04Só que em paralelo, o que a gente viu nos últimos meses foi uma queda na demanda pelos derivados de cacau.
03:12E por que essa queda aconteceu?
03:13Porque o consumo por derivados de cacau foi reduzindo em mercados tanto europeus, asiáticos, como no Brasil.
03:21Isso muito provavelmente por conta do alto custo que esses produtos passaram a ter por conta do preço da amêndoa de cacau.
03:30Então a gente acredita que essa retração agora nos preços saiu de patamares de 8 a 10 mil dólares a tonelada
03:37para patamar na casa de 5 mil dólares a tonelada.
03:41A gente ainda vai ver muita variabilidade de queda e alta, mas essa queda deve começar a chegar no consumidor final também num prazo de 8 a 10 meses.
03:55Então quando a gente pensa, por exemplo, no que está sendo produzido para ser vendido agora ou na Páscoa,
04:00é um produto que já foi comprado alguns meses atrás.
04:04Foi comprado quando o cacau ainda estava na casa dos 8, 7 mil dólares a tonelada.
04:10Então tem um ciclo produtivo que faz com que os impactos na ponta,
04:15tanto negativos quanto positivos, demorem a ser percebidos pelo consumidor.
04:20Conclusão, na próxima Páscoa, agora que já está também batendo a nossa porta,
04:26o consumidor vai pagar mais caro pelo ovo de Páscoa.
04:29Uma má notícia, né, Ana Paula?
04:31Enfim, para investidores e empresas, aonde que surgem oportunidades nessa nova fase do mercado, hein, Ana Paula?
04:39É interessante, só voltando ao seu comentário, não necessariamente vai pagar mais caro,
04:44porque, na verdade, vai depender do produto que ele for consumir e vai depender também das negociações que foram feitas entre as indústrias.
04:53Mas o que é importante pensar é que a gente tem um mercado consumidor que pode expandir
04:58e a gente tem um mercado produtor que também precisa expandir.
05:01Então a gente tem visto muito investimento das empresas em melhorar a produtividade,
05:08tanto nas regiões da África, como também nos novos mercados, como aqui no Brasil, em áreas não tradicionais,
05:15mas em países que não têm tanto proeminência no cacau, como aqui, Colômbia, Peru.
05:21Então todas essas regiões a gente vê que tem tido um incentivo para aumentar a produção.
05:27As indústrias também têm trabalhado de forma a tornar a sua produção cada vez mais competitiva,
05:35para que a gente possa alcançar novos mercados e abrir mercados hoje que não consomem chocolate como a média mundial.
05:45Então se a gente olhar para uma China, para um mercado árabe, a gente tem um potencial gigantesco de crescimento no consumo.
05:53Mesmo no Brasil, a gente também tem.
05:56No Brasil, hoje, o nosso consumo per capita gira em torno de 3,8 quilos.
06:01A gente ainda é muito longe, por exemplo, de uma Alemanha que consome mais de 8 quilos per capita.
06:08Então tem um potencial de investimento para crescer a produção e aumentar a demanda.
06:14Ana Paula, a gente viu recentemente um acordo na União Europeia-Mercosul.
06:18Isso, claro, leva à importação de alguns produtos, como o vinho e também o chocolate,
06:24que pode pressionar o mercado interno aqui, fazer com que os produtores nacionais tenham que rever custos e até o preço final para o consumidor.
06:36Existe alguma preocupação da indústria em relação a esse acordo que possa inundar o mercado aqui de chocolate importado
06:43com preços talvez mais acessíveis ou mais competitivos?
06:46Esse é um tema que a gente precisa olhar com atenção, porque abre oportunidade para a gente entrar no mercado europeu também com os nossos produtos,
06:56mas como você bem disse, os produtos europeus podem entrar aqui com preço mais barato.
07:02O que a gente precisa é tornar a nossa indústria mais competitiva.
07:06Então trabalhar para que a gente tenha cada vez uma produção mais estável no Brasil e o Brasil dependa cada vez menos da importação de amêndoa
07:16para que a nossa indústria seja mais competitiva, tanto no mercado brasileiro como exportando,
07:22e vendo as oportunidades que esse acordo pode trazer tanto para a indústria mojeira quanto a indústria chocolateira.
07:31Mas sim todos nós teremos que melhorar a nossa eficiência, melhorar a nossa produtividade,
07:37desde o produtor que produz a amêndoa até a indústria final que produz os produtos para o consumidor final.
07:46Ana Paula Lozzi, queria muito agradecer a sua participação aqui no Radar.
07:50Um grande abraço para você e uma ótima semana.
07:53Muito obrigada, um abraço para vocês e a gente fica aqui à disposição.
07:56Obrigado.
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