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  • há 20 horas
Transcrição
00:00A CIDADE NO BRASIL
00:30Então, Paula, vais fazer sofrer os adolescentes na discoteca?
00:33Emílio, olha lá. Há mais vida para além deste prédio.
00:37Tu não te cansas de ser porteiro?
00:39Minha amiga, ser porteiro é como ser controlador aéreo.
00:43O maior desafio do meu trabalho é manter-me desperto e, olha, ver alguns aviões a passar.
00:47Fascinante.
00:48Esta miúda é mesmo bobo. Eu é que tenho namorada, se não ias a ver...
00:53Oh, oh, dona Conceição, importa se regar com mais cuidado?
00:58Ai, molhei-te.
01:03Não, tenho a camisa molhada porque transpiro muito com o cheiro do lixo.
01:08Emílio, abre o caixote. Para quê?
01:14Mas para que é que é isto?
01:16Quase.
01:17Deixa ver se eu consigo.
01:18Tenha um bocadinho, por favor. Isto não é nenhum campo-basket.
01:26Bingo.
01:27Então, o que é que achar?
01:30Quase três pontos, dona Celeste. Quase.
01:34Um bocadinho, por favor.
01:36Aqui, aqui, aqui, não há quem viva. Aqui não. Aqui não. Aqui não.
01:41Eu não podia imaginar, no dia em que este prédio vim parar, fugir do stress, da agitação.
01:48Era o dia-a-dia nesta confusão.
01:50Aqui, aqui, aqui, não há quem viva. Aqui não. Aqui não.
01:54Neste prédio é só gente maluca. Que o porteiro já nem pode aturar. E os vizinhos andam sempre a escutar. Não aguento este lugar.
02:09É loucura sem remédio. É o fim do mundo em cada andar.
02:17Não há quem viva neste prédio.
02:23Aqui, aqui, aqui, não há quem viva. Aqui não. Aqui não. Aqui não. Aqui não. Aqui não. Aqui, aqui, aqui, não há quem viva. Aqui não.
02:39Como é que mais medo de todos? É o Freddy Krueger, pá.
02:42É o quê, pá? O exterminador pega no Freddy Krueger e dá cabo dele em dois tempos.
02:45E o Allian? Andam-me a cuspir dela e derretem o exterminador, hã? Não é?
02:50Pois olha.
02:51Tem para ti. Para ti, qual é que é a personagem que mete mais medo?
02:53É o Ministro das Finanças.
02:57Ó Palmeira, mas tu já vais comprar tabaco. O que é que tu fizeste com aquele que compraste ontem?
03:03Um chá. O que é que achas?
03:06Mas de que é que vocês decoraram isto? São os teus anos, Pedro.
03:10Não, minha senhora. Estamos a fazer uma promoção aqui no clube de vídeo. Filmes de terror.
03:14Leva três, paga dois.
03:16Ah, que medo. Não gosto nada disso.
03:18Ah, não sabe o pé, minha senhora. Olhe que o Seixo de Sentido é um bom filme.
03:21Seixo de Sentido é erótico.
03:24Os mortos vivem entre as pessoas.
03:26I see the people.
03:29Essas coisas põem-me nervosa.
03:31Tu lembras-te daquela história que o papá contava?
03:33Que era o médico que lhe receitava o whisky?
03:35Não é nada disso. Aquela história do sótão, da menina, do incêndio.
03:40Ai, já estou farta dessa história.
03:43Mas que história é essa?
03:44Ai, não sabes?
03:46Neste mesmo edifício, há muitos anos, o porteiro enlouqueceu e pegou fogo ao prédio.
03:51Estou mesmo a ver. Não tinha contrato, como eu.
03:54Salvaram-se todos os vizinhos, menos um casal que vivia no sótão com uma filha pequena.
03:59Olha, os corpos nunca foram encontrados.
04:02E o porteiro, quando soube o que tinha acontecido, suicidou-se na portaria.
04:09É por isso que às vezes se ouvem aqueles mitos de uma menina.
04:12Ai, que medo!
04:15Essa história eu nunca tinha ouvido. Quando é que isso foi?
04:18Ai, há muitíssimos anos.
04:19Olha, a Palmir era pequena.
04:21Não façam caso. Vá, anda.
04:24É verdade.
04:26Prometeste ao administrador que não contáves nada.
04:28Que má onda, não é?
04:33Esta história é genial. Por que nós não fazemos um filme de terror, hein?
04:37O que é? Chamam-se ao Spielberg.
04:38Qual o Spielberg? Qual o quê? Nós! Mais os vizinhos todos.
04:41E eles não vão querer?
04:43Nem vão saber. O melhor ator é aquele que não sabe que está a ser filmado.
04:49O que é que este quer fazer?
04:50Não sei, mas parece ser fixe.
04:54Ação!
04:58Mamãe, eu e o Rui vamos casar.
05:02Felicidades, querida.
05:04Já disseste ao teu pai?
05:05Não, não. E agora ligar-lhe.
05:08Vais casar como? Para quê? Com quem?
05:10Com o Rui, pai. Com quem que havia de ser?
05:13Olha, casa?
05:14Mas escuta, faz superação de bens.
05:17Não sei, pai.
05:18Superação de bens. Ouve o que eu te digo.
05:21Estou tão contente, minha querida.
05:23Vais ver que vão ser muito felizes.
05:25Ao princípio é tudo muito bonito, mas depois aquilo dá para o torto e aí é que são elas.
05:30Não penses no que se passou comigo e com o teu pai.
05:33Lembra-te do que se passou com a tua mãe.
05:35O divórcio arrasou comigo.
05:37Gosto do Rui. Tenho a certeza de que ele é o homem da tua vida.
05:40E gosto imenso de ti.
05:42Que conste que eu não tenho nada contra o Rui.
05:44Mas não me parece que esteja à tua altura.
05:46Bem, mamãe, vamos falando.
05:48Um beijo, querida. Liga-me para o que precisares.
05:51Está bem, beijinhos.
05:52Isto passar-se seis meses com cada um é muito estranho.
05:59Foi a ideia da tua mãe.
06:00Tu sabes que eu até pago para não discutir com ela.
06:02Ela agora andou com um tempo novo, cheio de papel.
06:06Boa, aproveita. Não querias uma mota?
06:08Deve ser o bicho peçonhento.
06:10Mãe, vamos tentar comportar-nos como adultos, está bem?
06:12Olá, está boa?
06:18Está boa.
06:20Vá, despachem-se. Tenho o carro em segunda fila.
06:23Rodrigo vai ter com a tua mãe.
06:24Rebeca vai ter com o teu pai.
06:25Bom, eu já tenho o título.
06:35O sótão do pânico.
06:37Primeira cena, nós escondemos-nos e tu começas a assustar os vizinhos.
06:39Decoraste?
06:40Oh, Pedro, isto parece muito complicado.
06:42Olha, no silêncio da minha solidão chegam da misteriosa porta do sótão
06:46uns lamentos sinistros, inquietantes e aterradores de uma menina...
06:50Isto parece ser muito complicado para eu fazer esta moqueira.
06:53Fala, Lays, mais alto eu ponho-te como protagonista.
06:55Eu sei que isto é uma oportunidade única para mim, mas...
06:57Vem, vem a minha mãe.
06:58A dona Dulce, não. A dona Dulce, não.
07:00Sim, após que ela se vai borrar de medo.
07:03Vá, não. Silêncio, estamos a gravar. Ação!
07:08Olá, Emílio, estás bem?
07:11Na quietude e na solidão dos lamentos do sótão onde está a menina,
07:18aparece uma...
07:20Oh, Emílio, o que é que estás para aí a dizer?
07:21Estava a dizer que eu estava a limpar as escadas e comecei a ouvir uns gemidos horríveis
07:26da menina que morreu no sótão há uns anos, queimada.
07:28Oh, Emílio, tu não andaste a fumar coisas esquisitas, pois não?
07:30Não, era assombroso.
07:32Era assim como uns gemidos que nos penetravam na alma.
07:37Oh, Emílio, o que é que os gemidos diziam?
07:39O que é que os gemidos diziam?
07:40Então, o que é que os gemidos diziam?
07:42Ai, que dor! Ai, que calor!
07:46Venho buscar-vos, vão todos morrer!
07:50E essas coisas todas que os mortos dizem?
07:52Oh, Emílio, para com essas histórias que me põem nervosa!
07:54Não, mas, dona Dulce,
07:57eu sinto que há qualquer coisa aqui entre nós.
08:01Oh, Emílio, o que é que estás para aí a dizer?
08:03São os mortos!
08:05Os mortos!
08:06Emílio, neste outro outro outro encarnaste.
08:09Emílio, deixa-te farveliços.
08:10Eu a avisei-a, eu a avisei.
08:12São os mortos!
08:16Corta!
08:17Foi bom, não foi?
08:18Mal, muito mal, muito exagerado, Emílio.
08:20E assim ninguém vai acreditar.
08:21Acredita sim?
08:22Garanto-vos que a minha mãe engoliu?
08:27Não tem as umas todas coladas de boqueria da cola também?
08:31Papai, o que é que estás a fazer?
08:34Eu vou fazer uma maqueta e dizer que é bom para o stress.
08:36E, às vezes, está a resultar.
08:38Eu não percebo, não tem isto.
08:42João!
08:43Sim?
08:43João!
08:44Sim!
08:45O Emílio tentou assustar-me, porque tens de falar com ele.
08:48O quê? Tirou a camisa diante de ti?
08:49Não.
08:50Ele disse que ouviu vozes de uma menina.
08:54Uma menina?
08:55Sim, João!
08:56A menina que morreu queimada no sótão há muitos anos!
08:59E, amor, como é que ele sabe isso?
09:02Eu não vou ter que falar com ele para eu não contar nada a ninguém.
09:04Ah, afinal, é verdade!
09:06Não, não é nada verdade.
09:07Não acredites nessas coisas, ó filha.
09:09Vá!
09:10João!
09:11Mas a menina morreu queimada ou não morreu queimada?
09:14Não se sabe bem.
09:15Não apareceu o corpo nunca.
09:17Nem dentes, nem nada?
09:18Como é que és que eu sábio?
09:19Isso foi há 70 anos, querida.
09:20Não sei.
09:20Ah, então o Emílio tem razão.
09:24A menina está-se a sentir-me de sozinha.
09:26Ela diz que nos vem buscar a todos.
09:27Ó, puxa, para com essas coisas.
09:29Para com essas coisas.
09:30Não acredites nisso?
09:31Sim, porque fantasmas aqui não, João.
09:33Hã?
09:34Fantasmas aqui não.
09:35Já basta aos que cá moram.
09:36Está bem, filha.
09:36Está bem.
09:37Claro que sim.
09:38Fiquei descansada.
09:39Olha, fazer a separação de bens é a coisa mais normal do mundo.
09:43Não sei, é que me parece tão pouco romântico.
09:45Me parece pouco romântico porque é, de facto, pouco romântico.
09:47Sim, mas é muito mais prático.
09:49Olha, encara a coisa como sendo um contrato.
09:51Se tu quiseres, eu posso escrever algumas cláusulas e depois tu mostras ao Rui.
09:55Bem, está bem.
09:57Ok?
09:58Combinado.
09:59Ah, e olha, parabéns.
10:01São cada vez menos os corajosos.
10:03Obrigada.
10:04Qualquer coisa já sabes, também gostei.
10:06Tá, tchau.
10:06Obrigado.
10:09Ah, Fernanda, tu também.
10:10Que essa área é tão bonita e tu me tens medo à rapariga.
10:12Eu não.
10:13Mas estou a precaver.
10:15Depois acabam a discutir até por causa de um tapete.
10:17Olha lá.
10:21Se nós nos casássemos, era ou não a conspiração de bens?
10:24Ah, sabes perfeitamente que não podemos casar.
10:26Eu sei, eu fico pior do que estragado com isso.
10:28Mas imagina.
10:30Que nos casávamos?
10:31Hum.
10:32E se nós casássemos, o teu vestido levava véu ou não?
10:35Era ou não a conspiração de bens?
10:37Ah, pô, claro que sim, Gustavo.
10:39Sim, eu acho que é o mais justo.
10:40O que é de cada um, é de cada um.
10:41Ficaste chateado?
10:49Eu não.
10:50Não absolutamente nada chateado, afinal.
10:53O que é de cada um, é de cada um.
10:56E por falar nisso, acho que esta carta é tua.
11:00Então, come, come o que está aí.
11:08Avó, não gosto disto, tem muita gordura.
11:11Tem muita gordura?
11:12E o que é que isso faz?
11:13Pai, dá-te, tens, não te faz diferença nenhuma.
11:16Avó, nós somos aquilo que bebes.
11:18Olha, isso é verdade.
11:19Olha o teu pai.
11:21Sara, hoje não vai dar para sairmos, está bem?
11:24É que a minha mãe foi internada.
11:27Na hora de grave, para a semana já sai do coma, sim?
11:29O que é que tu estás para aí a dizer?
11:32Vá, não fiques chateada, querida.
11:34Está lá.
11:36Passas esta noite com o teu marido, que também merece.
11:38Hã?
11:39Vai, liga amanhã.
11:40Está bem?
11:41Beijinho.
11:43Ó, Armando, eu não me entendo com esta criança.
11:45Não me entendo com a tua filheta.
11:46Até já tenho o açúcar a subir.
11:48Não me espantei nada, aquilo que tu comas.
11:51Estás a ver?
11:52Estás a ver?
11:53Olha, pois agora tu é que não te levantas daí sem comer tudo o que está aí.
11:56Ora, é, você está.
11:56Eu quero ver o iagro de soja e ver o que é o premio de equilácea.
12:01O premio de quem?
12:03Queres o quê?
12:05Como ser um bom pai.
12:07Capítulo 1.
12:08O teu filho, esse grande desconhecido.
12:15Palmira, vou às compras.
12:18Sardinhas de descabecha e cerveja.
12:20Com álcool.
12:21Palmeira!
12:31Possa, foste muito depressa.
12:33Dá cá uma cervejinha.
12:36Estou cheia de medo.
12:37Eu quero me ir embora daqui.
12:38Raros, caras, condóminas, minha esposa e porteiro.
12:43Vamos ter calma.
12:44Pelo amor de Deus.
12:45Aqui não se passa nada de estranho.
12:47Ai, não?
12:47Não.
12:47Então e o meu carrinho?
12:48Andou sozinho?
12:49Pois.
12:50Quer-me convencer de quê?
12:50Que há um fantasma ou puxou?
12:52Podia-lhe ter dado a lista das compras e ele tinha ido ao supermercado.
12:55Vamos morrer todos, Sr. Osval.
12:57Vamos morrer todos.
12:58Não me abandes a mim.
12:59Tu estás-me a pôr estérica.
13:01Mais ainda?
13:02Vá com calma.
13:03Eu às vezes até à noite ouço vozes.
13:06Ouves vozes porque deixas a rádio acesa debaixo da almofada.
13:10Não, eu também ouço vozes.
13:12Às vezes até ouço os mitos de uma mulher.
13:15Ah, bom.
13:15Ah, bom.
13:15Ah, bom.
13:16Eu e a minha esposa a fazermos amor.
13:18Qual?
13:19É verdade, filha?
13:19Eu sou muito orgulhoso.
13:20Não pode ser.
13:22Ela ouve os mitos mais que uma vez por mês.
13:25Mais uma vez por mês mesmo.
13:26Nossa Senhora, meus senhores dos cristos, livrai-nos do espírito do mal.
13:29Para lá.
13:30Vamos morrer todos.
13:31Tu queres te calar?
13:32Cala-te.
13:33Que coisa.
13:35Bom, vocês querem me convencer que nós coabitamos neste imóvel, superiormente desigido por mim,
13:41com uma família de mortos?
13:42Não.
13:42Eu acredito que sim.
13:44Eu também.
13:44Então, pai, eu condomínio.
13:46É, e que venham às reuniões, não?
13:47Então, e como é que eu conto os votos?
13:49Não, isto é uma metáfora.
13:50Pronto, vamos dormir, amanhã tudo está melhor.
13:52Está bem?
13:52Vamos mesmo conseguir pegar no sorno.
13:55Claro que vamos conseguir.
13:56Amanhã tudo será melhor.
13:57Claro.
13:58Se sobreviver alguém...
13:59Ó, menino, cala-te.
14:00João, João, eu quero ir para um hotel.
14:02Vai, filha.
14:05Como ser um bom pai.
14:06Capítulo 2.
14:08Diálogo.
14:09Deve ter-se uma grande capacidade de compreensão e uma atitude dialogante.
14:13O pai não deve perder a paciência.
14:14Rebeca, porquê é que não deixas-te pintar a mesa e pintas no papel que é para isso que
14:22ela está aí?
14:23Porque o papel foze e a mesa está sempre aqui.
14:26É.
14:27É.
14:27É.
14:28É.
14:28É.
14:28É.
14:41É.
14:42É.
14:43Vamos lá.
15:13Emílio.
15:21Emílio.
15:27Ai, Alba.
15:40Tomás, foi por isto, nos chamaram?
15:42É uma mancha.
15:43Não.
15:44É uma cara.
15:45É o papá.
15:46Ai, minha mãe.
15:47Vocês não acreditam.
15:48Vejam a fotografia.
15:49É igual.
15:51Pois, eu não digo que não tenham uma presença, mas...
15:55Bom, sinceramente, Conceição, eu acho que mais do que um problema do Alain, nós estamos
15:59perante um problema de umidade.
16:01Vocês não percebem?
16:02É que neste prédio estão-se a passar coisas estranhíssimas.
16:05Olha, Fernando, se é o pai delas, eu acho que é um assunto de famílias, não tem nada
16:08a ver com isso e elas que se entendam.
16:10Eu vou para a cama.
16:11Então, muito boa noite.
16:13Bom, amanhã, chamem-me o pintor e vão ver que o vosso pai volta logo a descansar em paz.
16:19Até amanhã.
16:20Estamos a fazer uma figura ridícula.
16:22Tu não percebes, Palmira?
16:24O papá está aqui e está a querer dizer-nos alguma coisa.
16:28Sim, para nos irmos deitar, que já é tarde.
16:31Ah, tu também não acreditas.
16:33Acredito.
16:34Vá, dá-lhe as boas noites.
16:35Vá lá.
16:36Boa noite.
16:37Sabe-se o que é que eu acho estranho?
16:39É o papá ter vindo sem a mamã.
16:41Isso não acho nada estranho.
16:42Vá lá, querida, olha, um golinho de anis, um calmante e dormes que nem um calhau.
16:47Vamos embora.
16:48Vamos, vamos deitar.
16:49Vamos, vamos deitar.
16:50Ah, o que é isto?
16:52Quero ir para a casa.
16:54Ai, a menina do sótão.
16:57João, João, estás a ouvir, João?
17:02Não não ouço nada, nada.
17:04Está tudo em silêncio.
17:05Vem dormir, filho.
17:06Anda para a cama.
17:07Vem dormir, filho.
17:08Quero voltar para a minha mãe.
17:14Olha, menina, menina, olha, o que é que tu queres de nós?
17:19Lá estás tu a falar com pessoas que não conheces, filha.
17:21Cala-te, torne-me.
17:22João, tu não viste que isto é o espírito da menina lá do sótão?
17:26Espírito nenhum com os espíritos.
17:28Este lado basta deixar a televisão ligada.
17:30Foi só isto.
17:31Está a dar a Heidi.
17:32A Heidi, João?
17:34A Heidi, sim, a Heidi.
17:35A meia-noite?
17:36Repetem.
17:37Oh, filho, mas quem andava à procura da mãe era o Marco.
17:41Deita-te.
17:42Deita-te.
17:43A Rebeca não quer dormir contigo.
17:46Dormo eu.
17:47Olha, vai lá.
17:48Vai lá, mas é ver o que é que se passa agora.
17:50Não vou, mãe.
17:51Não vou.
17:52Isto é precisamente o que não se deve fazer, olha.
17:54Capítulo 4.
17:55Como ser um bom pai.
17:57Não ceder a chantagem ou a manipulações.
18:00Já basta ter sido quase obrigado a dormir aqui.
18:02Ela já se cansa.
18:04Olha, pelos vites, já se cansou.
18:06Saiu de casa.
18:08Não me disseste, vou imediatamente falar com...
18:11O quê?
18:12Vou imediatamente falar com o Costa.
18:15E o que é que lhe vais dizer?
18:17O homem há de pensar que lhe estamos a dar baile.
18:19Vou-lhe dizer que há umas almas penadas que nos querem dizer alguma coisa.
18:32Olha para isto.
18:34Deram-se ao trabalho de o pôr por escrito.
18:38Eu vou ver.
18:39Eu vou ver.
18:40Pronto.
18:41Escolta, vais-me deixar aqui?
18:42Sozinha?
18:43Oh, Dulcinha, queres ir comigo?
18:44Não, não, não.
18:45Não, não, não.
18:46Vou-lhe ficar aqui, João.
18:47Vá lá, querida.
18:48Acalma-te lá.
18:49Agora com medo de fantasmas.
18:50Fantasmas de uma pessoa de atuidade.
18:51Fantasmas de quê?
18:52Qual fantasma de qualquer prusa?
18:53Eu quero a minha mãe.
18:58Fica.
18:59Porquê é que deu licença para sair de casa?
19:03Para ali, engordalhuta.
19:05É o administrador de condomínio.
19:07Eu não gosto dele.
19:08Olha, já tens uma coisa em comum com a tua avó.
19:10Vá, vá.
19:12O que é que tu viste, João?
19:13Vocês estão comigo?
19:14É doido.
19:15Eu não sei o que é que vi.
19:16Eu não faço ideia do que é que vi.
19:19O Nuno quer falar contigo.
19:21Eu não sei o que é que se passa, mas ele está muito assustado.
19:23É natural.
19:24Eu tenho que ir lá falar com ele.
19:25Ele está assustado.
19:26João.
19:27Sim.
19:28Mostra integridade porque és o pai dele.
19:29Mostra integridade.
19:30E pensa.
19:31Sim.
19:32Não há de ser um espírito que vai dar bem.
19:33Não.
19:34Não há de ser um espírito.
19:35Não há de ser um espírito.
19:37Ah!
19:38Então, o que é que se passa, campeão?
19:53Pai, eu quero contar-te o meu segredo.
19:57Conta, filho, conta.
19:59Eu, às vezes, vejo mortos.
20:03Também eu, também eu.
20:05Ah, sim?
20:06Sim, e aqui no patamar, a menina lá de cima do sótão.
20:12Isso, eu tenho medo, pai. O que é que vamos fazer?
20:16Só temos uma coisa a fazer.
20:17Uma reunião extraordinária de condóminos, que aqui, ou mortos, ou vivos, todos não cabemos.
20:23Só temos uma coisa a fazer.
20:24Uma reunião extraordinária de condóminos, que aqui, ou mortos, ou vivos, todos não cabemos.
20:31Pai, foi uma sorte do caraço, diz aquilo da miúda, ah?
20:33Onde é que arranjaste?
20:34Com a miúda? Não arranjei miúda nenhuma, pá.
20:38Então, de onde é que ela apareceu?
20:41Já estou a ficar aí com medo. Eu estou mesmo a ver que andamos a chatear os mortos.
20:44O meu pai ficou um bocado apanhado.
20:46Puta, a próxima reunião de condóminos é na tua casa, não é?
20:49É.
20:49Então temos de gravá-la. Toma.
20:51Olha, e de passagem, se a tua irmã estiver a tomar banho...
20:53Oh, Emílio, isto é arte, pá.
20:55Ai, irmã dele, não.
20:56Bom dia.
21:02Olá.
21:03Ana, preparaste o pequeno-almoço?
21:05Sim, esta é a tua chávena, esta é a minha chávena, esta é a tua colher, esta é a minha colher.
21:10E continuamos com estupidez.
21:12Ah, ah, ah, ah, esses que lá sei, também fui eu que comprei.
21:15Os teus cereais estão no armário de sempre, que já vinha com a casa, por isso eu não sei de quem é.
21:21Ah, o açúcar, também fui eu que comprei.
21:23Sim, mas o açúcar é meu, foi a minha mãe que me ofereceu.
21:36O teu açúcar é meu.
21:38Gustavo, tu não achas isto um bocado infantil?
21:40Eu acho, mas o fanático da separação de bens és tu, não sou eu.
21:44Ora, eu vou ver um bocadinho da minha televisão.
21:48Sim, mas vais vê-la sentado no meu sofá.
21:50E o que tu queres?
21:51Queres que eu me sente no chão?
21:52Oh, se desviares primeiro o meu tapete?
21:54Por favor.
21:55Gustavo, até quando é que vamos continuar com isto?
21:57Não sei, entre em contacto com o meu advogado.
21:59O teu advogado sou eu.
22:03Olha, é o dinheiro que tu poupas nas chamadas.
22:05Para.
22:05Olha, Rui, eu acho que isto é o melhor para os dois.
22:20Gostamos muito um do outro.
22:21À partida não vai haver problemas, mas assim ficamos mais descansados.
22:25Sim, meu amor.
22:27Onde é que és que eu assine?
22:29Aqui.
22:30Vês?
22:31Não custa nada.
22:32É um instantinho.
22:35Olá.
22:36Olá, Rui.
22:38Bem, Cristina, olha, vou andando que eu tenho que passar a farda.
22:41Hoje apetece-me ir girar-se para o trabalho.
22:43Ah, mas uma maluca.
22:44Ana, se calhar até vou pôr um bocadinho batom.
22:47Vermelho.
22:49Tchau, Rui.
22:50Tchau.
22:52Estive em mais três restaurantes, Cristina.
22:54Vamos ficar enjoados de provar tantos menus.
22:56E tudo a pato.
22:57Olha, Rui, eu queria falar contigo, porque...
22:59Sim, e acontece que o filho de uma amiga, de uma colega de yoga, da minha mãe, é padre.
23:04E ofereceu-se para nos dar a preparação matrimonial aqui em casa.
23:07Vem hoje ao final da tarde.
23:08Ah, mas vamos casar pela igreja?
23:10Claro.
23:12Então, se vamos fazer as coisas, há que fazê-las bem feitas, não é?
23:16Reconheço que a princípio esta coisa de casar-nos fazia-me um bocado de confusão, sabes?
23:20Mas depois apercebi-me que tu és uma mulher maravilhosa e que queres compartilhar a tua vida comigo.
23:26Alguma coisa mais generosa do que partilhares tudo que tens com outra pessoa?
23:29As ilusões, os sonhos, a pasta de dentes, o código secreto do cartão de crédito...
23:36A sério, Cristina, esta confiança que temos um no outro, que move-me.
23:40Pois é, é.
23:43O que é isso?
23:44Isto. Nada.
23:46Ah, deixa estar.
23:49Oh, Rui, dá-te isso, dá-te!
23:51Isso é...
23:52Convenção Antenopcial.
23:54É um suplemento, vinha com o catálogo dos vestidos de noiva.
23:57Como Ser Um Bom Pai
24:01Capítulo 9
24:02Compartilhe atividades com o seu filho
24:05Rebeca, gostaste da boneca que eu te ofereci?
24:11Olha para o corpo dela.
24:13O que é que tem?
24:13Por isso, é que as raparigas têm a l'orexia.
24:19Queres ir andar de baloice?
24:21Isto é uma seca, preferia andar de cavalo.
24:24Mas está bem, se tu queres, tu andas e eu vejo.
24:27Caros condóminos e condóminas, estamos aqui reunidos.
24:35Ai, que badulho foi este?
24:36Vá lá, um bocadinho, por favor. Fala um de cada vez.
24:39Ao fim e ao cabo, vamos morrer todos.
24:41O quê?
24:41Mas o que é que ele disse?
24:43Bom, ordem de trabalhos, ponto um.
24:46Logo que...
24:47Ah, dá-te!
24:49Homem, não me mexas nas costas sem-me avisar, pelo amor de Deus.
24:51Desculpa que eu não falei para desligarem os telemóveis.
24:53Isto não interessa nada.
24:56Ponto um.
24:57Ouça, quando dizem vão morrer todos,
24:59referem-se aos proprietários, não é?
25:02É que o apartamento é da minha irmã.
25:04Não faço a mínima ideia, nem me interessa.
25:05Posso continuar, de uma vez para sempre.
25:07Ponto um.
25:12Análise e tomada de decisões
25:13acerca dos estranhos acontecimentos
25:15e presenças incómodas e insalubres do além
25:19no nosso condomínio.
25:20Mas o que é isto? É uma brincadeira?
25:22Não, há espíritos que falam connosco.
25:24Ah sim, e o pai destas duas apareceu-lhes numa parede.
25:27Ora, eu, com os meus profundos conhecimentos de informática,
25:30pesquisei alguns sites portugueses, franceses, holandeses, tibetanos também
25:34e encontrei um exorcista que me parece uma pessoa séria.
25:37A propósito de dar também explicações de matemática não tão interessados.
25:40Não, pronto, é um fediver, não interessa.
25:41O interesse é que ele nos aconselhou a limpar a casa das energias negativas
25:45e as entidades de baixo astral.
25:47Eu não faço a mínima ideia do que isto quer dizer,
25:49mas há uma coisa que eu vos quero dizer.
25:51Exorcista, sobretudo tibetano, é caro.
25:54Desde que fizeram o filme dispararam os preços.
25:56Vamos lá, filho.
25:57Nós vamos pagar um exorcista.
25:59Isto é um disparate.
26:00É agora um disparate.
26:01Se estão a passar coisas esquisitas, temos que fazer alguma coisa.
26:04Eu não dou dinheiro por uma coisa tão absurda.
26:07É muito simples.
26:08Não se limpam os espíritos da casa desta.
26:09Muito bem, fazemos assim.
26:11Quem estiver a favor da vinda do exorcista, levanta o braço.
26:13Um, dois, três, quatro.
26:16Ótimo, maioria simples.
26:18Logo à noite está cá o homem.
26:19Mas será que há alguma coisa que não aconteça aqui?
26:23Para mim, exorcista a sério.
26:25O meu pai chamou, está-te a ver?
26:27Mas esta história escreve sozinha.
26:29Boa, então e agora?
26:30Agora começa a morrer gente.
26:31Olha, isso é bom, um bocadinho de ação.
26:34Precisamos de uma rapariga gira e que grite muito.
26:35Epá, todos os filmes de terror têm uma.
26:37Contratar-se.
26:50O que é que eu tenho de fazer?
26:54Olha, basicamente vais ter de morrer.
26:57Só?
26:57Claro, o protagonista sou eu.
26:59Este gajo não se enxerga.
27:01Então vais ser namorada de um ator famoso.
27:03Mas qual namorada, Emílio?
27:04Nós não somos namoradas, nós não somos nada.
27:07É, olha, só para teres armarem espertas já não vais migar antes, estreia.
27:11Oh, Celeste, tu também ouviste o grito.
27:14Ai, credo, que susto, filha.
27:16Olha que até fui ali à sala a ver se era o meu irmão de que está sempre a ver aqueles filmes com as mulheres nuas e aos gritos.
27:22Ai, eu mulheres nuas e aos gritos não conheço.
27:24A mim o que me fez lembrar foi uma sala de partos.
27:28Ah, olha lá, agora mal que te pergunte.
27:30Porquê é que tu me estás a ligar em vez de viscá-cima?
27:33Ai, é que eu agora tenho um daqueles telefones novos.
27:37Uns sem fios, que dizem que são muito simples e práticos.
27:43Oh, filha, práticos.
27:45Tu de coisas práticas só entendes duas, filha.
27:48Das escovas de tirares os bergotos e das naftalinas, por causa lá da traça.
27:53Ai, que engraçado. Eu agora comecei a ouvir-te com uma voz diferente.
27:58Olha lá, tu não me digas que eu agora vou ter que gastar mais sempre que te ligarem.
28:03Não. É exatamente a mesma coisa. Nem tem assinatura, nem nada.
28:09Mostra lá o telefone.
28:10Ah, ah. Eu não vou aí acima. Eu agora tenho medo de andar na escada.
28:14Oh, oh, oh, Conceição. Põe a mão de fora. Estenda a mão que eu vejo.
28:20Ah, tu não me digas que o teu aparelho tem televisor.
28:23Oh.
28:25Conceição. Tu não vês que eu estou aqui em cima?
28:27Por isso é que eu te ouvia de uma maneira diferente. O som a vir de outro sítio.
28:42Como ser um bom pai. Capítulo 25.
28:46O que fazer se nada funcionar?
28:48Lista de internados na Suíça.
28:51Isto é bom.
28:51Não?
28:57Filha, estás bem?
28:58Estou deprimida.
29:03Isto para mim é um choque.
29:06E lá, Jardim?
29:07Claro, filha. Porque a mãe agora vive com o namorado numa casa de campo.
29:11Nós é que vivemos no centro da cidade.
29:13Tinha dois cães. O Prince e a Madonna.
29:17Se quiseres também podemos comprar um cão.
29:19Pôr um cão no apartamento é cruel.
29:24A pilhas? Compramos um cão a pilhas.
29:25Aqui eu chatei-me. O que é que eu faço?
29:30Não sei, filha.
29:31E esta casa se foca.
29:35Oh, filha, desculpa-me, mas eu não sirvo para pai.
29:37Oh, pá, se quiseres falamos à tua mãe e ela vem-te buscar.
29:40Para mim é humilhante, mas tanto me faz.
29:42Anda.
29:45Onde é que vamos?
29:46Vamos à rua.
29:50Estás muito estressado.
29:53Oh, filha, vamos fazer o quê?
29:54Acho que eu vou para o gerardo.
29:56Mas eu não tenho dinheiro.
29:59Tenho eu.
30:10Mas como é que eu me vou casar se tu já estás à espera que isto vá correr mal?
30:13Eu não disse isso.
30:14Rui, é só uma separação de bens.
30:16Isto é como as equipas portuguesas quando vão às competições europeias.
30:19Já vamos com a sensação de que vamos perder e perdemos.
30:22Pronto.
30:23Já cá faltava o padre.
30:24Mas o que é isto dos cursos pré-matrimoniais?
30:27Precisamos de um certificado de aptidão, senão não nos casam.
30:29Oh, é na altura certa.
30:31O que é que és que me faça?
30:32Vá, vê lá se mudas essa cara.
30:33Olha, muda-te a tua tua.
30:36Olá, boa noite.
30:37Desculpe aí o atraso.
30:38É que duas senhoras lá em baixo confundiram-me com o exorcista
30:40e obrigaram-me a olhar para uma mancha que vinha na parede.
30:43Entra, entra.
30:43Com licença.
30:45E o que lhes vem dizer no micro-ondas, não me achavam passar.
30:48Cristina, muito prazer.
30:49Sente-se.
30:49Sente-se que nós estamos ansiosos e cheios de expectativas, não é, querida?
30:54Imensas, meu amor.
30:56Cristina e Rui.
30:57Rui.
30:58Certo, certo.
30:59Ora, vamos lá então começar.
31:01O noivado.
31:03O noivado é o tempo de descoberta, de conhecimento do parceiro.
31:06Parece que conhecemos a nossa parceira, mas depois descobrimos
31:09que o que ela pensa é que nós lhe queremos sacar a massa.
31:11É, eu não disse isso.
31:13É o que está escrito.
31:14Tu queres... queres-te calar?
31:17Bem, a vida em conjunto vai começar, portanto é importante procurar a harmonia no seio do lar.
31:23Olha, e tu vais-me deixar viver aqui ou vou ter que pagar renda?
31:26Tu és chato, hã?
31:27Não vês como estás a distrair?
31:28Eu não estou a ouvir nada do que o padre diz.
31:30Miguel, Miguel.
31:31Bem, como eu estava a dizer, o noivado é uma altura em que todas as expectativas,
31:35todas as ilusões...
31:36Que vão para a água abaixo, porque nos destroem e desconfiam de nós...
31:39Olha, esquece.
31:41Esquece a separação de bens, está bem?
31:42Não, dá-me o papel que eu vou assinar.
31:44Não, eu te ensino um cara que eu...
31:45Desculpe, senhor padre.
31:50Bom, parece que aqui do capítulo do noivado já estamos conversados.
31:55Vamos passar aqui à segunda parte, que é...
31:57Economia Familiar.
31:59Bom, o melhor é deixar-vos isto aqui com vocês e depois leem sozinhos.
32:15Vem ali o exorcista!
32:16E olha-me o Pintas, mete mais medo que os fantasmas.
32:20É normal com cada susto que o homem apanha?
32:22Deixem-me falar com ele, eu falo com ele.
32:23Manoel João Costa, boa noite e...
32:25Boa noite.
32:28Não era este caneco?
32:29Não.
32:29Mas olhem que tem cá uma cara de exorcista que não engana ninguém.
32:32Olha, para lá é que há de ter a cara do exorcista.
32:34E tem uma cara diferente, tem que ter um ar de exorcista, pronto.
32:37Boa noite.
32:40Eu sou o parapsicólogo.
32:42Venho fazer a limpeza espectral.
32:44Olha, é a primeira vez em sete anos que alguém que não é faz aqui uma limpeza.
32:49Isto é coisa do teu pai, não é?
32:51Pois diz-lhe que eu não preciso do teu dinheiro!
32:53Nem eu preciso do teu dinheiro para nada.
32:54Olha lá, tu explica-me qual é que é o teu problema.
32:57Eu gostava que reafirmassem o amor que realmente sentem um pelo outro.
32:59Porque se vê que se sente, é impossível não se vê.
33:02Elude-me-lhe, pago eu!
33:03Mesmo que tenha de ser na trafaria, pago eu!
33:05Não pagas nada, ouviste? Não me pagas nada!
33:07A trafaria é um sítio lindo, nem precisa-te dar vacinas.
33:09Por favor, acha normal que ela queira que eu assine este papel?
33:12Eu de casais cada vez percebo menos.
33:13Então o que é que está a fazer aqui?
33:15Isso gostava eu de saber.
33:16Oh, olha, deixa o senhor padre falar.
33:18Fale, senhor padre, fale!
33:19Eu deixo-vos aqui um cursinho
33:20e vocês vão perceber se realmente são feitos um para o outro.
33:23Perdão, o que é que nos está a querer dizer?
33:24Que nós não somos feitos um para o outro, é?
33:26É que se calhar é precipitado, casarem-se!
33:28Mas precipitado como?
33:30Por favor, vêm aqui dizer se nós gostamos um do outro ou não!
33:33Eu deixo os testes,
33:34depois, faz favor, enviamos para a paróquia.
33:37Boa noite.
33:47Isto não é para os apanhados, pois não?
33:49É claro que não.
33:56Dá-me os papéis.
33:58Quero assiná-los.
33:59Tens a certeza?
34:00Sim!
34:10É aqui, aqui.
34:11Eu sei que é aqui!
34:17Tom.
34:17Muito obrigada.
34:23O que é que tu estás a fazer?
34:26Agora sim, estamos em paz.
34:29Anda, ofereço-te um copo.
34:31Não, eu é que ofereço.
34:33Não, não, não, quem paga é só eu.
34:34Não, não, eu é que ofereço.
34:36Começamos, é?
34:37E como é que nós podemos ter a certeza que depois de vocês pulsarem as almas, elas não
34:45voltam?
34:45Dispõem de uma garantia de dois anos.
34:48Se nesse período de tempo as aparições voltarem a manifestar-se, eu voltarei para fazer uma limpeza sem custos adicionais.
34:55É como a atopilação ao laser, dona Conceição.
34:59Atenção que eu vou entrar.
35:02Estou a entrar.
35:05Emílio!
35:06Estes parvo, ó filho?
35:07Era só uma brincadeira, é que não é?
35:09Mas digam-me lá, como é que é que o senhor expulsará os espíritos?
35:13Se calhar não sai de lá vivo.
35:15Eu já espaguei metade aviantado.
35:16Então, é amplo, é?
35:21Quantos metros têm?
35:2375 metros quadrados, segundo a escritura, pelo menos.
35:26E janelas, certo?
35:27Sim, sim, sim, vão para a rua.
35:28O que é que isso tem a ver com a expulsão dos espíritos?
35:31É fundamental.
35:33Eu vou ter que passar aqui a noite.
35:35Agora, deixem-me trabalhar.
35:36Claro, claro.
35:37Ouçam o que ouvirem, vejam o que virem, não subam de maneira alguma, é?
35:42Não, não subam.
35:42Isso aqui, este homem não tem medo de nada.
35:44Entendei-lhe pedir, é para ele ir ao homem do talho, pedi fiado por mim.
35:51Emílio!
35:51Mas agora não fui eu.
35:54Eu não sei, mas o que é que foi, veio de baixo.
35:57O que é que fazemos?
35:59Descemos, não.
36:00Não tem bem ideia melhor, por acaso?
36:02Metermos-nos no sótão.
36:04Descemos, mas todos juntos, não é?
36:05Sim, juntinhos, juntem-se.
36:07Emílio, cobra a retirada.
36:09Cobra, cobra.
36:10Venha, dona Conceição.
36:11Cabo fez só a luz, já apagou mais nada.
36:16Vamos morrer todos.
36:17E mesmo, cá, o que leva já a outra?
36:20Acendam a luz.
36:21Senhora, pode ver?
36:23Deixe-me chegar no interruptor, está bem?
36:24E vou sentar a sair daqui?
36:26É sem leds, mesmo.
36:29O que é isto?
36:34João, está morta.
36:37O que é que achas?
36:38Mas elas ainda não pagaram a renda deste mês.
36:43Vamos todos cair que nem tordes.
36:54João, e os meninos?
36:56Fulamos para o telemóvel, pronto.
36:58Não avisamos o exorcista?
37:00E é escapando com este filme, que é o trabalho dele.
37:03Ai, meu Deus.
37:06É a morte, o fantasma.
37:08O que é que se passa?
37:09Larga, larga.
37:10É a menina do sótão, é o fantasma.
37:12O que é que estás para aí a dizer, João?
37:13É a minha filha, pá.
37:15Ó, estúpida, é a minha neta.
37:17O quê?
37:17Eu não entendo nada.
37:18Já vais entender.
37:23Esta está morta, que eu sei.
37:24Está, está morta.
37:25Esta está.
37:26Vocês também estão.
37:29Estamos mortos, senhores dos meus, estamos mortos.
37:31Até para que é que eu pague impostos, homem?
37:33Estamos mortos, mãe.
37:34Estamos todos mortos.
37:36Porta.
37:38Perfeita.
37:40Que fronha, mãe, que fronha.
37:48Estavas a ver a minha televisão?
37:56Ai, não, não, não.
37:57Estava a limpar a minha mozinha, como o teu.
37:59O comando estava na minha mozinha.
38:00Ligou-se sozinho.
38:01Espera.
38:05Dá uma vista de olhos nisto.
38:06O que é isso?
38:08Pega.
38:10É um contrato que eu redigi para regularizar a situação económica da nossa relação.
38:14Ah, parece muito interessante.
38:15Eu depois lê, padre, meu senhor.
38:17Lê agora.
38:18Cuidado.
38:24Bom, estando unidos de um lado, Fernando e do outro...
38:27Mas por que é que o teu nome tem que vir sempre em primeiro?
38:29Vai direto às cláusulas.
38:32Primeira cláusula.
38:34Tudo o que é meu é teu.
38:35Tudo o que é teu é meu.
38:40Olha lá, isto tem algum tipo de validade?
38:44Para nós tem.
38:46O que é o mais importante?
38:47Então, assinas ou não?
38:51Não.
38:54Não.
38:54Por que não?
38:58Não é possível.
38:58Eu adoro, tem razão, de vez em quando.
39:03Mas é um teimoso, é o que é isso.
39:04E as coisas que tu fazes só para poder ver televisão sentado?
39:07Por acaso, até não foi.
39:09Foi por causa dos teus corações.
39:10O senhor exorcista disse para não o chatearmos.
39:20Bem, mas temos que dizer que não há fantasmas, não é verdade?
39:23Pô, mas não está para ali a trabalhar para nada.
39:32O que é que ele vos disse?
39:33Bom, eu vim a dizer que, afinal, é esta coisa dos fantasmas e dos espíritos.
39:41É uma brincadeira, de mau gosto, aliás, diga-se de passagem.
39:45E, portanto, o senhor, se quiser, pode parar com a sua limpeza espectral.
39:49É?
39:50Deve querer o resto do dinheiro também, não é?
39:52Não, não se preocupe.
39:56Desculpa, Juca e Amaro.
39:57Sim?
39:58Venha instalar o telefone.
40:00Entra.
40:04Eu deixo-vos porque estou um bocadinho ocupado.
40:12O que é isto? O que é que se passa?
40:14Eu não sei, mas a mim, este mais que um exorcista, parece-me um ocupa.
40:17E deu-lhe baile.
40:19E melhor, a mim ninguém me dá baile.
40:20E se alguma vez alguém me deu baile, não está vivo para o contar.
40:23Pode ser que não, senhor Costa, mas pode ser que este exorcista já esteja morto.
40:50Aqui, aqui, aqui, aqui, ok, viva.
40:54Aqui, aqui, aqui, ok, viva.
40:58Aqui, aqui, aqui, ok, viva.
41:01Aqui, aqui, aqui, viva.
41:14Aqui, aqui, aqui, viva.
41:18Aqui, aqui, viva.
41:21Agui, agui, agui, não tem viva, agui, não, agui, não.
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