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Rússia, Ucrânia e Estados Unidos devem se reunir novamente em fevereiro em busca de um cessar-fogo. Embora Zelensky tenha considerado os diálogos construtivos, os ataques continuam, e um acordo ainda parece distante. Em entrevista ao Real Time, Valdir da Silva Bezerra, mestre em relações internacionais pela Universidade de São Petersburgo, comentou os desafios diplomáticos, os interesses estratégicos e os impactos econômicos globais, inclusive para o Brasil.

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Transcrição
00:00E a gente fala agora de Ucrânia, Rússia e Estados Unidos que devem voltar a se sentar na mesa de negociações em busca de um cestar-fogo no início de fevereiro.
00:09A última rodada terminou no sábado sem um resultado final, mas o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que os diálogos foram construtivos.
00:18Sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia, seus desdobramentos pela economia, eu vou conversar agora ao vivo com Valdir da Silva Bezerra,
00:25que é mestre em relações internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo.
00:31Tudo bem, professor? Ótimo dia e seja muito bem-vindo ao Real Time.
00:35Bom dia, Natália. Bom dia a todos que nos acompanham agora pela Times Brasil. É um prazer participar com vocês.
00:40A gente que agradece, professor, pela sua disponibilidade.
00:44Bom, sexto e sábado passados foi a primeira vez que oficiais dos três países, Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, sentaram à mesa.
00:52Do seu ponto de vista, professor, quais são as chances de um cessar-fogo, colocar fim à guerra após quatro anos?
00:59Em que momento dessas negociações a gente está agora?
01:04Veja, na minha visão, as chances ainda são muito baixas, porque quando você usa na linguagem diplomática o termo construtivo,
01:13isso não quer dizer muita coisa.
01:14Os diálogos anteriores que vinham sendo entabulados entre as delegações ucraniana e americana, Rússia e americana,
01:22também foram chamados de construtivos, mas não tiveram muito resultado na prática.
01:27Me parece que a shuttle diplomacy, como se diz, que é a diplomacia de vai e vem,
01:33que foi implementada pela administração Trump no ano passado,
01:37falando primeiro com a delegação ucraniana, depois falando com a delegação russa,
01:40depois levando as posições de um para outro, de uma forma intermediária, acabou não dando certo.
01:47E agora está se tentando um outro passo, unir as três delegações,
01:52para que eventualmente, quem sabe no futuro, possam se reunir os chefes de Estado,
01:57o Trump, o Putin e o Zelensky.
02:00Ainda acho que estamos muito distantes disso,
02:02porque existem posições russas que a Ucrânia considera basicamente draconianas
02:10e existem exigências ucranianas com as quais a Rússia também ainda não concorda.
02:15Então, enquanto a gente não encontrar um denominador mínimo comum a respeito dessas posições,
02:21um cessar-fogo ou uma paralisação da guerra ainda estará muito distante.
02:26Professor, e a própria Ucrânia, depois do presidente classificar,
02:31então, como você bem enfatizou, como construtiva a reunião,
02:35a própria Ucrânia denunciou um ataque russo ali,
02:38horas após essa reunião por cessar-fogo.
02:41A gente deve entender isso como uma forte resistência ao acordo?
02:46De certo modo, sim.
02:48Também demonstra que, na prática, a guerra continua
02:53e você tem efeitos absolutamente nefastos para a população civil.
02:57Então, não me parece que nenhum dos lados esteja, de fato, próximo de entrar num acordo,
03:05porque se isso fosse verdade,
03:07pelo menos a gente não teria notícia desses ataques mais contundentes,
03:12especialmente contra a infraestrutura civil da Ucrânia.
03:16Então, a gente tem relatos ali de que, pelo menos,
03:181.700 apartamentos em Kiev encontram-se sem luz.
03:21Também existem outras regiões sem luz, em Rá, Kiev, em outras partes do país também.
03:27Então, enquanto as delegações conversam, os ataques continuam.
03:31Isso quer dizer, simplesmente, que a guerra, ela recrudece,
03:36ela continua mais grave e as perspectivas de um cessar-fogo ainda são muito remotas.
03:42E o presidente Donald Trump deve estar muito ansioso,
03:46não vê a hora que isso aconteça, né, professor?
03:47A gente sabe que ele tem pretensões ali declaradas, né,
03:52a ser um pacificador, um finalizador de guerras, ganhar prêmio Nobel da Paz, etc.
03:58Mas, por outro lado, a gente sabe que a Ucrânia tem reservas em terras raras,
04:02metais estratégicos.
04:05Você diria que isso também motiva os Estados Unidos a estarem aí tão empenhados
04:10nessa negociação por um cessar-fogo e pelo fim do conflito?
04:16Certamente, isso é um ponto interessante.
04:18O Trump, do ponto de vista do ego pessoal e particular dele,
04:22tem a intenção de ser conhecido como um pacificador, um peacemaker.
04:26Até pleiteava, há um certo tempo atrás, o Nobel da Paz.
04:30Ele quer terminar as guerras que ele herdou do Joe Biden,
04:33se livrar da herança que ele chamou de maldita da administração democrata.
04:38E, ao mesmo tempo, ele, como um businessman, um negociador, ele quer fazer dinheiro.
04:43Ele poderia fazer dinheiro como?
04:45Numa condição estável, ele poderia impulsionar empresas americanas
04:51a lucrarem com o comércio de terras raras, tanto na Ucrânia como na própria Rússia.
04:57Lembremos que, no ano passado, o Putin deu a entender que,
05:01se a situação se normalizar no futuro,
05:03russos e Estados Unidos poderiam trabalhar num acordo
05:06para exploração de terras raras dentro da própria Rússia.
05:09Então, existe essa intenção econômica, existe essa intenção egocêntrica
05:13e existe uma intenção de tentar se diferenciar da herança que o Trump herdou
05:18da administração do Joe Biden.
05:20E, professor, o Volodymyr Zelensky disse, em relação àquele documento,
05:24com garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos,
05:28que esse documento estaria totalmente pronto, que faltaria apenas a assinatura.
05:32A gente não tem detalhes, né, professor?
05:34Mas o que o senhor acredita que pode sair dessa garantia?
05:39É, o Zelensky veio a público dizendo que garantias de segurança à Ucrânia
05:43são basicamente garantias de segurança promovidas pelos Estados Unidos da América.
05:48A gente não sabe que termos são esses, que tipo de garantias são essas.
05:52A questão territorial e a questão de como que a Ucrânia vai garantir a sua segurança no futuro
05:59são os dois principais pontos de conflito para a resolução da guerra.
06:05A princípio, a Ucrânia também veiculava a ideia de que tropas francesas
06:12ou tropas britânicas pudessem estar presentes no seu território como contingentes
06:16para manutenção de paz.
06:17Essa condição a Rússia não aceita, porque a Rússia não aceita nenhum tipo de tropa
06:22de paz da OTAN na Ucrânia.
06:24A questão da entrada na OTAN também é um ponto de debate,
06:27porque a Ucrânia não quer deixar as portas fechadas definitivamente para a OTAN no futuro.
06:32A Rússia já quer impedir essa possibilidade de uma forma permanente,
06:37inclusive com uma cláusula da Constituição Ucraniana prevendo essa condição.
06:40Então, não sabemos como que essa garantia se dará.
06:45Ainda está muito nebuloso e, de fato, como eu mencionei no começo,
06:49apesar dos eleitos que têm chamado as negociações de construtivas,
06:52a gente não tem nenhum resultado concreto para conversar, infelizmente,
06:55a respeito do final da guerra.
06:57É, o que a gente tem de resultado concreto, né, professor,
07:00tem sido o impacto desse conflito que se prolonga ano após ano na economia mundial.
07:05E eu queria te ouvir sobre isso, professor.
07:07Então, quais têm sido os impactos na economia mundial e para a gente aqui no Brasil da guerra
07:14e quais seriam os ganhos, os benefícios, os efeitos de um eventual cessar-fogo?
07:21É, a princípio a gente teve um aumento no preço das energias, né,
07:26que são justamente exportadas tanto por Rússia como por Ucrânia, cereais.
07:31Então, a gente teve um impacto direto em países do chamado seu global, países africanos,
07:36América Latina, de um certo modo.
07:38A gente teve inflação na Europa também por conta do aumento do preço de energia,
07:42a perda de competitividade de algumas empresas, especialmente na Alemanha.
07:46E isso acaba sendo um efeito direto da guerra.
07:49A guerra acontece no leste europeu, mas ela tem efeitos globais.
07:51Então, a estabilização do conflito naquela região, ela vai ter benefícios para o mundo inteiro.
07:57Tivemos também uma questão importante, que foram as conversas a respeito do processo
08:02de desdonalização da economia mundial, que vem sendo capitaneado pela Rússia,
08:06porque a Rússia foi sancionada por instituições ocidentais.
08:11Então, esse tipo de conversa, esse tipo de intenção passou a ser divulgado,
08:16pelo menos pelos BRICS.
08:18Então, são vários os efeitos, a maior parte deles negativo,
08:22que poderiam cessar ou poderiam ser minimizados com o fim do conflito,
08:26que é do interesse não só da Europa, do ponto de vista geográfico imediato,
08:29mas do ponto de vista da economia global como um todo.
08:32E aqui do Brasil, a gente compra fertilizantes que vêm dessa região, não é, professor?
08:39Exatamente.
08:39O comércio Brasil-Rússia, curiosamente, também aumentou de patamar
08:43após a guerra.
08:45Em 2023, o comércio Brasil-Rússia chegou à casa de 10 bilhões de dólares.
08:51Foi um marco nessas relações.
08:52O Brasil passou a comprar bem mais fertilizantes após o início do conflito,
08:57ainda durante a administração, o último ano da administração Bolsonaro, inclusive.
09:02E essa situação, ela se prolongou.
09:04O Brasil vem comprando também diesel da Rússia.
09:07A Rússia tem redirecionado parte das suas exportações de petróleo também,
09:12petróleo refinado também para o Brasil.
09:14Então, existiram mudanças significativas no comércio global provocadas pela guerra.
09:18O Brasil é parte dessas mudanças também e também por conta da sua participação nos BRICS.
09:25Esse aumento, professor, teve a ver com algum acordo específico Brasil-Rússia?
09:30Ou a gente passou a comprar excedente de país que não deixou de comprar por causa da guerra,
09:35por causa de sanções?
09:36Ajuda a gente a entender, por favor, esse aumento.
09:39Houveram acordos no sentido de aumento de compra de diesel russo por parte do governo brasileiro.
09:46O Lula chegou a fazer visitas à Moscou.
09:50Também tiveram visitas do seu assessor especial para assuntos internacionais, Salsa Morim.
09:54E certamente que a questão comercial, ela entrou em pauta,
09:57porque a Rússia deixou de comercializar justamente com um dos seus principais parceiros,
10:02que era a União Europeia.
10:03Então, ela diversificou as suas exportações, primeiro para o mercado asiático,
10:09mas também para outros mercados importantes.
10:11O Brasil foi um deles aqui na América Latina.
10:13Claro que essa marca de 10 bilhões de dólares no comércio Brasil-Rússia é uma marca importante,
10:20mas perto do comércio que a Rússia tem feito com a China,
10:23que já passa de 200 bilhões de dólares, e do comércio russo-indiano,
10:28ainda são números bastante modestos.
10:30Há potencial de crescimento, e eu acredito que novos acordos continuem,
10:33porque o governo Lula tem certas afinidades com o governo da Rússia e de Vladimir Putin.
10:39Então, há perspectivas de novos acordos para compras de outros produtos
10:43que a Rússia não consegue vender agora para a Europa.
10:45Professor, para a gente fechar,
10:47aqui o senhor estará atento ao longo dos próximos dias?
10:51Quais são suas expectativas em relação ao andamento desse conflito?
10:54Primeiramente, a confirmação se haverá continuidade desse formato trilateral
11:00das delegações russa-ucraniana e americana nos Emirados Árabes Unidos.
11:06Há uma promessa de que as negociações continuem em fevereiro.
11:10Apesar de ser um ponto positivo estarem ocorrendo negociações,
11:14ainda existe muito pouco de concreto para se conversar,
11:18mas eu acredito que a gente esteja em um caminho pelo menos melhor
11:21do que aquele que a gente vinha notando durante a administração do Joe Biden.
11:25Quero agradecer Valdir da Silva Bezerra,
11:28que é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo,
11:32pela participação ao vivo aqui no Real Time.
11:34Muito obrigada e ótima semana, professor.
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