00:00do Ibovespa B3, que bateu um novo recorde, como a gente viu no comecinho do jornal.
00:04Para aprofundar mais nos fatores que influenciaram o mercado, eu converso agora com o André Perfeito.
00:10Ele é economista-chefe e sócio da Garantia Capital.
00:13André, boa noite, sempre bom conversar com você. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
00:19Boa noite, o prazer é meu. Sempre bom falar contigo também, Cristiane.
00:22André, quais fatores externos e internos mais influenciaram o desempenho do Ibovespa B3 hoje?
00:30E também aí ao longo da semana, a gente está vendo recorde atrás de recorde.
00:35Bem, eu acho que tem que dividir essa questão em dois.
00:37De um lado, a gente tem observado o dólar perdendo força, não só contra o real,
00:41contra a maioria das moedas emergentes.
00:44Coloca aí o peso chileno, também outras moedas relevantes do mundo emergente.
00:49Isso daí, sem dúvida nenhuma, já sinaliza que não é o real que está forte.
00:52Mas sim, o dólar está fraco.
00:54Em particular, com a Bolsa Brasileira, o que eu vejo é o seguinte.
00:57Dado a situação do mundo hoje em dia, a gente está vendo uma fuga para a segurança.
01:03Tradicionalmente, a gente vê essa fuga para a segurança justamente em cima do dólar.
01:07Mas a gente está vendo em cima de commodities, em algumas commodities.
01:10Ouro e prata são as grandes vencedoras disso.
01:14A gente vê um comportamento absolutamente exuberante.
01:16E quando esse ouro e prata, só para pegar esses dois, sobe demais, começa a ficar meio caro entrar.
01:23Então, começa a se espraer o dinheiro para bolsas ou para outros ativos que são entendidos como ligados a commodities.
01:30Hoje, a Petrobras até não teve um comportamento tão bom.
01:33Subiu forte, depois caiu.
01:34Porque o petróleo também caiu hoje.
01:36Mas eu acho que o Brasil cumpre essa função um pouco de ser a Bolsa Brasileira,
01:41de ser uma Bolsa entendida no olhar de um estrangeiro, muito ligado ao mundo das commodities.
01:46E, numa situação tão delicada que está geopolítica hoje em dia,
01:49ganha um peso relevante isso na estratégia dos investidores.
01:53Com você também, a gente está com uma cobertura muito extensa de Davos,
01:57acompanhando o passo de todos os executivos, autoridades políticos que estão lá.
02:02Alguma coisa falada em Davos hoje mexeu com o mercado?
02:05Ou foi um dia mais tranquilo mesmo por lá?
02:08Eu acho que foi um dia mais tranquilo.
02:10A grande fala foi do presidente Trump, que está bastante errática já, já foi.
02:16Errática no sentido de que Conselho da Paz e depois a Groenlândia, está todo mundo estranho.
02:22Mas o que a gente está vendo no limite da atuação do Donald Trump nesse seu segundo mandato
02:28é uma tentativa, na minha opinião, quase consciente de enfraquecer o dólar.
02:32Tem coisas que passam longe do radar, às vezes, das pessoas, da sociedade de forma geral,
02:39que vão enfraquecer o dólar.
02:40Quer ver um exemplo?
02:41Teve o shutdown dos Estados Unidos.
02:43Esse shutdown impediu que o governo norte-americano, durante muito tempo,
02:47anunciasse os índices de inflação ao produtor.
02:50O índice de inflação ao produtor reajusta uma série de contratos ligados ao commodity.
02:56Então, ou seja, o serviço que o dólar presta de ser um grande regulador dos contratos, do comércio,
03:04o comércio vai ser.
03:06E eu acho que a tendência é essa.
03:07A gente vai ver, não é o real que vai ficar forte, o dólar que vai ficar fraco.
03:10Acho que a tendência tem de acessar em 2026.
03:13E já que você está falando de tendência, a tendência é a Bolsa continuar batendo recorde atrás de recorde?
03:19Acho que tem algum espaço ainda para isso.
03:22A gente tem a discussão de taxa de juros no Brasil.
03:24Vamos ver também como isso daí vai ser encaminhado.
03:26Se sinalizarem ou se tiver uma percepção mais forte a respeito de uma queda,
03:32ou pelo menos início da queda de juros,
03:33que na minha opinião tem que cortar, não tem nem mais o que ficar discutindo isso, na minha opinião.
03:40Mas se tiver isso, juros para baixo, fluxo de caixa joga o preço dos ativos do curto prazo para cima.
03:45Essa que é a tendência.
03:47Como é que o cenário político eleitoral deve influenciar o mercado aí ao longo do ano, André?
03:51Olha, eu vejo como positivo, no seguinte sentido.
03:56O presidente Lula, sendo um homem, um partido de esquerda, a gente não precisa nem ficar no mérito aqui.
04:02O mercado não vê com bons olhos.
04:04Mas isso já está precificado.
04:06Eu acho que esse downsize do negócio pode já estar no preço.
04:11Agora, existe a chance de ter um upside se entrar, ou se ganhar força, os nomes da direita.
04:17Então, eu acho que é neutro para positivo, no final das contas.
04:21Não tem nada que o Lula vai falar que não seja sabido já pela fariarime,
04:26para o mercado financeiro de forma geral.
04:28A gente tem super quarta na semana que vem.
04:30O que você está esperando?
04:33Olha, a gente vai ter manutenções.
04:35Mas a manutenção do Brasil, eu vou fazer um comentário um pouco mais longo.
04:39Eu acho que o Banco Central está muito pressionado a respeito de toda essa situação do Banco Master.
04:44Eu acho que é isso.
04:45Eu acho que eles estão sendo mais cautelosos do que deveriam, até por essa questão.
04:50Mas eu vejo, que eu argumentei no início da nossa conversa, que existe uma tendência do dólar perder força.
04:56E isso daí ajuda a dinâmica inflacionária interna.
05:02E mais do que isso, a taxa de juros está em um patamar elevado há bastante tempo.
05:05Estamos falando de taxa de juros real, não a SELIC, que está em 15%.
05:09Mas estamos falando de IPCA mais 7%, mais 8%, mais 9% ao ano.
05:13Isso é muito forte.
05:15Então, isso daí está gerando um constrangimento até para dentro das próprias empresas.
05:19E digo mais, eu acho que se o Banco Central, não sei se ele vai começar a corte de juros, seria o desejável.
05:25Mas ele tem que começar a sinalizar isso, até para não perder apoio do próprio governo.
05:30Eu acho que essa é a dimensão do Banco Master, por assim dizer, que entra nessa discussão,
05:35que eu acho que deve estar fazendo a cabeça, ou pode entrar nas preocupações,
05:39de alguns dos diretores do colegiado do Banco Central.
05:42Eu acho que tem esse espaço também para a gente pensar.
05:45Vou passar para a pergunta do Vinícius.
05:48André, boa noite.
05:50Sim, nós estamos vendo uma tendência aí para desfavorecimento de ativos emergentes,
05:55pelo menos desde meados de dezembro, no caso de Bolsas.
05:58A Bolsa Brasileira está indo ali mais ou menos na mesma tendência,
06:01mas pelo menos desde o início do ano, o real está se valorizando um pouco mais que o resto.
06:06Vamos supor que a gente, pelo menos, entre na tendência.
06:09A gente, é claro que falar de taxa de câmbio é um chutão,
06:14mas é relevante porque a gente tinha visto no final do ano passado
06:18que risco político, o suposto luto da candidatura Tarsísio,
06:23e a saída do final de ano com um dividendo antecipado e tudo mais,
06:26tinha elevado o real.
06:28Isso colocou até uma pulga atrás da orelha de muita gente.
06:31e a gente falou assim, será que o dólar não vai ajudar mais?
06:34Deu uma ajuda à inflação?
06:35Deu uma ajuda grande no ano passado.
06:38A desse ano pode não ser tão grande, mas pode ter ajuda.
06:41A gente está vendo o dólar a 5,28.
06:42Você acha que tem espaço para a gente ver o dólar caindo o suficiente
06:47para tranquilizar pelo menos esse aspecto da pressão inflacionária para o Banco Central?
06:54Bem, olá, Vinícius.
06:56Olha, eu acho que tem uma dimensão que é o seguinte, né?
06:58Imagina que você é o banqueiro central e você resolve cortar a taxa de juros
07:01e por qualquer motivo o dólar sobe.
07:05E aí isso te pega desprevenido e vai ser uma confusão você reancorar algumas expectativas.
07:10Eu acho que esse risco não tem.
07:12Por quê?
07:12Porque eu acho que a tendência é do dólar para baixo.
07:14Quer dizer que vai romper esse 5,30?
07:17Por sinal, esse 5,30 aí do câmbio, olha, tem sido uma resistência gigantesca.
07:24Não sei se rompe o 5,30, mas eu acho que começa a crescer no coração dos investidores,
07:30para se dizer, a perspectiva que o dólar, o real não vai se valorizar muito forte
07:34ou o dólar não vai subir muito forte.
07:36Eu acho que isso acumula essa leitura um pouco mais benigna na margem.
07:42Mas eu entendo a discussão da taxa de juros no Brasil muito contaminada agora.
07:48Então, eu também dou o braço a torcer a uma posição talvez mais cautelosa do Banco Central.
07:53Mas dado que estamos falando de uma taxa de juros real de 8%,
07:57vai só para dar uma arredondada aqui em alguns títulos,
08:00eu acho que isso daí é mais que suficiente para controlar algumas coisas.
08:05E tem uma questão de calendário também,
08:07por isso que eu acho que o Banco Central deveria cortar a taxa de juros,
08:09porque é o seguinte, ele pode cortar de forma tranquila até a eleição.
08:13Porque se chega na eleição e aí, de repente, o Lula, ou mesmo, vamos falar franco,
08:20o governo Bolsonaro aumentou o gasto social forte no ano eleitoral.
08:25Vamos supor que vira o Flávio Bolsonaro e fala que vai aumentar salário mínimo,
08:29não, mas vai aumentar Bolsa Família, salário o quê?
08:32Então, eu acho que seria adequado, já que eles querem fazer corte porque precisa,
08:37faça antes da eleição.
08:39Mas aqui está, isso daí sou eu pensando.
08:41Eu acho que o trabalho é tentar descobrir o que passa na cabeça do Banco Central
08:45e me parece que eles vão ser mais cautelosos.
08:48André, muito obrigada.
08:49Como eu disse no começo, é sempre bom ter você aqui com a gente.
08:52Obrigada mesmo.
08:53Até a próxima, que seja em breve.
08:55Eu que agradeço.
08:56Um abraço a todos.
08:57Obrigada.
08:57Obrigada.
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