00:00O mundo em busca incessante pelas terras raras. A China lançou uma ofensiva pelos metais críticos em parceria com 19 países e a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial.
00:14A iniciativa tem todas as tintas de que o país asiático desenha os contornos para a criação de uma cadeia de suprimentos desses minerais.
00:22Sobre esta corrida mundial, que em outros tempos já foi pelo ouro, outros metais, nós vamos conversar com a Kelly de Souza Ferreira, doutora em Relações Internacionais, diretora de Relações Internacionais da PUC Campinas e também pesquisadora do Observa China.
00:40Muito bom dia para você, seja bem-vinda ao Real Time. Tudo bem contigo?
00:45Bom dia, Eric. Tudo e você? Obrigada pelo convite.
00:48É um prazer tê-la aqui conosco, viu? Para a gente conversar sobre esse assunto muito relevante, o mundo inteiro de olho nas terras raras.
00:56Eu queria saber de você, doutora. Vou te chamar de doutora, né? Tem doutorado, é muito importante.
01:02Doutora, eu queria saber de você, porque assim, a China, ela domina as terras raras, tem a maior reserva do mundo.
01:08O Brasil tem a segunda maior reserva, mas não explorada totalmente. Pelo contrário, nós estamos engatinhando.
01:15E quem explora aqui são justamente os norte-americanos, a empresa Serra Verde, que explora e acaba exportando esse material para a China,
01:24que faz o processamento, porque eles que têm o know-how, que têm a expertise, que não é alcançado para outros países.
01:30A gente tem a Austrália também, com reservas, mas não tem essa questão do processamento.
01:35A gente ainda é muito dependente, o mundo ainda fica muito dependente dessa expertise só da China.
01:42Como é que a gente pode avançar em relação às terras raras?
01:47É, realmente, o mundo fica muito dependente dessa questão chinesa.
01:50Eles se especializaram bastante, porque o que nós temos de entender sobre terras raras,
01:54apesar deste nome, não é que o mineral é raro, mas ele é difícil de extrair e difícil de refinar.
02:01E a China desenvolveu uma alta tecnologia e eficiência em desenvolver esses produtos.
02:08Então, isso faz com que ele tenha um grande controle sobre o mercado.
02:11E o que nós estamos vendo é que nessa questão, com relação à disputa com os Estados Unidos,
02:18a China encontrou uma alavanca, uma vantagem, porque é um conjunto de metais que é necessário,
02:24está cada vez em maior demanda e o mundo cada vez precisa mais.
02:27E a China vai precisar disso.
02:29Nós estávamos falando agora há pouco sobre aqui na SNVC,
02:33sobre a NVIDIA e a Alphabet, a questão dos chips,
02:37e se cada vez que você tem maior demanda por esses itens,
02:40você também tem maior demanda por terras raras.
02:44Doutora Kelly, e como é que o Brasil pode entrar nessa disputa em relação a investimentos?
02:50Os Estados Unidos querem fazer bastante investimento aqui,
02:53justamente para explorar e também começar o processamento.
02:56Mas isso demora muito tempo.
02:59Como é que fica essa questão de equilibrar também a questão da exploração e ganhar forma também o processamento,
03:06para que o Brasil não seja só um exportador de minerais raros,
03:10mas também agregar valor a esses minerais tão importantes?
03:14Então, no Brasil é interessante essa questão,
03:18porque o Brasil já se posicionou claramente que ele não quer ser apenas um fornecedor de terras raras,
03:23ou seja, ele não quer só exportar commodities, ele quer ter essa tecnologia.
03:27E aí é onde o Brasil está se saindo muito bem,
03:30que ele está se posicionando em frente aos Estados Unidos para ter uma transferência de tecnologia,
03:35como, por exemplo, formas melhores de se processar esses metais e essas terras raras.
03:41Então, o Brasil tem uma chance interessante de desenvolver aqui um polo de refinamento e extração desses metais
03:49e ainda de uma forma muito mais sustentável, porque a China faz isso,
03:53mas o custo dessa aceleração e esse desenvolvimento econômico chinês
03:58é claramente visto na questão ambiental.
04:01Uma preocupação que o Brasil já tem desde o princípio
04:03é quando a gente começa a desenvolver novas fontes e mercados.
04:06E, doutora Kelly, a gente viu recentemente, a Xiaomi anunciou que, por exemplo,
04:11os smartphones podem ficar mais caros.
04:14Por quê? Porque os chips vão custar mais, vão ter um custo maior.
04:18Provavelmente também porque, como você tem terras raras na mão só da China,
04:23você tem quase que um controle total e eles podem colocar ali o preço que quiser,
04:30já que eles detêm ali todo esse comando, vamos dizer assim, de terras raras.
04:35Isso realmente pode influenciar no preço?
04:38A China lançou essa ofensiva por terras raras com a ONU,
04:40mas a ONU poderia também negociar essa questão dos valores desses minerais críticos?
04:48A China está montando não só a questão de negociar valores,
04:52mas ela está tentando criar uma forma de controle desses minerais.
04:55Se a gente pegar uma publicação que saiu no Shoebao de Shiban,
04:59que é o jornal da Escola do Partido Comunista,
05:02eles colocam que um dos objetivos da China é justamente ter uma maior controle
05:07em amplitude sobre o que eles chamam de minerais verdes,
05:10que aí estão impulsos a terras raras,
05:12além de outros minerais como o lítio e o lítio, cobre.
05:17E o interessante disso é não só um controle sobre o preço,
05:21mas um controle também sobre o fornecimento.
05:23Então, a China está criando uma estratégia para fechar o cerco
05:27em cima de um item que ela sabe que será necessário para várias nações.
05:31E isso, sim, pode elevar os preços de celulares ou outros equipamentos eletrônicos.
05:38Um paralelo, um tanto rudimentar, mas que se dá para fazer,
05:42é com a questão do petróleo.
05:44Quando nós tínhamos ali no Oriente Médio um controle sobre aqueles países
05:48com relação aos petróleos e unicamente eles, nós vimos o quê?
05:51O petróleo ser fortemente controlado por questões políticas da região.
05:56E agora nós estamos vendo uma questão com as tecas raras,
05:59que, embora esteja um pouco espalhado mais ao redor do mundo,
06:02a China tem cerca de 5% das reservas mundiais, dos principais minerais,
06:08mas ainda assim você tem bastante coisa assim no Sudeste Asiático
06:11e principalmente nos países africanos.
06:13E o que a China tenta fazer é montar um compô, na verdade um grupo,
06:17não vou dizer um compô, mas um grupo que consiga ficar unificado
06:21e não ter a presença americana.
06:23Liga o alerta então para o mundo, porque a gente também viu recentemente,
06:27por exemplo, que as montadoras ficaram preocupadas
06:29em relação ao fornecimento de terras raras
06:32e poderiam até parar a produção.
06:34A gente viu até Volkswagen aqui no Brasil preocupada com essa questão.
06:38Então, existe realmente esse alerta, esse sinal, vamos dizer, amarelo neste momento ligado?
06:46Existe um sinal amarelo ligado, mas é uma questão que não seria no curto prazo
06:51esse tipo de problema.
06:53Mas requer sim a atenção do mercado e até como a gente pensa
06:57as cadeias de produção internacionais.
07:01Doutora Kelly de Souza Ferreira, queria muito agradecer a sua participação conosco no Real Time.
07:06Uma ótima terça-feira e uma ótima semana para você.
07:10Obrigada pelo convite e uma ótima terça-feira, Eric.
07:13Obrigado.
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