00:00O presidente Donald Trump está considerando a atuação por terra das forças especiais para apreender urânio do Irã.
00:09A justificativa é que o material estaria próximo do nível necessário para uma bomba.
00:14A informação foi divulgada pela Bloomberg.
00:17O analista de negócios Guilherme Ravache, que está conosco nessa cobertura, está de volta e traz também uma avaliação das
00:24consequências, né, Ravache,
00:26de uma ação por terra neste momento já do conflito se estendendo a uma semana.
00:34O que a gente poderia esperar de consequências e projetar consequências desse tipo?
00:43Olha, uma invasão por terra, um ataque terrestre, eleva muito a escalada desse conflito e também aumenta muito o risco
00:53para o Donald Trump.
00:54Provavelmente essa é a linha vermelha que os apoiadores do Trump não aceitariam ser passadas.
01:01Porque o princípio todo do bombardeio aéreo é preservar vidas americanas.
01:08O entendimento é que não havendo uma operação em solo, diminui muito a chance de perder soldados em solo adversário.
01:18E isso traz outras complicações.
01:20O Trump começou o ataque ao Irã sem ter uma aprovação do Congresso.
01:27E esse ataque, ele foi uma maneira que os presidentes, não só o Trump, os últimos presidentes, inclusive o Obama,
01:34encontraram de bombardear adversários, né, sem passar pela aprovação do Congresso.
01:4273, final da guerra do Vietnã, passa uma lei que exige que para os Estados Unidos declarar guerra contra um
01:49outro país,
01:50o Congresso precisa aprovar isso.
01:52Não aconteceu dessa vez e isso mudaria completamente.
01:55A justificativa, só para complementar, é que existem 441 quilos de urânio enriquecido
02:03e 8 mil quilos de urânio com uma gradação menor, né, um urânio mais pobre.
02:10Mas esses 441 quilos seriam a justificativa para a entrada de tropas.
02:17Já tem planos feitos, né, já foram feitos no passado,
02:20seriam 2.400 soldados que entrariam em território iraniano
02:27para dissolver esse urânio enriquecido no próprio depósito onde ele está
02:35ou retirar esse urânio de lá, levando para outro país onde ele seria tratado.
02:40Porque tem um receio desse urânio cair em mãos adversárias, inimigos dos Estados Unidos,
02:45até porque desde o bombardeio do ano passado das instalações nucleares do Irã,
02:52não se consegue rastrear esse urânio.
02:56Trump já disse recentemente que só um motivo muito bom
03:01é que faria ou justificaria tropas em solo ao Irã.
03:06Talvez esse seja um bom motivo.
03:09A questão, Soraya, e o Havash, que nos ouve à distância,
03:13é a seguinte, que o Ocidente, e aí eu estou distribuindo a responsabilidade
03:17entre Estados Unidos e Israel, fala o seguinte,
03:20o Irã está há meses, se não há semanas da conclusão do processo que leva a homogiva nuclear.
03:29Essa história de estar há meses, há semanas, tem pelo menos 20 anos.
03:33E essa semana, o mês de conclusão, nunca chegou.
03:38Está certo que houve operações militares de Israel, dos Estados Unidos,
03:41que acabaram atrasando.
03:43Mas o próprio Benjamin Netanyahu, que é a pessoa que mais tempo lidera o parlamento iraniano
03:49e é primeiro-ministro, chefe de governo de Israel,
03:53perdão, eu falei iraniano, não, o parlamento israelense,
03:56a pessoa que mais tempo governa o Estado de Israel,
03:59já tem essa retórica há muito tempo.
04:01Isso é um ponto, né?
04:02Nunca houve nenhum dado concreto, uma prova cabal,
04:06de que houvesse esta quantidade de urânio.
04:09Sim, eles têm.
04:10Na defesa dos iranianos, é para um desenvolvimento científico e medicinal.
04:15Estados Unidos, parte da Europa, Israel especialmente,
04:19diz que não, que é para um desenvolvimento bélico.
04:22Mas que não há provas concretas.
04:25Mas daqui a pouco a gente volta.
04:26Aí eu vou pedir com o Ravash, que nos acompanha.
04:28Seguinte, Ravash, nós que somos de outra geração,
04:33eu tenho mais cabelos brancos do que você, mas a gente é contemporâneo, né?
04:36A gente já viu isso outras vezes.
04:39Que é o seguinte, a entrada de tropas está aqui, né?
04:43Daqui a pouco, eu trouxe o Irã para o meio da tela,
04:45tem um ponto de interrogação que é justamente assim,
04:48quantos quilos realmente de urânio enriquecido,
04:51um ponto de fazer uma ogiva nuclear, o Irã tem?
04:54Ponto de interrogação.
04:55As agências que monitoram essa questão nuclear do mundo
04:59têm dados mais precisos do resto do armamento nuclear do mundo.
05:03Mas vamos aqui pelo Irã.
05:05Eu estou usando aqui o ponto de interrogação,
05:07mas para a gente olhar a questão geográfica.
05:09Uma invasão por terra dos Estados Unidos.
05:12Pela China, não vai ser.
05:14Pelo lado do Oriente, muito pouco provável.
05:18Por esse lado aqui, mais ocidental, a oeste,
05:22a gente tem Arábia Saudita, tem outros países,
05:26ou seja, os Estados Unidos teriam de pedir licença
05:28a outros aliados ou outros países para uma entrada por terra.
05:33Pelo Estreito de Hormuz, pelo sul, pelo litoral do Golfo Péssico,
05:38é ainda mais difícil por conta de o quão seriam fáceis
05:43essas tropas serem alvejadas pelos mísseis, pelos drones, pela artilharia.
05:48E tem uma outra coisa, que aqui é só uma divisão geopolítica do mapa,
05:54a gente não tem exatamente, mas eu conto para vocês.
05:57Essa parte norte-leste, montanhosa,
06:01um terreno de difícil operação,
06:04um território árido, gelado em determinados pontos do ano.
06:09Quer dizer, existem particularidades que os iranianos dominam muito bem.
06:16Antes deles, os persas conheciam muito bem esse território
06:20e outros impérios já tentaram tomar esse território
06:25e fracassaram retumbantemente.
06:28Deixa eu colocar mais um adendo nessa minha premissa, Havashi.
06:34Vietnã foi uma derrota acachapante dos americanos,
06:38uma guerra que durou 20 anos,
06:4010 anos de Afeganistão,
06:42uma invasão ao Iraque que não terminou exatamente como os americanos tinham planejado.
06:49A gente tem, numa história mais contemporânea dos Estados Unidos,
06:52quando eles vão guerrear num território que não é o deles,
06:56a chance de fracasso é bem maior que a do sucesso.
07:00Tendo em vista todas essas premissas e sabendo que a história é cíclica, Havashi,
07:05te entrego aí o poder da conclusão da história.
07:08Qual seria a capacidade de sucesso dos americanos em invadir por terra o Irã?
07:18Talvez a grande questão, Havashi, seja o que é sucesso e o que define sucesso.
07:23Se você vai lembrar, você é um especialista em política e relações internacionais,
07:29você vai lembrar bem qual foi a justificativa para os Estados Unidos invadirem o Iraque.
07:35A invasão do Iraque, a derrubada do Saddam Hussein,
07:39foi baseada num relatório de supostas armas de destruição em massa
07:44sendo desenvolvidas, armas essas que nunca se confirmaram.
07:49Mas o resultado disso foi o Iraque deixar de ser um adversário local do Irã.
07:57E isso fez com que o Irã se tornasse muito forte na região
08:01e ganhasse um poder que nunca se imaginou.
08:04Poder suficiente para conseguir apoiar o Resbola, apoiar os Hutis,
08:09apoiar hoje grupos dissidentes que tentam impor essa visão revisionista do Irã.
08:17Tudo isso começa com os Estados Unidos atacando o Iraque.
08:22Mais de 100 mil iraquianos morreram no tempo que os Estados Unidos esteve lá.
08:27Mais de 4 mil americanos mortos também.
08:29Então, você traz um ponto realmente irrelevante, Favali.
08:33Tem uma grande chance dos Estados Unidos, obviamente, não poderem ser derrotados no Irã,
08:39mas a gente também nunca ter a sensação de que o país saiu vitorioso.
08:45Porque se não acontecer essa recuperação do urânio enriquecido,
08:49quem vai controlar esse urânio enriquecido?
08:51Será que a gente vai ter um Irã ainda mais agressivo,
08:54ainda mais revoltado e, possivelmente, até um país em guerra civil,
09:00onde não se tem controle algum e o risco para os vizinhos cresce exponencialmente?
09:05São questões que não têm uma resposta clara nesse momento,
09:10até porque a gente não consegue nem entender o que é vitória
09:14ou o que o Trump considera vitória para os Estados Unidos.
09:18Avash, eu vou citar aqui Heródoto, que é o pai da história.
09:22Por isso que a gente estuda história, né?
09:24Conhecendo o passado, a gente entende o presente e o projeto futuro.
09:28Diante do que o Avash nos explicava,
09:31a presença dos Estados Unidos no Afeganistão, é isso,
09:34ela dura 10 anos, parecia ser uma guerra, uma ocupação de semanas,
09:39talvez de meses, levou uma década, 4 trilhões de dólares de custo,
09:45ceifadas, vidas americanas e fora as vítimas locais.
09:50Houve uma derrubada momentânea do Talibã e, quando os Estados Unidos saem do Talibã,
09:55dão espaço para um retorno do Talibã ainda mais feroz e ainda mais duro
10:01do que aquele que os Estados Unidos, teoricamente, derrubaram uma década anterior.
10:06Então, tentando responder essa elucubração que você faz,
10:11o que pode vir a ser um pós-Irã nessa suposta invasão,
10:17talvez a emenda fique pior que o soneto.
10:20E aqui, para que todo mundo tenha uma ideia, a gente fez uma arte gráfica aqui,
10:23o tamanho do arsenal mundial.
10:25Esses supostos quase 500 quilos de urânio perto do enriquecimento necessário para fazer uma bomba atômica
10:36daria, talvez, entre 10 a 15 ogivas, não de alta eficiência,
10:42mas que já faria um estrago significativo.
10:44Vamos supor aí 15 ogivas.
10:47Qual que é o tamanho do arsenal?
10:48Israel supostamente tem 90, Paquistão 170, Índia 164, China 410, Coreia do Norte 30
10:57e a Rússia, que tem o maior arsenal, perto de 6 mil ogivas
11:01e os Estados Unidos com pouco mais de 5.200.
11:05Ainda assim, diante de todo esse esforço, seria o país dessa lista
11:10que menos tivesse ou menos teria capacidade nuclear.
11:14A grande questão é, será que é essa mesma a intenção final?
11:19A justificativa, todo mundo já entendeu, Ravage.
11:22Parafraseando o que aconteceu no Iraque, supostas armas de destruição em massa.
11:27Não encontradas, mas a derrubada do Saddam Hussein foi garantida.
11:32Talvez estejamos aí vendo o destino, o suposto destino dos Ayatollahs,
11:38que nós estamos esperando, inclusive, o nome do próximo.
11:41É, que não foi divulgado ainda.
11:44Favalli?
11:46Pode falar.
11:49Tem um ponto importante, que é assim, o Khamenei, ele determinou,
11:55ele impôs o não desenvolvimento de uma arma nuclear no Irã.
12:01Tem uma fátula, tem um documento assinado pelo Khamenei
12:05de que não deveria ser desenvolvida uma arma nuclear pelo Irã.
12:10A entrada de uma nova liderança no Irã pode mudar isso?
12:16O novo líder religioso supremo do Irã pode determinar que, sim,
12:21é necessário buscar uma arma nuclear, porque essa seria a melhor proteção contra os Estados Unidos.
12:28como a Coreia do Norte mostra, né?
12:31Apesar das diferenças do regime, ninguém pode ir lá e invadir a Coreia do Norte
12:36sob o risco de um ataque nuclear.
12:38Então, isso, o resultado desse conflito pode acelerar a busca do Irã por um programa nuclear,
12:44caso não exista uma mudança de regime.
12:47O que é isso, o que é isso?
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