00:00Agora a gente vai repercutir a cúpula do escudo das Américas que reúne o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
00:06e também líderes da América Latina.
00:08Sobre esse assunto a gente conversa ao vivo com o professor de relações internacionais, Alexandre Pires.
00:14Professor, seja muito bem-vindo aqui ao Fast News. Uma boa tarde para o senhor.
00:19Eu que agradeço o convite. Uma boa tarde.
00:22Bom, professor, antes da gente falar, é claro, das ausências que é sentida muito pelo presidente Lula,
00:27gostaria que o senhor falasse um pouquinho mais da criação dessa cúpula e também, é claro, das lideranças presentes.
00:33Praticamente todos os países que são muito alinhados ideologicamente e também com os mesmos objetivos dos Estados Unidos.
00:41A cúpula do escudo das Américas acaba sendo um contraponto àquela aproximação que a China vinha fazendo por meio de
00:50BRICS,
00:51o próprio G20, e isso acaba perdendo força agora.
00:56Ou seja, nós temos aí mais quase três anos de Trump, e ele elencou e escolheu os aliados potenciais.
01:06Nós temos que lembrar que temos a Argentina e Chile ali, do Cone Sul, temos Equador, temos também o Bolívia,
01:15ou seja, todos os países em que um é parte do Mercosul e os outros estavam já associados
01:22ou já estavam no seu processo de associação plena, fora os países ali da América Central.
01:30Isso é um sinal preocupante para o Brasil, de ficar fora dessa cúpula.
01:36E outra estratégia que o Trump faz está se repetindo, que é justamente criar organismos internacionais
01:44que sejam mais pró-Estados Unidos.
01:48Ele fez isso lá com a oração ali para você estabelecer uma paz, ou seja, aquela associação
01:57que é feita dentro do Conselho de Segurança para cuidar de Gaza,
02:02e agora ele está escanteando a Organização dos Estados Americanos, a OEA,
02:07que é um órgão criado ali com patrocínio dos Estados Unidos pós-segunda guerra,
02:12e criando um novo órgão mais alinhado.
02:16Professor, é claro que também chama a atenção a questão das ausências, né?
02:19São pelo menos quatro de lideranças, ou pelo menos que tem uma voz um pouco mais dissidente
02:25em relação aos Estados Unidos, por exemplo, Brasil, presidente Lula, Colômbia, Gustavo Preto,
02:29o próprio presidente do México, Cláudio Achenbao, e também da Venezuela, Adelci Rodrigues.
02:36Mas quando a gente discute crime organizado, narcotráfico, segurança,
02:40é muito difícil discutir isso sem ter México e Brasil neste grupo, ou pelo menos nessa cúpula?
02:47É sim, são países não alinhados, em que nesse caso as medidas vão ser unilaterais,
02:53ou seja, México, Colômbia vão continuar sofrendo pressão, ou seja, ações unilaterais dos Estados Unidos,
03:02ou seja, não vai ter acordos bilaterais, que é uma situação que o Brasil vem vivendo,
03:08ou seja, uma pressão unilateral americana.
03:11Agora, esses outros países vão ter acesso facilitado a meios, recursos e inteligência americana
03:18para fazer essas ações, porém, isso acaba tendo efeitos maiores do que simplesmente
03:25combater essas ameaças que você pontuou, ou seja, nós temos uma situação, por exemplo,
03:32em que a Argentina conseguiu algo que o Brasil nunca teve,
03:36que foi esse acesso a dólares por meio de swap.
03:41Isso é uma vantagem enorme, você conseguir isso, ou seja, você não precisa procurar dólares,
03:48eles estão ali, você troca por moeda argentina e depois destroca.
03:52Isso já é uma vantagem econômica.
03:54Se outros países passarem a ter esse tipo de vantagem,
03:59dessa ordem ou de uma ordem um pouco menor,
04:02eles ficam, sem dúvida, muito mais atraentes para o mundo.
04:06E claro, a América do Sul, formada por vários países,
04:10e o Brasil compete com os outros países por investimento.
04:13Então, é um sinal de alerta para o Brasil e para esses outros países,
04:17como o México, que é altamente dependente da economia americana.
04:21Professora, a nossa comentarista aqui do Fast News, a Cintia Nunes,
04:25tem um questionamento para o senhor.
04:27Olá, boa tarde a todos.
04:30Professor Alexandre, o senhor acredita que, em parte, o Brasil não foi convidado?
04:35Tem algum reflexo dessas questões que foram elencadas pelos deputados norte-americanos
04:44de que a China estaria explorando potenciais bases de uso militar,
04:48inclusive na América Latina, mas inclusive no Brasil?
04:51Isso pode ter refletido na questão do Brasil não ter sido convidado para esse evento?
04:57Eu acredito que isso e mais um conjunto de ações brasileiras.
05:01O Brasil tem estabelecido pactos de cooperação com China, com Rússia,
05:08tem feito um esforço tremendo para se associar, para fortalecer o BRICS,
05:12para abandonar o dólar como moeda de reserva, fazendo sistemas de pagamento bilaterais.
05:19E essa informação de uma empresa sendo usada como base militar,
05:24se chegou agora para nós, os Estados Unidos já sabem disso e sabem provavelmente de laços
05:29até mais profundos entre Brasil e China, que não estão visíveis para nós.
05:35Então isso, sem dúvida, coloca o Brasil numa situação de desalinhamento.
05:40Uma coisa é a neutralidade.
05:42Neutralidade é o que a Índia faz.
05:44A conversa negocia com todo mundo, sem dar uma preferência clara para qualquer um.
05:49O Brasil, por décadas, adotou essa postura.
05:52Nós estamos mudando nos últimos 20 anos e o governo Trump é muito mais sensível a essa questão.
05:58É aquilo que foi falado antes das eleições pelo atual secretário de Tesouro, Scott Bess,
06:04num artigo.
06:04Ele dizia que aliado de segurança tem que ser aliado econômico
06:09e aliado econômico tem que ser aliado de segurança.
06:12Professor, inclusive, pegando um gancho nessa pergunta da Cíntia, né?
06:15Se a gente voltar, pelo menos lá no ano de 2000, 2001, praticamente só Cuba
06:19era o único país aqui das Américas que negociava mais com a China do que com os Estados Unidos.
06:25Passados aí 25, 26 anos, mudou totalmente.
06:28Praticamente poucos países só negociam mais com os Estados Unidos que com a China.
06:33Essa mudança de cenário e, pelo menos, de acordos comerciais,
06:37também é uma estratégia dessa cúpula, pelo menos de Donald Trump,
06:40de colocar um freio nesses acordos dos países das Américas com a própria China?
06:45Ah, sem dúvida, né?
06:47É, no mínimo, um puxão de orelha, né, Cássio?
06:50O que nós temos ali é uma...
06:53algo que já tinha surgido no primeiro Trump.
06:56O Biden não mudou a estratégia.
06:59Nós temos que reconhecer que a China se tornou uma questão bipartidária,
07:03ou seja, ela é vista tanto pelos democratas quanto pelos republicanos
07:07como o grande oponente geopolítico.
07:10E essa inversão econômica que você relata bem,
07:14ela é um sinal de preocupação enorme,
07:16porque antes disso, né, o grande parceiro comercial da maioria dos países
07:20era justamente os Estados Unidos.
07:22Ou seja, os Estados Unidos não vão ficar jogando parada,
07:26eles não podem fazer isso.
07:27Mas nós temos que entender a estratégia chinesa.
07:29A China tem as suas pretensões de se tornar uma potência
07:34e talvez até pretensões hegemônicas daqui a algumas décadas,
07:38mas o que ela estava fazendo era garantir acesso a recursos,
07:42ou seja, uma segurança ali da sua cadeia de fornecimento.
07:45Nós sabemos muito bem que a América Latina é uma fonte
07:49de commodities agrícolas e minerais,
07:51mesma coisa que a África, né?
07:53Então ela estava fazendo essas parcerias,
07:56seja pela forma de endividamento, lá que é a nova rota da seda,
08:01seja essas parcerias de investimento privado, né,
08:03montando empresas em vários desses países.
08:06O Panamá está ali na cúpula, ou seja,
08:08os Estados Unidos puxou o Panamá de volta para a sua órbita
08:12dizendo o seguinte, não vai ter terminal chinês no canal.
08:15E isso vai repercutir em vários países.
08:19Cíntia, tem mais um questionário para o professor?
08:22Só queria saber se vocês também tiveram essa sensação que me pareceu
08:27quando nós ouvimos ali a entrevista da porta-voz da Amanda.
08:31Parece que ela explicou, mas não explicou exatamente
08:34por que o Brasil não foi convidado, né?
08:37Deixou, assim, bem uma questão diplomática
08:41e ressaltou que há grande importância pela dimensão do Brasil e tal.
08:46Professor Alexandre, o senhor acredita que o Brasil vai ser convidado
08:51para os próximos eventos?
08:52Ou sei o que foi, então, uma passação de pano do tipo
08:55a gente não convidou e provavelmente não serão,
08:58seremos convidados os brasileiros em outra oportunidade.
09:01Qual a sua opinião sobre isso?
09:04Nesse atual governo e com a política externa dele, acredito que não.
09:08A diplomacia tem uma memória longa, né?
09:11Ou seja, a memória da diplomacia, das relações externas,
09:15não é na casa de dias e semanas.
09:17Então, o Brasil, no atual governo Lula, o terceiro,
09:21você tem ali vários discursos que são totalmente contrários
09:26a políticas americanas.
09:28Nós temos que lembrar que tanto a União Europeia
09:31quanto o próprio Biden nos Estados Unidos
09:33puxaram a orelha da diplomacia brasileira
09:37em relação a várias das questões que estavam acontecendo no mundo.
09:41E isso se reforça agora.
09:43O Brasil, por exemplo, tem uma visão sem nenhuma crítica,
09:48por exemplo, ao regime iraniano.
09:51Mesmo a Europa, em rota de colisão com os Estados Unidos,
09:54apontou sim que o regime não tinha legitimidade.
09:58E fora as falas ao longo desses últimos anos a respeito de Rússia,
10:04dólar, narcotráfico e mesmo contra o próprio Trump.
10:09Então, tudo isso faz com que o Brasil, nesse momento,
10:13não seja ali alguém a ser convidado.
10:16Não chegou no nível de persona non grata, como acontece em Israel,
10:20mas não é visto como um parceiro estratégico.
10:23E, professor, é claro que também em relação à visita do presidente Lula
10:27à Casa Branca, em Washington,
10:29onde vai ter esse encontro presencial com o Donald Trump,
10:32claro, não ainda há uma data marcada,
10:33final de março, início de abril, pelo menos,
10:35devido aos ataques dos Estados Unidos no Irã.
10:38Mas, com certeza, o assunto crime organizado,
10:41narcotráfico, vai ser discutido com o presidente Lula.
10:44E ele vai ter que, de certa forma, falar a mesma língua
10:46que Donald Trump na tentativa também de ter ganhos políticos,
10:49econômicos e diplomáticos desse encontro.
10:53Você tem um...
10:54O primeiro sinal de preocupação é esse encontro
10:57que está sendo postergado, né, Cássio?
10:59Isso aí, diplomaticamente, é um mau sinal.
11:01É sinal que o Brasil está no fim da lista de preocupações.
11:05E o Trump parece atuar por uma questão por vez, né?
11:10Ou seja, primeiro ele resolve a Venezuela,
11:13agora resolve Irã, depois diz que vai resolver Cuba,
11:18e a agenda dele vai ficando espremida com relação a isso.
11:22Então, nós não sabemos se o Brasil realmente
11:25não vai ser colocado de lado.
11:27O fato de nós não estarmos num encontro multilateral como esse
11:31é extremamente ruim, porque você vê uma oportunidade de negociação, né,
11:36e coloca esses países no começo da fila.
11:39Então, nós podemos ficar assistindo,
11:41olha, o encontro vai acontecer, vai acontecer,
11:44e nunca acontece.
11:45Ou, quando acontecer, o Brasil vai ter menos poder de barganha,
11:50porque os Estados Unidos já vão ter resolvido
11:52as suas questões estratégicas principais,
11:55sobretudo acesso a minerais críticos.
11:58Nós podemos perder a vez na fila
12:00e outro país estabelecer uma parceria.
12:03E aí o Brasil fica sem poder de negociação novamente.
12:07Perfeito, professor.
12:08Muito obrigado pela sua participação aqui no Fast News.
12:10Sempre bom te receber e uma boa tarde para o senhor.
12:14Vou botar essa satisfação de toda a minha.
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