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A Venezuela, além do petróleo, possui potencial em terras raras estratégicas. Em entrevista ao Real Time, Vitor Di Pieri, professor associado do Instituto de Geografia da UERJ, analisou os interesses das grandes potências, a disputa EUA-China e os impactos para a soberania e o desenvolvimento industrial na América Latina.

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Transcrição
00:00Já estamos de volta ao vivo com você aqui no Real Time, para falar agora que além de rica em petróleo,
00:06a Venezuela possui reservas significativas de terras raras, aqueles metais que são muito disputados hoje
00:12por uso em equipamentos de última tecnologia.
00:15E a gente vai ter uma conversa sobre isso agora ao vivo, para entender melhor as riquezas do país vizinho, as perspectivas.
00:22A conversa é com Vitor de Pieri, que é professor associado do Instituto de Geografia da UERJ
00:27e especialista em geopolítica e relações internacionais.
00:31Tudo bem, Vitor? Bom dia. Seja muito bem-vindo ao Real Time.
00:35Bom dia, Natália. Obrigado pelo convite. Feliz ano novo para todos os telespectadores.
00:41Para todos nós. E o ano começou com tudo agitado.
00:45Quero saber, então, do que você tem apurado, o que te chamou a atenção nessas movimentações recentes
00:51e o que está no teu radar aí em relação a esses interesses para além do petróleo, hein, Vitor?
00:58Antes de falar na Venezuela, a narrativa sempre gira em torno de democracia, eleições, autoritarismo.
01:06Mas do ponto de vista geopolítico, a gente percebe, pelo próprio discurso do Trump,
01:11que gira em torno do controle dos recursos naturais, especialmente do petróleo.
01:15Os Estados Unidos, ele vive uma fase de inflação bastante importante.
01:22E esse ano é no eleitoral, os Estados Unidos, e o Trump possivelmente está querendo baixar o preço do petróleo
01:29através do controle das reservas venezuelanas, que são as maiores do mundo.
01:34E até então...
01:35Desculpa, pode seguir.
01:37Quando a gente fala de terras raras, existe uma grande preocupação, principalmente, para o Brasil.
01:44Porque o Brasil, até hoje, ele possui a segunda maior reserva do mundo.
01:50Então, é necessário que a gente tenha uma política de Estado
01:56pautada no domínio da cadeia de produção dessas terras raras.
02:02Partindo desde o mapeamento da prospecção, extração mineral, beneficiamento, separação química,
02:08que é um tema extremamente delicado, porque é altamente poluente.
02:14O refino, a transformação industrial e a aplicação estratégica.
02:18Para isso, a gente precisa ter uma política de Estado que pense esses minerais
02:24como um movimento para uma independência tecnológica do país.
02:32E, professor, a gente sabe que, quando se trata, então, do potencial aqui do Brasil,
02:37é sobre potencial que a gente fala mesmo, né?
02:39Porque precisa de investimentos, de tecnologia para exploração, para o refino,
02:44como você bem lembrou.
02:45Estados Unidos e China, claro, empresas já olhando para o Brasil com esse potencial.
02:50Agora, eu queria saber da situação na Venezuela,
02:52porque até no petróleo eles têm muita reserva,
02:56exploração bem abaixo da capacidade.
02:59E nas terras raras, em que patamar que isso está por lá, hein?
03:04Então, a Venezuela não é um grande exportador, não é um grande produtor, né?
03:11Como eu disse, as fases da cadeia produtiva,
03:14ela inicia pelo mapeamento e a prospecção das terras raras.
03:19E, teoricamente, a Venezuela tem um grande potencial geológico,
03:25principalmente ali no arco do Orinoco, né?
03:28A divisa ali da Guiana.
03:32E isso também é um dos fatos que fazem com que as grandes potências
03:40fiquem de olho no território venezuelano.
03:42Mas ainda tem muita coisa para se estudar, né?
03:47Porque ela não passou ainda nem pela primeira fase
03:50dessa cadeia de produção das terras raras,
03:54apesar de ter um enorme potencial geológico.
03:57E envolve uma disputa direta com a China
04:00por essa possível exploração ali no território venezuelano.
04:04É mais um ponto aí de disputa entre Estados Unidos e China, professor?
04:07Exatamente.
04:10Na verdade, os Estados Unidos, eles perderam a capacidade produtiva
04:14de dominar toda a cadeia produtiva das terras raras.
04:21Então, as terras raras, elas são fundamentais hoje
04:25para o complexo militar industrial, né?
04:27Para a produção de mísseis, radares, satélites, drones, né?
04:31Para o tema da transição energética,
04:34a produção de carros elétricos, turbinas eólicas.
04:37E, especialmente, para a disputa tecnológica com a China, né?
04:41Na produção de eletrocondutores,
04:43que a China tem um...
04:44Taiwan, na verdade, tem um grande domínio,
04:46mas Taiwan pertence ao território chinês, né?
04:50Inteligência artificial e computação avançada.
04:52Então, sem o controle desses minerais,
04:56não há autonomia militar e nem tecnológica.
04:59Então, o século XX, de certa forma, XXI, né?
05:02Ele é pautado pelo controle dessas cadeias de valor.
05:09E se discute muito hoje a estratégia para o mundo dos Estados Unidos, né?
05:14A questão das zonas de influência das pan-regiões.
05:19E, teoricamente, os Estados Unidos, de Trump, né?
05:21Ele vai se dedicar ao controle dessas reservas na América Latina, né?
05:26Ao controle e à parceria com alguns países, né?
05:29Que já são alinhados dos Estados Unidos.
05:33E como que o senhor imagina, então,
05:35que fica o mercado internacional de terras raras
05:38depois dessa ação militar americana?
05:40E de que fatores tudo isso depende?
05:42Porque a gente está num momento ainda de muita indefinição, né?
05:45Sobre como é que fica esse governo interino,
05:48se segue com apoio, com influência do governo de Donald Trump.
05:53Quais são as perspectivas?
05:56Então, o que acontece hoje na Venezuela é um sinal
05:59de que os países com recursos estratégicos,
06:03eles precisam controlar a cadeia de valor, né?
06:07Senão, eles tornam-se alvo permanente de pressão externa.
06:12E, para isso, então, pensando na América Latina,
06:15especialmente no Brasil,
06:17que possui a segunda maior reserva do mundo,
06:19de terras raras até hoje, né?
06:22Detectada.
06:23É necessário que a gente haja uma política industrial
06:28alinhada à exploração dessas terras raras
06:32com um controle estatal que induz isso.
06:37Talvez seja o caso de aproveitar essa inserção internacional
06:41pautada na cooperação Sul-Sul
06:43e buscar mais parceiros para a exploração
06:46e para todas as fases dessas cadeias de produção
06:50das terras raras, né?
06:51Até a aplicação estratégica na indústria de tecnologia de ponta.
06:57São sete etapas de produção desses minerais.
07:03Não adianta só a gente mapear e prospectar,
07:06não adianta só a gente extrair o mineral.
07:08A gente precisa beneficiar ele,
07:10separar, fazer a separação química
07:13e refinar e purificar para, posteriormente,
07:17disponibilizar para a indústria de ponta, né?
07:21Que tem se destacado no mundo do século XXI.
07:24É, professor.
07:25Inclusive, ao longo do fim de semana, né?
07:27Eu vi de alguns analistas aqui
07:29como essa ação dos Estados Unidos na Venezuela,
07:32ela pode abrir precedentes,
07:34inclusive para países que, num primeiro momento,
07:38criticam, né?
07:39São contrários à forma como os Estados Unidos
07:42atuaram na Venezuela.
07:43Então, por exemplo, China em relação a Taiwan,
07:46Rússia em relação à Ucrânia.
07:49Como é que o senhor vê
07:49esse posicionamento dessas potências,
07:53especialmente nesse contexto
07:55da exploração de metais, de terras raras?
07:59Aparentemente, né, com esse movimento do Trump,
08:04anteriormente com o acordo com Putin sobre a Ucrânia
08:07e, posteriormente, com essa invasão da Venezuela, né?
08:14Desrespeitando o direito internacional,
08:16existe aí um movimento dessas potências
08:20pensando-se em áreas de influência
08:23e não uma influência global, né?
08:25Então, automaticamente, a área de influência
08:28que o próprio Donald Trump disse
08:30que o Estados Unidos está passando
08:33por uma doutrina Donald, né?
08:35Fazendo de Donald com Morlowe, né?
08:39América Latina é a área de preferência,
08:43de intervenção dos Estados Unidos nesse sentido.
08:47Então, o debate no Brasil, ele não é,
08:50acaba não sendo sobre só mineração,
08:53e sim sobre soberania, desenvolvimento industrial
08:56e um projeto industrial de país
08:58que perpassa por um Estado indutor, né?
09:01Então, isso é fundamental.
09:04Professor, então, o senhor disse, né,
09:07que passa um recado importante,
09:09que outros países,
09:11olhando especialmente para a América Latina,
09:14devem estar, né,
09:15ou deveriam estar com radares ligados
09:17depois dessa ação,
09:18e quero saber como é que o senhor acompanhou tudo isso, né?
09:21Como é que bateu para o senhor,
09:23que é um estudioso aí da geopolítica,
09:25das relações internacionais,
09:27essa ação do fim de semana?
09:31Existem outros países que não são alinhados automaticamente
09:34com os Estados Unidos.
09:35Isso daí é alinhado de maneira mais subalterna.
09:40Isso aí impacta um pouco,
09:42corre um pouco de risco,
09:43em relação principalmente às reservas de recursos naturais desse país.
09:49O Trump já deixou claro que a Colômbia pode ser a próxima vítima, né?
09:55O México, que é um país ultra importante no sistema internacional também,
09:59que não consegue controlar,
10:02sempre com esse discurso de controle do tráfico de drogas, enfim.
10:07Mas, no fundo, no fundo,
10:09é um controle que o governo Trump quer ter
10:14sobre os recursos naturais desse país.
10:17Então, os países da América Latina,
10:20eles têm que se atentar.
10:22E eu acho que, no caso do Brasil,
10:24a melhor forma de se proteger dessas intervenções
10:28é desenvolver as cadeias produtivas,
10:33principalmente desses recursos de terras raras,
10:36em toda a cadeia produtiva.
10:38Então, para isso, necessariamente,
10:40a gente vai ter que ter e colocar em prática
10:43um projeto de desenvolvimento nacional
10:46pautado numa indústria
10:47voltada às questões mais do século XXI.
10:54E, professor, para finalizar,
10:56a senhora apostaria mais,
10:58ficaria mais tranquilo vendo ações práticas,
11:01nesse sentido, como o senhor mencionou agora,
11:03ou espera também alguma atuação do Brasil
11:07e dos países, por exemplo, no Conselho da ONU?
11:10Ou o senhor acredita que isso acaba ficando
11:11numa esfera muito mais da retórica,
11:14do protocolo, com pouco impacto na vida real?
11:19A gente tem notado que as organizações multilaterais
11:23têm conseguido influenciar
11:27algumas questões internacionais fundamentais.
11:29Isso porque existe muita inércia na reforma,
11:35principalmente do Conselho de Segurança da ONU.
11:38São cinco países que decidem
11:39todas as questões internacionais.
11:43Então, cinco países dos quais
11:45dois deles têm um ponto de vista,
11:49uma visão internacional diferente,
11:51pautada mais no multilateralismo
11:52e um mais uma hegemonia global.
11:56Então, eu acho que hoje em dia
12:00as organizações multilaterais
12:01não têm poder de arbitrar muito
12:05sobre as questões internacionais.
12:07Então, infelizmente, é necessário urgentemente
12:11uma reforma dessas instituições,
12:13mas do jeito que as questões internacionais caminham,
12:16eu acho muito difícil que ocorra
12:18nos próximos anos.
12:20Não parece ter muito interesse
12:22em mexer com isso nesse momento.
12:23Eu quero agradecer Vitor DiPieri,
12:26professor associado do Instituto de Geografia da UERJ
12:29e especialista em geopolítica e relações internacionais,
12:32pela participação com a gente nessa segunda-feira.
12:35Muito obrigada, ótimo dia,
12:36ótima semana por aí, professor.
12:38Obrigado, Natália.
12:39Um abraço a todos.
12:40Outro.
12:41Tchau.
12:42Tchau.
12:43Tchau.
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