00:0015 para 5 agora, a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas,
00:14a UNFCCC, na sigla em inglês, divulgou hoje um estudo sobre como anda o enfrentamento
00:20do aquecimento global.
00:22O levantamento mostra que, pela primeira vez, o mundo caminha para começar a diminuir as
00:27emissões de gases de efeito estufa e não apenas reduzir o ritmo de aumento.
00:32Claro que é uma boa notícia, mas o documento alerta, é preciso acelerar as medidas.
00:38Ainda não estamos fazendo o suficiente para limitar o aquecimento do planeta em um grau
00:43e meio, como estabeleceu o Acordo de Paris em 2015.
00:47Esse é o limiar que nos separa de um aumento dramático nos eventos extremos, como inundações,
00:52secas, queimadas, que resultariam em muito mais vítimas, danos à infraestrutura, altas
00:58de preços e quedas no PIB dos países.
01:02No ano passado, o mundo já ultrapassou esse limite e ficou 1,6 grau mais quente em comparação
01:08com os níveis pré-industriais.
01:10Esse ano, a temperatura global média cedeu um pouco, voltou para baixo de 1,5 grau, mas
01:15continua próxima do limite.
01:17O relatório vai servir de referência para a COP30, que começa na semana que vem em
01:22Belém.
01:23Vamos trazer aqui alguns dados desse documento divulgado hoje, mas antes é preciso explicar
01:28que esse é um relatório incompleto, porque a maioria dos países ainda não apresentou
01:33os seus novos compromissos de redução de poluentes.
01:37Esse relatório, portanto, da ONU, ele é feito com base nas NDCs, que são as contribuições
01:43nacionalmente determinadas.
01:45Cada país assume o seu próprio compromisso de reduzir as emissões com base nas medidas
01:50que escolhe.
01:52Esse relatório tem que ser renovado a cada cinco anos, ele foi instituído pelo Acordo
01:56de Paris em 2015, estamos em 2025, portanto, é hora de renovar de novo.
02:01Só que dos mais de 190 países, só 64 apresentaram essas novas metas, essas novas NDCs.
02:09O Brasil está entre eles, aliás, foi um dos primeiros a apresentar no fim do ano passado.
02:13Então, esse retrato aqui, ele se refere a mais ou menos um terço das emissões globais
02:19na falta de os outros países também apresentarem as suas metas.
02:24O que o estudo, com base nessas metas, projeta aqui, segundo a ONU?
02:28Indica que ainda vai haver um aumento de emissões de gases de efeito estufa antes de 2030 e,
02:35a partir daí, então, começa a haver uma redução.
02:38Essa redução de emissões vai ser de 13% em 2035, o que significa 17% abaixo dos níveis
02:47de 2019.
02:49O relatório aponta que isso é insuficiente para limitar o aquecimento a 1,5 grau Celsius e
02:56indica também que a implementação completa depende de mais cooperação internacional.
03:02Existem medidas que estão ao alcance dos países e existem medidas, principalmente, para o mundo
03:08em desenvolvimento, que dependem dos países mais ricos, seja de recursos, seja de transferência
03:15de tecnologia e, portanto, essa cooperação tem que aumentar para que todas as medidas
03:20possam ser implementadas e esse cenário, então, possa ser acelerado, cenário de combate,
03:25de enfrentamento à emissão de gases de efeito estufa.
03:28Para analisar o que esse relatório da ONU traz, às vésperas da COP30, eu converso
03:35agora com um dos maiores cientistas brasileiros quando o assunto é mudanças climáticas,
03:39professor Paulo Artacho, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP.
03:45Professor, muitíssimo obrigado pela sua atenção aqui com a gente, uma boa tarde para o senhor.
03:50Primeiro, antes de mais nada, qual a sua leitura sobre o fato de só 64 países terem apresentado
03:56as suas NDCs? Será que indica uma falta de compromisso?
04:01Não, isso indica, na verdade, a complexidade da questão geopolítica no nosso planeta hoje.
04:09Temos guerras físicas acontecendo, duas delas.
04:14Temos guerras comerciais acontecendo.
04:17Isso, obviamente, dificultem muito.
04:21Há um clima de negociação onde todos os países possam assumir compromissos de redução
04:27de emissão de gás de efeito estufa para os próximos 10 anos.
04:31E isso traz dificuldades importantes para a COP30, sem sombra de dúvida nenhuma.
04:38Professor, o estudo traz essas boas notícias, como, por exemplo, a virada dessa curva,
04:43a curva de emissões que vai começar efetivamente a cair, e ele aponta também o que chama de
04:48uma melhor qualidade das NDCs, desses compromissos que cada país assume.
04:54O que é que significa falar em NDCs com mais qualidade?
04:59Significa que os países, como um todo, já têm planos de longo prazo para fazer a substituição
05:08do seu sistema energético baseado em combustíveis fósseis para sistemas energéticos que sejam
05:15mais sustentáveis.
05:18A principal tarefa da COP30 vai ser, realmente, desenhar um caminho para que a maior parte
05:27dos países deixe de explorar e utilizar combustíveis fósseis.
05:32Essa é a questão principal de melhoria da qualidade das NDCs.
05:39Além da questão dos combustíveis fósseis, a COP30 também tem que acabar com as emissões
05:46associadas com o desmatamento de florestas tropicais, como a Amazônia e as demais florestas
05:52tropicais.
05:53Não é uma tarefa fácil, mas é uma tarefa absolutamente necessária para a humanidade
06:00estabilizar a crise climática que estamos passando agora.
06:05Professor, e sem acelerar esse processo de medidas de enfrentamento e de redução na
06:10emissão de gases, a gente pode ter esse aumento de um grau e meio na temperatura média
06:15da Terra de novo a qualquer momento?
06:17Porque está ali no limite, né?
06:19Já passou uma vez, voltou, mas está no limite.
06:20Olha, na verdade, com as emissões atuais e os compromissos que temos atualmente, o aumento
06:29da temperatura em nosso planeta está projetado para ser da ordem de 2,8 graus Celsius ao longo
06:37deste século, o que é um aumento de temperatura absolutamente insustentável.
06:45O que precisamos fazer são todos os esforços possíveis de redução de emissões para que
06:52a gente possa manter o aumento de temperatura pelo menos até 2 graus Celsius.
06:59Na minha opinião, 1,5 graus Celsius já se torna praticamente impossível.
07:05Ainda não chegamos lá, mas obviamente a inércia do sistema econômico como um todo não
07:12permite uma reviravolta tão grande nas emissões de gás de efeito estufa e no uso de combustíveis
07:20fósseis.
07:20Então, esperamos que na COP30 e nas próximas COP sejam realmente uma virada no uso de combustíveis
07:32fósseis para a transição para uma energia, para a geração de energia solar, energia
07:39eólica, hidroelétricas, que são geração de energia de baixas emissões de carbono.
07:45O senhor falou em inércia econômica.
07:48Da parte das empresas, do setor privado, o que está mais ao alcance para fazer com
07:53rapidez para participar desse processo?
07:56Olha, há muita coisa a fazer com rapidez e com baixo custo.
08:03Isso é possível, sim.
08:05A tecnologia de geração de energia elétrica, solar e eólica já tem preços muito abaixo
08:13das tecnologias associadas com a queima de combustíveis fósseis.
08:18Então, não é mais uma questão de preço ou não é mais uma questão de efetivamente
08:24desenvolver novas tecnologias.
08:27A eletrificação do setor de transportes já é uma realidade em praticamente todos os
08:36países do nosso planeta.
08:39Claro que alguns países estão mais avançados do que outros.
08:42Por isso, o Brasil está entrando de maneira acelerada na eletrificação do nosso setor
08:48de transporte, o que é muito positivo do ponto de vista de emissões de gás de efeito estufa
08:54e vai por aí afora.
08:56A mesma coisa em vários setores industriais que estão trazendo processos mais eficientes
09:03e com menores emissões de gás de efeito estufa e com ganhos econômicos importantes, aumentando
09:11a competitividade em muitos setores.
09:14Então, o que a COP30 tem que fazer é facilitar e acelerar essa transição energética.
09:22E, na sua opinião, acelerar essas medidas depende mais de vontade política ou dinheiro
09:28ou das duas coisas igualmente?
09:29É, é claro que sem recursos financeiros você não faz nada.
09:36Não adianta só ter vontade política.
09:38Mas eu colocaria que a vontade política, no momento, é o maior motor do atraso na implementação
09:48da transição energética.
09:50Porque as novas tecnologias têm vantagens econômicas muito importantes.
09:55Então, nós precisamos ter diretrizes políticas para caminhar o planeta como um todo na rota
10:03da sustentabilidade, na rota de construir uma nova sociedade baseada nos 17 objetivos
10:10de desenvolvimento sustentáveis e garantir um clima estável e propício para atividades
10:18econômicas para esta geração e nas próximas.
10:22A gente falava há pouco aqui das NDCs, que são essas contribuições de cada país.
10:27O Brasil, quando anunciou e foi um dos primeiros a anunciar a sua nova NDC no fim do ano passado,
10:33estabeleceu ali um compromisso de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa
10:37entre 59% e 67% até 2035, comparando com os níveis de emissão de 2005.
10:46Queria saber, professor, a sua leitura sobre se essa é uma meta ousada ou suficiente para
10:52a urgência climática que a gente vive e se dá para cumprir essa meta no ritmo em que
10:57o Brasil está.
10:58Olha, o Brasil deu um exemplo para os demais países, não só se adiantando nos compromissos,
11:06mas também colocando compromissos muito ambiciosos.
11:10Não é fácil reduzir em 60% as emissões de gás de efeito estufa de qualquer país.
11:17Mas o Brasil tem uma vantagem estratégica enorme, porque cerca de 48% das nossas emissões
11:24estão associadas com o desmatamento da floresta amazônica.
11:28E não existe maneira mais barata, fácil e com enormes benefícios do que acabar com
11:37o desmatamento de florestas tropicais como a Amazônia.
11:41O Brasil pode fazer isso, não vai ser fácil, mas ele pode fazer isso com baixo custo,
11:48sem ajuda financeira externa.
11:50Isso é sim viável, mas nós precisamos ter vontade política, particularmente do Congresso
11:59Nacional, e implementar medidas que acabem com a destruição da Amazônia e dê um novo
12:05modelo de desenvolvimento econômico para a Amazônia, que inclusive beneficia a população
12:12local com menos emissões de gás de efeito estufa e traga um maior desenvolvimento sustentável
12:19para a região, e isso é possível e altamente desejável para o Brasil.
12:26E por falar nisso, professora, a Petrobras está começando a explorar petróleo na Foz
12:31do Amazonas, na margem equatorial, lembrando aqui, abrindo parênteses, que explorar ainda
12:35não é produzir, é verificar, puxar petróleo, ver a qualidade, a quantidade, etc.
12:41Mas, claro, o objetivo disso é confirmar essas reservas e começar a produzir.
12:46Com o Brasil começando, se for o caso, a produzir petróleo a partir de lá, daria
12:53para o país cumprir essas metas?
12:55Veja, o Brasil está fazendo um erro histórico monstruoso, porque o Brasil vai investir, através
13:03da Petrobras, alguns bilhões de dólares só para saber se esse petróleo vai ser viável
13:11economicamente, e se ele for viável economicamente, essa produção só começaria perto de 2034,
13:202035, mais ou menos daqui a nove ou dez anos.
13:24E a grande pergunta é, quanto vai estar custando o barril de petróleo daqui a dez anos?
13:29Ele pode estar num valor que faça com que todo o investimento brasileiro tenha sido jogado
13:36no lixo ao longo desses dez anos.
13:39Não valeria muito mais a pena para a sociedade brasileira investir esses 10, 20, 30 bilhões
13:47de dólares em grandes projetos de geração de energia solar e eólica a baixo custo no
13:54Nordeste brasileiro, acoplado com um programa de descentralização industrial no uso dessa
14:01energia, eu acho que seria muito mais vantajoso para a sociedade brasileira como um todo.
14:09Então, o Brasil pode estar dando um tiro no pé com esse gasto de recursos na exploração
14:15de combustíveis fósseis, que inclusive compromete a imagem do Brasil de ser um país com uma matriz
14:24energética muito verde, porque cerca de 80% da nossa energia elétrica é gerada de maneira
14:32sustentável.
14:34Então, faz muito sentido a gente produzir petróleo ao invés de investir numa transição energética
14:43justa, rápida e com enormes benefícios para a sociedade brasileira.
14:49Professor Paulo Artacho, coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP, um
14:55dos maiores cientistas do Brasil quando o assunto é mudanças climáticas.
14:59Muitíssimo obrigado, professor, pela gentileza.
15:01Eu é que agradeço.
15:03Obrigado, um abraço.
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