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Às vésperas da COP30 em Belém, Ricardo Assumpção, sócio-lider de sustentabilidade da EY LatAm, analisa como as mudanças climáticas impactam o agronegócio brasileiro. Ele aponta desafios e oportunidades para atrair investimentos, reduzir emissões e transformar o setor em referência de sustentabilidade global.

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Transcrição
00:00O agronegócio é um dos segmentos da economia mais impactados pelas mudanças climáticas.
00:06Ao longo de toda a cadeia, da produção até a distribuição, alterações nos padrões de temperatura e chuva
00:12mudam a equação dos custos dos negócios do agro, encarecem produtos e podem até inviabilizar muitas atividades.
00:21Com a chegada da COP30 em novembro, em Belém, o impacto econômico das questões ambientais
00:26precisa ser avaliado com foco em sustentabilidade e na geração de novos negócios.
00:32Quem vai ajudar a gente a entender essa nova dinâmica é o Ricardo Assunção,
00:37sócio líder de sustentabilidade e Chief Sustainability Officer, CSO, Latam, da EY.
00:44Tudo bem, Ricardo? Boa noite, bem-vindo.
00:46Obrigado, Fábio.
00:47Seja muito bem-vindo aqui ao nosso estúdio.
00:49Ricardo, uma questão que você deve ouvir com alguma frequência, que as pessoas colocam de formas diferentes,
00:54mas o agronegócio é vilão ou é vítima quando se fala em mudanças climáticas?
01:00Olha, Fábio, essa é uma questão que é um debate muito grande.
01:05Não diria vilão.
01:06O agronegócio, como todos os setores da economia, tem um desafio enorme de conseguir reduzir as emissões.
01:12O agronegócio, ele, claro, emite, mas o que a gente vê é que ele tem se transformado
01:19e com o desafio de ser mais sustentável, ao mesmo tempo que ele tem que ser mais eficiente.
01:25Então, não dá para chamar de vilão.
01:27Nos últimos anos, a gente viu um avanço muito grande nas técnicas de tornar o agro mais sustentável.
01:33Por outro lado, ele é vítima, como você bem comentou agora, porque a mudança do clima, o regime hídrico,
01:41tem prejudicado um setor, primeiro, que é fundamental para o PIB brasileiro, 28% do PIB,
01:45e segundo, que é fundamental para garantir a segurança alimentar do mundo.
01:49O Brasil tem um papel fundamental nisso.
01:51Então, eu acho que esse desafio de reduzir emissões, ao mesmo tempo que a gente precisa fazer com que o agro cresça,
01:59é algo importante. Diria para você que ele tem sido mais vítima do que vilão.
02:05E em relação ao impacto financeiro das mudanças climáticas, Ricardo,
02:09até que ponto as empresas estão cientes e têm isso na ponta do lápis e estão trabalhando para mitigar isso?
02:16Olha, a gente tem um estudo recente, Fábio, que mostra que só 36% das empresas têm um relatório,
02:24um estudo mostrando qual é o impacto de mudanças climáticas nos balanços financeiros.
02:29É muito pouco. E esse número cai ainda mais, dependendo da região.
02:33Quer dizer, um terço, né?
02:34Um terço. Um terço por um problema que afeta a gente em praticamente 18% do PIB em 2040, que está aí.
02:42Passa rápido, né?
02:43Então, falta ainda as empresas entenderem qual é esse impacto.
02:48A gente deu um outro número.
02:49O ano passado, o custo dos eventos extremos, de enchente ou de seca, os dois afetam o agro,
02:55foi de mais ou menos 750 bilhões de dólares no mundo.
02:58E esse custo, Fábio, ele ainda não está dentro do PNL.
03:02Ele tem que ser tirado de um lugar para colocar no outro, né?
03:06Então, de fato, o que a gente percebe é que a COP, esse ano,
03:10ela vai colocar um holofote muito grande nessas questões
03:12e vai forçar, talvez, as empresas a acelerarem os seus cálculos do impacto no balanço.
03:21O Brasil, como você sabe, é pioneiro nisso.
03:24As empresas de capital aberto, a partir de 2026, são obrigadas a demonstrar como o clima e sustentabilidade
03:31vão impactar a geração de números, ou seja, as demonstrações financeiras.
03:36Tem dinheiro para investir em sustentabilidade no agro, se a gente pensar o mercado de forma geral?
03:42Tem dinheiro para investir no agro.
03:43O capital, ele sempre vai buscar retorno, Fábio.
03:47O que a gente precisa é ter projetos que gerem retorno financeiro
03:51e tenham um efeito colateral positivo para o planeta e para a sociedade.
03:56Quando a gente fala do agro, o nosso potencial é muito grande para receber investimento.
04:02Hoje, a gente produz em mais ou menos 7% do território, tamanho da França,
04:07e a gente tem outros 20% do território que são pastagens degradadas
04:11que podem ser transformadas em áreas produtivas.
04:15A gente tem uma vantagem, quer dizer, nas últimas décadas,
04:18a gente dobrou a área plantada e quase quintuplicou a produtividade.
04:24Então, tem dinheiro para investir, para aumentar a produção,
04:27com o desafio de crescer de forma sustentável.
04:30E te falo de uma outra coisa, esse ano, com a COP30,
04:34a UI vai ter um espaço em Belém que se chama UI House,
04:39justamente para a gente conseguir mostrar como cada setor, incluindo o agro,
04:44precisa estar agregado com planos mais de longo prazo
04:47para receber os investimentos adequados.
04:50Ricardo, você separou para a gente aqui uns dados, uns números,
04:53sobre remoção de carbono da atmosfera.
04:56A agricultura regenerativa, ela pode transformar o agro brasileiro?
05:02Pode, pode.
05:03O agro, a geração de crédito de carbono com o agro,
05:06pode ser por remoção ou por evitar você emitir.
05:12Como a gente vê aqui, a agricultura, entre os setores da economia,
05:17um dos setores que mais tem conseguido ter crédito,
05:20100% de crédito gerado, 45% já vem a partir de remoção.
05:24E a agricultura regenerativa, assim como o plantio direto, Fábio,
05:29são ferramentas importantíssimas para a gente conseguir deixar o agro mais sustentável.
05:33O problema disso é que você tem um tempo de maturação,
05:37então muitas vezes a gente tem aquele curto prazismo,
05:40mas sim, vale a pena investir na agricultura regenerativa,
05:44até pensando que 80% da produção são através de pequenos produtores.
05:49E isso faz com que o agronegócio se torne mais sustentável
05:53e eles consigam ter um manejo melhor.
05:55Tem um potencial muito grande.
05:57Talvez a chave aqui é ter um plano mais estruturado no setor,
06:02entendendo como se relaciona com outros setores,
06:05com o mercado financeiro, inclusive.
06:06Mas sim, a agricultura regenerativa é algo que cada vez mais tem mostrado resultado.
06:13Na sua leitura, o que é que precisa acontecer para a COP30 ser relevante,
06:19como outras edições não conseguiram ser, por exemplo, a anterior, a 29?
06:23Pois é, a COP30 tem um desafio enorme e junto com o desafio,
06:26uma oportunidade maior ainda.
06:28A COP são só duas semanas, Fábio,
06:31mas a gente tem uma oportunidade aqui de,
06:34primeiro, essa COP, a grande diferença dela é que ela vai tratar muito da ação,
06:39da implementação.
06:40COP, como a gente sabe, são ambientes de negociação,
06:43mas muito já se negociou e essa COP a gente tem a missão de mostrar
06:47quais são aqueles projetos reais que dão resultado.
06:51E o Brasil é muito bom, principalmente na agricultura,
06:54assim como em outros setores.
06:56Então, essa COP vai dar uma oportunidade para o Brasil
06:58para mostrar a nossa capacidade de realizar
07:01e de demonstrar o que tem sido feito e que tem dado resultado.
07:07Nós vamos ver, sem dúvida nenhuma,
07:08que a gente chama de Troika as últimas três COPs,
07:12Dubai, Baku e Brasil.
07:15A grande responsabilidade ficou para o Brasil.
07:17Não acho que a gente vai fazer feio.
07:19Tenho visto boas iniciativas aqui
07:21e tenho visto uma desfragmentação dos setores.
07:26Ou seja, todo mundo querendo dar as mãos
07:29para conseguir produzir um resultado mais robusto
07:32e bem mais de longo prazo.
07:33Ricardo Assunção, sócio líder de sustentabilidade
07:37e Chief Sustainability Officer,
07:39CSO Latam, da IUAI.
07:41Obrigado, Ricardo, pela sua presença aqui.
07:43Até uma próxima. Valeu.
07:44Até uma próxima.

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