00:00Money Times de volta ao vivo com você e agora a gente fala sobre o Brasil, sobre café, porque nós somos o principal fornecedor de café para os Estados Unidos.
00:09O Brasil detém cerca de um terço do mercado norte-americano. Agora com essa tarifa de 50%, o cafezinho deve ficar bem mais caro no país.
00:17E pensando nesse impacto, empresas de café lá nos Estados Unidos e parlamentares americanos já pediram a isenção de tarifa sobre esse produto.
00:26E a gente vai saber mais sobre se realmente essa isenção tem chance de acontecer de fato.
00:32O papo é com o Eduardo Heron, que é diretor técnico do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil.
00:38Tudo bem? Boa tarde, bem-vindo de volta ao Money Times.
00:42Boa tarde a todos, com uma satisfação estar aqui falando do nosso café.
00:46Vamos lá, o Felipe Machado, nosso analista, participa da conversa também, tá Eduardo?
00:49Bom, vamos lá. Começa trazendo para a gente um contexto do café brasileiro.
00:54Por que ele é tão estratégico para os Estados Unidos?
00:57Como que a gente está posicionado?
00:58Sempre bom ouvir sobre isso, né?
01:00Nessa dinâmica do mercado internacional.
01:04Bom, o que o Secafé vem dizendo é que, assim como o café brasileiro é importante para os Estados Unidos,
01:10os Estados Unidos também é importante para o café brasileiro e por uma única razão.
01:13Primeiro que, nos Estados Unidos, o país americano importa anualmente cerca de 24 milhões de sacas por ano.
01:22É o maior país consumidor de café no mundo.
01:25E o Brasil tem nesse market share cerca de um terço, como você mesmo citou.
01:2834% do importado de café nos Estados Unidos se originam do Brasil.
01:34E, para o Brasil, os Estados Unidos, historicamente, é o maior comprador de café do país,
01:40sempre ocupando a posição de líder absoluto, com um percentual nos destinos do café brasileiro em torno de 16% a 18%.
01:48Então, são mercados que se ajudam por conta dessa importância do café que você tem,
01:54tanto para os Estados Unidos, quanto para os Estados Unidos e para o Brasil.
01:56Então, realmente é preocupante esse cenário da tarifação de 50% para o café brasileiro.
02:03Sua pergunta para o Eduardo.
02:04Daniel, Eduardo, desculpa. Eduardo, boa tarde para você, desculpa.
02:07Eduardo, eu acho que o que todo mundo está pensando agora, no momento, é o seguinte.
02:12Agora está chegando a reta final, tem pouco tempo para essa negociação.
02:15O que acontece efetivamente com o café brasileiro se as tarifas tiverem início agora, na sexta-feira?
02:21Isso inviabiliza a exportação para os Estados Unidos?
02:24Os compradores americanos assimilam essa tarifa e também acabam pagando mais caro?
02:29Eles estão dispostos a pagar mais caro?
02:31Como é que funciona na prática?
02:32O que vocês estão pensando de cenário realista, já que falta tão pouco tempo e não tem nenhuma negociação em vista?
02:38Bom, o aspecto que a gente vem enfatizando é que, primeiro ponto, 50% de tarifa,
02:45certamente isso vai ser repassado para o consumidor americano.
02:48Isso nós falamos aqui, que essa dependência que você tem do café brasileiro,
02:53que hoje ocupa 34% de market share americano, sem dúvida traz impactos.
02:57Por uma única razão, o Brasil hoje, 80% do café exportado para os Estados Unidos são da variedade arábica.
03:04E os Estados Unidos não teriam nenhum outro país substituto nesse momento para continuar mantendo abastecido a sua indústria.
03:11Então, é um cenário preocupante porque o industrial americano, que tem essas compras regulares do café brasileiro,
03:1880% da variedade arábica, ele está numa situação também bem desconfortável.
03:23Porque a partir do 1º de agosto, com a entrada da tarifa, como que fica a indústria americana?
03:28Como que se mantém abastecido um mercado onde 76% dos americanos consomem esse produto diariamente?
03:35Então, o que a gente vem a entender é que há formas de buscar o diálogo, de buscar saídas,
03:43para que reduza os impactos, não somente econômicos, mas também sociais, para as duas nações.
03:49Uma vez que os Estados Unidos têm aí um grande consumo de café, tem uma indústria bem empurjante,
03:56e o Brasil, como sendo seu principal fornecedor, também se prejudica,
03:59porque vai deixar de perder, ser competitivo.
04:01A tarifa, certamente, prejudica a competitividade do Brasil.
04:05Dentre os países produtores, o Secafé vem fazendo levantamento.
04:09O Brasil passa a ter uma tarifação maior, comparado com os demais países produtores.
04:14Então, para o Brasil também, nós vamos perder competitividade,
04:18nós vamos perder esse market share para o grande mercado americano,
04:21e certamente isso vai se refletir também no aspecto inflacionário na economia americana.
04:27Bom, Eduardo, a gente sabe que tem em andamento ali algumas tentativas por canais diversos,
04:33então, canal diplomático, mas também vemos um canal ali com foco no comércio mesmo,
04:38com essa mobilização de empresas do setor lá nos Estados Unidos,
04:42que empresários também façam essa pressão do lado de lá.
04:46E aí eu queria saber, especialmente no setor do café, o que está acontecendo nesse sentido,
04:50porque tem parlamentares e tem empresas que estão pedindo uma isenção,
04:54uma diferenciação tarifária para o café brasileiro,
04:57afirmando o que você já trouxe aqui,
04:59que a produção americana e de outros países não daria conta de suprir
05:04o que a gente exporta de grãos para lá.
05:07Como é que você avalia a força dessa mobilização
05:10e a chance real do café, de repente, ter uma condição especial
05:14e cair fora dessa lista dos 50%?
05:16Bom, existe uma proposta que vem sendo trabalhada no âmbito da National Coffee Association,
05:23que é a Associação de Café Americana,
05:25que se propõe uma lista de isenção de produtos naturais não existentes nos Estados Unidos,
05:31que é o caso do café brasileiro.
05:33É uma proposta interessante, certamente é um caminho que viabilizaria a manutenção desse mercado,
05:39mas o que nós temos ressaltado é a importância do governo brasileiro
05:44sentar com as autoridades americanas para que realmente busque formas no âmbito do diálogo
05:49de encontrar, reduzir esses impactos que nós temos aí para os Estados Unidos e para o Brasil.
05:55Então, é um caminho.
05:56A National Coffee Association, junto com o setor torrefador americano,
06:00vem trabalhando uma proposta com os parlamentares.
06:03Semana passada, nós tomamos ciência de que o CEO da National Coffee Association,
06:07Bill Murray, estava em Washington fazendo essas tratativas junto com parlamentares americanos.
06:12E agora, com a chegada da representação brasileira do parlamento,
06:17queremos acreditar que, dado a importância do café brasileiro para ambas as nações,
06:22consigamos aí, por meio desse caminho da lista de isenção de produtos naturais inexistentes,
06:28chegar a uma solução mais equilibrada para ambos os destinos, para ambos os países.
06:32Tá certo.
06:33É a nossa torcida também, Felipe.
06:34Com certeza.
06:36Eduardo, em relação ao prazo,
06:39a gente está vendo que esse prazo está muito curto
06:42e essas negociações podem levar um pouco mais de tempo.
06:45O que o setor está pensando para esse período, pelo menos intermediário,
06:48até que a gente consiga, eventualmente, uma isenção ou algum tipo de negociação melhor?
06:54O que está sendo pensado para esse curto prazo?
06:58Olha, o que nós temos hoje de informação, nesse momento,
07:02é que não tenha havido cancelamentos de contratos,
07:05suspensões de embarques ou mesmo prorrogações.
07:08Então, já é um fator positivo.
07:12Mas é claro que a preocupação que nós estamos aqui às vésperas da entrada em vigor
07:16de uma tarifação de 50% e, na verdade, essa aplicação já começa a valer
07:22para as cargas que saíram na primeira quinzena de julho.
07:25Porque, quando nós analisamos hoje,
07:28o porto de New Orleans é responsável por 30% do recebimento do café brasileiro,
07:33Nova York, 16%.
07:35Quando nós pegamos esses dois grandes portos,
07:37que correspondem a quase 45% do recebimento do café brasileiro,
07:41esses cafés já chegariam nos Estados Unidos com a aplicação da tarifa.
07:46Então, o que a gente está vendo nesse momento desafiador,
07:50principalmente esse impasse de se chegar a um acordo,
07:53é que realmente o industrial americano,
07:56que vai precisar desse café para manter abastecido esse consumo interno,
08:00não temos ainda a percepção do que vai acontecer a partir de 1º de agosto.
08:06O que a gente está vendo é que a safra de café do Brasil,
08:09a nova safra do ciclo 24-25, ainda não entrou no mercado.
08:14Podemos ver, dependendo do avançar dessa semana,
08:16algum tipo de sinalização.
08:18Então, torcemos para que seja o acordo proposto pela National Coffee Association,
08:24mas, infelizmente, o que a gente percebe é que ainda há uma certa dificuldade
08:29das autoridades americanas e brasileiras de sentarem à mesa realmente
08:33para discutir os impactos econômicos e sociais
08:36que ambas as nações terão a partir de 1º de agosto.
08:40Estão falando aqui de um café que vai ter uma tarifação de 50%,
08:43que certamente vai refletir no aspecto inflacionário na economia americana.
08:47Eduardo, você falou dos impactos sociais nas pessoas por trás
08:52e isso, claro, a gente está falando dos dois países.
08:55E tem um dado aqui que eu vi que cada dólar em importação de café brasileiro
08:58lá nos Estados Unidos gera 43 dólares para a economia americana
09:03e movimenta, gera milhões de empregos, movimenta o PIB dos Estados Unidos.
09:08Eu queria te ouvir um pouco mais sobre isso.
09:10E, de fato, esses argumentos têm sido utilizados nessa negociação
09:14para tentar sensibilizar as autoridades americanas?
09:18Exato. O setor café nos Estados Unidos gera em torno de 343 bilhões de dólares
09:24na economia americana.
09:25Então, esse dado de que para cada um dólar importado você gera 43 dólares
09:30demonstra realmente a importância do café para a economia americana.
09:34Porque nós falamos aqui em torno de 2,2 milhões de empregos
09:37que são gerados nos Estados Unidos só no segmento café
09:41e uma cifra que se injeta na economia americana de 343 bilhões de dólares.
09:47Então, sem dúvida, dado toda essa importância desse mercado,
09:50o grande mercado consumidor, tem se buscado se amparar
09:54em cima desses argumentos econômicos e também sociais.
09:58Porque nós também falamos aqui de empregos que estão gerados em ambos os países
10:02e que certamente ficarão comprometidos com uma tarifação de 50%.
10:07Então, a nossa expectativa é que ao longo dessa semana tenhamos algum avanço.
10:12Hoje nós vimos o chanceler do Brasil em Estados Unidos
10:16e queremos acreditar que teremos até o final dessa semana
10:21uma solução equilibrada, porque não há dúvida que hoje
10:25a dependência do café brasileiro na economia americana vai gerar impactos lá
10:30e queremos que essas narrativas se constituam de bons argumentos
10:35para que o café seja isento ou que tenha uma tarifa reduzida
10:38para garantir o Brasil competitivo nesse destino.
10:41Felipe, mais uma sua.
10:42Vamos lá. Eduardo, a gente sabe como nos Estados Unidos
10:45funciona muito a questão do lobby.
10:47É até uma coisa legal lá e eles são muito poderosos, têm muita influência.
10:52E tem muitas empresas americanas gigantescas, como o Starbucks, por exemplo,
10:56que usa muito café brasileiro, que compra muito café brasileiro.
10:59Qual é a importância do lobby dessas empresas
11:00ou pelo menos da pressão que essas empresas podem fazer sobre o governo americano?
11:04Olha, na nossa avaliação, essas empresas, nós temos a Starbucks,
11:10mas nós temos hoje grandes torrefadores americanos
11:13que também se utilizam no café brasileiro.
11:16O café brasileiro hoje é parte preponderante no blend do café americano
11:19por conta da sua doçura, do seu corpo,
11:22que vem realmente, traz um paladar agradável ao consumidor americano.
11:27E dado aí os números econômicos que foram aqui citados,
11:30sobre o número de empregos, as divisas que são geradas,
11:33certamente a gente vem acompanhando uma certa preocupação,
11:37porque se não houver a mobilização também do industrial, do segmento café,
11:44é o que eu mencionei há pouco,
11:46de onde virá esse café para manter abastecido.
11:49Quando a gente analisa, só para compor uma análise,
11:52o ano passado o Brasil remeteu para os Estados Unidos
11:5418,100 milhões de sacas de café, de 80% da variedade.
11:59Quando a gente analisa o segundo maior fornecedor de café dos Estados Unidos,
12:02que é a Colômbia, que tem 20% do café,
12:05a Colômbia, para todos os destinos, em 2024, exportou 12 milhões de sacas.
12:10Então, mostra que a própria Colômbia teria uma dificuldade
12:15de suprir o Brasil no momento em que a indústria americana
12:18vive aí essa aflição de tentar buscar um fornecedor de curto prazo,
12:23que para nós seria muito difícil para o torrefador americano,
12:28e por essa razão acreditamos que a pressão do setor privado,
12:32junto com a National Coffin Association,
12:34possa mobilizar o parlamento americano,
12:36e com isso temos aí avanços na negociação.
12:40E paralelamente a isso, a gente tem olhado para outros possíveis compradores,
12:43tem a possibilidade de outros países acabarem absorvendo uma parte desse excedente.
12:50O que acontece se, de fato, 50% estiverem valendo a partir de sexta-feira?
12:56Olha, mercado é uma coisa que se constrói, demanda tempo,
13:00demanda investimento, demanda promoção e marketing.
13:03O Brasil conquistou novos mercados nos últimos anos,
13:07mas isso é um trabalho que é feito de longa data.
13:10Então, a transferência hoje, por exemplo,
13:12de 8 milhões de sacas para outros destinos,
13:14seria também um desafio para o Brasil.
13:16O ano passado, por exemplo, quando nós analisamos
13:19os nossos parceiros compradores de café,
13:21nós vimos no ano de exportação de café do Brasil,
13:24exportação recorde do Brasil de 50,5 milhões de sacas,
13:28os Estados Unidos aumentaram a compra do café brasileiro em 35%.
13:31Quando a gente faz o paralelo de outro destino,
13:35que hoje vem se desenvolvendo e tem um grande potencial de expansão,
13:38mas ainda no médio e longo prazo, é a China.
13:41A China encolheu, ano passado, 34%.
13:44Então, nós temos potenciais mercados de expandir, sem dúvida,
13:49mas no curto prazo seria uma missão quase que impossível para o Brasil,
13:53porque essa questão de vender o café para esse volume,
13:56para outros destinos, também está associado ao perfil
13:59e o nível de consumo dessas nações.
14:02Então, não é uma tarefa fácil para o Brasil fazer essa transferência
14:05desse volume de 8 milhões de sacas no curto prazo para outros destinos,
14:09como forma de tentar reduzir o impacto dessa tarifação de 50% nos Estados Unidos.
14:16Certo.
14:17Eu, Eduardo, eu quero te agradecer pela entrevista.
14:19Uma última pergunta, vou te pedir para responder bem rapidinho.
14:21Tem café que já embarcou, que está no caminho e que pode ficar parado lá,
14:25se decidirem suspender a compra?
14:28Como é que está isso?
14:28Nós temos acompanhado de forma regular os embarques,
14:32e nós, dado aí esses portos, tanto de New Orleans como Nova York,
14:36os cafés que foram embarcados já no finalzinho da primeira quinzena de julho,
14:41teoricamente, já chegariam em Nova Orleans com a nova aplicação.
14:45O que não está claro muito na regra americana,
14:48é qual será o critério adotado para a aplicação da tarifa.
14:51Ou seja, se será o café quando chegar no destino,
14:55ou se será considerado quando ele for embarcado na origem.
14:59Isso não tem um regramento ainda tão claro,
15:01e nós acreditamos que, uma vez que o café brasileiro saiu do Brasil
15:05e passa a pertencer ao importador,
15:09por conta do incotermos utilizado na comércio de café,
15:12queremos crer que esses cafés ainda passariam com a exceção da tarifa.
15:16Mas, como eu disse, não está definido o regramento americano,
15:19e vamos ver o que vai acontecer a partir de 1º de agosto.
15:22Não tem precedentes, então é a prática mesmo que vai dizer.
15:25Eduardo Heron, diretor técnico do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil,
15:29Ccafé, muito obrigada pela participação ao vivo no Money Times.
15:33Tendo novidades, por favor, compartilha com a gente, volta aqui, tá bom?
15:37Muito obrigado, uma boa tarde a todos.
15:38Obrigado.
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