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  • 20/06/2025
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Felipe Moura Brasil entrevista o economista Aod Cunha para discutir como o governo vai financiar o programa Renda Brasil.
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Transcrição
00:00O vice-presidente Hamilton Mourão cogitou uma manobra no teto de gastos e a criação de um imposto
00:05para bancar o novo programa assistencial do governo Renda Cidadã, que deve voltar a se chamar Renda Brasil.
00:11Mourão afirmou exatamente o seguinte, abro aspas,
00:13se você quer colocar em um programa social mais recursos do que o existente, você só tem duas direções.
00:20Ou você vai cortar gastos de outras áreas e transferir esses recursos para esse programa,
00:25ou então você vai sentar com o Congresso e propor algo diferente, uma outra manobra que seja, por exemplo,
00:32fora do teto de gastos, um imposto específico para isso e que seja aceito pela sociedade como um todo, fecho aspas.
00:39Na segunda-feira, o Planalto anunciou que o programa seria financiado com recursos destinados ao pagamento de precatórios e ao Fundeb.
00:47Diante do impasse gerado sobre essa forma de custeio do programa, a discussão vai acabar ficando para a semana que vem.
00:55Mais cedo, Mourão havia afirmado que o governo voltou atrás e provavelmente não vai usar esses recursos como forma de financiamento.
01:03Mourão disse que esse assunto já virou a página, já acabou, e o vice-presidente foi então questionado sobre de onde viria o dinheiro para custear o programa.
01:11E ele respondeu, aspas, não tem de onde tirar, essa é a realidade, fecho aspas.
01:17Em uma coletiva de imprensa realizada ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, como a gente informou aqui no Papo Antagonista,
01:23já havia recuado sobre o uso dos recursos destinados aos precatórios, um recuo parcial, portanto, não falou da parte do Fundeb.
01:32Ele afirmou que essa fonte de recursos é um puxadinho e que, como o programa é uma despesa permanente,
01:38precisa ser financiado por uma renda permanente.
01:41Apesar disso, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, aquele do Centrão, continua insistindo na ideia.
01:47Ele se reuniu com o representante do mercado financeiro para esclarecer dúvidas sobre o andamento das reformas
01:52e o impasse sobre o financiamento do Renda Cidadã, que voltou a ser o Renda Brasil.
01:58O deputado afirmou o seguinte, o uso de recursos destinados a precatórios não é desejável,
02:04mas temos de definir entre isso ou furar o teto, que para mim não é a melhor solução.
02:09À noite, o presidente Jair Bolsonaro convocou uma reunião de última hora no Palácio do Planalto
02:14e esse encontro contou com a participação do Paulo Guedes, membros da equipe econômica,
02:19Ricardo Barros e o relator do novo programa, Márcio Bittar.
02:23A reunião durou cerca de duas horas e os participantes saíram sem falar com a imprensa.
02:28Bittar afirmou que estava concluindo o seu parecer, mas disse que não poderia dar declarações sobre o resultado da conversa.
02:34Numa entrevista à Folha, o Bittar alegou que não é o único responsável pela proposta.
02:39Ele garantiu que foi autorizado pelo presidente a criar o programa social.
02:44Bittar afirmou, aspas, nada é feito sem que o presidente queira e aceite e a economia carimbe.
02:51Fecho aspas.
02:52Então esse é o contexto da nossa conversa aqui com o doutor em economia, Aode Cunha,
02:58ex-secretário da Fazenda no Rio Grande do Sul.
03:00Muitíssimo obrigado pela participação no Papo Antagonista.
03:03Boa noite, seja bem-vindo.
03:05Boa noite, Felipe. É um prazer estar aqui com vocês no Papo Antagonista.
03:10Muito bem. Doutor, vou chamar assim, que o senhor merece.
03:14Eu queria saber primeiro a sua primeira impressão antes desses recuos parciais e dessas alegações
03:20e desse bate-cabeça entre membros do mesmo governo.
03:24Eu até li outro dia aqui um tweet seu a respeito desse caso.
03:28Então como é que o senhor recebeu aquele anúncio que gerou tanta polêmica por parte do governo?
03:33Esse que se referia à forma de financiamento por meio ali do dinheiro desviado do Fundeb
03:37e também dessa que foi considerada por muita gente uma tentativa de empurrar com a barriga os precatórios.
03:44Eu recebi, Felipe, com muita preocupação e estranheza e acho que não só eu.
03:52Se você conversar com uma grande maioria dos economistas que tem um pensamento associado a um pensamento de mercado,
04:01que vem defendendo as reformas e vem defendendo, inclusive, como eu, várias das iniciativas e das ideias propostas
04:10pelo ministro Paulo Guedes e pela sua equipe econômica, que é muito boa,
04:13sem dúvida foi um anúncio de bastante estranheza, para não dizer outra coisa,
04:21porque ele viola os princípios do teto de gastos, de responsabilidade fiscal,
04:30porque cria uma despesa permanente, como você já comentou anteriormente,
04:35sem mexer em outra despesa, sem diminuir outro recurso.
04:39Essa é uma das premissas importantes do teto de gastos, da lei de teto de gastos,
04:43a emenda constitucional 95, não adianta você criar uma nova receita para financiar uma nova despesa
04:50em relação à lei de teto de gastos, então ela fere, a lei de teto de gastos fere o princípio de responsabilidade fiscal,
04:56num momento onde nós estamos assistindo todos os dias no mercado,
05:01uma desconfiança em relação à sustentabilidade fiscal, do déficit fiscal, da trajetória da dívida pública,
05:08e isso está se refletindo tanto em aumento da taxa de câmbio, em desvalorização do real,
05:13o real é a moeda que mais se desvalorizou no ano de 2020, aumento das taxas de juros futuras,
05:20e sem dúvida o anúncio da forma como foi feito agravou essa situação,
05:24então foi ruim e acho que precisa ser consertado,
05:28e o próprio ministro Paulo Guedes recentemente acho que está tentando fazer isso.
05:32Agora o senhor, naquele tweet ao qual eu me referi, o senhor acrescentava o seguinte,
05:36só há um tipo saudável de financiamento da despesa corrente, despesas correntes abaixo de receitas correntes,
05:43o que isso quer dizer exatamente?
05:46Isso quer dizer o seguinte, nós precisamos, no Brasil como um todo, isso vale para o governo federal,
05:51vale para estados e municípios, nós precisamos ter um equilíbrio das contas públicas,
05:58onde aquelas despesas correntes, quais são?
06:01As despesas com salários, com os programas que se repetem todos os anos na área social,
06:06as despesas contínuas, elas sejam financiadas por receitas contínuas,
06:11as receitas de impostos, o imposto de renda, o IPI, o ICMS nos estados,
06:16o IPTU nos municípios,
06:19então o que isso significa?
06:21Significa que não adianta você continuar, primeiro, a aumentar despesas,
06:27criando receitas extraordinárias,
06:29os próprios recursos de privatização, por exemplo,
06:32eles, de uma maneira saudável,
06:34a discussão de privatização, ela deve ser feita do ponto de vista da eficiência do Estado,
06:37eu sou favorável para um programa amplo de privatizações,
06:40porque o Estado brasileiro está em funções que ele não deveria estar,
06:43deveria estar cuidando mais e melhor de educação, saúde e segurança.
06:46Agora, quando você olha para receitas desse tipo,
06:49elas também não devem estar financiando, não deveriam esse tipo de despesa.
06:53A sociedade brasileira e o governo, Congresso, precisam fazer uma escolha,
06:58eles podem, e é legítimo, através de eleições se fazem isso,
07:02se nós queremos um Estado maior, um Estado menor,
07:04eu acho que o Estado brasileiro precisa ser menor e mais eficiente,
07:07mas isso é uma escolha democrática,
07:09o que não dá é para o Estado não caber nele mesmo,
07:12e o que está acontecendo nos últimos anos é que a despesa pública não para de crescer,
07:16o Estado brasileiro não teve um problema de falta de receitas,
07:19se nós pegamos, não o governo federal, pegamos os Estados, por exemplo,
07:23os Estados, eles tiveram um aumento de receita do seu ICMS
07:27acima do crescimento econômico nas últimas décadas,
07:29e isso não foi suficiente.
07:31Por que não foi suficiente?
07:32Porque a despesa, com o crescimento do gasto de pessoal e outros programas,
07:36não para de crescer, ela cresce mais que o PIB,
07:39ela cresce mais do que o desempenho da economia.
07:41Então, o que eu quis passar nessa mensagem é que nós precisamos aceitar esse fato da vida,
07:46em algum momento a despesa pública no Brasil, a despesa corrente cotidiana,
07:50ela precisa caber na receita corrente.
07:53Como ela não vem cabendo nas últimas décadas, nos últimos anos,
07:56o que está acontecendo?
07:58O déficit público aumentou, nós temos déficit primário,
08:01essa diferença entre gastos primários e receitas primárias já desde 2012,
08:06e a dívida pública está saindo de controle.
08:09Quem acha que porque a taxa de juros hoje está baixa que isso é possível,
08:13e que o governo pode sair gastando mais porque a taxa de juros é baixa,
08:17está cometendo um grande erro.
08:18O que já está acontecendo é que o real vem se desvalorizando,
08:21isso afeta a todos, principalmente as classes de renda mais pobres,
08:25a taxa de juros futura, não aquela da Selic,
08:28mas aquela que o governo pede emprestado em 5, 10 anos,
08:30já está subindo e continua subindo,
08:32e o custo de nós não termos despesas correntes cabendo em receitas correntes
08:38é que nós vamos continuar nessa trajetória se nada for feito.
08:41Desvalorização da nossa moeda e aumento de taxas de juros lá na frente.
08:45Nós não vamos conseguir segurar taxas de juros baixos por muito tempo.
08:49Agora, quando o senhor se refere a crescimento de gastos com o pessoal,
08:52de despesas com o pessoal,
08:54o senhor também se refere àquele conteúdo, por exemplo,
08:57da reforma administrativa que está sendo muito criticada
09:00por manter privilégios, como as pessoas costumam dizer,
09:04da elite do funcionalismo público, de militares, dos próprios políticos.
09:09A gente viu também em outras votações ter ali um aumento de privilégios
09:14para os policiais que são parte ali do reduto eleitoral
09:17do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro.
09:20E eu percebo, e gostaria até que o senhor esclarecesse,
09:23uma certa dúvida entre as pessoas mais leigas em economia
09:26sobre a dimensão dessas despesas.
09:29Quer dizer, a despesa com o Renda Brasil,
09:33o fato de não se cortar essas altas remunerações
09:39do autofuncionalismo público,
09:41atrapalha realmente esse financiamento do Renda Brasil?
09:44Quer dizer, se houvesse mais cortes nessa folha de pagamento de pessoal,
09:48sobraria mais dinheiro?
09:50Ou são quantias muito diferentes, muito discrepantes?
09:54Não, sem sombra de dúvida, a reforma administrativa,
09:59o melhor controle de gasto de pessoal,
10:01abriria muito espaço para que, não só de imediato,
10:05mas de ao longo de tempo, você pudesse destinar mais recursos
10:07para programas sociais.
10:09O que você não consegue fazer é tudo ao mesmo tempo.
10:11Você não vai conseguir continuar, ter um crescimento do gasto de pessoal,
10:14do aumento de salários para o funcionalismo público
10:16e gerar mais programas sociais com mais recursos para os mais pobres.
10:20O Brasil precisa fazer escolhas.
10:21Quando nós olhamos, nós estamos falando de uma massa,
10:24se nós formos pegar governo federal, estados e municípios,
10:27de quase um trilhão de reais de gastos com pessoal.
10:30É claro que pela Constituição nós temos uma limitação,
10:32nós não podemos reduzir o salário do funcionalismo público.
10:36Agora, nós podemos sim parar de dar ao menos
10:39para uma categoria que, principalmente no momento agora,
10:42como os trabalhadores do setor privado,
10:45ou foram uma boa parte demitidos,
10:48milhões de novos desempregados,
10:50ou aqueles que estão empregados,
10:51não sequer pensam em aumento salarial,
10:54eu acho que é razoável e justo nós pensarmos que nos próximos anos,
10:57se tem esse sacrifício daquela parte de trabalhadores que já ganham mais.
11:01Há estudos recentes do Banco Mundial,
11:03do próprio Ministério da Fazenda,
11:05que mostram, por exemplo, no Executivo Federal,
11:07no governo, no setor público federal,
11:09você tem o chamado prêmio salarial,
11:11ou seja, a diferença entre o salário que é pago
11:14para as pessoas com o mesmo nível de escolaridade,
11:17o mesmo nível de aptidão profissional,
11:19no setor público, quase 100%,
11:2296% acima do setor privado.
11:24É o maior prêmio salarial de todo o estudo que foi feito
11:27entre o OCDE e países emergentes.
11:30Nós temos um outro exemplo, por exemplo,
11:32um outro exemplo que é o não cumprimento da lei do teto salarial.
11:36No Brasil, desde 2003, tem uma lei do teto salarial,
11:40hoje esse teto salarial é de R$ 39.300,00,
11:43e não vem sendo cumprido pela criação de uma série de auxílios,
11:47auxílio-moradia, auxílio-substituição de determinadas funções,
11:51e isso se espalhou de uma maneira geral no Judiciário,
11:55no Legislativo, no Executivo.
11:57Isso, se a lei fosse aplicada corretamente,
11:59nós já teríamos esses recursos disponíveis hoje.
12:02São todas ações difíceis,
12:03como é a reforma administrativa, a aplicação do teto salarial,
12:07a observância da lei de teto de gastos.
12:10O governo também tem uma série de subsídios e incentivos fiscais,
12:13o governo gasta mais de R$ 300 bilhões todos os anos
12:17com esses incentivos.
12:19São escolhas, né?
12:21Se nós queremos, e acho que é legítimo,
12:23que o governo, que a sociedade se preocupe com os mais pobres,
12:28os mais desfavorecidos,
12:29e se nós queremos gerar mais recursos,
12:31nós vamos precisar fazer escolhas.
12:33O que nós não podemos fazer
12:34é simplesmente continuar a aumentar nos despesas públicas,
12:39sem cortar outras despesas,
12:41achando que ou o aumento de carga tributária,
12:44ou o aumento do déficit,
12:46não trará consequências muito ruins,
12:48como o aumento de taxa de juros
12:49e um crescimento econômico mais baixo.
12:52O Brasil não cresce, não cresce por causa da pandemia.
12:54O Brasil teve uma queda de atividade econômica do PIB
12:57em 2015, 2016, de menos 3,5%,
13:01depois de novo menos 3,3%,
13:02e depois de uma severa recessão,
13:04em 2007 nós crescemos 1%,
13:062018 1%, 2019 1%,
13:08o Brasil não consegue mais crescer.
13:11Então o Brasil precisa fazer essas reformas,
13:13precisa controlar o gasto público,
13:15e é possível sim, ao mesmo tempo,
13:17gerar mais recursos para os mais pobres,
13:19para os mais desfavorecidos,
13:21desde que nós tenhamos coragem de mexer em outras despesas
13:24que nós não estamos mexendo.
13:27Então assim, se o senhor tivesse de responder objetivamente
13:30em um tweet, de onde sairia,
13:32de onde é para sair o dinheiro para um programa
13:35como esse, Renda Brasil,
13:37nesse período de pandemia em que há pessoas necessitadas,
13:40qual seria assim a sua resposta?
13:43Eu acho que há mais de uma saída.
13:46A minha primeira saída,
13:51de uma maneira geral,
13:52é que nós não podemos criar uma despesa
13:55sem cortar outras despesas.
13:58O próprio governo, no primeiro movimento
14:00do Renda Brasil,
14:03ele sinalizou na direção correta.
14:05Ele propôs a junção
14:08de outros programas já existentes
14:10e a redução de alguns
14:12com baixa eficiência,
14:13que têm recursos,
14:14que estão sendo gastos,
14:15para serem utilizados
14:17no reforço do Bolsa Família
14:20ou na Constituição, então,
14:21do Renda Cidadã.
14:22E acabou sendo vetado pelo presidente.
14:27Depois, vamos supor que não seja isso.
14:28Por uma questão,
14:29só um parêntese, doutor,
14:30por uma questão de preocupação também
14:33com popularidade,
14:34porque aí se corta certos financiamentos,
14:37certos amparos ali
14:38que as pessoas têm
14:39e isso envolve também questões políticas.
14:43No fundo, essa eu acho que é a grande discussão.
14:45Nós estamos falando sobre soluções técnicas,
14:48há mais de uma solução técnica,
14:50mas há uma discussão política também, evidentemente.
14:55E a economia, soluções técnicas,
14:57elas passam pelas mediações políticas,
14:59entre o governo, entre o Congresso.
15:01O Brasil vai chegar ao final do ano
15:04com o fim do auxílio emergencial,
15:06que já foi reduzido de R$ 600 para R$ 300.
15:08Se nós fizermos uma comparação, por exemplo,
15:11entre o que foi o Bolsa Família,
15:13o que é o auxílio emergencial,
15:15na execução orçamentária de 2019,
15:17o Bolsa Família representou
15:18R$ 30 bilhões de reais, aproximadamente.
15:22O auxílio emergencial, por mês,
15:25ele significa um valor próximo
15:27de R$ 50 bilhões.
15:29Ou seja, se ele fosse anualizado,
15:31nós estaríamos falando de R$ 600 bilhões.
15:33Ele é 20 vezes maior do que o Bolsa Família.
15:37Evidentemente, é impossível se manter
15:39esse programa nessa dimensão
15:41com a situação fiscal que o país tem hoje.
15:45Agora, é possível reforçar um pouco o Bolsa Família,
15:48aumentar o Bolsa Família,
15:50transformá-lo, seja no Renda Brasil,
15:52no Renda Cidadã, para alguma coisa aí,
15:54como se fala, em vez de R$ 30 bilhões,
15:57R$ 55, R$ 60 bilhões de reais,
15:59R$ 30, R$ 34 bilhões de reais já existem,
16:01já estão projetados no orçamento do ano que vem,
16:03no Bolsa Família.
16:04Então, precisa-se arrumar alguma coisa
16:05como mais R$ 25, R$ 30 bilhões de reais.
16:07E há outros programas, programas ineficientes.
16:10O próprio governo, o Ministério da Economia,
16:11já fez uma proposição inicial.
16:15Nessa semana, o Centro de Debates de Políticas Públicas
16:18ofereceu, através de alguns economistas,
16:21o Marcos Mendes, o Fernando Veloso e outros,
16:23também soluções interessantes,
16:25usando outros programas,
16:26usando um pouco da redução
16:29de outros programas que são mais ineficientes.
16:32Então, há possibilidade.
16:34Agora, há custos nessas escolhas.
16:36O que nós não podemos imaginar
16:38é que é possível,
16:39na situação fiscal que o Brasil se encontra hoje,
16:42fazer um gasto adicional muito relevante
16:45e permanente,
16:46sem que isso tenha sustentabilidade fiscal.
16:49Ou no corte de despesas,
16:51ou no aumento de receitas, de tributos.
16:54Só que nesta opção,
16:55num eventual aumento de tributos,
16:57nós vamos ter um problema
16:58com a regra do teto,
17:00com a lei do teto.
17:01Porque, para manter a regra do teto de gastos,
17:04não é possível financiar novas despesas
17:06com o aumento de receitas.
17:08Isso geraria melhor equilíbrio fiscal,
17:11mas não é possível.
17:12Colocaria abaixo a regra do teto.
17:15Com a regra do teto de gastos,
17:17nós só podemos criar uma nova despesa permanente
17:19se nós reduzirmos outras despesas.
17:22Certo.
17:23Queria aproveitar,
17:24até porque nós temos um público jovem
17:26que não é tão ligado também em economia,
17:29para perguntar para o senhor uma coisa.
17:31E aí eu vi que o senhor tweetou outra
17:32que pode estar interligada na sua resposta.
17:35O senhor publicou a notícia
17:36de que o real é a pior moeda global em 2020.
17:39E o senhor disse que não é a crise global,
17:41não é a pandemia.
17:42O que está fazendo o real perder tanto valor
17:44é o descontrole fiscal.
17:46Eu ia perguntar para o senhor, de um lado,
17:48por que o mercado é tão sensível
17:51à possibilidade de rompimento,
17:53de furo do teto de gastos
17:55e até da sua flexibilização?
17:57E, ao mesmo tempo,
17:58por que o real é sensível a esse descontrole fiscal,
18:02que é o fator que o senhor está atribuindo
18:05a essa desvalorização?
18:08Felipe, o Brasil tem uma longa história,
18:12como eu já comentei,
18:14de crescimento dos gastos públicos.
18:15Acima do crescimento econômico.
18:18Como é que nós fomos resolvendo isso
18:20ao longo das últimas duas, três décadas?
18:24Ou desde o plano de estabilização,
18:26desde o plano real,
18:27que precisou enfrentar este tema
18:29do descontrole fiscal.
18:31Nós fomos controlando temporariamente
18:33como podíamos a despesa pública,
18:35mas às vezes ela fugia de controle,
18:37e o ajuste final acabava sendo sempre
18:40aumento de impostos,
18:42aumento de carga tributária.
18:44O Brasil hoje tem uma carga tributária,
18:45aí próximo de 34% do PIB,
18:47que é muito alta já,
18:49é para o nível de renda per capita
18:50que ele tem.
18:53O Brasil é um país de renda per capita
18:55média, média baixa.
18:57E ele tem uma carga tributária muito alta.
19:00O que aconteceu recentemente,
19:03quando nós tivemos mais um descontrole fiscal,
19:06no período de 2014, 2015,
19:07o déficit primário subiu muito,
19:10as taxas de juros estavam muito elevadas,
19:12a dívida pública começou a subir.
19:14E aí, em 2016, teve uma ideia engenhosa
19:17de alguns economistas que trabalhavam
19:19no governo Temer,
19:20de criar a regra, a lei do teto de gastos,
19:23foi aprovada no Congresso,
19:26e essa lei estabeleceu uma disciplina anual
19:29para o crescimento do gasto público,
19:32limitada a inflação,
19:34limitada a inflação.
19:36Então, isso significou que o Brasil,
19:38que já tinha um déficit muito alto
19:39naquele período,
19:40já tinha uma dívida elevada
19:41para o seu nível de renda,
19:43ele não precisasse fazer um ajuste
19:46muito severo no curto prazo,
19:49em um ou dois anos,
19:50que não precisasse aumentar
19:51a carga tributária,
19:53porque ele estava dizendo
19:53que nos próximos 20 anos,
19:56isso é o que diz a regra do teto de gastos,
19:58a despesa pública ia crescer
20:00a uma taxa mais suave,
20:02no máximo a inflação.
20:03Isso acalmou os mercados,
20:05e mesmo com o nível de dívida alta,
20:07de déficit alto,
20:08os mercados leram o seguinte,
20:09um dia o Brasil vai estabilizar,
20:11um dia a dívida pública
20:12vai parar de crescer.
20:14Só que aí,
20:15veio agora a pandemia,
20:16e com a pandemia,
20:17o déficit subiu muito.
20:19O Tesouro Nacional
20:20tinha uma projeção
20:21no início do ano
20:22de um déficit
20:22de 115 bilhões de reais
20:24de déficit primário,
20:25e na última exposição,
20:27na última apresentação
20:28do Tesouro Nacional
20:29já está projetando
20:29acima de 800 bilhões de reais,
20:31mais de sete vezes
20:33esse déficit inicialmente projetado.
20:35Então, evidentemente,
20:36todo o mercado fica nervoso,
20:38você começa,
20:39os analistas econômicos,
20:40os bancos começam
20:42a fazer projeções
20:42de onde é que vai parar
20:43a dívida pública.
20:44E já se sinaliza
20:45que essa dívida,
20:47a dívida PIB,
20:48o quanto que o Brasil deve
20:49em relação ao que ele gera
20:50de riqueza no ano,
20:51já pode chegar a 100%
20:53no próximo ano.
20:54E aí as pessoas
20:55começam a fazer cálculo,
20:56botam a taxa de juros
20:57e veem que o governo
20:58pode não ter recursos suficientes
21:00para pagar essa dívida
21:01em algum momento do tempo.
21:03O que acontece?
21:04Mesmo com uma taxa
21:05de juros baixa
21:05no curto prazo,
21:07as taxas de juros
21:08mais longas,
21:09aquelas que quando o Tesouro
21:10vai colocar um papel
21:11e pede emprestado
21:12para 5, 10 anos,
21:13começaram a subir.
21:15Ao mesmo tempo,
21:16os investidores internacionais
21:17que olham para a taxa
21:18de juros no Brasil,
21:19que está baixa,
21:20e esse tem um lado bom,
21:21mas ela está baixa
21:22e todo mundo se questiona
21:23se ela continuará baixa,
21:24eles começam a tirar
21:26esses recursos.
21:27Então todo esse cenário
21:28de dúvida fiscal,
21:29ele acaba gerando
21:30uma desconfiança
21:31que o Brasil
21:32vai gerar uma dívida
21:33sustentável lá na frente,
21:35porque começa a se falar
21:36que o teto de gastos
21:37vai ser derrubado,
21:38e você começa a ter
21:39uma pressão
21:40de desvalorização do real,
21:42de elevação da taxa
21:42de câmbio,
21:43do dólar,
21:44começa a se ter um pouco
21:45de preocupação
21:46se isso não vai afetar
21:47a inflação lá na frente,
21:48e tudo isso
21:49está relacionado
21:50a esse tema
21:51de discussão
21:52da situação fiscal do Brasil.
21:53O Brasil tem outros desafios,
21:55tem um enorme desafio
21:56de como crescer mais,
21:57e acho que isso passa também
21:58por mais reformas,
22:00mas o desafio emergencial
22:01hoje é você retomar
22:03um cenário
22:04de normalidade,
22:06de confiança,
22:07de que a boa política fiscal,
22:08que a sustentabilidade fiscal
22:10vai continuar no Brasil
22:11nos próximos anos.
22:12Então, voltando
22:13ao nosso ponto original,
22:14toda vez que você cria
22:15a ideia de que você vai
22:16fazer um gasto adicional,
22:18sem dizer
22:19de onde você vai tirar,
22:20sem cortar uma outra despesa,
22:22gera uma desconfiança
22:24muito grande no mercado.
22:25Certo, maravilha.
22:27Doutor, e só para concluir
22:28aqui a nossa conversa,
22:29o senhor já apontou
22:30aí um aspecto,
22:31mas queria saber
22:32qual é a opinião do senhor
22:33sobre os fatores
22:34preponderantes
22:35para essa fuga
22:36de capitais,
22:37para essa debandada
22:38de investidores
22:38que foi noticiada
22:40largamente
22:40na última semana.
22:42Minha opinião,
22:44as respostas
22:46são mais de uma.
22:48Primeiro,
22:51o Brasil tem,
22:52o principal tema
22:53hoje é esse tema
22:54de responsabilidade fiscal
22:56barra reformas.
22:58O Brasil,
22:59como eu já repeti,
23:00ele crescia pouco
23:01antes da pandemia.
23:03A economia brasileira
23:05vem com um problema crônico
23:06de baixa capacidade
23:07de crescimento econômico.
23:09Por quê?
23:10Porque o que nós crescemos
23:12no passado,
23:14ou pelo menos
23:15até o início
23:16da década passada,
23:17foi muito por conta
23:19de um momento favorável
23:20da demografia no Brasil.
23:22O Brasil era um país
23:22muito jovem
23:23e o mercado de trabalho
23:26começou a ser ampliado,
23:28o aumento da oferta
23:29de trabalho,
23:30mais pessoas trabalhando,
23:31isso ajudou
23:31em grande parte
23:32o crescimento econômico,
23:34se teve um boom
23:34de commodities
23:35muito ajudado
23:35pelo alto crescimento
23:36da China.
23:37Esse cenário acabou
23:38e a economia brasileira
23:40para crescer,
23:41ela depende
23:41de aumentar
23:42a sua produtividade,
23:43a sua eficiência econômica,
23:44a eficiência do setor público,
23:45a eficiência do setor privado,
23:47melhor qualidade
23:48da educação,
23:48sistema tributário
23:49mais eficiente,
23:50infraestrutura
23:51mais eficiente.
23:52Como isso não vem acontecendo
23:54e nós precisamos
23:54de reforma
23:55para acontecer,
23:56o Brasil vem crescendo
23:57muito pouco
23:58mesmo antes da pandemia.
23:59Ele teve uma enorme
24:00recessão em 2015
24:01e 2016,
24:02em parte também
24:03por conta do desequilíbrio
24:04fiscal anterior,
24:06mas quando ele voltou,
24:07ele voltou com um
24:07crescimento muito baixo,
24:08o Brasil não está conseguindo
24:09crescer muito mais
24:10do que 1% ao ano,
24:11é pouco
24:11para os desafios
24:12de geração de renda
24:13e emprego
24:14que o Brasil precisa.
24:15Então,
24:16o mercado,
24:17todos os investidores,
24:18eles olham com a expectativa
24:19que o Brasil faça essas reformas,
24:21faça uma boa reforma tributária,
24:22uma boa reforma administrativa,
24:24avance nas privatizações,
24:26abra sua economia,
24:27é isso que vai trazer
24:28mais investimentos,
24:29não só estrangeiros,
24:30mas investimentos domésticos.
24:31Quando o Brasil começa
24:32a dar sinais
24:33que ele anda de uma forma
24:34mais lenta nessas reformas,
24:35os investidores se retraem
24:36e deixam de botar
24:38novos recursos
24:38e tiram os já existentes.
24:40Além disso,
24:41nós temos essa piora
24:43da situação fiscal
24:44hoje em dia,
24:46que gera essa desconfiança
24:48que o país possa ter
24:49um risco fiscal,
24:50um risco de solvença
24:51da dívida pública
24:52lá na frente,
24:53os investidores começam
24:54a pedir prêmios,
24:55remunerações mais altas
24:56para deixar o dinheiro,
24:57por exemplo,
24:57investido na dívida pública
24:59e como a taxa de juros
25:00no curto prazo
25:01está muito em baixa,
25:02isso passa a não ser atraente,
25:03mas o risco que existe,
25:05eles também tiram dinheiro
25:06do Brasil por conta disso.
25:08E por último,
25:09eu acho que também
25:09nós temos um tema
25:11geopolítico de geografia,
25:13como é que o Brasil
25:14está se posicionando
25:15em relação ao mundo,
25:16tem esse tema ambiental
25:17que a gente pode fazer
25:18uma discussão mais ampla
25:19sobre o que é percebido
25:21corretamente lá fora ou não,
25:22mas o fato é que o mundo
25:23como um todo
25:24não vê hoje o Brasil
25:26como um país
25:26que tem colocado
25:28o tema de sustentabilidade,
25:30de controle de políticas ambientais
25:32na sua prioridade,
25:33isso machuca também,
25:34porque há muitos fundos
25:35de investimentos importantes,
25:37grandes,
25:37nos Estados Unidos,
25:38na Europa e no Japão,
25:39que hoje já tem
25:40regras de aplicação
25:41que punem países e empresas
25:43que não estão comprometidos
25:44com cláusulas
25:45de sustentabilidade ambiental,
25:47então eu diria
25:47que há essa multiplicidade
25:49de fatores,
25:49mas basicamente três,
25:51baixa capacidade
25:52de crescimento,
25:53associado a uma dificuldade
25:54de fazer reformas,
25:56instabilidade fiscal,
25:58dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal,
26:01a permanência do teto de gastos,
26:03e também uma percepção
26:05ruim do país
26:07nesse momento
26:08em relação
26:08ao tema ambiental lá fora.
26:10E aí
26:13um
26:15dj
26:17o
26:18de
26:18E aí

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