- há 1 ano
O economista analisa a previsão de gastos do governo Lula para este ano.
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NotíciasTranscrição
00:00Rodrigo Oliveira, você, por favor, se manifeste,
00:03se não é que eu vou encaixando uma pergunta atrás da outra.
00:08Não, eu queria até pegar um pouco dessa pauta mais atual aqui agora,
00:13que o Marcos foi um crítico contundente aí,
00:17quando saiu a PEC da Gastança lá,
00:19um dos primeiros a apontar que, na verdade, não era aquele 170,
00:22e sim acima de 200 bi.
00:24E tinha uma profecia que ainda não se realizou,
00:30que era aquele negócio dos tributos.
00:32A gente ainda não mexeu neles, aparentemente.
00:35Já tem um pessoal aí inovando, com, vamos tributar o PIX.
00:41A gente tem essas inovações.
00:43É o museu das grandes novidades, como diria o Cazuza.
00:48Mas o que eu queria entender,
00:50a gente teve essa busca nesse plano que o Haddad apresentou,
00:54recentemente, e um dos seus artigos recentes,
01:00você fala justamente disso.
01:02Nem aquele déficit de...
01:04Porque o Haddad apresenta o plano dizendo,
01:06olha, a gente vai transformar o déficit em superávit,
01:10aí depois, lá para o finalzinho, ele fala,
01:12bom, não vai dar, a gente já sabe que não vai dar,
01:14então a gente está pensando num déficit aí de 1% do PIB.
01:17Mas no seu artigo você aponta que nem isso está muito fácil
01:23do jeito que está por enquanto.
01:25E eu queria que você destrinchasse um pouco disso.
01:28E como é que dá para equilibrar essa conta,
01:31se é que dá, nesse prazo de um ano, vai?
01:34Tá, vamos lá.
01:35Não vou falar os números especificamente
01:39para não criar muita confusão,
01:40mas de modo geral.
01:42O primeiro problema ali é que boa parte do ajuste
01:46é pelo lado da receita,
01:48não pelo lado da despesa.
01:50Você não consegue fazer um ajuste permanente
01:53do lado fiscal,
01:55olhando só para o lado da receita,
01:58que você aumenta a receita
02:00e deixa a despesa continuar crescendo.
02:02Daqui a pouco você vai ter que aumentar a receita de novo.
02:04Então, o ajuste fiscal permanente,
02:07duradouro no Brasil,
02:08é do lado da despesa.
02:09Mas tudo bem, o ministro está começando agora,
02:11primeiras medidas,
02:13não tinha muita margem,
02:15mas vamos olhar o que ele propôs,
02:17o que está lá no pacote dele,
02:19o que gera esse número
02:20em que ele zera o déficit primário de 2% do PIB.
02:25Primeiro, o fim da desoneração da gasolina,
02:29de piscofins.
02:30Está lá na conta,
02:31mas a medida não foi aprovada.
02:33Então, não deveria estar na conta.
02:34Algo como R$ 30 bilhões.
02:37Segundo, tem lá uma expectativa
02:42de recolher algo como R$ 50, R$ 70 bilhões,
02:46mudando a forma como o CARF,
02:49o Tribunal Administrativo de Contencioso Tributário,
02:53atua retornando para o governo
02:57o voto de Minerva nas decisões.
03:00Isso não necessariamente gera receita,
03:02porque se o contribuinte perder no CARF,
03:04ele pode recorrer ao judiciário.
03:06Então, você não vai gerar receita de imediato
03:11nisso aí também.
03:12Quando você olha para o lado da despesa,
03:14ele fala assim,
03:15olha, nós vamos executar a despesa do orçamento,
03:19está uma despesa muito grande,
03:20nós vamos executar R$ 25 bilhões abaixo.
03:23Ele não pode fazer isso,
03:25ele é proibido pela Constituição de fazer isso.
03:27Em 2019, foi aprovado uma emenda constitucional
03:30que diz que o orçamento é impositivo
03:32e que só pode contingenciar a despesa,
03:36só pode executar a despesa abaixo do que está no orçamento
03:39se as metas fiscais estiverem ameaçadas.
03:44Como ele está fazendo um ajuste fiscal,
03:47em que a meta fiscal não estará ameaçada,
03:50e como o teto de gasto foi super aumentado
03:52pela própria PEC da transição,
03:54não vai ocorrer isso.
03:56Então, ele vai ser obrigado a executar.
03:58Pode ser até que chegue no fim do ano,
04:01por uma questão administrativa,
04:02tem o chamado emforçamento de recursos.
04:04A questão administrativa não conseguiu gastar,
04:06mas ele não pode anunciar exante isso,
04:09que ele não vai gastar R$ 25 bilhões.
04:11Isso é proibido pela Constituição.
04:13Então, R$ 25 bilhões ali ele não vai conseguir fazer.
04:16Outros R$ 25 bilhões,
04:18ele está falando que ele vai rever contratos
04:20da administração toda
04:21para diminuir contratos superfaturados,
04:24acabar com contratos que não fazem mais sentido.
04:29Ora, esses contratos estão todos
04:30na chamada despesa discricionária,
04:32não obrigatória,
04:33porque a despesa obrigatória tem que pagar,
04:34não tem contrato nenhum.
04:36Quando você vai olhar a despesa discricionária,
04:38ela está aí R$ 160,
04:40entre R$ 160 e R$ 200 bilhões.
04:42Como é que você vai arrumar R$ 25 bilhões
04:44num universo de R$ 200 bilhões apenas?
04:48Mais de 10% de redução não consegue fazer.
04:51Então, os números me pareceram um pouco de espuma.
04:56E tem um outro problema.
04:57Com todo esforço que ele faça,
05:00se ele conseguir fazer tudo isso,
05:02está tudo concentrado em 2023.
05:05Não são medidas permanentes.
05:07Em 2024 o problema volta.
05:08Então, pela minha conta, em 2024 você tem de novo
05:10um déficit de 1,8% do PIB.
05:13O que é um déficit de 1,8% do PIB?
05:15É dinheiro para caramba.
05:16Porque para a dívida pública não crescer,
05:19você precisa de um superávit de 2% do PIB.
05:22Se eu estou com um déficit de 1,8%,
05:24eu tenho que andar a 3,8% do PIB.
05:27Sair de um déficit de 1,8% e para um superávit de 2%.
05:29Isso dá lá R$ 400 bilhões.
05:33Eu não vou achar R$ 400 bilhões,
05:35principalmente não cortando a despesa.
05:38Então, foi um exagero tremendo essa PEC da transição
05:42ter aumentado a despesa em R$ 200 bilhões.
05:46Foi uma medida muito cautelosa em termos fiscais.
05:52Pode fazer sentido em termos políticos,
05:54agregar apoios, etc.
05:55Mas, em termos fiscais, foi um veneno para a dívida pública
05:59e para a economia brasileira.
06:01Marcos, isso me...
06:03Desculpa, pode falar, Cláudio.
06:04Não, não.
06:05O Haddad criou um problema para ele mesmo,
06:11achando que estava buscando uma solução,
06:13como você está dizendo.
06:15Aliás, é muito curioso.
06:16Eles arrombam e depois vêm com uma promessa
06:19de cobrir o rombo que eles mesmo fizeram.
06:22Você escreveu um artigo recente
06:24sobre essa questão de que regra fiscal pode ser desenhada
06:29e que tem a ver com impor limite à dívida pública
06:36ou à despesa.
06:40Eu queria que você pudesse explanar isso aqui,
06:43até para que, se o Haddad estiver ouvindo,
06:45ou Galípolo, ou alguém,
06:46preste atenção aqui, aprenda alguma coisa,
06:49porque, pelo visto, vocês não leram a Constituição,
06:50não sabem fazer conta.
06:51Bom, vamos lá.
06:53Regra fiscal.
06:54O que é regra fiscal?
06:55Regra fiscal é um compromisso que a sociedade faz,
06:58coloca na Constituição, na lei,
07:01dizendo que ele vai ter uma trajetória fiscal sustentada,
07:05para que a dívida pública não estoure,
07:08para que não gaste excessivamente, etc.
07:11Agora, a regra fiscal não faz mágica.
07:12Se você escreve uma coisa no papel
07:14e as forças políticas da sociedade
07:17não estão dispostas a cumprir aquilo que está no papel,
07:22vai continuar acontecendo o que aconteceu nos últimos dois anos.
07:26Furo no teto, furo no teto,
07:27PEC kamikaze, PEC de precatório,
07:29PEC de transição,
07:30porque a sociedade,
07:33ou a classe política que representa a sociedade,
07:36decidiu não cumprir
07:36aquele acordo que havia sido feito lá em 2016
07:41de estabelecer um teto para os gastos.
07:46Então, se você vai revogar o teto de gastos
07:48e vai botar outra regra,
07:50tem que ter disposição de cumprir essa regra.
07:53Digamos que haja a disposição de cumprir essa regra.
07:56Qual é a melhor forma de desenhar essa regra?
07:59É alguma coisa muito parecida com o teto de gastos.
08:02Você vê na literatura que
08:03você tem que botar o limite na despesa.
08:05Por quê?
08:07Porque a despesa, o governo controla mais.
08:09Qual é a alternativa?
08:10Ah, não, vamos botar um limite para a dívida.
08:12Dizia lá na lei,
08:13a dívida não pode passar de X% do PIB.
08:18Acontece que o governo controla mais a despesa
08:21do que ele controla a dívida.
08:22A dívida está sujeita a choques.
08:24Se a taxa de juros aumenta,
08:26a dívida aumenta sem o governo
08:27ter mudado a política fiscal.
08:32Se aparece um esqueleto,
08:33uma dívida que o judiciário manda a União pagar,
08:36a dívida aumenta.
08:38E ele não tem o que fazer ali.
08:41Ao passo que a despesa,
08:42embora tenha muita rigidez,
08:43despesa obrigatória,
08:45ele é um instrumento direto do governo.
08:47E que o governo pode, inclusive,
08:48fazer reformas na sua despesa,
08:50mudar a previdência,
08:51mudar a política social,
08:53mudar a folha de pagamento,
08:55ajustar critérios do Bolsa Família,
08:59fazer reformas que ele possa controlar a sua despesa.
09:04O outro problema de você focar a dívida
09:06é que a dívida é afetada
09:09não só pela política fiscal de receita e despesa do governo,
09:13mas é afetada também pela política monetária
09:15e pela política cambial.
09:16Então, se o Banco Central,
09:19para reduzir a inflação,
09:20decide aumentar a taxa de juros,
09:22isso vai ter uma repercussão lá na dívida pública.
09:25Se eu botei um limite para a dívida,
09:26eu estou estimulando o Poder Executivo
09:28a pressionar o Banco Central
09:30a não fazer o que ele tem que fazer
09:32na política monetária
09:33para cumprir a meta da dívida.
09:36E aí eu vou ter problema com a inflação.
09:38Ou posso pressionar o Banco Central
09:39a não fazer essa ou aquela operação cambial,
09:42porque isso vai ter reflexo na dívida.
09:43Então, mexer com dívida pública,
09:48ela representa hoje
09:49as decisões que eu tomei no passado
09:53de receita e despesa.
09:55Então, eu tenho que tomar decisões responsáveis
09:57de receita e despesa hoje
09:58para que eu não tenha uma dívida pública alta amanhã.
10:01Eu queria diminuir a dívida pública hoje,
10:05já não tendo feito o dever de casa ontem,
10:08dar ideias criativas do tipo calote,
10:11pressão sobre dívida,
10:13sobre política monetária e coisas do gênero,
10:16vai piorar mais a situação do que ajudar.
10:21Rodrigo?
10:24Qual é a alternativa?
10:25O que sobra?
10:28Porque a conversa no governo
10:30é que eles não querem o teto de gastos,
10:35que seria voltado para a despesa em si.
10:37O que sobra?
10:39Se você não olha para a despesa dessa forma,
10:42qual o arcabouço possível?
10:45Eu vou te dizer aqui o que eu acho que eles vão fazer,
10:48pelo histórico do PT.
10:50Eles vão fazer um limite de despesa
10:52mais cheio de exceções.
10:56Tem esse limite de despesa,
10:58mas o investimento público fica fora.
11:01Tem esse limite de despesa,
11:03mas se o PIB crescer tanto,
11:04eu posso aumentar mais a despesa.
11:07Eu vou criar uma regra
11:11com um monte de cláusulas de escape
11:15que corre o risco de ser mal desenhada
11:18e virar uma regra não eficaz,
11:20que não vai segurar nada,
11:22que não vai limitar a despesa de forma alguma.
11:25Eu acho que a coisa vai caminhar um pouco por aí.
11:27E na questão fiscal,
11:30só para completar,
11:31na questão fiscal,
11:32eu acho que o que resta é jogar na defesa,
11:35porque o governo já disse que veio,
11:38é um governo expansionista,
11:40é um governo que não acredita em equilíbrio fiscal,
11:44é leniente com a inflação,
11:46tanto é que o presidente da República
11:47e o próprio ministro da Fazenda
11:49estão atacando o Banco Central
11:50fortemente,
11:52frontalmente na imprensa.
11:56Então, é um governo que é leniente com a inflação,
11:59acha que a inflação não tem problema,
12:01não acredita nos efeitos negativos
12:04que o desequilíbrio fiscal gera
12:06e acredita firmemente
12:08que o governo é capaz de fazer,
12:09com o gresso público,
12:11fazer a economia crescer persistentemente.
12:13Então, o que resta é jogar na defesa,
12:16evitar que piore.
12:17A gente tem uma estrutura política,
12:22uma organização política
12:25em que o único agente,
12:27os dois únicos agentes públicos
12:28que podem estar preocupados
12:30com o equilíbrio fiscal
12:31são o presidente da República
12:33e o ministro da Fazenda,
12:35porque é sobre eles
12:36que recai o custo político
12:37da maior inflação,
12:39do baixo crescimento,
12:41do juro alto,
12:42de todo o conflito
12:44que é gerado
12:45pelo desequilíbrio fiscal.
12:46Se nem esses dois agentes
12:48trabalham para isso,
12:51ou trabalham, digamos assim,
12:53a meia força,
12:54não dá para acreditar
12:56que a gente vai ter
12:57bons resultados fiscais.
12:59Então, o máximo que eu esperar
13:00é que se minimize
13:02o prejuízo na área fiscal.
13:04E que se aproveite
13:05algumas comunidades
13:06que estão surgindo em paralelo,
13:08sobre as quais a gente pode falar
13:10daqui a pouco,
13:11e que podem dar contribuições positivas
13:13e ajudem o crescimento do país
13:16por outros canais
13:17que não o canal fiscal.
13:19O senhor acha que a gente pode
13:20estar vivendo aí
13:21uma espécie de viés
13:22da disponibilidade
13:23do governo,
13:25por ter sido lá
13:26no primeiro mandato
13:27e no segundo mandato
13:29do Lula
13:29essa fórmula
13:32quase que funcionou,
13:34depois ela degringou
13:35de uma vez por todas
13:36na Dilma,
13:37e sem lembrar
13:40que, na verdade,
13:41a gente não está vivendo
13:42de novo
13:42um super ciclo
13:44de commodities,
13:45já que com commodities
13:46muito caras,
13:48o Brasil aceita
13:49bastante desaforo.
13:51Sem dúvida.
13:52O Lula pegou
13:54um cenário muito positivo
13:55no governo dele.
13:57É até curioso
13:58que ele fala o seguinte,
13:59olha,
14:00acreditem que eu vou fazer
14:01superávit primário,
14:03porque no meu primeiro governo
14:04eu fiz superávit primário.
14:05Quando você pega os dados
14:07da Instituição Fiscal Independente
14:09e de outros analistas,
14:12em que eles calculam
14:12o chamado superávit estrutural,
14:15que é aquele superávit
14:16em que você elimina
14:17da conta
14:19os efeitos
14:21da flutuação econômica.
14:23Então, naturalmente,
14:25quando a economia
14:26está crescendo um pouco mais,
14:29o governo arrecada mais
14:32e o superávit
14:33tende a crescer.
14:34Então, quando você
14:35tira isso da conta
14:37e olha só
14:38o que as medidas
14:39de política econômica
14:40geraram de resultado,
14:41chamado resultado estrutural,
14:43o resultado estrutural
14:44no governo Lula
14:44cai
14:45sistematicamente
14:47desde 2005,
14:49entra no governo Dilma,
14:50cai,
14:51continua caindo
14:51até chegar
14:52ao desastre
14:53de 2014.
14:54Então,
14:55isso significa o quê?
14:56Que boa parte
14:57daquele superávit
14:58que ele fez
14:59foi resultado
15:00do choque,
15:02do ciclo positivo
15:02de commodities,
15:04do período
15:06positivo
15:09que é pela qual
15:10a economia estava passando,
15:11presente que a gente
15:12ganhou do exterior.
15:13Ele agora está enfrentando,
15:15possivelmente,
15:16os preços das commodities
15:16estão altos hoje,
15:18mas tem um esfriamento
15:19da economia internacional
15:20e uma tendência
15:22de estabilização
15:22ou queda
15:23de preço de commodities
15:25mais para frente.
15:26de preço.
15:35E aí