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  • há 2 semanas
Essa é a continuação do papo sobre a obra de Luiz Guilherme Santos Neves, com os escritores Pedro J. Nunes e João Gualberto Vasconcellos.

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Transcrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária e hoje é a segunda parte,
00:25a segunda parte do bate-papo com Pedro José Nunes, escritor, e João Goberto, escritor.
00:32Lembrando que os dois são da Academia Espírito Santo de Letras, os dois são meus colegas lá na academia
00:37e que são figuras muito importantes aqui em Vitória porque, de certa maneira, são desbravadores de obras de outras pessoas,
00:48além de escreverem, claro, as obras deles.
00:50Na semana passada, vocês devem ter acompanhado pelo Vitrine Literária,
00:54nós começamos a falar sobre Luiz Guilherme Santos Neves, que é um grande escritor do Espírito Santo.
01:00Eu repito, para mim, é o maior escritor do Espírito Santo e um dos maiores do Brasil,
01:05mas o que eu penso não é tão relevante assim.
01:08O mais interessante é que você que está ouvindo a gente, ou você que está nos vendo,
01:13que, de repente, você busque os livros de Luiz Guilherme para você poder ler e você formar a sua opinião.
01:20Enquanto isso, nós vamos conversando sobre ele.
01:21E Luiz Guilherme, além de ter feito toda uma literatura histórica,
01:27de ter falado muito sobre o Espírito Santo,
01:30o Luiz Guilherme tem dois aspectos da sua literatura que não foram abordados no programa anterior.
01:37Um é que Luiz Guilherme escreveu literatura infantil e infanto-juvenil.
01:43E Luiz Guilherme era um grande estudioso do folclore.
01:47O pai dele, Guilherme Santos Neves, é uma referência do folclore nacional.
01:52Era um grande folclorista, um grande escritor também.
01:55E Luiz Guilherme herdou isso aí do pai.
02:00E também escreveu sobre o folclore em parceria ou sozinho.
02:04Então nós vamos começar conversando sobre o folclore com o João.
02:08João, o folclore em Luiz.
02:12A ideia do folclore, ela serve também como base para o seu estudo?
02:18Tanto no Luiz como nos outros autores dessa geração, como o Renato, por exemplo,
02:24o folclore também expressa um sentimento popular.
02:28O folclore, porque como você chamou a atenção,
02:30o mestre Guilherme, pai dele, foi da primeira...
02:34O livro do mestre Guilherme é a grande referência em histórias de folclore até hoje.
02:40O cantinho que a gente roda, porque ele não estuda...
02:43O Luiz também tem um pouco isso.
02:45Quando você pega um texto, Luiz, sobre a pesca da sardinha em manguinhos,
02:52que é um texto maravilhoso.
02:55Ele fala de pessoas que jogavam a rede para pegar aqueles peixinhos que vendiam em Vitória.
03:01Era uma comunidade muito pobre, que viveram e que vendiam aqueles peixinhos
03:04que vinha uma vez por semana por Vitória.
03:06Mas assim, como é que ele consegue expressar e retratar com tanta leveza,
03:12com tanta delicadeza?
03:14É um pouco o que você falou.
03:15Então, quando ele vai...
03:17Porque assim, o que a gente chama de folclore, na verdade,
03:21são festas e celebrações normalmente das comunidades marginalizadas oficialmente.
03:28São negros, são escravizados, são indígenas.
03:32Então, revisitar...
03:33Porque essas comunidades não deixaram a história escrita no Brasil.
03:38Não tem indígena que contou as suas...
03:40Você não conhece essas histórias.
03:42Você não conhece o mundo dos escravizados.
03:44Eles não se expressavam...
03:46Não podiam nem ler nem escrever.
03:48Então, assim, alguém que revisita esse universo, aí com a liberdade do ficcionista,
03:53vai imaginar como é que eles viviam.
03:55Essa que é a grande contribuição dele.
03:57Quero te fazer uma pergunta que extrapola, Luiz.
04:02Eu quero ouvir a sua opinião.
04:03Você acha que é possível um historiador branco?
04:08Um historiador que não viveu a escravidão?
04:11Um historiador que faz parte de uma casta social?
04:20Que é muito distante da ideia da escravidão?
04:25Você acha que ele consegue escrever sobre esse assunto?
04:29Essa é uma grande discussão.
04:31A minha opinião é que...
04:33Porque aí a gente começa até a ver se Luiz era capaz de fazer isso.
04:36É.
04:37Porque tem um historiador francês, no final do século XIX, Michelet, que trabalhou muito
04:42essa questão.
04:44Como é que eu vou falar de Roma se eu não sou romano?
04:47Como é que eu vou falar da Grécia se eu não sou grego?
04:50Então, assim, todo esse olhar nosso, eles chamam até do presentismo.
04:54É você olhar o passado com o olhar do presente.
04:58E você não entender realmente aquilo que se passou.
05:01É um desafio.
05:02É um desafio.
05:03Aproveito, ó.
05:04Quem está nos vendo, eu estou aqui com um livro na mão.
05:08Presença Africana no Brasil e no Espírito Santo.
05:11De Luiz Guilherme Santos Neves e Léa Brígida, que é outra grande historiadora.
05:15Está aqui, ó.
05:16Esse livro aqui, que existe inclusive para ser adquirido.
05:20Está aqui.
05:21Para quem está nos vendo.
05:21Quem está nos ouvindo, vou repetir, presença Africana no Brasil e no Espírito Santo.
05:28Porque uma coisa importante só acerca dessa questão dos africanos é assim.
05:32A gente toma muito os africanos pelos escravizados, pela redução humana que o escravidão representava.
05:40Só que vieram para cá pessoas que tinham culturas vastíssimas.
05:44O maior africanólogo brasileiro, Alberto Costa e Silva, dizia que a cultura Africana é como
05:49uma cultura grega.
05:50tem esta riqueza.
05:52Então, reduzir uma cultura dessa à expressão dos escravizados é muito duro.
05:57Então, você pode pegar, se informar acerca do que se passava na África naquela época
06:03e tentar trabalhar isso.
06:04Mas é sempre uma aproximação.
06:07Certo, certíssimo.
06:07Sempre uma aproximação.
06:09Maravilha.
06:10Pedrinho, também vou chamando você igual a Luiz Guilherme.
06:13Eu também sempre chamei de Pedrinho, né?
06:15Eu fico feliz.
06:16Pedrinho, olha só.
06:17Me diga uma coisa.
06:19Luiz Guilherme, Luiz Guilherme, que era bem mais velho que a gente, né?
06:25Luiz Guilherme foi contemporâneo do meu pai, era amigo do meu pai.
06:29Luiz Guilherme escreveu para crianças.
06:31Certo?
06:32Então, eu tenho aqui diante de mim, eu tenho aqui diante de mim, quem puder nos ver também,
06:38está aqui.
06:39O Menino Cadu e o Passeio pelo Parque Centenário.
06:42O Luiz está na capa, inclusive.
06:44E esse livro aqui, que minhas filhas leram, está aqui com o devido autógrafo de Pedrinho.
06:51Né?
06:53Crinquinim e o Mestre Álvaro.
06:57Pedrinho, fala pra gente.
06:58O Luiz Guilherme Santos Neves, essa potência histórica, essa potência literária, escrever
07:08para a criança.
07:09E aproveito para te perguntar, você já escreveu para a criança também?
07:13Escrever para a criança obriga uma outra linguagem?
07:19Obriga.
07:19Eu posso fazer um parênteses?
07:21Dá vontade.
07:22Em se tratando do folclorista, filho do folclorista Mor, com o breviário do folclore
07:31capixaba, Luiz e eu abrimos a coleção Memória Capixaba, que teve quatro títulos.
07:38Certo?
07:39Só que isso aqui foi feito às nossas expensas.
07:42Nós pagamos esse livro.
07:43E, claro, ficamos no prejuízo.
07:46Entramos com um projeto na Lei Rubem Braga para fazer esse aqui que vem com um DVD, que
07:52Luiz e eu fizemos um documentário com recursos rudimentares, mas nós chegamos à seguinte
07:58conclusão.
07:59Entramos com esse projeto que o que nós queríamos é o seguinte, não podemos vender o folclore.
08:05Nós queremos fazer o livro que seja distribuído para as bibliotecas de todo o Estado, para
08:11que de norte a sul as pessoas conheçam as suas tradições folclóricas.
08:16Breviário do folclore capixaba.
08:17Breviário.
08:18Então, esse livro foi distribuído para todo o Estado, exatamente graças aos recursos
08:23da Lei Rubem Braga.
08:25E só fazendo uma correção, Grijó, tem uma história muito curiosa sobre esse livro
08:29aqui.
08:30Este é o último exemplar que resta deste livro.
08:34Não existe mais?
08:35Não existe mais.
08:37Fizemos este livro e ele obteve até um...
08:40O livro em questão, para quem não está nos vendo, é o Presença Africana no Brasil
08:45no Espírito Santo, do qual eu acabei de falar.
08:47Pois é.
08:47O que acontece com esse livro?
08:49Nós até chegamos a vendê-lo para a Secretaria de Educação, não sei de onde, uma grande
08:54quantidade.
08:55O livro fez muito sucesso.
08:57Mas o Luiz se mostrou receoso.
09:00Ele me disse exatamente o seguinte, Pedrinho, eu não tenho lugar de fala.
09:06Eu não me sinto à vontade para continuar com esse livro.
09:11E é exatamente isso que está discutindo.
09:13Exatamente o que nós estávamos falando há pouco.
09:16Então, nós estávamos trabalhando, inclusive, numa versão ampliada, quando ele disse, eu
09:20não quero mais.
09:22Eu tinha 100 livros desses lá em casa.
09:25Luiz me ligou um dia e falou assim, Pedrinho, eu quero que você os destrua.
09:30É isso que eu não sabia.
09:32É, eu quero que você...
09:32Pouca gente sabe disso.
09:33Pouca gente.
09:34Estou revelando em primeira mão.
09:36Quero que você os destrua.
09:38Falei, Luiz, você quer que eu leve para você esse Pedrinho?
09:41Você é a pessoa em que eu mais confio no mundo.
09:43E eu destruí 199 livros.
09:4699 livros.
09:47Ficou 9, evidentemente.
09:48Guardei esse.
09:49Eu devia ter trazido isso aqui num carro forte.
09:52Porque se subir, Luiz vai me...
09:55Dá problema.
09:56Então, não existe mais, porque Luiz não se sentia à vontade para tocar nesse assunto.
10:00Eu estou honrado disso ser trazido em primeira mão no meu programa.
10:04Ele não se sentia à vontade.
10:05Luiz era extremamente ético.
10:06Sim, sabemos disso.
10:07Então, ele não se sentia à vontade.
10:10Com relação à literatura infantil...
10:13Infantil e infano juvenil.
10:15O meu primeiro livro, por exemplo, nasceu de uma pesquisa para a coleção Memória Capixaba,
10:20que eu fiz junto com o Luiz.
10:23Luiz, que foi a pulga e o jesuíta.
10:25Mas não é fácil.
10:26É a pulga e o jesuíta que tem em casa.
10:28Pois é.
10:28O Luiz tinha uma facilidade gigantesca.
10:31No dia do sepultamento de Luiz, um dos dias mais tristes da minha vida, dia 31 de julho,
10:37eu estava com o editor dele e o editor dele atendeu a uma ligação, saiu e voltou.
10:42Falei assim, estão aqui perguntando quando é que sai o último livro do professor Luiz Guilherme.
10:48Era um livro infantil.
10:50Era um livro infantil.
10:51E Luiz, nos últimos tempos, me revelou uma tristeza muito grande.
10:55Porque ele estava um pouco preocupado com a linguagem certa a usar no livro.
11:03Ele ficou muito aborrecido porque uma secretaria de educação...
11:06A Secretaria de Educação do Estado do Espírito Santo cortou o livro dele de uma aquisição
11:13porque ele usou a palavra íntima.
11:17Ele, por causa disso, ele teve o livro...
11:22Tem que ser indígena, né?
11:24Portado da...
11:24Ou então, o povo autóctono, né?
11:26Já pensou?
11:27É o nativo, né?
11:29É o...
11:30É.
11:30A Iracema, o tócnico dos lábios de mel.
11:34É um negócio meio complicado.
11:36E Luiz estava muito triste.
11:37O Iracema, o membro do povo originário...
11:41Não dá, né?
11:42Perde a graça, né?
11:43É.
11:45Os lábios de mel vão para as cucuias, né?
11:48Não precisa ter lábio.
11:49Não precisa ter lábio.
11:50É uma coisa que...
11:51É lamentável, eu acho.
11:52É uma entidade.
11:53Uma observação aqui sobre essa discussão.
11:58Eu creio que, assim, o Pedro me contou, que Luiz Guilherme disse a ele, que a insurreição
12:05de queimado provavelmente não foi a única, mas é a única registrada.
12:10Registrada por quem?
12:11Por Afonso Cláudio, que era o homem do sistema.
12:13Foi presidente do Estado, foi desembargador, o homem do sistema.
12:18Mas, assim, se não tivesse Afonso Cláudio escrito sobre aquele incidente, ele não nos
12:24chegaria.
12:25E é a partir dele que, então...
12:27O único registro é de Afonso Cláudio, o primeiro registro?
12:30É, o insurreição.
12:31O Afonso Cláudio, ele teve contato com pessoas, não é isso, Pedro?
12:36Que participaram daquele evento.
12:37Sim.
12:38O padre João Clímaco, que foi o advogado dos condenados à Forca, no final das contas,
12:47ele conviveu com... é desta geração.
12:51Então, assim, o Afonso não viveu aqueles eventos, mas ele é contemporâneo daqueles
12:57eventos.
12:57Ele pôde...
12:58Então, assim, o fato dele ter registrado esses eventos é fundamental para a história.
13:03É por isso que eu digo que a discussão sobre o lugar de fala, ela...
13:07Ok, é necessário, essa discussão é importante, porque nós não podemos ficar falando porque
13:14nós não somos, não estou nem discutindo isso.
13:17Mas, em alguns momentos, esses registros são fundamentais.
13:20Não tivesse o mestre Guilherme Santos Neves feito os registros que fez naqueles dois
13:25volumes gigantescos da obra dele, muito daquilo teria desaparecido.
13:29Porque a Comissão do Espírito Santo Tense de Folclore foi criada por eles.
13:33Então, essa geração, a primeira geração que trabalhou a ideia, que são memórias.
13:38Que são memórias, sobretudo, das pessoas que não tiveram suas memórias registradas.
13:42Então, você pega o próprio Rogério Medeiros, dessa geração, aqueles textos que ele tem
13:48sobre a cabula lá em Itaúna, aquela região lá de Constituição da Barra, é inspiração
13:57para Getúlio escrever quando ele escreveu O Armário do Rio Escuro.
14:01Então, essas coisas todas transitam.
14:04A gente tem que ter um pouco de tolerância, um olhar um pouco mais generoso com essas coisas,
14:09muito embora a discussão no lugar de fala seja uma discussão pertinente, porque quem tem que
14:15falar por essas pessoas que teve tão pouco direito à fala são os próprios.
14:21É uma questão complexa.
14:24Mas ele não se sentia à vontade.
14:27Ele não se sentia à vontade e me disse que eu destruísse os livros, o que eu fiz, com muito
14:33pesar,
14:34e guardei um exemplar, uma das mentiras que eu peguei a Luiz, porque é um testemunho do que nós fizemos
14:42e tal.
14:43Mas a preocupação de Luiz em levar o fato histórico para o aluno, por exemplo...
14:48Para a literatura em fundo juvenil.
14:49É.
14:50Está...
14:51Nem literatura, está na informação histórica mesmo.
14:54Ele escreveu um livro sobre o queimado.
14:58Ele escreveu três livros sobre o queimado.
14:59Escreveu a peça, escreveu o romance e escreveu um livreto sobre a insurreição do queimado,
15:04mesmo na coleção Memória Capixaba.
15:09A preocupação dele era levar esses fatos ao conhecimento das pessoas.
15:13Mas você acha que a linguagem...
15:15Porque foi o que eu falei.
15:17Na literatura, o Luiz conseguiu, ele conseguiu escrever para o adulto e conseguiu atender o jovem, o adolescente.
15:26Mas quando ele vai escrever sobre história, você acha que ele consegue contemplar os dois?
15:34Ou ele é obrigado a modelar a linguagem para poder atingir o estudante secundarista?
15:39E o estudante de ensino fundamental também, né?
15:42Eu só posso falar por mim, como leitor desses quatro romances de Luiz,
15:47e também do livro de crônicas, do livro de contos que ele faz sobre personalidades...
15:53Se não me engano, é o Escrivão da Frota...
15:56O Escrivão da Frota é o seu...
16:01É a sessão dele em Tertúlia.
16:03Não, Tertúlia é a certos respeitos.
16:06O Escrivão da Frota era visto a você.
16:08É.
16:08Não era o Escrivão da Frota?
16:10Não era visto a você.
16:11Mas o que eu percebo é que, eventualmente, eu me sinto menino,
16:16quando estou lendo o Luiz, escritor para adulto,
16:19ele faz uma travessia sutil e coloca elementos das cantigas de roda,
16:26das brincadeiras infantis.
16:28Eu acho até com o objetivo de satirizar o adulto, sabe?
16:32Isso demandaria, claro, um pouco mais de...
16:36a cuidade, de estudo, para poder afirmar e tudo.
16:40Mas eu acho que ele consegue fazer isso e nos coloca, leitores adultos,
16:47às vezes, nos sentindo como crianças, revivendo coisas,
16:51porque quem viveu a vida como eu vivi no interior,
16:55viveu o folclore, correu do palhaço, andou atrás da folia,
16:58foi ver o cachambu...
17:00Correu do palhaço.
17:01O palhaço da folia de reis é o horror da meninada.
17:03É?
17:04É.
17:04É o demônio em pessoa.
17:06Aliás, era uma das obsessões de Luiz, sabia?
17:09O que é?
17:10O palhaço.
17:11Ele adorava fotografar o palhaço da folia,
17:16porque ele achava aqui uma coisa extraordinária.
17:18É um demônio.
17:19O demônio.
17:20É, é uma figura que você nunca viu, não.
17:21Já, claro, mas...
17:22É uma figura.
17:23Você corria do palhaço.
17:24Quando era criança?
17:25É.
17:25Léguas.
17:28Léguas.
17:28E como não botar o menino, o adulto, no lugar de menino,
17:32quando você lê um negócio desse,
17:34que aparece como uma espécie de pausa,
17:39dentro daquela literatura adulta de Luiz, entende?
17:43E o Luiz trafegava por isso tudo.
17:46Trafegava por isso tudo.
17:47O Luiz me definiu muito bem uma vez.
17:48Ele disse,
17:49Pedrinho, o bom livro para criança
17:51é aquele que pode ser lido com o mesmo prazer pelo adulto.
17:54É, essa é a ideia.
17:55É.
17:55Esse livro aqui, Pedro,
17:57o livro do Parque Moscoso,
18:00é o menino cadu no passeio pelo Parque Centenário.
18:03Foi sob encomenda isso aí?
18:05Não.
18:07O Luiz se afeiçoou.
18:09Porque o Parque Moscoso,
18:10eu tenho uma fixação no Parque Moscoso,
18:12eu tenho um livro, né,
18:13do Picantropo que se passa no Parque Moscoso,
18:15eu gosto do Parque Moscoso,
18:17em Fomo Volatia aparece o Parque Moscoso,
18:19em Joker e Poker ele aparece,
18:20mas a ideia de o Parque Moscoso
18:25como o palco central da história,
18:28eu nunca tinha visto, né?
18:30E vocês fazem isso.
18:33Fala pra gente um pouco,
18:34porque eu sempre pensei que tivesse sido sob encomenda.
18:37Não.
18:37Sempre imaginei.
18:37Não, não.
18:38Não é?
18:38Não.
18:39O Luiz morou no Parque Moscoso.
18:41É, no bairro.
18:43É, ele morou numa rua que dava no parque,
18:46ele andava a 100 metros,
18:47estava no parque.
18:48E o Luiz sempre teve verdadeira obsessão pelo parque.
18:51Nós andamos muitas vezes pelo parque,
18:54eu e ele.
18:55Muitas vezes.
18:55Tanto que eu tenho um projeto agora,
18:57eu e Linda Coguri,
18:59de virmos passar uma manhã no parque,
19:01e eu vou escrever um texto,
19:03Passeio com Luiz Guilherme e Linda Coguri no Parque Moscoso,
19:06e ela vai escrever,
19:08Passeio com Luiz Guilherme e Pedro Lunes no Parque Moscoso.
19:11Ótimo.
19:11Porque nós sabemos essa afeição que ele tinha.
19:15E o Luiz se afeiçoou muito a Cadu, né?
19:18Cadu é uma criança muito meu amigo,
19:22e o Luiz se afeiçoou, o Cadu ia,
19:24eu tentando influenciá-lo no mundo da leitura,
19:28eu levava a livraria aos sábados,
19:31e o Luiz se afeiçoou muito a ele.
19:32E um dia me disse,
19:34Pedrinho, escrevi um livro para Cadu.
19:36Ah, que maravilha.
19:37É.
19:37Você vai ficar chateado?
19:39Será que a mãe dele vai ficar chateada?
19:41Eu falei assim,
19:42claro que não.
19:44Claro que não.
19:45Ele tinha um pouco de receio.
19:47Transformar, eternizar o garoto,
19:48transformar o garoto em personagem.
19:50E é o menino que está aqui com a cara dele,
19:53você está entendendo?
19:55É exatamente o menino Cadu e a mãe.
19:57É aqui.
19:59Que maravilha.
20:00Entende?
20:01Então...
20:02Foi escrito quando?
20:03Isso, Jó, isso foi feito lá pelo início,
20:06foi logo depois do aniversário do Parque Moscoso.
20:09Então, esse menino Cadu já é um homem, hoje?
20:12Hoje é um homem.
20:1310, 12 anos.
20:14Sim.
20:15E ficou muito triste com a morte de Luiz.
20:17Ah, certamente.
20:18Ficou muito triste com a morte de Luiz.
20:19Mas isso aqui foi feito logo depois do centenário, 2012, 2013.
20:24A fotografia é minha.
20:26Eu fui junto para o parque fotografar sob direção de Luiz.
20:30Era exigente.
20:32Eu quero esse ângulo aqui.
20:33E nós fotografamos.
20:35Ele me fez achar uma foto antiga do Coreto,
20:37para poder colocar no livro.
20:39E toda a diagramação foi feita lado a lado ali.
20:44Então, nós passamos muitos anos fazendo esse tipo de coisa,
20:48juntos, lado a lado mesmo.
20:50Cada...
20:51O documentário sobre folclore, por exemplo,
20:53cada segundo nós fizemos juntos.
20:55Ali, lado a lado, tomando café.
20:58Luiz gostava de molhar a rosca no café.
21:00Eu achava aquilo muito peculiar,
21:01porque é um hábito antigo, né?
21:03As pessoas molharem o biscoito no café,
21:05para poder comer.
21:07Então, nós fizemos tudo isso lado a lado.
21:08E é claro, Grijó, que com a doença de Luiz,
21:13nos últimos, vamos dizer, últimos cinco anos, né?
21:17O Luiz teve uma doença, da qual ele se curou.
21:21É.
21:21Estava curado.
21:22E uma das razões da sua recuperação
21:26foi uma atividade intensa de escrita.
21:30O Luiz deve ter vários livros inéditos.
21:33Eu tenho dele um roteiro
21:35para umas filmagens que nós fizemos em 2015 e 2016,
21:40da processão marítima de Marataízes.
21:43Ele me mandou o roteiro.
21:45Eu vou preparar isso,
21:46porque eu estou de posse do roteiro.
21:49Ele me mandou também um texto
21:52sobre a livraria Âncora,
21:54que vai sair também no Tertúlia.
21:56Ele não tinha...
21:59Ele não tinha limites.
22:01Eu ligava para ele com muita frequência
22:03ou ele me ligava.
22:0415 em 15 dias nós estávamos nos falando.
22:06E muitas vezes ele não me atendia e dizia,
22:08Pedrinho, eu estava com uma ideia na cabeça
22:10e não podia parar.
22:12Entende?
22:13Se Luiz não tivesse tido essa gripe,
22:19que segundo a família foi a gripe que o vitimou,
22:21ele ainda estaria entre nós
22:23e com certeza estaria produzindo, Grijó.
22:25Com certeza.
22:25Eu aproveito esse restinho aqui
22:28de papo sobre Luiz.
22:31Em toda a minha vida literária,
22:33eu tive alguns elogios
22:36e algumas detrações, claro,
22:38críticas e coisas boas
22:41que disseram nos meus livros.
22:42Mas eu tive duas coisas que foram ditas.
22:47Uma sobre o professor Grijó
22:49e a outra sobre o escritor Grijó.
22:52Uma foi Denis Gomes,
22:53que é, para mim, a minha grande mestra,
22:58que um dia ela falou,
23:00eu soube que ela falou isso, né?
23:02Que ela falou o seguinte,
23:03que é uma frase da qual eu gosto muito,
23:05inclusive eu uso de vez em quando.
23:07Mas ela falou,
23:08a primeira vez que eu ouvi foi dela.
23:09Ela disse,
23:11quando o discípulo não supera o mestre,
23:14quem errou foi o mestre.
23:16Aí ela disse,
23:17com o Grijó eu não errei.
23:18Isso para mim foi o melhor elogio
23:20que eu tive na minha vida.
23:21Como professor,
23:22foi o maior elogio que eu tive.
23:23E a outra foi quando Luiz,
23:25eu pedi a Luiz,
23:26você se lembra disso?
23:27Eu pedi a Luiz que lesse
23:28histórias curtas para a Mariana M.
23:31E dei para ele os originais.
23:33Ele falou,
23:33Grijó, você me dá um mês.
23:35Eu entreguei numa sexta-feira.
23:36Você me dá um mês?
23:37Eu falei, claro, Luiz.
23:38No domingo,
23:39no sábado à noite,
23:41ele me ligou.
23:42Eu entreguei na sexta,
23:43de manhã.
23:44No sábado à noite,
23:44ele me ligou.
23:45Falei, Grijó,
23:45acabei de ler.
23:46Cara,
23:47é maravilhoso o seu livro.
23:49E ele fez tantos elogios.
23:50Eu falei, Luiz,
23:51cara, eu estou até encabulado.
23:52Falei, você faria a orelha do livro?
23:54Ele falou,
23:54claro que eu vou fazer.
23:55E aí ele fez elogios.
23:57Ele falou, Grijó,
23:58hoje para mim,
23:59existem dois romancistas em Vitória.
24:01Reinaldo e você.
24:03Falei, cara,
24:04vindo de você
24:05e me colocando junto com o Reinaldo,
24:06que é o irmão dele,
24:08que é um extraordinário escritor.
24:10E esses foram os dois elogios.
24:13E eu fecho esse programa
24:15com esses dois elogios a mim.
24:17Então,
24:17sou sendo cabotino.
24:20Agradeço profundamente ao Pedro
24:21e ao João,
24:23porque são dois especialistas
24:27num assunto
24:28que me é muito querido,
24:30que é Luiz Guilherme,
24:32a sua obra.
24:33E aqui eu aprendi mais um bocado
24:35sobre a obra dos dois.
24:36Agradeço muito a vocês
24:38por vocês terem aceitado o convite.
24:40Eu agradeço.
24:41Eu tenho certeza
24:42que Luiz Guilherme Santos Neves,
24:43que está num lugar muito bom,
24:45também agradece.
24:46Com certeza.
24:47Valeu, gente.
24:48Um grande abraço a vocês
24:50e até a próxima edição
24:52do Vitrine Literária
24:53com o Francisco Grijó
24:54aqui pela Rede Vitória,
24:56YouTube, Spotify
24:58e pela página de vídeo
25:00do Foro Vitória.
25:02Você ouviu
25:03Vitrine Literária
25:05com o professor e escritor
25:06Francisco Grijó.
25:08Tudo sobre literatura contemporânea.
25:10Temas, autores,
25:12obras, debates,
25:14análises, curiosidades
25:15e bate-papo
25:16com autores e editores.
25:18E aí
25:18Tchau, tchau.
25:20Tchau, tchau.
25:21Tchau, tchau.

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