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  • há 2 dias
Transcrição
00:20Eu nasci em uma pequena cidade gaúcha, na fronteira do Brasil com a Argentina, bem perto do rio Uruguai.
00:28Cresci nesse encontro de países, de línguas e de histórias.
00:33Nessa época, uma sucessão de golpes militares se espalhou pela América do Sul, deixando cicatrizes que atravessaram gerações.
00:43Com a volta da democracia, quis entender como cada país enfrenta o passado e lida com as memórias desse tempo.
00:49Fui em busca de respostas. Cruzei fronteiras, visitei lugares de memória e encontrei pessoas que tiveram suas vidas impactadas pelas
01:00ditaduras, na Argentina, no Brasil e no Chile.
01:06Tchau.
01:36A CIDADE NO BRASIL
01:42Eu tinha apenas um ano em março de 1964, quando os militares tomaram poder no Brasil e depuseram o presidente
01:49João Goulart.
01:51Enquanto eu crescia, o país mergulhava em um longo período de repressão e violência.
01:57Nos anos que antecederam a ditadura, havia um forte debate político em torno de reformas para diminuir a desigualdade social
02:05e a concentração de renda no país.
02:08As chamadas reformas de base eram a principal bandeira do presidente João Goulart.
02:13A CIDADE NO BRASIL
02:24No campo, o plano era fazer a reforma agrária.
02:28Na Paraíba, os camponeses se organizavam para reivindicar mudanças na distribuição de terras desde os anos 50.
02:36As forças contrárias, que mais tarde apoiariam o golpe, perseguiram os principais líderes do movimento.
02:44João Pedro Teixeira, fundador e líder da Liga de Sapé, foi assassinado em 1962.
02:54Com 11 filhos e mesmo temendo ser morta, sua viúva Elizabeth Teixeira assumiu o comando da Liga,
03:01que na época era a maior do Nordeste, com mais de 7 mil associados.
03:22Sou neta de Elizabeth Teixeira e João Pedro Teixeira, líder da Liga Camponesa de Sapé.
03:29E eles tinham uma importância na nossa história da luta do homem do campo.
03:36Com o assassinato dele, em 1962, a minha avó teve que fugir, passou a ser perseguida, a política da ditadura.
03:44E passou muitos anos afastada da sua família e dos filhos, inclusive, pois para fugir ela teve que deixá-los.
03:53Muitas vezes não entendiam por que a mãe foi embora, por que a mãe não estava presente.
04:00Isso é uma marca muito grande da nossa família, né?
04:04Ela lutou bastante, meu avô também, e ficaram hoje aí as sementes.
04:09Por que não a casa de que morou João Pedro e Elizabeth Teixeira não se tornar um memorial?
04:16Para relembrar essa luta, para não deixar essa luta morrer.
04:27A casa onde João Pedro morou durante seus últimos anos de vida parece abandonada.
04:36Quando ele foi assassinado naquela estrada Café do Vento, os tiros atingiram até os livros que ele trazia.
04:47Não só os tiros, como o sangue.
04:51A minha avó, Elizabeth Teixeira, é uma mulher muito à frente do tempo dela.
04:56Uma mulher que já tinha consciência de classe.
04:59Uma mulher que foi capaz de sacrificar a sua vida, os seus filhos, por uma causa muito grande, sabe?
05:06Então ela honrou, honrou o meu avô, para que de fato acontecesse reforma agrária.
05:12Para que de fato o homem do campo tivesse acesso aos seus direitos.
05:32Eu sou a Alane Maria Silva de Lima.
05:34Eu sou filha de camponeses assentados da reforma agrária, que são naturais dessa comunidade.
05:40Meu pai e minha mãe nasceram e se criaram aqui.
05:44E sempre foi uma realidade muito penosa no sentido de acesso a direitos.
05:50Sapé foi a primeira cidade, antes do golpe de 64, de já haver uma repressão violenta da estrutura do Estado
05:57em aliança com as famílias latifundiárias contra os camponeses.
06:01Porque é uma comunidade que gestou um dos maiores movimentos da América Latina.
06:05As ligas camponesas é um dos maiores movimentos de massa que luta por acesso à terra.
06:11E lutar por acesso à terra interfere diretamente na estrutura fundiária e agrária do nosso país.
06:20A perseguição contra João Pedro Teixeira, a perseguição contra a família, né?
06:25Isso já resultava numa perseguição da estrutura do Estado contra o campesinato.
06:31E aí as nossas lutas, elas não têm como ficar só no passado das ligas.
06:35De fazer só a memória, memória pela memória, de ter esse espaço como espaço estático, né?
06:40Não é só isso.
06:41É importante a gente ter o lugar de memória.
06:43Mas mais importante ainda é a gente continuar a luta com a mesma incidência que as ligas camponesas faziam.
07:01Eu nasci naquela casinha onde eu uso o memorial.
07:05E quando meu pai morreu eu tinha sete anos.
07:08Aí eu me lembro muito dele, ele era muito carinhoso comigo.
07:12Gostava muito de mim.
07:14No fundo foi uma certa noite, minha mãe no terreiro, né?
07:19Esperando a chegada dele.
07:21Aí de repente chegou a notícia.
07:24Elisabeth e João Pedro foram assassinadas.
07:30Mamãe ficavam viajando e saindo.
07:32Eu sei que um dia ela desapareceu.
07:36Mamãe nos abandonou.
07:38Eu fiquei assim muito triste, porque eu não sabia o motivo que ela tinha me abandonado, entendeu?
07:45Eu sou essa daqui.
07:48Aqui Marlúcia, aqui Marlenei no colo.
07:52Eu acho que é Abraão.
07:53Aqui é Marinha.
07:54Acho que aqui é Isaac.
07:56Papai, Freda, Marta.
08:01Carlos, Nino e Paulo, mamãe.
08:05Quando eu tinha 26 anos por aí eu casei.
08:09Aí com 27 anos eu tive Juliana.
08:13Aí apareceu esse senhor na minha casa.
08:17Eduardo Coutinho.
08:20Ele disse, a sua mãe está viva.
08:23Eu pensei que ela estava morta.
08:26Há quanto tempo a senhora não vê a sua mãe?
08:33Uns 15, eu acho, sei lá, uns 12.
08:37E a senhora tem saudade dela?
08:39Tem, claro, né?
08:40Minha mãe.
08:42A senhora não chegou a conhecer seu pai, João Pedro?
08:43Chegou?
08:44Conheci.
08:45Quando ele morreu parece que eu tinha 6 anos, 7 anos.
08:48Lembra dele?
08:50Muito pouco.
08:51É sua filha?
08:52É.
08:53Como é que chama?
08:54Juliana Elizabeth Teixeira do Nascimento.
08:56Que é o nome da minha mãe.
08:59Eu tenho muito orgulho dos meus avós.
09:02Eu me orgulho.
09:03É algo que...
09:04Eu tenho orgulho de dizer, seja um Pedro Teixeira bisneto.
09:07Tenho orgulho de dizer, olha, eu sou Juliana Elizabeth Teixeira.
09:10Então, por isso que desde que eu engravidei, eu já tinha decidido que seria uma homenagem ao meu avô.
09:21Eu não posso deixar essa história morrer.
09:25Não posso.
09:26Então, como neta, como cidadã, como professora, eu preciso continuar essa luta também deles, dos meus avós.
09:36E dessa forma, não deixando essa história morrer.
09:41Então, tudo que for possível para que essa história não morra, que ela seja mostrada para o mundo inteiro,
09:46eu sempre estarei à disposição para que isso aconteça.
10:04Elizabeth e sua luta seguem vivas.
10:08Hoje, com 100 anos, ela ainda defende a reforma agrária.
10:13Na minha viagem a Sapé, tive a oportunidade de conhecê-la.
10:23Eles vieram aqui para mostrar a senhora a sua história de resistência, de muita luta.
10:29Minha filha, que Deus abençoe a todos que trabalham pela luta.
10:35Que Deus faça uma bênção geral de todos os povos do nosso país,
10:43que lutam pela nossa vida de Jesus.
11:01Após o golpe de 64, o regime seguiu endurecendo.
11:07Em 68, foi decretado o Ato Institucional Nº 5, o AI-5.
11:12O Congresso Nacional foi fechado e a repressão a quem se opunha ao regime se intensificou.
11:22Uma das histórias mais marcantes deste período foi a prisão, tortura e morte do deputado federal cassado Rubens Paiva.
11:37Seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva, tinha apenas 11 anos em 71, quando o pai desapareceu.
12:12Era uma casa muito cheia de gente.
12:17Era super tranquilo, jogava botão, a gente ia para a praia.
12:23Era uma vida super de boa.
12:28Era uma família, uma família muito feliz.
12:32Meu pai era deputado federal em 64, ele foi eleito com 34 anos, ele era da UEE, União Estadual dos
12:41Estudantes.
12:43Foi um homem atuante no golpe de 64, para defender a democracia.
12:49Ele era do grupo do João Goulart, foi preso e exilado na embaixada e teve que sair do Brasil junto
12:57com seus amigos.
12:58Teve os direitos cassados, alguns amigos não voltaram, ele voltou ao país sem se meter em política.
13:10Passou a ajudar alguns jovens que precisavam fugir do Brasil, que estavam envolvidos ou não em luta armada.
13:20Passou a fazer relatórios junto com um grupo de amigos deles para a imprensa internacional do que estava acontecendo no
13:28Brasil, porque tinha censura.
13:31E foi preso por causa disso, em 71, torturado e morto.
13:47E foi aí que tudo começou, a nossa luta começou.
14:08Não sei direito porque entrei para o movimento estudantil.
14:12Certamente não foi só por todas aquelas ideias em que eu tinha a sensação de acreditar.
14:22Para o Nicolau Sivichenko, a literatura serve para ser a porta-voz dos vencidos,
14:32enquanto a história é a porta-voz dos vencedores.
14:37O Feliz no Velho se encaixa nesse projeto.
14:41Ainda era em 1982, com o regime Figueiredo,
14:44e estava ali alguém que foi vítima da ditadura,
14:50atacado pelos militares, tido o pai e a mãe levados presos.
14:54Então, eu acho que, de uma certa maneira,
14:57eu fui memorialista daquele período,
15:05como poucos outros escritores foram.
15:09Por viver no centro do furacão,
15:12por estar presente na reconstrução dessa identidade, dessa juventude,
15:19e por ter sofrido um acidente tão dramático
15:23quando você imagina que a juventude é um tempo dourado na vida das pessoas.
15:29Depois de tanto tempo,
15:31era ilusão acreditar que eles tivessem só desaparecidos,
15:34continuar procurando, exigindo explicações
15:36para o sequestro de uma pessoa que não tinha cometido crime nenhum.
15:41O meu marido não era o que a gente pode chamar de um guerrilheiro.
15:45Ele não estava nem ligado a movimentos de oposição desses considerados ilegais.
15:49Mas parece que basta acreditar em democracia,
15:52lutar por democracia para ser considerado um subversivo.
15:56Em nome de se combater o terrorismo,
15:59instaurou-se o terror.
16:01A minha mãe foi presa, não foi morta,
16:05foi solta 12 dias depois.
16:09Ela foi quem, de fato,
16:12enfrentou todos os processos
16:14do combate à ditadura
16:17e da retomada da redemocratização.
16:22Eu percebia que ali estava uma mulher
16:24que atuou viúva e com cinco crianças,
16:29cinco filhos,
16:31de uma forma que precisava ser retratada.
16:36Tinham feito já uma biografia sobre o meu pai,
16:39mas nem de longe
16:41o que minha mãe fez por esse país
16:44se assemelha ao que meu pai fez por esse país.
16:47Ela merecia uma biografia.
16:51Então, eu achei que era hora
16:53de dar a esta mulher um livro digno.
16:58E foi aí que eu escreviu
16:59Ainda Estou Aqui.
17:04E o Oscar vai para o Brasil.
17:16O Oscar vai para o Brasil.
17:23o regime britânico decidiu não se abençoar
17:27e resistir.
17:29Então, essa prece vai para ela.
17:31O nome é Elnice Paiva.
17:40Foi uma exposição muito emocionante
17:42porque a gente recontou e reviu toda a história
17:48através dos registros fotográficos,
17:50de documentação.
17:51Foi aí a partir daí que a gente começou
17:53a organizar os documentos,
17:56passaportes, cartas
17:58e começamos a achar coisas.
18:00A minha mãe estava já desenvolvendo Alzheimer,
18:03então ela já estava sem controle
18:05de todo o arquivo.
18:07Foi uma chance da família
18:10se reunir em torno de um projeto
18:12de recontar uma história.
18:34Apesar de meu pai não ter sido preso aqui no DOPS,
18:37ter sido preso no DOI Código do Rio de Janeiro,
18:40meu pai era paulista, né?
18:41Foi eleito deputado por São Paulo,
18:44pela UE de São Paulo,
18:45estudou no Mackenzie.
18:46A vida dele, política,
18:48foi feita em São Paulo.
19:00Foi muito emocionante
19:02porque esse espaço é um espaço
19:03que causa algo na nossa alma, né?
19:09que é muito dolorido, né?
19:13Você vê relatos de pessoas
19:14que passaram muito tempo por aqui
19:18e muitos amigos foram presos aqui, né?
19:20Um centro de tortura selvagem, né?
19:25É emocionante, é dolorido,
19:27mas é importante, né?
19:35A história da repressão política brasileira
19:38é uma história que remonta
19:39desde a ditadura de Vargas, né?
19:42Esse DOPS,
19:45ele era o grande instrumento repressivo
19:48da primeira ditadura do Estado republicano, né?
19:52E acho que todo mundo conhece a história
19:53da Olga Benari,
19:55que foi torturada e mandada para os nazistas
19:57e morreu em campo de concentração.
20:00E durante a ditadura,
20:02essa máquina foi se sofisticando, né?
20:05Era algo um pouco desorganizado, né?
20:08Tinha o DOPS, tinha o Exército,
20:11tinha a Marinha, tinha a Aeronáutica.
20:12Até, finalmente,
20:15a partir de 68, do AI-5,
20:20eles encontrarem a fórmula
20:23para unificar essa repressão
20:25que foram os dois códigos.
20:27e aí sim que a tortura
20:29virou uma política de Estado, né?
20:31Tortura e o desaparecimento, né?
20:34Então, isso aqui é um marco
20:35dessa história triste brasileira,
20:37que é o castigo,
20:39que é a tortura contra brasileiros, né?
20:57A gente está no Memorial da Resistência de São Paulo,
21:00que é esse museu criado em 2009.
21:04É um espaço de memória,
21:06é um museu que se constitui
21:08a partir de uma política de Estado,
21:10e ele se constitui justamente
21:14porque aqui, por mais de 40 anos,
21:16foi o DOPS,
21:17o Departamento de Ordem Política e Social,
21:20essa polícia política mais tricolenta
21:23e violenta do nosso país.
21:25Aqui, pessoas foram presas,
21:27torturadas, mortas, enfim.
21:30Um lugar para a gente homenagear as vítimas
21:34e para que não se esquecesse o que aconteceu aqui.
21:53Quem é que fala que o baixo astral é esse lugar?
21:56É uma pessoa que tem medo da sua história,
21:59tem medo do seu passado,
22:00que não sabe encarar o que nós vivemos, né?
22:04Vamos contar a nossa história
22:06e precisávamos de mais museus como esses, né?
22:10Eu acho que a história brasileira
22:13é muito trágica, muito sanguinária.
22:16É um país muito violento.
22:20Tiveram muitos massacres aqui nesse país, né?
22:24Muitas revoltas.
22:26E eu acho que...
22:27Onde é que estão as homenagens a essas pessoas
22:29que estavam lutando pelos seus direitos,
22:33por liberdade,
22:34por uma identidade nacional, né?
22:37Essas pessoas eram estudantes,
22:40eram trabalhadores,
22:41eram donas de casa,
22:43mães, pais.
22:46Essa carta aqui é incrível, né?
22:49Papai,
22:51quando você vem para o rio,
22:55papai, você quer me trazer um carrinho de ferro?
22:59Agora quem está batendo na máquina é a mamãe,
23:01porque eu fiquei cansado.
23:04Papai, eu cantei lá em Saquarena,
23:08lá tinha cada pastor alemão de dois metros,
23:10quer dizer, um metro.
23:12Lá tinha boi,
23:13boiada passando,
23:14tinha cavalo,
23:16na praia de lá tinha tubarão.
23:18É verdade, não é, mãe?
23:20Você está bem?
23:21Ai, que coisa triste, gente.
23:23Escreve uma carta para mim,
23:25eu estou com saudade de você, papai.
23:27É só, tchau.
23:28Quando você vem?
23:30Ah, eu já perguntei isso.
23:32Mil beijinhos e abraços.
23:38A violência contra o meu pai
23:40era uma violência símbolo,
23:42mas que muitas famílias
23:43estavam sendo vítimas da mesma época, né?
23:47Não era uma família atingida,
23:49era um país que estava sendo atingido, né?
23:57Se a gente pensar hoje,
23:59o memorial é o museu criado no país
24:02sobre as memórias da ditadura civil militar brasileira.
24:06Mas a gente deveria ter em todos os DOPs,
24:09DOPs do Rio, BH,
24:11a gente deveria ter pelo país,
24:14não só nos DOPs,
24:16nos DOI-CODES,
24:16nos centros clandestinos.
24:19Então, é muito importante a gente estar num lugar como esse,
24:23mas a gente também tem que pensar
24:25que a gente tem muito a fazer, né?
24:27A gente deveria ter essa ideia do lugar de memória
24:31justamente para que seja um espaço de reflexão ativa.
24:34A gente parte do passado,
24:36mas para falar do presente.
24:37Então, é justamente para a gente pensar
24:39quais são as continuidades
24:41do período da ditadura no nosso presente, né?
24:44Como é que a gente viveu esse processo
24:47de elaboração da violência,
24:49mas também de construção
24:51de uma democracia realmente plena, né?
24:55Como é que isso se constitui nesse processo?
25:1140 anos após o fim da ditadura,
25:13familiares de mortos e desaparecidos
25:15e grupos de direitos humanos
25:17se mobilizam para a criação de novos espaços de memória.
25:20Em 2024, a Casa da Morte em Petrópolis,
25:24no Rio de Janeiro,
25:25um centro de tortura de presos políticos,
25:27foi tombada a pedido do Ministério Público Federal.
25:32Em São Paulo,
25:34o antigo prédio da Auditoria da Justiça Militar
25:36será transformado no Memorial da Luta pela Justiça.
26:01Esse lugar é onde ficavam as auditorias militares.
26:06Durante a época da ditadura,
26:08principalmente depois do AI-5,
26:09o governo da época, o ditatorial,
26:12decidiu que todas as pessoas que estavam enquadradas,
26:15que se enquadravam na lei de segurança nacional da época,
26:18fossem julgados por militares.
26:21Então você era presa,
26:23acusado de atentar contra a segurança nacional
26:27e depois de um tempo passado na DOICODE, no DOPS,
26:32ia para o presídio
26:33e aí se esperava ser julgado.
26:35Esperava no presídio,
26:36às vezes passava-se um ano, dois anos,
26:39até o processo vir aqui nessas dependências.
26:43Os casos mais suaves, entre aspas,
26:47estudantes, sindicalistas,
26:49que não tinham aderido à luta armada,
26:52eram julgados na Auditoria da Aeronáutica,
26:54aqui nesse andar.
27:08Quando os réus vinham para cá,
27:11do presídio para serem julgados,
27:13os réus ficavam aqui sentados na frente do estrado.
27:22Os promotores, os acusadores,
27:24eles saíam de uma sala que tinha,
27:26que já foi demolida,
27:28eles saíam e se sentavam aqui,
27:30à esquerda do estrado.
27:35E o advogado de defesa,
27:37que entrava por aquela porta,
27:39tinha a sua mesa aqui na frente.
27:41Então ficava o advogado de defesa,
27:43o acusador,
27:45os juízes e, aqui na frente, os réus.
27:47Mas se diz que aqui nessa sala
27:51é onde, pela primeira vez,
27:54tanto os réus como os advogados
27:56podiam falar a verdade do que tinha acontecido.
28:00A maioria dos réus não reconhecia
28:02quando eles liam o processo.
28:06Por isso que esse lugar é um lugar de memória importante,
28:09porque nesse lugar é onde saíram as verdades
28:12que quando o julgamento era muito famoso,
28:16chamava a atenção, naturalmente,
28:18da mídia e dos jornalistas.
28:20Então, muitos jornalistas também vinham aqui
28:23e daqui eles espalhavam as notícias
28:26das torturas ao mundo todo.
28:33Eu nunca tinha entrado aqui depois do julgamento.
28:35Depois eu fui julgado aqui
28:36e nunca mais tinha vindo aqui.
28:38Quando a UAB recebeu a sessão do prédio,
28:41eu vim aqui com o presidente da UAB.
28:43Aí eu andei,
28:44aí eu falei,
28:45eu acabo de ver a minha mãe.
28:47Porque quando eu fui julgado,
28:50eu passei,
28:51o meu processo era grande,
28:53tinha muitos réus.
28:54Então, nós viemos aqui às 10 horas da manhã
28:56e saímos meia-noite.
28:58E ficamos quase 12 horas,
29:00porque eram muitos réus os que eram julgados.
29:05Eu tinha 22 anos, né?
29:0823.
29:09Porque eu fui julgado
29:11dois anos depois que eu fui preso.
29:13Muitas vezes isso acontecia.
29:14Você vinha para o julgamento,
29:16já tinha um ano, dois anos de prisão,
29:18vinha aqui e era absolvido.
29:21Então, quando eu vim,
29:24o advogado que eu tinha na época,
29:26depois eu mudei de advogado,
29:27falou para a minha mãe,
29:28olha, ele está num artigo,
29:30ele está em curso num artigo da lei
29:32que dá de dois a quatro anos de prisão.
29:36Ele já está a dois.
29:38Se ele for condenado à pena mínima,
29:40dois anos, ele já cumpriu,
29:42ele vai para casa.
29:43Se ele for condenado à pena máxima,
29:45que é quatro anos,
29:47ele vai voltar para o presídio,
29:49a gente entra com o pedido de liberdade condicional,
29:52porque já cumpriu a metade da pena.
29:54Aí, daqui a alguns meses,
29:55ele está em casa.
29:57Então, estava todo mundo animado.
29:59Minha mãe ficou doze horas aqui
30:01esperando a sentença.
30:04Aí, meu pai foi embora,
30:06eu estava cansado.
30:07Ela ficou junto com o irmão meu.
30:08E quando foi meia-noite que deram a sentença,
30:12aí eu fui condenado a dez anos de prisão.
30:15A sentença já estava escrita, né?
30:18E aí, eu estava lá na frente,
30:20com os réus,
30:21e a primeira coisa que eu fiz
30:23foi virar para trás
30:24para ver onde ela estava, né?
30:26E ela desfaleceu, sabe?
30:29Ela caiu assim na cadeira,
30:30porque foi uma decepção muito grande.
30:31Estava esperando que eu ia ser solto
30:33e foi condenado a dez anos de prisão.
30:36Impressionante.
30:37Foi eu nunca mais esquecido.
30:52A ideia é que esse memorial
30:54possa explicar aos jovens,
30:57aos pessoal que venha visitar,
30:59quais são as etapas de justiça,
31:01como foi a linha do tempo da justiça no Brasil
31:04mostrar para os mais jovens,
31:06aqueles que tiveram a sorte de nascer
31:08depois que a democracia voltou ao Brasil,
31:12como era buscar justiça
31:14num país quando não há justiça, né?
31:18Porque aqui foi o primeiro lugar
31:20onde a verdade saiu à tona, né?
31:23As pessoas vinham aqui,
31:25os réus vinham aqui para ser julgados,
31:28sentenças que já estavam escritas.
31:31Então, nesse lugar onde se supunha
31:33que deveria-se fazer justiça,
31:38não havia justiça.
31:44No final dos anos 70,
31:46uma campanha pela anistia
31:47para todos os presos e perseguidos políticos
31:50mobilizou o país
31:51e levou o presidente João Figueiredo
31:53a sancionar a lei da anistia.
32:02A lei permitiu o retorno dos exilados
32:04e anistiados à vida política.
32:06Por outro lado,
32:07garantiu a impunidade
32:08de todos os agentes da ditadura
32:10por seus crimes.
32:21A ditadura brasileira
32:22teve total controle da transição.
32:26A ditadura no Brasil foi muito longa,
32:29foi uma ditadura também que se utilizou
32:31do sistema jurídico para se institucionalizar.
32:33Então, havia uma naturalização
32:36como se fosse uma suposta normalidade institucional.
32:41E uma outra característica da ditadura brasileira
32:43que diferencia muito, por exemplo, do Chile.
32:46Não tinha um ditador para chamar de seu.
32:48Aqui houve a modificação,
32:50houve uma sucessão de militares
32:53que assumiram a presidência.
32:54Assim, como eles se associaram
32:56com a elite brasileira
32:58para fazer o golpe,
32:59esses mesmos militares
33:01com essa mesma elite
33:02vão fazer a transição.
33:03E aí, qual é o grande pacto construído?
33:06É o pacto do esquecimento
33:08e da impunidade.
33:15Quando o Estado repressor,
33:18quando percebe que seu regime
33:20está colapsando,
33:21autoanistia os seus responsáveis
33:23por violações de direitos humanos.
33:25A Corte Interamericana
33:25faz uma análise muito importante
33:27sobre as leis de anistia
33:28e as chamadas leis de autoanistia
33:31e as declara inválida.
33:32Todo crime contra a humanidade
33:34é imprescritível,
33:36ou seja, o tempo não importa,
33:38porque são crimes tão graves
33:39que a passagem do tempo
33:41não pode impedir a punição.
33:43E, além disso,
33:44são crimes cometidos pelo próprio Estado.
33:47Então, o Estado é capaz
33:48de usar várias ferramentas
33:50para garantir a impunidade.
33:51E também que não era passível
33:53de serem anistiados.
33:54Não tem lei de anistia
33:56que possa perdoar crimes contra a humanidade.
33:58O Brasil só vai passar
34:00a discutir
34:04uma reparação para vítimas
34:06a partir de 1994,
34:08nove anos após
34:09a queda do último governo militar,
34:11o fim do último governo militar,
34:13que não foi nenhuma queda abrupta,
34:14foi por uma eleição.
34:15Quando o Figueiredo, então,
34:18termina o mandato dele
34:19e vai ter o Sarney,
34:21nada mais simbólico
34:23do que a continuidade
34:24que o primeiro presidente
34:25tenha sido o Sarney,
34:27vice de Tancredo.
34:28Sarney, para quem não conhece,
34:31ele era o líder do partido da Arena,
34:33que era o partido de sustentação
34:34dos militares no Congresso.
34:36Então, ninguém mais ligado
34:38aos militares
34:39do que o primeiro presidente civil
34:41para conduzir essa transição
34:43tão amarrada.
34:44Então, 94 vai ter
34:47quando com a Lei 9.140,
34:49que cria a Comissão Especial
34:50sobre Mortos e Desaparecidos,
34:52era uma resposta
34:53muito limitada
34:54àqueles movimentos
34:56de familiares organizados,
34:58do lado urbano,
35:00da militância urbana,
35:03armada ou não armada,
35:05que teve de resistência
35:07à ditadura.
35:08E a primeira coisa
35:10é que garante uma indenização.
35:13porque a ideia
35:14sempre foi muito
35:16de troca.
35:17Eu até indenizo,
35:19mas eu não rompo
35:20com o pacto
35:21da impunidade
35:22e do esquecimento.
35:45Os filhos dos agentes
35:47da repressão
35:48também tentam elaborar
35:49os traumas deste período.
35:55Filho de militar,
35:56Caio Ramos,
35:57sempre acreditou
35:58que o pai estava
35:59do lado certo
36:00quando defendia o regime.
36:05Ali é o Marahope, né?
36:08Ele está encalhado aí
36:10desde o início
36:11dos anos 80,
36:13a primeira vez.
36:14e eu tenho uma memória
36:16muito, muito,
36:17muito, muito antiga
36:18com ele,
36:18de infância,
36:19primeira infância.
36:21Minha avó
36:22dizia para mim
36:23que esse navegou
36:24do meu pai.
36:25E eu acreditei
36:26durante muito tempo.
36:28E depois eu fui entender
36:29por que ela falava isso.
36:30Porque meu pai
36:31trabalhou muito tempo
36:32no serviço de embarque,
36:34fazendo a logística
36:35de transportar os militares.
36:37Então ele passou
36:38muito tempo
36:38da vida militar dele,
36:39mesmo sendo do exército,
36:40embarcado.
36:47esse lugar
36:48fala muito comigo.
36:49Acho que ele fala muito
36:49sobre como a gente,
36:52enquanto o Brasil,
36:52se relaciona com a memória.
36:55Esse despedaçado,
36:56esses fragmentos,
36:57esse abandono,
36:58aquele negócio imenso
37:00que está ali
37:00se despedaçando,
37:01que está sangrando.
37:02A gente está
37:04fingindo que não está ali.
37:05Mas está.
37:06Está aqui.
37:21Eu nasci
37:22quase 30 anos
37:25depois do golpe.
37:26E ainda era
37:27um tema
37:27muito presente
37:28na minha família,
37:29mas jamais como golpe.
37:30Era a revolução.
37:31Tinha sido
37:32a revolução brasileira.
37:34A comissão, na verdade,
37:35mexeu muito comigo.
37:35Eu estava no final
37:36do ensino médio.
37:37Eu disse,
37:37cara, eu tenho que mergulhar nisso,
37:39porque o meu pai
37:39é a pessoa que eu mais admiro,
37:41que eu mais amo no mundo.
37:41Como assim?
37:42Como assim?
37:43Houve tortura
37:44e ele estava lá.
37:45Então eu fui para a história.
37:52O que eu sinto
37:54que está comigo
37:54e que está com os meus primos,
37:57o meu irmão,
37:58e que está com todo mundo
37:59que veio desse mesmo lugar
38:00que eu vim,
38:01é o dano transgeracional.
38:02É os crimes
38:03que os nossos antepassados,
38:06os nossos pais,
38:08cometeram
38:08e que está com a gente ainda.
38:10E terapia não dá conta disso.
38:15Eu entrei na universidade
38:17com o compromisso
38:17de tentar entender
38:18esse passado
38:19do qual eu senti orgulho.
38:21Nessa busca,
38:23foi como um castelo de cartas
38:24se desmanchando.
38:26Eu fui vendo
38:26que tudo que eu havia ouvido
38:27em casa
38:28não batia com fatos históricos.
38:30Mas,
38:31mesmo me recusando
38:32a acreditar em certas coisas,
38:33a vasta documentação
38:35sobre o tema
38:35não me deixava dormir sossegado.
38:37De jeito nenhum.
38:40A história me ajudou muito,
38:42me ajudou muito,
38:43mas não era o lugar
38:44para eu elaborar isso.
38:48E eu me matriculei
38:51num curso chamado
38:52de narrativas cinematográficas.
38:56O filme que eu estou fazendo
38:58é sobre os agentes da repressão,
38:59mas é também um ensaio
39:01de um herdeiro
39:02que não aguenta mais,
39:03que sente a necessidade
39:04de falar sobre isso.
39:05é a exposição também
39:07da minha desconstrução,
39:08é a forma como
39:09a radicalização do Brasil
39:11me radicalizou.
39:13Meu pai era militar,
39:15ele era coronel,
39:17e ele sempre me dizia,
39:19meu filho,
39:20o homem nasceu
39:21para proteger a mulher
39:23e as crianças.
39:25Jamais deve agir
39:27violentamente
39:28contra a criança
39:28ou contra a mulher.
39:29E eu tinha acabado
39:30de matar um homem.
39:34então essa cena
39:34me chocou profundamente.
39:37Passei muito tempo
39:38tentando pesadelo,
39:39eu fechava os olhos
39:39e via aquele rosto na minha.
39:41Bem, mas
39:44não foi porque eu quis,
39:45eu não sabia que tinha.
39:47E mesmo se eu soubesse,
39:48eu teria agido
39:49da mesma maneira,
39:50porque a minha missão
39:51era não deixar ninguém
39:51escapar dela.
39:56Eu acho que a gente
39:57tem que usar
39:57todas as estratégias
39:59possíveis
40:01para primeiro sobreviver.
40:02Eu acho que o primeiro
40:03de tudo é isso,
40:03é sobreviver.
40:05Parte de mim entende
40:08que a negação
40:09é uma estratégia
40:09de sobrevivência
40:10e a arte
40:11não permite
40:12essa negação.
40:49e a arte
40:56Nós que fazemos parte do coletivo Aparecidos Políticos, a maioria nasceu no final dos anos 80, começo dos anos 90.
41:04A gente vem trabalhando basicamente com obras nas ruas, com arte urbana, através dos rebatismos, através da renomeação de ruas,
41:14através da instalação de lambes, através da aplicação de extensos, de performances.
41:22Em 2015, a gente demarca um outro momento, que é a elaboração da maior cartografia sobre o tema aqui na
41:33cidade de Fortaleza.
41:35Nessa cartografia, é possível identificar que Fortaleza é uma cidade que cultua muito a memória militar.
41:42Durante a minha vida escolar, na educação básica, eu nunca tive acesso a informações das estratégias utilizadas pelo regime militar.
41:54Eu não conheci Freitito na escola. Ninguém no coletivo aprendeu sobre isso.
42:00Ninguém sabia quem era Davi Capistrano. Ninguém sabia quem era Betson Gujão.
42:06Isso para citar os cearenses, que a gente tem a obrigação de saber e de carregar essa memória e de
42:14reescrever essa história.
42:22Bergson Gujão era estudante universitário e aderiu à Guerrilha do Araguaia na luta contra a ditadura.
42:28Ele foi executado durante uma operação do exército.
42:32E 37 anos depois, seus restos mortais foram devolvidos à família em uma cerimônia na Universidade Federal do Ceará.
42:56Aqui é o Espaço Cultural Betson Gujão Farias, que é justamente sobre o movimento estudantil aqui na Universidade Federal do
43:02Ceará,
43:02retratando esse período de resistência à ditadura militar, esse contexto também que teve de luta armada, de abertura democrática depois.
43:11O Bergson Gujão foi um desaparecido político, que foi encontrado em 2009, depois de 37 anos de busca pelos restos
43:20mortais, pelos seus familiares.
43:22Então é um local muito forte, porque aqui teve a presença do Bergson em corpo, depois de 37 anos do
43:29seu desaparecimento.
43:29E eu tive presente nessa cerimônia de velamento do Bergson.
43:33Eu até poderia dizer que o coletivo Aparecidos Políticos, ele se inicia a partir desse acontecimento histórico,
43:39que foi um momento muito forte, eu me emocionei bastante.
43:43Eu era apenas um estudante universitário, de movimento estudantil, que não tinha tanto apressa ao tema da ditadura militar.
43:50Então quando eu tive presente nessa cerimônia, foi muito impactante para mim como pessoa.
43:55E aí depois que eu saí aqui da UFC, eu fui percorrer a cidade, voltei para a casa de ônibus,
44:01passei ali pela Avenida Boschimelo,
44:04ao lado do CSU Presidente Médici, que é um centro que fazia homenagem ao ditador.
44:10E também ao lado do CSU Presidente Médici tinha uma escola chamada, uma creche chamada Presidente Médici.
44:16E aí isso mexeu muito comigo, eu perguntei como que as pessoas não sabiam quem era essa pessoa que estava
44:22sendo homenageada aqui no UFC,
44:23mas, por outro lado, a própria cidade, nos seus logradouros públicos, fazia referência a um ditador.
44:30Da Guanabara, com honras de chefe de Estado, procede seu traslado para o Ceará dos restos mortais do ex-presidente
44:37Castelo Branco
44:38e de sua esposa, dona Argentina Viana Castelo Branco.
44:41É a última viagem até a Terra Natal.
44:56É o mausoléu do Marechal Castelo Branco, onde os restos mortais dele foram colocados durante muito tempo.
45:04Acho que é o maior monumento a um ditador na América Latina, que pela primeira vez está sendo questionado.
45:11Não é para estar ali, não é para ter memorial de respeito, não.
45:23Ao longo desses 14 anos de atuação do coletivo Aparecidos Políticos, nós realizamos algumas intervenções naquele espaço
45:32que, para nós, é o maior símbolo de que não houve um processo de justiça de transição, também a nível
45:42local.
45:43Ter um prédio que homenageia um ditador desde 1972 e que se mantém até hoje é muito simbólico.
45:52É a sede também do governo estadual, é a sede do poder executivo.
45:57Então é uma situação muito peculiar e determina o quão atrasados nós estamos nesse processo da luta por memória, verdade
46:06e justiça.
46:08No antigo mausoléu, agora transformado na Galeria da Liberdade, participei de uma homenagem aos mortos e desaparecidos.
46:26Custódio Saraiva Neto
46:29Duleik Angel
46:32Duleik Angel
46:34Dércol Burjão Parias
46:36Dredente
46:38Dredito
46:39Rubens Paiva
46:41Dredente
46:52Rebanchismo não serve pra nada
46:54Porque você não é pessoa contra pessoa
46:58É ideias contra ideias
47:00É como uma sanfona
47:03O assunto sempre vai e volta
47:05Não se fez a justiça
47:07Que nem vai se fazer mais
47:09Porque as pessoas estão praticamente
47:11Já morreram quase todos
47:13Não conheço mais nenhum dos
47:17Grandes torturadores
47:19Que estejam vivos
47:21Talvez os últimos estejam morrendo por agora
47:25Eu acho que
47:28O julgamento dessas pessoas
47:30Vai ter que ser feito pós-mortem
47:32Vai ter que ser feito pela história
47:42Pra você superar um legado de um Estado autoritário
47:47Você precisa de doses cavalares de coisas boas
47:50De energias constitucionais democráticas
47:53E é isso que esse processo faz
47:55E o Brasil não fez
47:56Nenhum dos governos brasileiros pós-ditadura
48:00Efetivamente atuou para superar o legado teatral
48:05Segue achando que o esquecimento vai ser remédio
48:08Não é remédio
48:09Isso está comprovado
48:10Não tem solução
48:11Sem limpar a ferida
48:14Ela nunca vai curar completamente
48:23A gente está muito aquém
48:25Do nosso processo de elaboração
48:28Das nossas memórias traumáticas
48:30Como sociedade
48:31Então a gente precisa de fato discutir
48:34E entender que a memória
48:36Ela é fundamental para a construção da democracia
48:43Precisamos continuar sim
48:45Mostrando, lembrando
48:46Não podemos deixar de forma alguma
48:49Que isso seja esquecido
48:50Essa é a verdadeira história
48:52Que a gente precisa lutar
48:53Para que isso nunca mais aconteça
48:55Com nenhuma família brasileira
49:42Não podemos deixar de forma alguma
49:45Amém.
50:16Amém.
50:45Amém.
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