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  • há 2 dias
"Operação Camanducaia” mistura os estilos de road-movie, investigativo e filmes de diálogos para contar uma história de 1974, que foi esquecida por nossa memória coletiva. Naquele ano, aproximadamente 93 crianças e adolescentes foram arbitrariamente presos pela polícia de São Paulo e levados clandestinamente para Minas Gerais. A história causou conflitos diplomáticos e chocou a sociedade da época.
Transcrição
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00:02:00Eu imagino que foi mais ou menos esta a visão que os garotos tiveram em 1974
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00:02:09Nuz e famintos eles chegavam de todos os lados e logo cercaram um posto
00:02:16Música
00:02:18Em pouco tempo a cidade inteira ficaria em alvoroço
00:02:24Música
00:02:32Daquela noite restaria apenas uma história turva
00:02:35Que descobri no livro Infância dos Mortos em 2010
00:02:40Música
00:02:41Seu autor dizia ter sido censurado pela ditadura
00:02:45O que me fez imaginar o que nunca chegou a ser dito
00:02:50Música
00:03:09Durante anos
00:03:10Quanto mais eu pesquisava
00:03:13Mais estranha se tornava aquela história
00:03:17Música
00:03:18Então fui a cama do Caia pela primeira vez
00:03:22Música
00:03:24Eu buscava um caminho para aqueles garotos
00:03:26Música
00:03:28Para descobrir o que eles passaram
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00:03:31E viram
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00:04:19Tiago, tudo bem?
00:04:21Tudo bem?
00:04:24Tudo bem?
00:04:25Tranquilo.
00:04:27Vamos tratar da boiada?
00:04:33A filha do senhor estava junto?
00:04:35Estava.
00:04:36Ela nunca tinha ouvido falar da história?
00:04:37Não. Ela era...
00:04:40Nem casada na época ainda.
00:04:42Mas passou tanto tempo que nunca contou a história?
00:04:45Não, eu sempre comentava, mas falava assim,
00:04:47ele era o lado do pai e o pai estava inventando ainda.
00:04:50E era a realidade mesmo.
00:04:51Mas não tinha contado?
00:04:52Já.
00:04:53Aí o pessoal, as meninas achavam,
00:04:55mas o pai inventou uma boa ainda.
00:04:58Mas não era nada, era a realidade mesmo.
00:04:59Eu compro a coisa.
00:05:03Você vê 90 menores chegando num restaurante.
00:05:06Você com oito funcionários lá dentro.
00:05:11Você tomar uma decisão imprevisível assim,
00:05:15de uma hora pra outra.
00:05:16E eles queriam invadir o restaurante
00:05:18pra pegar a toalha de mesa.
00:05:20E pra se cobrir, né?
00:05:22Tá tudo nu.
00:05:23Mas chegou até algum confronto?
00:05:25Não.
00:05:26Eles obedeceram.
00:05:27A hora que nós enfrentamos, eles obedeceram.
00:05:30Aí ficou uns 20 lá.
00:05:32Uns 20 meninos ficou.
00:05:34O senhor lembra de algum nome?
00:05:35Nenhum.
00:05:36Na hora do desespero daquilo,
00:05:38que você está ali pra resolver o problema daquilo,
00:05:40você nem pergunta, né?
00:05:41Eu tenho algumas fotos ali,
00:05:43será que o senhor olhando?
00:05:44Não lembro.
00:05:45Não consegue.
00:05:47Vamos tentar?
00:05:48É, pode ter...
00:05:49Posso pegar?
00:05:50Pode pegar.
00:05:51Mas é muito difícil.
00:05:52Tá, minutinho.
00:05:53Porque meninos de 13,
00:05:55tinha de 13 anos, tinha também.
00:05:5713, 14 anos, 12.
00:06:07Aí é tudo menor, tudo com os olhos tapados, né?
00:06:21Mas rapaz, essa meninária aqui,
00:06:22deve ter morrido quase todo mundo, não?
00:06:25Não dá pra lembrar de ninguém olhando assim.
00:06:27Não dá, não tem como.
00:06:32Já são, não?
00:06:33Esses, é...
00:06:34Tem mais uma aqui?
00:06:35Tem mais uma?
00:06:36Se o senhor lembra dele.
00:06:42Manoel...
00:06:43Motorista da Transu.
00:06:44Ah, rapaz, é o Mané.
00:06:47É isso que levou, molecada?
00:06:49Conhece?
00:06:50Demais da conta.
00:06:51Mané.
00:06:52É Manoel, mas nós chamamos de Mané, né?
00:06:55Tem contato dele?
00:06:57Rapaz do céu, posso até descobrir pra você.
00:07:01Mas vai ser meio difícil.
00:07:24Boa tarde.
00:07:25Boa tarde.
00:07:25Por favor, acaso, é o senhor Manoel?
00:07:27Manoel?
00:07:29Mo...
00:07:29É...
00:07:30Calma, né?
00:07:32A esquerda, né?
00:07:33Passa aí.
00:07:33A vermelha?
00:07:38Boa tarde.
00:07:40O senhor Manoel?
00:07:41Isso.
00:07:41Senhor Manoel, o senhor...
00:07:43Foi motorista da Transu?
00:07:45Era.
00:07:46Era?
00:07:46Aposentei.
00:07:47O senhor trabalhava na Transu em 74?
00:07:5174.
00:07:52Vai dizer que é...
00:07:53Vai dizer que é do...
00:07:55Do...
00:07:56Dos trombadinhas lá.
00:07:58O senhor falou 74, né?
00:08:00Foi eu.
00:08:01Lembrou na hora.
00:08:02Sabe o que que lembrou do senhor?
00:08:04O João...
00:08:05Do cometa, pós-cometa, João Garçom?
00:08:08Ah, sei.
00:08:09O senhor anda sumido.
00:08:10É.
00:08:11Pra aparecer lá.
00:08:12É, era o pós-cometa.
00:08:14É.
00:08:15No...
00:08:16No dia que aconteceu, ele falou...
00:08:19Não lembro se é o senhor exatamente, que estaria dormindo no...
00:08:23Estava dormindo no ônibus ou não?
00:08:25Não, não.
00:08:25Eu tinha feito a linha Patajubá e estava retornando vazio, né?
00:08:29Que a gente faz, que é carro extra.
00:08:32Estava retornando vazio.
00:08:33Parei no poço-cometa, fiz um lanche.
00:08:34Quando eu chego no poço-cometa, eu vi aquele tanto de garotada...
00:08:38Tudo nu, certo?
00:08:40Pegando a toalha do poço.
00:08:42Pondo no corpo, né?
00:08:44Aí...
00:08:44Pediram pra mim ir em Camanducaia pra...
00:08:47Eles se arrumavam ajuda lá, PM.
00:08:50Aí cheguei lá, peguei um cabo e um soldado...
00:08:53Pra ir pegando eles lá no poço e ir na estrada.
00:08:57E dentro do ônibus, o senhor conversou com eles?
00:09:01Contaram alguma história? Como foi parar lá?
00:09:04Não, não.
00:09:04Não, não.
00:09:06Eu também estando dirigindo como um...
00:09:07Nem conversou.
00:09:09Alguma coisinha.
00:09:10Tinha uns dois ficado na escada e eu perguntei, né?
00:09:12Não sei se são.
00:09:12Ah, nós viemos em São Paulo.
00:09:14Os policial pôs lá dentro do ônibus...
00:09:16E o senhor entrou na cama do Caia.
00:09:18Diz que ia dar fé bem.
00:09:21Eu não fiquei sabendo se era ou não.
00:09:25Mas é a parada da Transur, né?
00:09:27Foi?
00:09:27Faz tantos anos.
00:09:29É, pra não esquecer.
00:09:31Será que o pessoal aqui conhece essa história, por exemplo?
00:09:33Não.
00:09:34Não?
00:09:35Não.
00:09:36Não.
00:09:37Acho que não, né?
00:09:40Assustou muito quando lhe contou a história?
00:09:43É, gente. Assustou.
00:09:44Porque vai, né?
00:09:46Que entra no mato, assim, pra pegar.
00:09:49Né?
00:09:51Foragido, assim, é perigoso, né?
00:09:58Eles não eram foragidos, mas eles...
00:09:59Eles eram o quê, então?
00:10:01A turma que queria foragir com eles.
00:10:03Ah, deu fim, né?
00:10:05É, é a pessoa que queria dar fim neles e soltá-la, né?
00:10:10Logo em Minas Gerais.
00:10:27Engraçado, a gente sempre comenta aqui que de vez em quando aparecem vários cachorros de rua.
00:10:37Muitos cachorros de rua, sempre, sempre, a vida inteira.
00:10:39E a gente sempre ouviu falar que despejam cachorros de rua em Camanducaia.
00:10:46E a gente até já comentou, nossa, tanto despejam cachorros quanto garotos, né?
00:10:54E vocês sabiam o que tinha acontecido?
00:10:58Não!
00:10:59Até hoje, não sei.
00:11:01É uma nebulosa.
00:11:04O prefeito falava pro papai,
00:11:06vamos mandar essa meninada
00:11:08pra devolver pra São Paulo.
00:11:10O papai falava, pra onde?
00:11:13Os meninos não sabiam falar o que tinha acontecido.
00:11:17Não sabiam que lugar era aquele.
00:11:19Por que?
00:11:21Não, nada.
00:11:23Por que que estavam machucados?
00:11:24Por que que apanharam tanto?
00:11:25Foram quebrados, massacrados.
00:11:29Aí meu pai já se comunicou com meu cunhado,
00:11:31tio dela, que era médico.
00:11:33Os mais machucados foram levados pra lá
00:11:36e os outros foram levados pra delegacia.
00:11:40Delegacia muito diminuta, lotaram delegacia.
00:11:44Aí começou, o papai começou a pedir que se movimentassem,
00:11:51falassem com as mulheres, que ajudassem,
00:11:55que eles estavam famintos, eles estavam congelados,
00:11:59eles estavam descalços e essa parte precisava ser muito cuidada.
00:12:04Eu teve um que eu conversei com ele, ele tinha três mortes.
00:12:09Um dos que eu levei pra lá, tinha três mortes, devia ter o quê?
00:12:14Uns 14 anos, por aí, aparentemente.
00:12:19Aparentemente.
00:12:19Como ele era, membro da aparência dele?
00:12:22É, é, é.
00:12:24É meio moreno, no, no, no, no, parto.
00:12:28Parto.
00:12:30Sobre a recorrência a algum deles?
00:12:34Ah, não dá pra conhecer muito tempo, né?
00:12:38Ah, não dá.
00:12:38Engraçado que é uma coisa que a Mandukaia,
00:12:40eu, eu sempre falei isso, que a Mandukaia tem,
00:12:43motiva pouco a memória.
00:12:46Muito pouco.
00:12:49A repercussão aqui mesmo de que a Mandukaia foi muito pequena.
00:12:52Ah, não, na época foi grande também.
00:12:54Não, não, grande assim, foi uma repercussão, mas momentânea ali.
00:12:59Eu acho assim, não teve tanto que eu acho que...
00:13:02Não teve essa percepção política em torno do fato.
00:13:07Não teve essa ligação com o que estava acontecendo nos grandes centros,
00:13:13esses seres que na cabeça deles não chegava a ser nem gente, né?
00:13:20Pra tomar uma atitude dessa.
00:13:21E aí
00:13:48Não teve essa ligação com a Mandukaia.
00:13:51Não teve essa ligação com o que estava acontecendo, né?
00:13:51Amém.
00:14:21Amém.
00:14:52Eu vou mostrar pra você porque que eu falo pra você que eu preciso de um nome, tá?
00:15:00Mas...
00:15:02Esse daqui seria o de Gartório Crime, só que esse aqui já tá no ano 79, porque o outro
00:15:08ano tá lá.
00:15:09Ó, o nome do réu.
00:15:11Tá vendo?
00:15:12É tudo por nome, ó.
00:15:13José, Ivo, ó.
00:15:16Ó, tudo por nome.
00:15:21As noras, eu acho que o que eu tenho deles não estão aqui.
00:15:26Você tem várias?
00:15:27Eu tenho algumas iniciais, na verdade.
00:15:29Ok.
00:15:30E o que tem de inicial?
00:15:32Porque como todos os menores, ele abreviou e...
00:15:41Moro?
00:15:43Alô?
00:15:57E as roupas que vocês pegaram pros meninos, vocês chegaram a costurar alguma coisa?
00:16:04Chegou, chegou, tá na máquina, não dava certo, cortava e fazia e... é assim.
00:16:13Há pessoas que disseram que talvez um dos meninos tivesse ficado em Camanducaia, até criado
00:16:21família.
00:16:23A senhora ouviu alguma coisa desse tipo?
00:16:25Não.
00:16:28Não.
00:16:30Eu não ouvi, não.
00:16:32Mas falaram pra você?
00:16:35A comentário, a boatos.
00:16:38Ah...
00:16:39Ai, eu não...
00:16:41Essas coisas aí eu não ouvi, não.
00:16:44Lembra do rosto de algum dos meninos?
00:16:47Não.
00:16:49Não lembro, sabe por quê?
00:16:50Bem, a gente vivia mais embriagado na época, sabe?
00:16:55É verdade.
00:16:57A gente vivia assim...
00:17:00A gente bebia muito naquela época, então a gente não...
00:17:04Não memorizava nada.
00:17:07Era pra ajudar, a gente ajudava, né?
00:17:10Mas memorizar as pessoas, assim, nem as pessoas que iam durante a noite lá, que...
00:17:16né?
00:17:16A gente não...
00:17:20Agora chegar lá todo dia, lá, chega um, chega outro.
00:17:24Ai, quer beber com a gente.
00:17:26Outro quer, né, fazer programa.
00:17:29E daí fica muito difícil.
00:17:32Então tem que ser na base da bebida mesmo.
00:17:35Tem que beber.
00:17:38Pra dar coragem, senão não dá.
00:17:43Difícil, né?
00:17:45Você entendeu?
00:17:52Fernando, só pode...
00:17:53Ah, aliás.
00:17:54Achei um dos meninos.
00:18:01Foi aqueles meninos?
00:18:02Uhum.
00:18:03Vai lá.
00:18:05Olha só!
00:18:09Sabe onde que é isso?
00:18:10Na cadeia aí, de cima do Caio.
00:18:12Na cadeia?
00:18:13Uhum.
00:18:16Olha só, gente.
00:18:24Aqui tá o garoto.
00:18:27Olha só, gente.
00:18:35Aqui tá o garoto.
00:18:44Aqui tá o garoto.
00:18:45Você lembra do episódio?
00:18:46Não.
00:18:47Não, não lembro.
00:18:47Só 75?
00:18:5074?
00:18:5074.
00:18:52Tem um aí que eu falei pra você.
00:18:54Eu só sei mais ou menos.
00:18:56O apelido dele é alemão.
00:18:58Ele tem uma oficina.
00:18:59Quinta mão do Caio.
00:19:00Pode ser que tem um...
00:19:01Mudou aqui cinco, já faz sete meses, como o avô faleceu, né?
00:19:05No bairro de uma condição.
00:19:05Ele é um dos meninos.
00:19:07É um dos meninos.
00:19:08Que morou...
00:19:09Que mora aqui em Campo do Caio.
00:19:11E ele ficou desde essa época?
00:19:13É, desde essa época.
00:19:13Ele ficou aqui.
00:19:17Eu não sei, ele não falou pra mim.
00:19:18Ele não contou a história?
00:19:19Ele não contou a história.
00:19:20Apenas falou pra mim que ele foi um dos meninos que meu avô ajudou.
00:19:23Alemão.
00:19:24É, o apelido dele é alemão.
00:19:26Vó, a senhora conhece alemão?
00:19:29O que é?
00:19:30O alemão.
00:19:31O que é?
00:19:32O alemão.
00:19:32Ele é um dos meninos, não é?
00:19:34É.
00:19:34Ele é pra você?
00:19:35E ele mora na onde?
00:19:38De onde que ele mora?
00:19:40Acho que morreu...
00:19:41Não, ele morreu não.
00:19:42Ele veio aqui.
00:19:42Ele morreu de sete meses pra cá.
00:19:44Ele veio aqui.
00:19:46Você lembra que ele veio de Campo do Caio morreu?
00:19:51Alô?
00:19:53Alô?
00:20:02Sim.
00:20:03É pra você.
00:20:07É pra você.
00:20:07Eu não lembro.
00:20:09Não lembro.
00:20:11Eu não lembro.
00:20:23Será que tem outro, sabe?
00:20:26Não tem mais nenhum menino que mora aqui.
00:20:33Oi, boa tarde. Escola Onofre Vargas.
00:20:36Escola Onofre Vargas.
00:20:38Olá!
00:20:39Escola.
00:20:40Vargas?
00:20:41É Onofre Vargas.
00:20:42Você passou já.
00:20:43Ah, passei?
00:20:43Passou já.
00:20:44É nessa rua mesmo?
00:20:45É, nessa rua em Barclay.
00:20:46O senhor conhece o alemão da oficina?
00:20:48Ele mora ali.
00:20:53Você tá voltando?
00:20:56Tá.
00:20:58Tudo bem?
00:20:59Calma aí, mano.
00:20:59Vai devagar.
00:21:00Eu sou o Thiago.
00:21:01Prazer, amor.
00:21:04É...
00:21:05A gente passou agora a pouco a casa do senhor e do tio Faridias.
00:21:08A gente tá fazendo...
00:21:09Já tô sabendo que ele falou pra mim antes de morrer.
00:21:12Você tinha ido lá já, não tinha?
00:21:13Tinha.
00:21:14É, ele falou pra mim antes de morrer, já tinha falado.
00:21:16Eu tinha falado?
00:21:17É.
00:21:18Eu não sei se é você.
00:21:19Esse eu queria confirmar.
00:21:20Sim.
00:21:21Eu não era meu pai.
00:21:24Seu pai?
00:21:25Que tava no ônibus.
00:21:26Seu pai tava no ônibus?
00:21:28Faz tempo, hein, bicho?
00:21:30Eu era desse tamanhinho assim.
00:21:32Não sei que tava no ônibus, não, né?
00:21:34Não.
00:21:36Era muito amigo do meu pai.
00:21:37Foi em três, eles tavam em três.
00:21:38Mas seu pai era quem?
00:21:39Trabalhava na graminhola.
00:21:40Trabalhava na polícia, né?
00:21:42Ah, seu pai trabalhava na polícia.
00:21:43Trabalhava na polícia.
00:21:44Trabalhava na polícia.
00:21:44Agora é moleque, eu lembro.
00:21:45Meu pai falou, vou pro Bahia levar a molecada.
00:21:48Minha mãe ficou chupar chateada.
00:21:49Porra, não vai, porque não tá acostumado a viajar sozinho.
00:21:51Sempre com a minha mãe junto, né?
00:21:53Aí minha mãe ficou super chateada e tal.
00:21:55Ele falou, não, mas nós vamos levar a molecada que tá dando problema.
00:21:58Já deu três chances pra eles.
00:21:59Que se eu prender a molecada, aí liberaram.
00:22:02Aí, falou, vocês aprontaram de novo, nós vamos levar vocês embora.
00:22:05Soltou a molecada.
00:22:06Aprontaram de novo.
00:22:07Prende a PM, prendeu.
00:22:08Foi tudo pra delegacia de novo.
00:22:09Aí eu falei, aí na terceira vez, o delegado já tava meio, acho que, meio alterado, né?
00:22:17Falou, meu, vamos pegar todas as delegacias, todas as molecadas que não trabalham e vamos
00:22:19levar embora.
00:22:20Vamos.
00:22:21Da onde você é?
00:22:21Da Bahia, da Bahia, da Bahia, da Bahia, da Bahia, da Bahia.
00:22:23Lotou o ônibus com a molecada da Bahia e vambora.
00:22:25Chegando aqui, o ônibus deu problema no ônibus.
00:22:28Aí eles viraram pra entrar no Cometa pra ver o que que era, ver se arrumava o ônibus ou não.
00:22:32Quando abriram a porta, a molecada demandou.
00:22:35Falou, bom, já que desceram, vambora.
00:22:36Ganharam o ônibus e ganharam embora.
00:22:38Essa é a história que eu sei desde que eu ouvi do meu pai.
00:22:42E seu pai teve alguma punição?
00:22:44Ah, rapaz, responderam uma sindicância a todos eles.
00:22:49Foi meu pai mais dois lá.
00:22:50Teve um delegado também na época que entrou junto.
00:22:53Todo mundo respondeu.
00:22:55Teve uma punição pra todos eles lá.
00:22:57Agradeço aí as informações.
00:22:59Trocamos um pouco aí, achei que ia encontrar um dos garotos e encontrei o...
00:23:04Já tô velho pra ser o garoto.
00:23:07Tchau!
00:23:08Tchau!
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00:27:58Tchau!
00:28:22O Liberatore disse na ocasião que o ânimos quebrou, os menores se rebelaram, tiraram
00:28:30as roupas, expulsaram os policiais e saíram correndo.
00:28:33Te parece crível?
00:28:36Não quero nem emitir opinião a respeito, que é uma mera conjectura.
00:28:42Não sei, mas a informação que nós recebemos foi essa, que o ônibus quebrou antes de os
00:28:49menores chegarem ao destino deles, onde estava planejado, e eles tiveram que se livrar deles
00:28:54no meio da estrada, de madrugada.
00:28:56E o que aconteceu naquela noite?
00:28:58O que o senhor presenciou?
00:29:00Nada.
00:29:01No DEIC, eu era o delegado de plantão, e a equipe que estava encarregada de fazer o transporte
00:29:10desses, eram menores e maiores ao que estavam recolhidos.
00:29:14Eles entraram no DEIC e retiraram todo mundo, colocaram em um único ônibus e foram embora.
00:29:20Mas o que eles falaram?
00:29:22Nada.
00:29:23Nada.
00:29:24Nada.
00:29:25Eu não tinha responsabilidade nenhuma.
00:29:27Eles retiraram os menores direto da carceragem.
00:29:30É comum a movimentação desses números presos no plantão?
00:29:34Ah, é grande a movimentação, né?
00:29:36Hoje está tudo alterado.
00:29:38Hoje não se recolhe mais ninguém, como recolhia naquela época.
00:29:40Na época era comum.
00:29:42Na época era comum.
00:29:43E se fazia isso sem apresentar ao delegado de plantão nenhum documento?
00:29:47Não.
00:29:48Algum delegado era responsável pelo recolhimento do preso.
00:29:52Fosse do plantão ou fosse da delegacia.
00:29:55Mas o que estava de plantão no momento da movimentação,
00:29:58você vai movimentar 100 presos?
00:30:00Para ele não era apresentado nenhum documento?
00:30:03Nenhum.
00:30:05A apresentação da liberação era feita diretamente ao carcereiro.
00:30:10A medida em que ele recebia a recolha assinada pelo delegado colocando em liberdade,
00:30:17ele põe em liberdade.
00:30:19Então a liberação verbal foi a ordem que ele recebeu de alguém.
00:30:23E que não era eu.
00:30:24Como é que eu vou soltar preso?
00:30:25Não sou louco.
00:30:38O promotor analisou tivesse os fatos, inclusive também,
00:30:42nesse primeiro momento de sindicância.
00:30:45que foram juntadas declarações dos investigadores
00:30:48que prestaram depoimento na primeira sindicância realizada na polícia.
00:30:52E que, ao fim, com novos depoimentos dos mesmos implicados nesta corrigidoria,
00:30:57se demonstrou ter sido preparada e arrumada para isentá-los de toda e qualquer responsabilidade,
00:31:03recaindo esta tão somente sobre um escrivão de polícia tido até então como chefe da operação.
00:31:11Eu não sei. O fato é que o caso foi arquivado.
00:31:15Até que não levar em consideração isso tudo, né?
00:31:19Foi para o Tribunal. O Tribunal de Justiça decidiu em acordo que roubo em liberatório.
00:31:25Nada tinha a ver, nem eu, nem os outros delegados.
00:31:28Foi para o arquivo.
00:31:29Não houve nenhuma orientação do liberatório para que a sindicância apontasse o alívio?
00:31:35Não, absolutamente não houve, não.
00:31:41Porque eu não aceitaria, né?
00:31:45Chegou a haver os menores presos em Camarocaya?
00:31:48Não, não sei.
00:31:49Não?
00:31:50Em Camarocaya, desculpa, no fake?
00:31:52Não.
00:31:53Era comum que menores presos lá?
00:31:55Era.
00:31:57Era.
00:31:59Era tudo bandidinho, sabe?
00:32:03Fazia horrores, barbarizavam por aí.
00:32:05Acho que todos eram.
00:32:08Não, porque eu não sei.
00:32:10Eu vi uma porção lá algumas vezes, duas vezes.
00:32:23Deve um juiz que tentou reabrir o processo, abriu depois.
00:32:27Era um defeituoso, não me lembro.
00:32:29Defeitooso.
00:32:30Era aleijado, coitado.
00:32:33Esse juiz, eu esqueço o nome dele.
00:32:37Ele implicou com o liberator, não sei por quê.
00:32:40Estava arquivado já.
00:32:42Ele foi desarquivar lá.
00:32:44Aí eu avisei o Rubens.
00:32:46Eu falei, Rubens, está acontecendo isso?
00:32:48Aí é.
00:32:48Não é nada.
00:32:49Deixa lá ele fazer o que ele quiser.
00:32:52Foi para o tribunal.
00:32:53Ele era muito bem relacionado ao liberatório.
00:32:56Foi.
00:32:57Tomaram o inquérito dele, o processo.
00:32:59Foi arquivado uma vez.
00:33:01Mas se não fosse bem relacionado?
00:33:04Aí o negócio iria diferente, né?
00:33:07Mas não acha que...
00:33:08Não, mas ele não tinha nada também.
00:33:10Mas ele iria cometer, praticar uma justiça.
00:33:17Isso aí.
00:33:35Nós estamos aqui.
00:33:36Nós estamos aqui.
00:33:36Nós estamos aqui.
00:33:38Nós estamos aqui.
00:33:42Nós estamos aqui.
00:33:45Nós estamos aqui.
00:33:50Nós estamos aqui.
00:33:51Nós estamos aqui.
00:33:54Nós estamos aqui.
00:33:55Nós estamos aqui.
00:33:57Nós estamos aqui.
00:33:58Nós estamos aqui.
00:33:59Amém.
00:34:50O senhor tem filhos e se fossem bandidos, concordaria que fossem levados como esses que eram transportados.
00:34:56Uma das besteiras que eu falei, né?
00:34:59Como levar um filho?
00:35:01Nem filho eu tenho, eu tenho filha.
00:35:07Acha que o que foi feito com eles não foi correto?
00:35:13Agora, 40 anos depois...
00:35:15Não, correto eu acho que não foi, não.
00:35:24E não tinha essa ideia naquela época?
00:35:26Não.
00:35:31Aqui falou que ia para Belo Horizonte, era isso?
00:35:38Dessa parte do negócio de Belo Horizonte não estou lembrado não.
00:35:41Mas não sabia o que ia fazer com eles, para onde ia?
00:35:46Para onde que ia?
00:35:50É que eu não estava por dentro do lance, né?
00:35:55Eu tinha chegado um dia antes, aí fui.
00:36:02Chegou a ficar com muito medo?
00:36:04Eu?
00:36:05Não, mas era perder o emprego.
00:36:12A cadeia não que eu estava...
00:36:13A cadeia não?
00:36:13Não, porque eu estava acostumado, né?
00:36:15Se fosse preso não ia ter problema?
00:36:18Não, porque...
00:36:18A diferença de carcereiro com preso é só a chave, né?
00:36:23É só do lado.
00:36:24Quanto faz que está aqui, do outro lado...
00:36:28Como diz uma vez o Erasmo Guia, a diferença entre vocês é a chave.
00:36:35A vida entre o carcereiro e o preso era igual?
00:36:39É igual.
00:36:40É igual.
00:36:43Eles estão lá tentando fugir e você está lá para segurar.
00:36:47Os dois estão juntinho.
00:36:50É, é duro mesmo.
00:37:21E está em Aê, em 1972, os municípios me deram, ó.
00:37:28Conferem oficialmente o título de governador Caipira.
00:37:31E aqui é a assinatura dos municípios.
00:37:34Essa fotografia aqui, eu digo que o tempo que eu fumava,
00:37:38não deixava qualquer um acender meu cigarro.
00:37:40Um metro se acender do meu cigarro.
00:37:46No final do seu governo, teve um episódio de bastante repercussão
00:37:50chamado Operação Camanducaia, envolvendo crianças e adolescentes
00:37:54que foram levados para Minas.
00:37:56O senhor lembra do episódio? Como foi?
00:37:59Bom, nós procuramos abrigar os jovens.
00:38:02E, naturalmente, educando e procurando empregos
00:38:10e sempre tivemos a colaboração muito grande do comércio e da indústria de São Paulo.
00:38:15Felizmente, é uma cidade-país que não para de crescer e sempre gera oportunidades.
00:38:22São Paulo está absorvendo muito, até hoje, a população do interior.
00:38:27Mas o interior também, hoje, está oferecendo muita oportunidade.
00:38:31Então, a situação melhorou substancialmente.
00:38:34Mas ainda há muita coisa por fazer.
00:38:37Mas e da Operação Camanducaia, especificamente, o senhor lembra alguma coisa?
00:38:41O que o senhor lembra da Operação Camanducaia e dos meninos que foram levados para a cidade de Minas Gerais?
00:38:48Foi no final do seu governo?
00:38:49Foi levado de...
00:38:51De São Paulo para Minas Gerais?
00:38:53Não, isso eu não tenho...
00:38:55Não lembra?
00:38:55Não, não tenho memória, não.
00:38:58Não, não.
00:38:59É que teve uma operação que aconteceu no DEIC, que teve um delegado, Rubens Liberatore, que ordenou que os meninos...
00:39:07Não, não, disso eu não tenho ciência, não.
00:39:10Mas nós fizemos tudo o possível para abrigar os menores daqui.
00:39:40Música
00:40:08Eu ficava na parte de educação.
00:40:12E as informações ali dentro eram todas muito controladas, porque ainda era o período da ditadura.
00:40:24Então as informações não circulavam.
00:40:28O caso de Camanducaia, de certa forma, com toda a repercussão, ele foi minimizado.
00:40:36Na igreja surgiu a pastoral do menor, que tem a sua origem.
00:40:44Eu sempre digo que o DNA da pastoral do menor, ou a certidão de nascimento da pastoral do menor, é
00:40:50o episódio de Camanducaia.
00:40:53Mas ele ficou meio num anonimato.
00:41:05Eu não sei porque você veja o massacre dos moradores de rua de 2004.
00:41:16Também não volta mais como interesse midiático.
00:41:22Todas as operações de higienistas que estão acontecendo no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Porto Alegre e muito
00:41:29aqui em São Paulo,
00:41:31elas não estão tendo repercussão.
00:41:35Porque são tipos de ações, de operações, que a opinião pública, em geral, apoia.
00:41:43Se os meninos de rua todos desaparecerem, ou as pessoas em situação de rua desaparecerem,
00:41:51ninguém vai sentir falta deles.
00:41:54Quem que vai procurá-los?
00:42:01E não havia mineiros.
00:42:04Isso é boa, hein?
00:42:06E não havia...
00:42:07Camanducaia, protesta.
00:42:09E não havia mineiros.
00:42:14Quer dizer, era o lixo de São Paulo mesmo, né?
00:42:17Quer dizer, nem mineiro tinha.
00:42:20É isso que eu falei.
00:42:21Eu sei que algumas crianças, algumas não, mas 50 crianças, né, você disse,
00:42:28não se sabe o paradeiro, nunca se soube.
00:42:31Eu fui, eu procurei, não é possível que não se saiba o que aconteceu com essas crianças aí.
00:42:37Eu tentei investigar, mas não consegui achar, não.
00:42:41Aí, talvez aí eu não tenha ido tão afim como você foi,
00:42:47porque eu não estava fazendo a tese sobre Camanducaia.
00:42:51Tem gente que leu minha tese, amigos meus, grandes amigos,
00:42:55que falam assim, nossa, adorei, gostei, mas eu acho que você exagera.
00:43:00Acho que você acaba...
00:43:03Eles também não são tão santinhos assim, entendeu?
00:43:08Você parece a paladina da justiça aí.
00:43:13Então, a sociedade tem medo dessas crianças.
00:43:16Elas olham, elas se arrepiam, entendeu?
00:43:19Tem um horror.
00:43:20E você?
00:43:21Eu, eu, eu posso ser franca?
00:43:25Eu não tenho, eu não tenho, não sei por que eu não tenho.
00:43:29Não existe uma visão, um olhar para essas crianças e adolescentes
00:43:35como crianças e adolescentes que são, né?
00:43:38Eu não sei se você compreende isso que eu estou falando,
00:43:41porque é disso que se trata.
00:43:43É isso que nós precisamos resgatar e discutir,
00:43:48porque senão a gente vai discutir a Operação Camanducaia de novo
00:43:52no enfoque da criminalidade, né?
00:43:57De novo, se você achar essas crianças, vai ser uma coisa impressionante,
00:44:02porque elas não são mais crianças, né?
00:44:05Isso é uma coisa impressionante,
00:44:07porque isso eu acho interessante, sabe, Tiago?
00:44:10O que você imagina o que aconteceu com eles?
00:44:13É isso.
00:44:36É isso.
00:45:06A CIDADE NO BRASIL
00:45:24A CIDADE NO BRASIL
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00:50:27A CIDADE NO BRASIL
00:50:34O RIO NÃO ERA
00:50:36O RIO NÃO ERA
00:50:37NÃO ERA UMA BOA
00:50:38PRA MIM
00:50:40COMO FOI COM VOCÊ?
00:50:42COMO VOCÊ FEI RICO
00:50:44Então, EU TRABALHAVA ALI
00:50:46NA ROBERAULIO GOMES
00:50:47O QUE ACONTECELO?
00:50:49EU SEI PARA FAZER SERVIÇO
00:50:51E NESSA QUE EU TÔ VINDO
00:50:52EM DIREÇÃO, SETE DE ABRIL
00:50:54EM DIREÇÃO À PLAÇA DA REPUBLICA
00:50:56NO MEIO DA PLAÇA DA REPUBLICA
00:50:58EU ENCONTREI UM COLEGUINHA DE INFANÇA
00:51:03FOI SE COMPRIMENTANDO
00:51:05E QUERENDO SABER
00:51:06COMO É QUE UM TÁ, COMO É QUE TÁ A FAMÍLIA
00:51:08ASSIM, OPAI, COMO É QUE CÊ TÁ?
00:51:10TÁVAMOS SE COMPRIMENTANDO
00:51:12CHEGOU ESSE SENHORES
00:51:14PORRA, CATOU A GENTE PELO FUNDINHO DAS CALÇAS
00:51:17TRAZENDO A CUECA PRA CIMA ASSIM MESMO
00:51:19E PRONTO, FOI ISSO AÍ
00:51:21É MORRE
00:51:22MAS NÃO PERGUNTÁVAM NADA?
00:51:26NÃO PERGUNTARAM O NOME
00:51:27E SE TRABALHAVAM, NÉ?
00:51:30E SÓ
00:51:30O QUE VOCÊS DICERAM?
00:51:32EU TÁVA COM A MINHA PASSINHA DE BOY
00:51:34NA MÃO, COMO ARMITA
00:51:35E TRAÍ DE SERVIÇO DA IMPRESSA
00:51:39QUE NÉTRABALHAVAM
00:51:40E ASSIM FOI
00:51:42VINES LEVÁNU KAN
00:51:43E ASSIM FOI
00:52:11E ASSIM FOI
00:52:12E ASSIM FOI
00:52:13O UNIQUE ME CRIOU, PRACTICAMENTE, NÉ?
00:52:16NÃO FOI NINGUÉM QUE...
00:52:18SE EU TÔ VIVO HOJE
00:52:19E DA GRAÇA A EU MEMA
00:52:22FAMÍLIA, COMO ERA?
00:52:23NÃO, A MINHA FAMÍLIA NÃO...
00:52:25PEDI MEU PAI, MINHA MÃE, TUDO ALI,
00:52:26MEU PAI ERA CABO DA POLÍCIA, NÉ?
00:52:30FIQUEI NA CASA DE UMA TIA MIA
00:52:32MAS BATIA MUNTO NEMI
00:52:33ERA, NÉ?
00:52:34FALLE, PÔ, NÉ MENHO PÁ
00:52:35E MINHA MÃE NÃO BATIA NEM MÍ
00:52:38AGORA, SE A HORA QUE É NÃO É
00:52:39IRMAN DA MINHA MÃE, NÃO É MINHA MÃE
00:52:41FICA BATENDO NEM MÍ,
00:52:42PEQUEI, TINHA OITO OLHA, PEQUENO AINDA
00:52:45OITO ANOS, TAVA NA FEBEN?
00:52:47TAVA NA FEBEN AINDA
00:52:50TAVA NA FEBEN
00:52:52MAS EU NÃO PARA NA FEBEN
00:52:53FUGIA TABÉM
00:52:56E COMO ERA NA RUA?
00:52:57AH NA RUA...
00:53:02É TUDO, NÉ?
00:53:03A GENTE ERA MENOR, A GENTE NÃO...
00:53:06NÃO LIGAVA MUITO PRA...
00:53:08SE VOCÊ FOSSE PRESO,
00:53:09FOSSE ROUBAR, NÃO COISA ASSIM, NÃO...
00:53:12ENTÃO, EU VIVI MAIS NA RUA...
00:53:15E TINHA OPÇÃO?
00:53:16QUAS AS OPÇÕES VOCÊS TINHAM
00:53:19PARA SOBREVIVER NAS RUAS?
00:53:21AH, PEDIA, NÉ?
00:53:23PEDIA...
00:53:24SE ACHASSE UM TROÇO FÁCIL, SE PEGAVA...
00:53:27NÉ? E SE NÃO TÁVA ROUBANDO...
00:53:29E É SIM POR DIANTE...
00:53:32E MINHA VIDA FOI DESSE JEITO AÍ, Ó...
00:53:34E MINHA VIDA FOI DESSE JEITO AÍ, Ó...
00:53:46E FOI PRESO? O QUE ACONTECEU?
00:53:50O QUE ACONTECEU?
00:53:52O QUE ACONTECEU?
00:53:53VOCÊ DESDE NA CHEGADA AQUI EM SÃO PAULO?
00:53:57DALI, NA ESCOLTA, PRO DENKI...
00:54:00VOCÊ FOI PRESO NO MESMO DIA QUE FORO A VACAMANDO CAI?
00:54:03ENTÃO...
00:54:05PODE CONTAR BEM A SI MESMO?
00:54:07O QUE ACONTECEU?
00:54:08NA PRAÇA DA REPÓBRECA LEVARAM-NÁS PRO DENKI...
00:54:12EU SOU MENINO, NUNCA TIVO EXPERIÊNCIA DESSA...
00:54:15SOCO DAQUI, UM SOCO DALI...
00:54:17SOCO DENTRO DA CELA?
00:54:19É, PORQUE EU...
00:54:21NÃO TEM ESPAÇO PARA VOCÊ FICAR, NÉ?
00:54:24SE PRECISA DE FICAR NÃO CANSO, VOCÊ NÃO FICAR ALI NO MEIO...
00:54:27UM DA SOCO, VOCÊ PROCURA DA TAMBÉM...
00:54:30MAS SO QUE QUANDO VOCÊ DA TAMBÉM...
00:54:31E VEM UM OUTRO SOCO DE UM OUTRO LADO...
00:54:34TERRÍBILO, CARA!
00:54:36MAS...
00:54:36O QUE ACONTESCIA?
00:54:37A CARA QUE VOCÊ VIA NA FRENTE ERA O QUE VOCÊ BATIA...
00:54:40ERA ASSIM QUE ACONTECEU, NÉ?
00:54:42EU ERA MOLEC, EU ERA MENINO...
00:54:45EU TINHA ESSA REACÃO...
00:54:47TIVE ESSA REACÃO, NÉ?
00:54:49OS CACEREIROS COMEÇARAM A TIRAR NÓS...
00:54:52DE DENTRO DAS DUAS CELAS QUE NÓS TÁVAMOS...
00:54:54E CORTARAM NÓS...
00:54:55LEVARAM NÓS NA SALA...
00:54:56E CORTARAM NÓS CABELO TODO...
00:54:59COM UMA MAQUININHA...
00:55:00TODO BAGUNÇADO, NÉ?
00:55:02AI LEVARAM NÓS DE NOVO PRA SELA...
00:55:05AI À NOITE...
00:55:06ELES COMEÇARAM A TIRAR NÓS...
00:55:08TIRARAM NÓS, BOTARAM NÓS DO ÚNIBUS...
00:55:12FOI UNS CARA TAMBÉM NA BLAZER...
00:55:14E FOI UNS NO ÚNIBUS...
00:55:17AIS FALARAM QUE IA LEVAR NÓS PRA TOMAR UM BANHO...
00:55:20E LEVAR CADA UM EM SUAS CASAS...
00:55:23E O ÚNIBUS SEGUIU VIAGEM...
00:55:26O CARA TÁ ALI...
00:55:27SE NÃO VIA BARULHO NEM NEM NEM NEM GRILO AÍ DENTRO...
00:55:29TUDO MUNDO CALADO...
00:55:31E OS CARA LÁ...
00:55:33UMA ALI PÉRDO DA PORTA...
00:55:35UMA ALI PÉRDO DA PORTA...
00:55:35UMA ALI PÉRDO DA PORTA...
00:55:35UMA ALI PÉRDO NO CANTO...
00:55:36NÃO PODÍA FALAR NADA...
00:55:37NADA, NADA, NADA...
00:55:39E SE TENTASSE TURCIR...
00:55:41E JÁ METIA O...
00:55:42COMO SE NÃO BATIA COM A...
00:55:44BAGULHIA NA CABEZA DA MOLECA...
00:55:46BAIXA A CABEZA...
00:55:47NÃO PODÍA FALAR NADA...
00:55:49NÃO PODÍA NEM NEM TURCIR...
00:55:50NÃO PODÍA NEM DO ÚNIBUS...
00:55:50O QUE VOCÊ ACHAVA QUE IA VAMOS SER?
00:55:53MEU, EU REZAVA...
00:55:56EU TAVA DE CABEZA BAIXA...
00:55:57MAS EU TAVA REZA...
00:55:58NÃO?
00:56:01UMA, EU REZEI MUITO, REZEI MUITO...
00:56:05NÃO SENHORA APARECIDA...
00:56:07VOCÊS VIRAM EM LUCOS ROSTOS DELES?
00:56:11NÃO, ELES TAVA MASCARADO...
00:56:18E QUANDO PAROU O ÚNIBUS?
00:56:20PAROU NO MEIO DO MATO...
00:56:23ESTAVA CHOVENDO JÁ?
00:56:25JÁ TAVA CHOVENDO...
00:56:29E ELES DISERAM PRA NÓS...
00:56:31PRA NÓS FICARMOS TODOS NUOS...
00:56:35QUE ELES IAM...
00:56:36NÓS IAMOS TOMAR UM BANHO DE PESCINA...
00:56:40E...
00:56:41E QUE NÓS IAMOS VOLTAR...
00:56:44QUE ERA PRA DEIXAR AS ROUPAS NO MESMO LUGAR E TAL, NÉ?
00:56:47DESCIVÊ DO ÚNIBUS JÁ LEVOU NA PAOLADA...
00:56:49E CACETETO NA CABEÇA...
00:56:50E TAL, ELELELELELVEI A AS TRÊ NA CABEÇA...
00:56:53E NÃO CHEGUI A DESMARÁ, MAS FICII ZONJO...
00:56:55ERA POR SE SAI DO ÚNIBUS CORRENDO E LEVOU NA PAOLADA...
00:56:58E ERA POR SUBIR, SUBIR AQUEL BARRANCO PELADO...
00:57:01ERA POR SUBIR AQUEL BARRANCO PELADO...
00:57:01ERA POR SUBIR O BARRANCO...
00:57:02ERA POR SUBIR O BARRANCO...
00:57:03ERA POR SUBIR, E USE CULLA IAMOS TUDOS ALI...
00:57:05Corre! Corre!
00:57:09Atiraram, cara.
00:57:12Atiraram. Aí...
00:57:14Meu, você com medo, você nem olha para trás.
00:57:19Por que eu sei que era barranco?
00:57:20Na hora de subir, você subia com as mãos.
00:57:24Se agarrando no que tinha pela frente.
00:57:27Era barranco.
00:57:28Estou aqui, pelo amor de Deus, estou aqui.
00:57:31Outro gritava lá embaixo,
00:57:32outro já estava no meio da rua com a mão assim, outro aqui.
00:57:35Sabe quantos foram levados para lá?
00:57:37Sei que o ônibus está cheio.
00:57:41E sentiu falta de alguém?
00:57:44No outro dia, alguém que não apareceu, que desapareceu?
00:57:50Não, eu não estou lembrado.
00:57:53Sei que está cheio o ônibus.
00:57:55Agora, se ficou alguém para trás,
00:57:57porque a turma se espalhou ali, sabe?
00:57:59Aí conseguimos chegar no asfalto.
00:58:01Aí chegamos no asfalto, aí fizemos corrente para os ônibus pararem.
00:58:07Como nós estávamos todos sem roupa,
00:58:09alguns ônibus pararam.
00:58:11Aí começaram a gritar, falando que era índio e tal,
00:58:13e pá, isso, aquilo, outro.
00:58:15E empurraram nós para fora.
00:58:17Os ônibus gritaram?
00:58:18É.
00:58:20O pessoal do ônibus, quando viu nós tudo pelado,
00:58:23aí nós paramos no outro ônibus e tal, e não deu certo.
00:58:30O ônibus da cometa.
00:58:32O motorista abriu, viu todo mundo pelado,
00:58:34e já fechou a porta de novo e seguiu a viagem.
00:58:36Aí nós andamos, chegamos no posto de gasolina,
00:58:41invadimos um posto de gasolina, já invadimos lá,
00:58:44e já pegamos as toalhas para poder se cobrir.
00:58:49Deram roupa para nós, nesse intervalo aí.
00:58:53E deram comigo, deu,
00:58:54eu tô aí que essa aí é uma partezinha legal.
00:58:58Foi alguém que deu uma roupa para nós.
00:59:01Mas eu não lembro a fisionomia da pessoa, né?
00:59:05Não lembro como essa roupa veio também parar.
00:59:07Se era da polícia, se era de fora?
00:59:10Não, era de fora.
00:59:12Não era da polícia, não.
00:59:14Porque...
00:59:15É possível que tenha sido até esse pessoal do restaurante mesmo.
00:59:20Né?
00:59:23É...
00:59:23É possível.
00:59:26Prostitutas mesmo que moravam ali perto,
00:59:28que teriam arrecadado roupas para vocês.
00:59:31Vocês lembram ter visto alguma mulher levar alguma coisa?
00:59:36Olha...
00:59:37Eu não...
00:59:38Nessa parte, eu não me lembro.
00:59:40Mas aconteceu alguma coisa bacana.
00:59:42Bacana sim, é...
00:59:46Eu não me lembro aqui.
00:59:56Eu não me lembro.
01:00:05Subiu aquilo para mim para mim para mim e semar.然後
01:00:13deeply do Dom... Pre....
01:00:15Alguém ajudou a nós.
01:00:30Poxa, aconteceu alguma coisa bacana ali que me marcou.
01:00:39E eu estou querendo lembrar-me.
01:00:43Sabe quando você está apavorado?
01:00:48Eu acho que foi isso.
01:00:50Veio roupa e alimento.
01:00:57E eu estava com fome.
01:01:00Eu estava apavorado.
01:01:05Eu não sabia para onde ir.
01:01:17Eu não sabia para onde ir.
01:01:18Eu não sabia para onde ir.
01:01:29Eu não sabia para onde ir.
01:01:47Eu não sabia para onde ir.
01:01:47Aqui tem um cara meio parecido comigo.
01:01:49Mas não estou lembrado se é eu.
01:01:51Qual?
01:01:52Aqui.
01:01:53Tem dois aqui.
01:01:55Dois parecidos?
01:01:56Não.
01:01:57Eu acho que é esse.
01:01:58Se não me engano, quer ver?
01:02:00É esse aqui, ó.
01:02:03Aqui, ó.
01:02:05Pode mostrar para que tem, né?
01:02:06Se não me engano.
01:02:07Não tenho certeza, né?
01:02:09O último.
01:02:12Esse aqui, ó.
01:02:13Aqui é o que está o dedão aqui, ó.
01:02:15Parece que é.
01:02:15Não estou lembrado direito, né, mano?
01:02:17Dá pra...
01:02:17Só lembrar direito.
01:02:26Ah, caramba.
01:02:28Olha que nóis aqui, ó.
01:02:32Ó, eu e o Dauro.
01:02:36Aqui, ó.
01:02:37Dá para você ver melhor, ó.
01:02:42O Dauro e eu, é isso?
01:02:45O Dauro e eu.
01:02:49Esse é o Dauro.
01:02:50Falei que ele tinha um cabelo de cumprinho.
01:02:53É porque a calça cai, né?
01:02:57Era pano isso aí.
01:02:58Era...
01:02:59É tipo...
01:03:00Nós estávamos tudo mal trapilho, cara.
01:03:03Mas eu, é eu, cara.
01:03:05É eu mesmo.
01:03:10Teve, teve isso mesmo, cara.
01:03:18Pegaram o moleque na estrada, meu.
01:03:21Teve isso.
01:03:27Eu ouvi...
01:03:29Ouvi comentários disso aqui.
01:03:33Pô, cara, eu ouvi isso aqui.
01:03:35Espera aí que eu ouvi isso aqui.
01:03:37Deixa eu lembrar, meu.
01:03:44É.
01:04:07O que você não vai?
01:04:08É.
01:04:08O que você não vai?
01:04:09É.
01:04:09É.
01:04:09É.
01:04:09É.
01:04:09É.
01:04:10É.
01:04:10É.
01:04:12É.
01:04:13É.
01:04:13Me pergunta, o que você vai sendo com a mulher?
01:04:16O que ele falou pra você aí?
01:04:18Não, não, só me pediu cigarro.
01:04:22Não, eu vi, aí tinha um, francamente,
01:04:26parecia que ele estava querendo descarregar alguma coisa em cima de mim.
01:04:31Nossa, de uma fúria em cima de mim,
01:04:33querendo me pegar mesmo, entendeu?
01:04:36Aí, não, entra, entra dentro desse carro.
01:04:38Era um opala, acho que era preto, um opala.
01:04:44Parece um opala comodoro, não é um opala?
01:04:48Aí, ele entra dentro do carro aqui.
01:04:51Eu falei, não, por que, gente?
01:04:52Eu trabalho no posto, trabalho nesse posto aqui.
01:04:55Eu sou funcionário do posto de gasolina.
01:04:59Ele, ele falou, não, entra dentro do carro.
01:05:02Eu vi você conversando com o moleque aí.
01:05:05Eu falei, não, não conversei, pelo amor de Deus, não faça isso comigo, não.
01:05:08Ele me deu uma pancada, não sei, um bastão,
01:05:11não lembro mais do que era.
01:05:13Nesse braço.
01:05:14Eles se identificaram?
01:05:16Não se identificaram, não se identificaram.
01:05:19No momento, eu não sabia, eu estava perdido, estava perdido.
01:05:22Essa hora, eu já fiquei apavorado.
01:05:24Quando eu coloquei o pé, antes, acho que fui colocando o pé,
01:05:27gente, mas eu tomei no pé do ouvido, caramba, gente, que pancada, que pancada no pé do ouvido.
01:05:39Que eu saí, não caí, assim, fui no ar e pronto.
01:05:43Aí já foi.
01:05:44Aí dá pra imaginar, né, o que que aconteceu.
01:05:49Só olha esse negócio do tempo.
01:05:50Muitos adolescentes também contaram.
01:05:52Contaram que me vi...
01:05:54Adolescentes também contaram?
01:05:55Que viro me pegou.
01:05:56Que viro me pegou.
01:05:57Que viro me pegou.
01:05:59Ah, eles viram também?
01:06:02O pessoal localizava o mando do seu e-mail, se tivesse a curiosidade.
01:06:06Não tem, tem, não tem, eu quero, eu quero...
01:06:09Realmente, isso aqui é...
01:06:11Não, eu, eu, é...
01:06:16É...
01:06:17É isso aí, eu ia lembrar, veio, o...
01:06:20Eles lembraram, então, me lembraram que viram me pegando e tal.
01:06:24Eu achei que ninguém tinha visto, pô.
01:06:27Sério mesmo, nem ele, achei que ninguém tinha visto.
01:06:29Não tinha.
01:06:30Naquele momento, nesse momento também você não enxerga nada, você não vê nada, não vê.
01:06:35Eu fiquei assim, não vi.
01:06:37Sei, não, você fica perdido, fica doido.
01:06:40Hein?
01:06:40Me senti sozinho, sozinho.
01:06:43Antes falando que eu não tive coragem de gritar.
01:06:47Eu não tinha voz, não tinha nada pra gritar, dizer assim, ô, pelo amor de Deus, estão me levando.
01:06:53Acho que uma palavra minha lá tinha, não tinha acontecido isso.
01:06:57Desde que eu tô...
01:06:59Tô passando, pra não estar no texto, na minha caminhada mesmo aí, eu...
01:07:04Eu sempre pensava.
01:07:05Então, mesmo o Chapalho, que bebia muito, né?
01:07:08Pra nada, tem que beber.
01:07:09Eu ficava lembrando no...
01:07:11Eu sei, nunca, na minha cabeça, de quem tava na época, naquela época lá, nunca esquece.
01:07:16O que a gente passou ali, né?
01:07:19Nossa, eu nunca vi falta assim, cara.
01:07:21Nunca vi um acervo desse.
01:07:23Obrigado, gente, vocês têm me trazido isso, eu acho que...
01:07:32Depois, se quiser, alguma coisa...
01:07:36Não, mas não vai ser uma boa, não.
01:07:39Mas, tudo bem.
01:07:40Não vai querer ir pra mim?
01:07:41Não, não.
01:07:43Não, pra mim, não.
01:07:45Agora, se os caras me verem chorando, os caras vão tirar o salvo que eles têm eu como bravo, essas
01:07:52coisas.
01:07:52Então, os caras me respeitam.
01:07:54Eles têm eu como bravo, eu brinco com eles tudo, mas eu sou...
01:07:59Na hora de brincar, de brincar, nós trabalhado, trabalhado, né?
01:08:03Aí, se os caras me vejam, nós temos o pinhão de fábrica, é fogo, ó.
01:08:09Mas é paciente.
01:08:10É assim mesmo.
01:08:12Você também chora, chora?
01:08:14Ah, chora, hein?
01:08:16Cada um tem onde o carro aperta, né?
01:08:18É, então.
01:08:20Tem previsão pra sair daqui?
01:08:22Em dezembro do ano que vem, eu tenho o direito do Cineberto.
01:08:26Vou ter lápis pro Cineberto.
01:08:29Você já saiu algumas vezes?
01:08:31Saí.
01:08:31Como é quando você sai?
01:08:34Ah, é normal.
01:08:37Como se não tivesse ficado?
01:08:40Não, não é bem assim.
01:08:42Porque a gente encontra muitas dificuldades.
01:08:51Por exemplo?
01:08:53Ah, dificuldade de emprego.
01:08:58Dificuldade até mesmo de se relacionar com as pessoas.
01:09:04A mesma amizade?
01:09:06Não.
01:09:06Amizade, namorada, tudo?
01:09:09A dificuldade, tipo de relacionamento?
01:09:12De amizade, né?
01:09:15Foi difícil falar com a gente?
01:09:16Não, quem é isso?
01:09:18Não foi difícil.
01:09:19Não foi difícil falar.
01:09:20É bom, eu...
01:09:23Lembrei, voltei atrás, voltei ao passado, entendeu?
01:09:28Voltei e...
01:09:30Coisa que já estava bem apagada, bem...
01:09:34Assim, tentando esquecer, é claro, né?
01:09:39Mas...
01:09:41Foi bom ter falado.
01:09:44Que pouca gente sabe desse acontecimento, né?
01:09:50Pouca gente sabe.
01:09:51É bom que todos saibam o que foi, mais um pouco, o que foi da ditadura militar, né?
01:10:01E o matucaiente marcou de alguma maneira diferenciada na sua vida?
01:10:07Não, não é tanto.
01:10:09Não é tanto porque naquela época eu era criança.
01:10:12Era criança inconsequente.
01:10:16Mas você passou por outras situações de abuso, assim?
01:10:19Ah, passei por várias.
01:10:25Você pode contar algo?
01:10:29Prefiro não contar.
01:11:05Typically, você pode contar algo.
01:11:05Tchau, tchau.
01:11:05Tchau, tchau.
01:11:19Amém.
01:11:54Amém.
01:12:15Amém.
01:12:46Amém.
01:13:15Amém.
01:13:47Amém.
01:14:18Amém.
01:14:47Amém.
01:15:16Amém.
01:15:45Amém.
01:16:15Amém.
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