Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 2 dias
Transcrição
00:20Eu nasci em uma pequena cidade gaúcha, na fronteira do Brasil com a Argentina,
00:25bem perto do rio Uruguai. Cresci nesse encontro de países, de línguas e de histórias.
00:33Nessa época, uma sucessão de golpes militares se espalhou pela América do Sul, deixando cicatrizes que atravessaram gerações.
00:43Com a volta da democracia, quis entender como cada país enfrenta o passado e lida com as memórias desse tempo.
00:49Fui em busca de respostas. Cruzei fronteiras, visitei lugares de memória e encontrei pessoas que tiveram suas vidas impactadas pelas
01:00ditaduras,
01:01na Argentina, no Brasil e no Chile.
01:33A CIDADE NO BRASIL
01:38Eu tinha 10 anos quando os militares tomaram poder no Chile.
01:42E me lembro do forte impacto que senti ao ver as imagens do Palácio de La Moneda em chamas.
01:49O governo de Salvador Allende, o primeiro socialista eleito na América Latina, estava sob ataque.
02:07As Forças Armadas, lideradas pelo general Augusto Pinochet, derrubaram o governo com o pretexto de salvar o país do comunismo.
02:18Pagarei con mi vida, la lealtad del pueblo. Viva China, viva el pueblo, vivan los trabajadores.
02:30Allende foi encontrado morto nos escombros.
02:54Meu primeiro encontro em busca das memórias daquele tempo foi com Mônica e Ninoska, mãe e filha.
03:00Elas viveram intensamente os dias que mudaram a história do Chile.
03:04A acção. Não me não. Não se posso ler. Não me não. Não me não. Não me não. Não me
03:10não.
03:10Não me não. Não me não. Não me não. Não me não. Não me não.
03:12Cada um desses espaços teve uma história.
03:15Como foi o golpe militar, a moneda...
03:18Quando foram acribilhados também companheiros de de la moneda.
03:29Em Chile se venia preparando o golpe hace muito tempo.
03:35Prácticamente, havia conhecimento de que algo ia passar por os militares.
03:40que estavam acuartelados,
03:44mas não se sabia verdadeiramente que dia.
03:49Em todos os lugares das Forças Armadas,
03:52seja a aviação, militares, carabineros,
03:56eles disseram a gente, um passo adelante,
03:59o que está de acordo de definir
04:01para que Allende siga como governo.
04:04E muitos soldados fizeram aquilo,
04:06como o soldado que todos conhecemos,
04:11o soldado Nash,
04:13que foi o primeiro que falou e que disse
04:16eu vou defender,
04:17eu sou militar porque vou defender
04:19ao governo de Allende.
04:21E o mataram.
04:23Bom, aí temos todos nossos companheiros
04:25de diferentes partidos políticos,
04:28Partido Comunista, Partido Socialista, Mapo...
04:31Era uma perseguição a todos os comunistas.
04:36E, obviamente, que isso significou
04:38que o Partido Comunista fosse a clandestinidade.
04:41Entre isso está o meu avô,
04:42que também foi um deputado da nação,
04:47que teve que ir a clandestinidade.
05:12como foi a detenção?
05:13Eu me lembro como chegar, rompendo tudo, abriendo todas as portas, porque buscavam armas.
05:21Según eles, pensavam que nós tínhamos armas.
05:23Fomos drogados para ser interrogados.
05:27Nos encontramos dentro de uma habitação, eu me fazia um costado, detrás da porta,
05:35e eu posso visualizar a meu abuelito que está sendo torturado com as mãos em cima
05:41e minha abuelita sentada em uma silla.
05:48Como toda criança eu me impacto, não tive outra reação mais que callar e silenciar,
05:57porque me entrou, digamos, isso... como que me paralicé.
06:16E aí está, Zuleta.
06:20Aí está.
06:23Aí está.
06:24Aí está meu abuelo.
06:33Minha abuelita.
06:35Minha mãe.
06:47Minha abuelita.
06:53Minha mãe.
06:55Minha mãe.
06:56Minha mãe.
06:58Minha mãe.
07:01E aqui está parte da história de ele
07:06Há 119 filhos que foram assassinados durante a ditadura
07:17Bom, deve ser aqui
07:22Nunca havia encontrado isso
07:23Nunca havia encontrado esta carta
07:28E justamente esta carta é uma das que eu mandei a Lucía
07:33Iriar de Pinochet
07:34Para saber onde estavam meus abelos
07:39Que foram sequestrados junto com nós
07:45Trasladados, detenidos e desaparecidos
07:48Senhora Lucía, eu escrevo como uma criança de 9 anos
07:52Que sou, e estou muito preocupada
07:55Porque se disse que o 3 de setembro é o dia dos abelos
08:00Eu quero saber onde posso saludar os meus
08:04Eu pedo a você que se ponha a mão no seu coração
08:09Grande e bondadoso
08:11E responda a esta neta triste e enferma
08:14Porque já são cinco meses que não os vejo
08:21A mim a ditadura
08:23Me arrebatou
08:25Hemos perdido, hemos perdido
08:29Nos arrebatou a vida
08:31Nos arrebatou a nossa família
08:34Nos arrebatou a possibilidade de ter uma família conjunta, unida
08:44Porque a ditadura não significou a nós
08:49Viver separado
09:14Viver separado
09:17É muito difícil
09:21É muito difícil porque
09:23Que são sentimentos encontrados
09:27Aos de busca, com uma justiça que não chegou
09:31E que estamos, e seguimos, na luta
09:35E sobre todo, eu digo, eu digo, eu digo, desde o ponto de vista da minha mãe
09:41Que perdeu a seus pais, que são meus abelos
09:47Mas também a minha irmã
09:48Na Operação Albania
09:50Em 1986
10:04Olha, companheiros do Partido Socialista também
10:09Jovencito
10:10A Esther Cabrera, olha aí está
10:13Onde ela põe?
10:14Aí está
10:15Ah, a Esther
10:17A Esther Cabrera
10:19Víctor Jaya
10:21Olha, olha a Víctor Jaya
10:22Olha, olha jovem
10:23Sim, é muito mais jovem
10:26Tanto
10:27Compañeros
10:28Estão jovens
10:30Ah, ali está meu abelito
10:34Míralo
10:35Olha, o me viu?
10:36É meu abelô
10:39E está a identidade
10:40Quem somos
10:41Não é somente uma cara
10:45mas que aqui há todo um processo
10:48que foi, por exemplo,
10:50meu avô,
10:52que desde muito jovem
10:54tem um rol importante
10:58dentro deste processo social
11:00de nosso país.
11:02E para nós,
11:04a memória é justamente
11:05para as novas generações,
11:08para que
11:09essas novas generações se ten conta
11:11da importância
11:13que é
11:16respeitar
11:17o pensamento do outro.
11:21Porque,
11:22ideológicamente,
11:23um pode ter um pensamento,
11:24mas o atropello
11:25a esses pensamentos
11:27não pode ser
11:28que se lhe quita a vida
11:29a um ser humano,
11:30se lhe faça desaparecer
11:31até o dia de hoje,
11:33sem que nós tínhamos resposta a isso.
11:41Este museu surge
11:42depois das
11:44comissões de verdade e justiça
11:46que se fazem já
11:47em democracia,
11:48e também como
11:49uma luta permanente
11:51das associações
11:52de familiares,
11:54de executados,
11:55de direitos humanos,
11:57em geral.
11:58E esta é uma recomendação
11:59das comissões de verdade e justiça,
12:01fazer um espaço
12:02para honrar
12:05a memória
12:06das vítimas
12:07da ditadura.
12:08Temos um arquivo
12:10muito grande,
12:10o arquivo dos direitos humanos
12:12mais grande do país,
12:13e temos muitos objetos,
12:16livros,
12:16referências,
12:17material audiovisual,
12:19temos muitas entrevistas
12:22orais também.
12:23tudo é material
12:25donado
12:25das próprias vítimas,
12:27de pessoas da época,
12:29de associações,
12:30de fundações.
12:31Nós temos,
12:32trabalhamos,
12:33estamos convencidos
12:34que, através do arte,
12:35ademais,
12:35chegamos a muitas
12:36generações,
12:38gerações novas,
12:39jovens,
12:40que não viviam
12:40durante a ditadura.
12:42Por tanto,
12:43através das diversas
12:44manifestações artísticas,
12:45chegamos a elas.
12:46Aqui,
12:47o que se consegue
12:49é fazer um relato,
12:51um panorama
12:51de tudo o que aconteceu
12:52desde o dia 11
12:54até o ano 90,
12:56e estamos trabalhando
12:57nos processos post-90,
12:59ou como segue
13:01depois operando
13:02a justiça post-90,
13:03porque,
13:04se bem a ditadura
13:05tem um período,
13:06depois,
13:07existem toda uma
13:08quantidade de juíços
13:09que sigam estando
13:10até o dia de hoje.
13:11Por tanto,
13:13a ditadura,
13:13de alguma maneira,
13:14segue presente
13:15nas sociedades.
13:16Isso queremos também relevar,
13:17reforçar a importância
13:18da democracia
13:19nas nossas sociedades,
13:21não só no Chile,
13:21mas no mundo,
13:23e para dizer que
13:24isto que aconteceu
13:25não pode voltar a acontecer
13:26em nosso país,
13:27mas também nos países
13:28vecinos.
13:48este é o Estádio Nacional
13:50do Chile,
13:51onde acontecem os principais
13:52jogos da seleção chilena
13:54e finais de campeonatos.
13:56Suas arquibancadas
13:58recebem até 48 mil torcedores.
14:01mas no dia seguinte ao golpe,
14:03o estádio deixou
14:04de ser o palco
14:05do futebol
14:05e foi transformado
14:07no maior centro
14:08de prisão
14:09e tortura do Chile.
14:10os militares,
14:11quando toman o controle
14:12do país,
14:14se começa a fazer
14:15toda uma logística
14:16para poder tomar
14:17prisioneros
14:17masivamente
14:19e recorrer
14:20ao Estadio Chile.
14:22O mesmo 11 de setembro
14:23da tarde,
14:24ven que este Estadio Chile
14:25está quedando pequeno
14:26para a quantidade
14:27de prisioneros
14:27que se van albergando,
14:29por isso que,
14:30no mesmo 11 de noite,
14:31se decide já
14:32ocupar
14:33o outro recinto
14:34deportivo mais grande
14:35de Santiago,
14:36que é o principal
14:37da nación,
14:38que é o Estadio Nacional.
14:40ademais,
14:41que o Estadio Nacional
14:42contava com camerines
14:43subterráneos,
14:45com rejas de acero
14:46ou de ferro,
14:48o qual permitia
14:49usá-las como celda.
14:50Por tanto,
14:51o Estadio Nacional
14:51se transforma
14:52desde o dia 12 de setembro
14:54no centro masivo
14:56e o mais grande
14:57centro de prisão,
14:58tortura e extermínio
14:58do país,
14:59albergando,
15:00que não temos
15:00cifras exactas,
15:01por suposto,
15:02entre 20 mil
15:03e 30 mil
15:03prisioneros e prisioneras.
15:05Por suposto,
15:06se aplicaron as torturas,
15:07E para isso
15:08se eligiu
15:09uma parte do Estadio,
15:10que é o Velógromo
15:11do Estadio Nacional,
15:13especificamente
15:13as caracolas
15:14e os túneles.
15:15As caracolas
15:16estavam a parrilla
15:17e se cometiam
15:17todas as torturas
15:18aos prisioneros
15:19e os túneles
15:21e os túneles
15:21se faziam
15:22os simulacros
15:23de fusilamento.
15:25Se bem
15:25não se entregava
15:26muita informação
15:27de quem estava
15:28no Estadio Nacional,
15:30todos sabiam
15:31que o Estadio Nacional
15:32era um centro
15:32de prisão e tortura,
15:34já que
15:34se agolpavam
15:35todos os dias
15:36miles e miles
15:37de familiares
15:38fora do Estadio Nacional
15:38perguntando
15:39ao curso de criado.
15:57Manuel foi um dos milhares
15:58de prisioneiros
15:59levados ao Estadio Nacional.
16:01Na época do golpe,
16:03ele trabalhava
16:03como operário
16:04em uma fábrica
16:05de vidros
16:06e não tinha
16:06qualquer atividade
16:07política.
16:09Me encontrei
16:10com Manuel
16:10duas vezes
16:11em 2014
16:12e 2024.
16:15Este estádio
16:16tem muitas
16:17partes de simbolismo.
16:19Esta galeria
16:20estávamos sentados
16:21há muitos meses
16:24aqui.
16:25Este era
16:25meu consuelo
16:26sair do estádio
16:27aqui como estou
16:28agora
16:28a mirar.
16:30Vejamos o céu,
16:31os milicos,
16:32todas estas partes
16:32onde há escaleras
16:33praticamente
16:34há um soldado.
16:36um não se podia mover
16:37segundo o tipo de soldado
16:38era um menino
16:38melhor dito
16:39de 17 anos
16:40fazendo o serviço militar.
16:42Os maltratavam,
16:43os pegavam
16:43puntaxos
16:44com as metralletas
16:46ou caixetá,
16:47patá,
16:48de tudo.
16:49Aqui nós
16:50somos os delincuentes
16:51mais grandes.
16:59Para mim
17:00esta é a minha segunda casa.
17:02Para mim
17:03praticamente
17:05vem muitos
17:06recuerdos
17:06porque
17:07aqui
17:08sofremos,
17:09passamos
17:10hambre,
17:10passamos
17:10frio,
17:11passamos
17:12peripecias,
17:13golpes
17:13e tudo.
17:15A amistade
17:15que nasceu aqui,
17:16o cuidado
17:17de um ao outro,
17:19a ver
17:19onde
17:20fará nada
17:21ao outro,
17:22ou se lhe chegavam
17:23a dar
17:23uma
17:24caixetá,
17:24praticamente
17:25todos lhe daban
17:26a caixetá.
17:27Nós sentíamos
17:28idênticamente
17:28igual
17:29ao golpe.
17:30Então
17:31nasceu
17:31esse cuidado,
17:34essa preocupação
17:35por o outro.
17:36Se caía
17:37um,
17:37venia um
17:38e lhe pegavam
17:38na espalda
17:39ou na cabeça
17:40ou lhe contavam
17:40um chiste
17:41porque sabíamos
17:42que ao dia
17:43seguinte
17:43elas tocavam
17:43a nós.
17:44não sabíamos
17:45de nada,
17:46não sabíamos
17:46de nossa família,
17:47não sabíamos
17:48de nada,
17:48nada.
17:50Não sabíamos
17:50o que o futuro
17:52esperávamos
17:52mais adelante.
17:56Com a volta
17:57da democracia,
17:58Manuel passou
17:59a se dedicar
18:00ao trabalho
18:00de guardar
18:01a história
18:02do estádio
18:02e compartilhar
18:03o que viveu
18:04aqui.
18:05Estamos
18:06no camininho
18:07número 3.
18:08O estádio
18:09nacional
18:10tinha 28
18:11camininhos.
18:12Eu estive
18:1350 dias
18:14os 50 dias
18:15mais negros
18:17de minha vida,
18:18amargos,
18:20os passei cá.
18:21Sem ter nada,
18:23sem pertenecer
18:24a partidos políticos,
18:25nem ter nada
18:26político,
18:27nem nada.
18:28O que vocês estão pensando
18:29nesses momentos
18:30eram os colchones
18:31que teníamos
18:32nos presos.
18:33O único delito
18:33que eu cometí
18:34foi haberme quedado
18:35a dormir
18:36o 11 de setembro
18:38na noite,
18:39porque parecia
18:40uma guerra
18:41por todas as partes,
18:41se sentiam balazos.
18:43como eu ia chegar
18:44a minha casa.
18:44Então,
18:45encontrei mais lógico
18:46que darme na fábrica
18:49porque já tinha
18:50um techo seguro.
19:01aqui praticamente
19:03nos pegavam
19:04a cada rato
19:04por qualquer coisa.
19:05Cabra de rodillas,
19:08com a mão na nuca,
19:10a boca aberta
19:11e todo o cañão
19:12de la metadeira
19:13entrou para a boca.
19:14E os presos políticos,
19:16os presos de guerra,
19:17que nos dimos ánimo
19:19para sair
19:19de liberdade,
19:21sair vivos.
19:22Alguna consulta,
19:23dúvida,
19:24pergunta?
19:24Nesse momento,
19:26há mulheres embarazadas
19:29ou mulheres que
19:29haviam dado a luz
19:30há muito pouco
19:31com seus bebês
19:32muito pequenos.
19:33Aqui,
19:34chegaram,
19:35acho que são
19:3510 mulheres
19:36embarazadas.
19:38Algumas perdíram
19:39a guagua
19:40por os golpes,
19:42e outras
19:42as foram
19:43atendidas
19:43no hospital
19:44em Salvador.
19:46Se sacaram
19:47as mulheres
19:48de cá.
19:48O que foi o mais difícil
19:49que pôde experimentar
19:51nesse encierro?
19:54O mais difícil?
19:55Muitas coisas.
19:57Muitas coisas.
19:58Eu sou bem franco
20:00de dizer,
20:00eu não fui estruturado,
20:03mas minha vida
20:04dependia
20:0510 vezes
20:06do meu dedo
20:08do milico,
20:08nada mais.
20:21A memória
20:22é o que
20:23nós vivemos aqui.
20:26A memória
20:26é o que aconteceu aqui.
20:29E isso é o que
20:30nós queremos
20:31dar a conhecer
20:33ao mundo,
20:34a todas as pessoas,
20:36do que realmente
20:37aqui aconteceu,
20:38da história negra
20:40que está guardando
20:40o Chile
20:40debaixo das muralhas.
21:12É difícil
21:13o bonito
21:14que é este lugar
21:15pensar,
21:16não?
21:17Toda a barbárie
21:18que existiu
21:19nesses anos
21:23contrasta
21:23com o que é
21:24o lindo
21:25deste lugar,
21:26com o que é
21:27representativo
21:27de Paine,
21:28que é
21:29uma zona
21:30campesina.
21:32Esta é a Sara.
21:34Vim encontrá-la
21:35no Paine,
21:36uma área rural
21:37próxima de Santiago.
21:39Aqui,
21:40as maiores vítimas
21:41da ditadura
21:42foram os camponeses,
21:43que se beneficiaram
21:44com a reforma agrária
21:45iniciada antes mesmo
21:47do governo Allende.
21:49Logo após o golpe,
21:50os militares
21:51perseguiram
21:51os novos donos
21:52das terras.
21:57O pai de Sara,
21:59Pedro Ramírez,
22:00foi preso
22:00e assassinado
22:01antes dela nascer.
22:03Eles trabalhavam
22:04em...
22:05O pai
22:05trabalhava
22:07no asentamento
22:08de Paula Jara
22:09Quemada.
22:10Trabajava
22:11de tractorero.
22:14Junto
22:14com seus
22:15outros companheiros
22:16se formou
22:17com a expropiación
22:18de terreno
22:19aos latifundistas
22:21no tempo.
22:25Havia que jogavam
22:26a la pelota,
22:27outros que tocavam
22:28a guitarra.
22:29Eram pessoas
22:30enormes.
22:32É doloroso
22:33enterarse que...
22:35Eu,
22:36aos 5 ou 6 anos,
22:37me enteré
22:38de que...
22:39era um detenido
22:42desaparecido.
22:45Porque
22:45meu irmão maior
22:46me disse...
22:47Porque minha mãe
22:47voltou a
22:48fazer a vida
22:49com outra pessoa.
22:51Então,
22:52eu pensava
22:52que essa pessoa
22:53que estava
22:54em casa
22:55era...
22:56meu pai.
22:57De hecho,
22:57eu dizia
22:58papá.
23:00Então,
23:00para mim,
23:00é super doloroso
23:01enterarme
23:01de que...
23:04aos 5 ou 6 anos
23:05que não era...
23:07não era meu pai.
23:08E ver que como
23:11essas vidas
23:12foram arrancadas
23:14de nossa...
23:14de nossa família
23:15é...
23:16é...
23:19é esse dolor
23:20permanente,
23:21não.
23:25Perdão.
23:27Perdão.
23:34Perdão.
23:35Eu me pongo
23:37no lugar de minha mãe
23:37e...
23:38aos 25 anos
23:40era uma chica,
23:42uma chica
23:42com cinco filhos
23:45mais um embarazo.
23:46Quando eu era chica
23:47me diziam
23:47olá,
23:48gorrito colorado.
23:51Não sabia
23:52que era.
23:53Por que me chamam
23:54assim?
23:55Gorrito colorado.
23:56E aí
23:57comecei a investigar.
23:59E um dia
24:00eu disse
24:00a minha mãe,
24:01eu me perguntei,
24:02agora que me lembro,
24:04eu me perguntei,
24:04mamãe,
24:05por que sabe
24:06que tal persona,
24:07tal vecino,
24:07me dijo,
24:08me saludou e me dijo,
24:09gorrito colorado.
24:12E aí
24:13minha mãe me disse,
24:14é que tu papá,
24:16como eu disse,
24:17tu papá,
24:18tu papá sempre,
24:19sempre,
24:20toda a vida usou
24:21um gorro,
24:22um gorro de lana
24:23e que era roxo.
24:37Este memorial
24:38nació por la
24:41importancia
24:41de tener
24:42un sitio de memoria
24:43hacia los familiares,
24:45de venir a visitar
24:47sus propias memorias
24:49e criar
24:49sus propias memorias.
24:50É como um bosque
24:51com mais de 700
24:53pilares
24:55que representam
24:57todas as alturas
24:59e as baixas
25:00da cordillera.
25:01E dentro deste
25:02gran bosque
25:03está emplasmada
25:04o que son
25:04as memorias,
25:05os mosaicos
25:06que foram
25:07basicamente
25:08criadas por
25:08os familiares.
25:10Como criar
25:11nossas memorias
25:12se...
25:14se...
25:15não tínhamos.
25:16Quando se criou
25:17este projeto
25:19empezamos
25:21meu irmão
25:22maior
25:23Gerson
25:25em distintos lugares,
25:27em distintos
25:28colegios
25:28com artistas
25:30plásticos
25:30que nos ajudaram
25:32a construção
25:33de nosso mosaico.
25:35A representação
25:36que está na imagem
25:37de minha mãe
25:38em desnuda,
25:39é basicamente
25:40porque a maior maioria
25:41de as madres
25:42quedaram
25:43em desproteção.
25:44O embarazo
25:45de 8 meses
25:45que me representa
25:46a mim como filha
25:47eu não alcance
25:48a conhecer
25:48a minha mãe.
25:49Minhas 4 mãos maiores
25:51estão no centro,
25:52no seno de minha mãe,
25:55protegidos por ela.
25:56A imagem em celeste
25:57que já se vê
25:58de ele andando
25:59em bicicleta
25:59é basicamente
26:01porque ele já
26:02se veia
26:02a sombra
26:02de ele
26:03para o que era
26:04a represão
26:06e o que foi
26:07o secuestro
26:07de meu pai.
26:09Por que temos
26:10este sitio
26:11de memória
26:12e para que?
26:14Mas ao ter
26:15o espaço próprio
26:18tínhamos que fazer
26:19algo para a comunidade
26:20também,
26:21para que a comunidade
26:22se interessasse
26:24em tudo
26:25o que aconteceu
26:26aqui em Paine
26:26e que foi
26:27a represão.
26:28e criar espaço
26:30para a comunidade,
26:32que a comunidade
26:33entre,
26:34que visualize
26:34que isto
26:35sim passou
26:36aqui em Paine.
26:37Essa foi
26:38a criação
26:39e a necessidade
26:40de ter um espaço físico.
26:51Além da família
26:52de Sara,
26:53outras 69
26:54perderam seus pais,
26:56filhos e irmãos.
26:58mesmo sozinhas
26:59e com medo
27:00de represálias,
27:01boa parte
27:02das mulheres
27:03continuou no Paine
27:04vivendo da terra.
27:11que a comunidade
27:11me vi influenciada
27:13com
27:13tudo o que aconteceu
27:15em Paine
27:15com o
27:17terrível
27:17que foi
27:17em Paine.
27:18e a minha mãe
27:19me falou
27:19sempre me
27:20me falou
27:21sobre essas
27:21mulheres
27:22que muitas
27:24das
27:24afetadas
27:24foram
27:25professoras
27:26de elas
27:27ou conhecidas,
27:29vizinhas.
27:29a minha mãe
27:30me chamou a atenção
27:30que
27:31que passou
27:32com estas
27:33mulheres
27:34que ainda
27:35estão vivas
27:36porque todos
27:37sabemos
27:37os nomes
27:38e os rostros
27:39de seus familiares,
27:40de seus esposos,
27:41de seus filhos,
27:41de seus irmãos,
27:42mas não sabemos
27:44que passou
27:44com elas
27:45que ainda
27:45siguen vivas
27:46e ainda
27:46estão buscando
27:47justicia.
27:48Así que
27:50me
27:50tive
27:51contacto
27:52com duas
27:52amigas
27:53mais
27:53porque não queria
27:54ser a sua.
27:56Uma
27:57que tem
27:58conhecimento
27:58sobre
27:59gravación
28:00e edición
28:01e outra
28:02companheira
28:02que é
28:04boa
28:04para
28:05entrevistas
28:06todo o
28:07lado humano.
28:08Ela se comunica
28:09muito bem.
28:10E aí
28:10criamos
28:12Mujeres,
28:13Resistencia e Memoria.
28:14E aí
28:15nos comunicamos
28:16com o memorial,
28:17com a agrupación
28:18e nos
28:20pusimos
28:20em contato
28:21com as
28:21mulheres
28:22que foi
28:22voluntário.
28:27Não é só
28:28que sacamos
28:29seu relato
28:29e nós
28:30vamos
28:30e nunca
28:31vemos nada.
28:31Nós queríamos
28:32deixar algo
28:33então
28:33deixamos
28:34claro
28:34que
28:34o quadro
28:35ia ser
28:36para elas.
28:41que
28:59O objetivo tem sido
29:02acercar o máximo
29:03a as pessoas comunes e ocorre20am, lá arte.
29:07Eu tive o privilegio de me deixar o ensinar arte,
29:10então queria acercar isso a minha comunidade, a Paine
29:17Ana González foi uma mulher que se levou dois de seus filhos
29:24sua esposa, sua nuera, que estava embarazada
29:29Ana González dirigiu muitas protestas contra a ditadura
29:35ela se encadou no Congresso para exigir onde estavam
29:40ela morreu há poucos anos, mas nunca encontrou nada de suas familiares
29:52sinto que há muito ainda que fazer com a questão da memória
29:58o regime do terror funcionou tão bem aqui na comunidade
30:02que a toda a gente se lhe olvida bastante
30:07ou não quer recordar por medo também
30:11aunque muita gente diga que não é necessário
30:15ou que tem que deixar essas coisas atrás
30:17eu sou creente de que tem que seguir avivando a memória
30:24para que não se vuelva a repetir
30:29Partiu em direção ao extremo sul
30:31Punta Arenas fica a 3 mil quilômetros de Santiago
30:34às margens do Estreito de Magalhães
30:37e sempre teve importância por sua localização estratégica
30:42Por situar-se aqui em uma região que é muito militarizada
30:49e por essa razão também consideramos que a repressão foi muito grande
30:54Se considera que foi a região onde, em relação ao resto do Chile,
31:01houve mais presos e presas políticas em proporção de habitantes
31:18Este é o liceo de niñas
31:21Era assim?
31:22Não, tal qual
31:23Não, não, não mudou nada
31:25Ou seja, se colocaram essas rejas
31:28As ventanas não eram as mesmas
31:31Mas a construção é a mesma
31:34Não, não mudou
31:35E a minha sala estava ali
31:38Era como a quarta ventana
31:46Então, quando me vinieron a detener aqui
31:50Minhas companheiras estavam todas mirando por a ventana
31:55Quando me saíram
31:56E me subieron arriba de um caminhão de milicos
32:00Apontando-me com a metralleta
32:02Então, minhas companheiras cuidaram assim como...
32:07Porque todas éramos niñas, 16, 17 anos
32:28Esta casa foi um centro de tortura
32:31Como vocês podem ver, está situada no centro da cidade
32:36Por aqui passavam todos os dias
32:39A gente a seus trabalhos
32:41Os meninos a as escolas
32:44Aqui temos uns liceos aqui ao lado
32:47Muito estabelecimento educacional
32:50Mas ninguém sabia que aqui adentro
32:53Se estava torturando
32:55E colocaram música muito forte
32:57Para que não se escutassem os gritos
33:08Em esta casa
33:10Passaram a maior quantidade de presos que houve na região
33:13Presos e presas
33:15Isso é importante destacar
33:17Que aqui também houve mulheres presas políticas
33:20E que recebiam o mesmo trato que recebiam os homens
33:24Não houve nenhuma diferenciação
33:26E como podem ver, isto está tudo destruído
33:30Porque houve um atentado em fevereiro de 2020
33:35Em pleno estallido social
33:37E isto foi incendiado
33:41Incendiou provocado
33:43Porque as provas assim o demonstraron
33:46E até o momento não se encontrou os culpáveis
33:51Porque obviamente querem borrar as evidências
33:54Querem eliminar a memória
33:56O que queríamos rescatar
33:58É precisamente que aqui
34:01Passaram muitas mulheres
34:03Muitas companheiras nossas
34:05Que foram torturadas de uma maneira mais selvagem
34:10Em esta casa
34:11As companheiras que passaram por esta casa
34:14Sus recuerdos deste lugar
34:18São terríveis
34:31Após anos de silenciamento
34:33Magda e suas companheiras de cárcere
34:35Criaram o grupo das mulheres presas políticas de Magalhães
34:39Enquanto lutam por justiça
34:41Elas fazem planos para transformar a antiga prisão
34:44Em um lugar de memória
34:47Sempre conto de que estuve aí
34:49De que passe por aí
34:52Trato de borrar as partes tristes, grises, oscuras
34:56Mas foi terrível a experiência de ter que viver algo aos 16 anos
35:01E passar por essa casa onde havia gente adulta
35:05Gente muito maior que eu
35:06Que estava sofrendo as mesmas torturas
35:09Que eu estava passando
35:11Sem sequer saber onde estava
35:13Porque eu não sabia onde estava
35:14Subida, baixa de escalera
35:16Parecia espacios amplios
35:18Uma máquina de escribir
35:20Que sonava
35:21Gente que gritava
35:23Gente que le pegaban
35:24Que golpeaban
35:25Que lloraban
35:26Esos recuerdos
35:27Tengo
35:28Que puedo relatar
35:29E que não me fazem daño agora
35:31Olha, a imagem
35:33Que sempre se me vem
35:34A memória da casa
35:35Porque eu soube
35:37Quando cheguei aí
35:38Onde era
35:38Porque chegamos
35:40Este
35:41Con os olhos
35:43Semi vendados
35:44Dizia eu
35:45Porque uno tratava de mirar por debaixo
35:47Esta imagem que te queda
35:48É uma escuridade
35:51Com vozes
35:54Que tratas de verlas por onde estão orientadas
35:59E sempre
36:01Minha figura
36:02É uma silla
36:04Em meio de uma sala grande
36:06Obscura
36:07E uma silla
36:08Onde há alguém sentado
36:09Amarrado
36:10E vendado
36:11Em os olhos
36:12E reconhecer
36:13Tan vívidamente
36:16O lugar
36:16O lugar
36:18O lugar
36:21O lugar específico
36:22O lugar
36:23O lugar
36:24O lugar
36:24O lugar
36:24Eu acho que é o mais rescatable
36:27Que estamos enteras
36:29E que a primeira
36:30Nos constituía
36:32Para exigir justicia
36:34No nos constituía
36:35Para exigir
36:36Plata
36:37Nos constituía
36:39Para exigir justicia
36:40ter que voltar a armar, ter que voltar a reconstruir, e isso é o que eu mais destaco,
36:48que nós, como mulheres, nós conseguimos reconstruir, nós temos juntado todos os nossos pedacinhos e nos reconstruímos.
36:57Eu sempre penso, eu tenho que estar bem, porque isso é o peor que podemos fazer ao nosso inimigo,
37:05nós estamos bem, recuperadas, com famílias, felizes.
37:29Falparaíso é um marco no início do golpe chileno.
37:31Aqui aconteceu a primeira ação militar.
37:35Os oficiais da marinha tomaram a cidade e declararam estado de sítio.
37:40Mais de 50 anos depois, esse passado ainda ecoa nas ruas da cidade portuária e na obra de quem vive
37:47nela.
37:57Olha.
38:05Pepe Rovano é cineasta.
38:08Seu pai foi condenado pelo assassinato de seis militantes políticos.
38:14Eu sou filho de mares solteras e nunca conheci a história de meu pai até que tinha 35 anos de
38:20idade e não vivia neste país.
38:23Tiempo, vivia na España, no sul de España, na Granada.
38:27E é a pergunta que eu acho que todos os filhos de mares solteras alguma vez na vida nos fazemos.
38:31Quem é meu pai?
38:32O meu pai só sabia seu nome, Rodrigo Alexe Retamal Martínez.
38:38Não sabia nada mais.
38:42Eu disse que a última prova para saber se era ele ou não era conseguir uma foto de seu pai.
38:48E me lembro que me mandaram esta foto, que é esta, a original, que não a vi desde o tempo.
38:56E eu vejo a foto e te vejo a ti e disse que é seu pai.
39:03E me conta que sou filho do coronel Rodrigo Alexe Retamal Martínez,
39:11autor de la morte de seis militantes do Partido Comunista Chileno,
39:16delitos por os quais foi condenado a 12 anos de cárcel
39:19e delitos por os quais não cumpliu nenhum dia de cárcel.
39:24E me mostra.
39:28E sou igual a ele.
39:30E aí me dou conta que sou filho de um genocida.
39:36Não quero conhecer.
39:37Não quero conhecer um criminal.
39:40Llevo 35 anos de minha vida sem conhecer-lo.
39:43Pois bem, não é meu pai.
39:45E aí vem a negação.
39:47Não podia sacá-me-lo da cabeça.
39:51A ideia de encontrar um assassino me terrorizava.
39:55Mas eu devia encontrar a meu pai.
39:57E aí estava muito nervioso.
39:59Era um dia de primavera.
40:02Nós chegamos de encontrar a um lugar muito estranho.
40:05O Casino de Viña del Mar.
40:10A primeira impressão, a encontrei fea.
40:14Dizia, ai, que fea.
40:15Pode ser mais guapa, por saber, no futuro.
40:18E a segunda foi...
40:20Le dei um abraço, não sei porquê.
40:22Como que me vino, como que o abracé.
40:24E o resto.
40:26Também traté de entenderlo a ele.
40:27E aí, meu pai, quando assassina os seis militantes do Partido Comunista,
40:33tinha 20 anos.
40:36Farouk Awad foi um dos seis dirigentes comunistas assassinados no caso Las Coimas,
40:42onde estive involucrado directamente a meu pai.
40:49Su esposa, por aquel entonces, era Berta Manríquez.
40:53Uma incalzable luchadora por a memória, a verdade e a justiça.
40:57Tenia ganas de conhecerla.
40:59Quise conhecer as víctimas de meu pai.
41:02Optei por, a as víctimas, não contarles no início, acredito que era eu.
41:06Porque, e ocupar meu nome, José Luis Navarrete Robano,
41:09mais que nada por medo.
41:11Me junté uma ou duas vezes com as víctimas.
41:15E, paralelamente, estava conhecendo a meu pai uma ou duas vezes.
41:19Como me dediquei a gravar, em Super 8.
41:24E estas são cintas que eu gravé.
41:27Mire.
41:30São cintas em Super 8 onde gravé
41:32meus encontros com meu pai.
41:39Como falamos agora do caso Coimas.
41:42Para mim não tem nenhuma importância recordá-lo,
41:45porque o desconozco, parece-lo.
41:47Segundo, pensei que era uma injustiça
41:49o deporte de uma catedral
41:51que me tenha convocado um tribunal.
41:54E, efectivamente, estive criado
41:57de libertad durante uma noite.
41:59E esse foi o tempo que estive restringindo.
42:03Em uma noite em que pensé muitas coisas,
42:07mas pensé a pobreza humana.
42:10pensé na baixa qualidade de indivíduos, que por tratar de enfrentar seus casos judiciales com nombría, com covardia, com covardia.
42:22E uma catedral estratégica era estirar os chicles para que o processo não terminaram, esperando que em algum minuto chegasse
42:30um perdonado,
42:31ou em algum minuto chegasse uma lei de amnistia e se lhe acabasse a responsabilidade de eliminar que estes tribunais.
42:39Nunca se arrepintiu.
42:41E cada vez que me lo contou, me lo contou como con...
42:46Primeiro negándolo, sempre o negou.
42:49E segundo, como enorgulleciéndose.
42:53Oye, pero se não eram eles, éramos nós.
42:55A teoria do empate.
42:57E aí mudou tudo também, porque eu não entendia como não te dão conta que o que fizeste foi malo.
43:04Depois da morte de meu pai, senti a necessidade de contactar a Berta e Isolna.
43:10E quando lhe vou contar a a vinda, a Berta, de fato,
43:15minha verdadeira identidade, que eu acabo de descobrir que sou o filho do assassinato do seu grande amor,
43:21ela morreu.
43:24Já não lhes podia mentir mais.
43:27Deberia revelar-les minha verdadeira identidade.
43:29Algo havia quedado pendente entre nós.
43:35Então, decidí voltar a comunicar-me com Isolda, sua filha.
43:39Talvez através dela, lhe poderia explicar a Berta,
43:43que, pese a tudo, queria acompanhar-la em sua luta.
43:50De novo, não sabia como acercarme.
43:57Então, naquele minuto,
44:00decidí gritar-le ao mundo
44:02que eu era o filho de um assassino.
44:05E não somente
44:07o grite ao mundo,
44:09mas que o grite aos seus filhos,
44:12o grite aos seus filhos,
44:13a sociedade chilena,
44:14e o grite ao mundo.
44:17E a minha filha,
44:18a minha filha,
44:19a minha filha,
44:20hoje,
44:20é a primeira vez que estaré
44:22junto a todos os familiares
44:24das vítimas de meu pai.
44:26Olha, eu não queria falar,
44:27mas presentes um pouco,
44:28que é o que eu...
44:29Ai, que difícil presentarme eu...
44:32Eu, na verdade,
44:33quise presentarme antes
44:34com os familiares, justamente.
44:38Para mim também é super difícil.
44:40Eu sou filho do genocida
44:41que asesinou a estas pessoas,
44:43que buscaram uma sociedade mais justa.
44:45Compañero Wilfredo Sánchez,
44:47presente!
44:48Compañero Pedro Araya,
44:50presente!
44:52Compañero Artenio Pizarro,
44:54presente!
44:56Compañero Maruco Aguas,
44:57presente!
44:59E eu durante muito tempo
45:02senti que estava solo.
45:04Sentia que era o único filho de genocida
45:07que se oponía aos crimes de seu pai
45:09e que lograva demandar a seu pai
45:11e a toda a minha filha
45:12por o tema de minha identidade negada.
45:15E de repente vejo no diário
45:17em uma revista que se chama Amphibia
45:20a uma mulher que se chama Analia Kalinek,
45:24a Lily Furió
45:25e a Mariana Opasso,
45:29ex-Mariana Checolás,
45:32que haviam decidido
45:33iniciar a marchar contra seus pais genocidas.
45:41Ao lado de outros filhos
45:43que se rebelaram contra seus pais genocidas,
45:46Pepe integra o coletivo Histórias Desobedientes,
45:49que atuam na busca pela memória, verdade e justiça.
45:56Em Chile somos 36 filhos que temos roto os vínculos com nossas famílias.
46:02Eu vengo de um pedaço da memória que é a memória posterior,
46:05que é a memória das novas generações e como nos estamos afrontando e como nos estamos levando.
46:10E eu sou parte de uma post memória bastante difícil de entender,
46:15que é a post memória de que cortamos os vínculos com nossos familiares
46:21e nos unimos nas lutas das víctimas.
46:23E isso é muito difícil de entender,
46:25inclusive para as víctimas.
46:30Aqui em Chile não havia justiça para as víctimas.
46:34Aqui em Chile, Pinochet moriu em sua mansão,
46:38rodeado de sua família,
46:39com todos os honores de um héroe militar,
46:42como moriu meu pai também.
46:45Meu pai moriu rodeado de sua família,
46:48comigo também.
46:48Sua funeral foi um funeral imperial.
46:52200 afetivos de carabinero tocando na marcha fúnebre,
46:56pese a sua condena por violações dos direitos humanos.
46:59Recordemos isso.
47:00Meu pai foi condenado por violações dos direitos humanos.
47:04Mas, mas, mas,
47:08mas tem a impunidade.
47:16Voltei ao Chile quando o golpe militar completou 50 anos.
47:20No Palácio de La Moneda,
47:22que um dia esteve em chamas,
47:23participei de uma manifestação de mulheres
47:26para que nunca mais essa história se repita.
47:28Nunca mais!
47:30Nunca mais!
47:32Nunca mais!
47:34Nunca mais!
47:35Nunca mais!
47:37Nunca mais!
47:38Nunca mais!
47:39Nunca mais!
47:41É muito difícil falar de memória,
47:43porque falar de memória é falar de dolor,
47:46é falar de algo que talvez ninguém quer ouvir,
47:48mas que é necessário.
47:50Que a não repeteção não seja somente,
47:52ou o nunca mais,
47:53não seja somente um slogan ou uma frase,
47:56mas que, efetivamente, seja uma realidade.
47:58Nunca mais!
47:59Nunca mais!
48:00Nunca mais!
48:01Quando não há justiça,
48:02as vítimas querem vengança
48:05e se vai transmitir de geração em geração.
48:08E essa é a violência que temos que parar,
48:10porque somos nós,
48:13desde a sangue,
48:14os que dizemos não ao genocídio.
48:17Não em meu nome.
48:22Eu ligo esse mensagem
48:24aos jovens do Brasil,
48:25assim como no seu país também
48:27existiram hechos tão dramáticos,
48:30aqui também, em Chile,
48:31que nossos países devem estar unidos,
48:34levantar esta memória
48:36a que construíam
48:38uma sociedade mais digna,
48:41justa,
48:42em democracia.
48:44Isso é o que todos esperamos.
49:12A CIDADE NO BRASIL
49:44A CIDADE NO BRASIL
49:45A CIDADE NO BRASIL
49:46Amém.
50:15Amém.
Comentários

Recomendado