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Episódio 5 do Bem Envelhecer fala sobre o medo excessivo da velhice
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NotíciasTranscrição
00:11Oiê, sejam muito bem-vindos. Esse é mais um episódio do nosso podcast Bem Envelhecer
00:16Medicênio. Eu sou a Nayara Arpini e mais uma vez estou aqui mediando um bate-papo para
00:21te mostrar como é possível envelhecer melhor e com mais saúde. Já tivemos episódios falando
00:27sobre espiritualidade, inclusão digital, economia prateada. Hoje mais uma vez tenho convidados
00:33especiais. Vou pedir para vocês se apresentarem, vocês já estiveram aqui, mas doutor Rony,
00:39diga lá. Então Nayara, muito bom estar aqui de novo com você, com os colegas, falando
00:45do Bem Envelhecer. Eu sou o Rony, sou médico geriatra e estou aí à disposição para a
00:52gente conversar hoje bastante. Isso, e aqui com a gente também, Maicon Oliveira, diretor
00:56da Medicênio. Eu já te apresentei, Maicon, mas fala um pouquinho aí também de você.
00:59Que legal, prazer estar aqui mais uma vez. Eu acho que esse tema vai mexer com muita gente
01:04hoje, Nayara. É um tema interessantíssimo que vai despertar aí alguma coisa interessante
01:09aí na população, viu?
01:10Exatamente. Vamos a esse tema, porque como eu disse, já falamos de muitos temas aqui,
01:14todos eles super interessantes, né? Vocês participaram de alguns deles aqui com a gente.
01:18E hoje a gente vai falar sobre o medo de envelhecer. Vocês têm medo de envelhecer?
01:25Já vou começar jogando aí, ó.
01:26A pergunta já veio, já é de cara.
01:29É um medo que aflige esses dois convidados?
01:32Engraçado, às vezes eu já respondi essa pergunta algumas vezes, é uma coisa que eu
01:36não tenho medo, de verdade, coração. Acho que envelhecer faz parte, envelhecer é
01:40bom, é bonito. Toda vez que eu falo isso, alguém me repreende e fala assim, duvido quando
01:44você tiver lá seus 80 anos cheio de dor, cheio de problema. Eu acho que isso faz parte
01:49da vida e a gente tem que se preparar pra envelhecer bem. Eu acho que o segredo é isso, né?
01:53O corpo, mente, uma série de fatores aí que a gente vai falar em seguida que compõem
01:58uma velhice saudável e bacana. Então, assim, medo muito pouco. E você, Rony?
02:03Então, Michael, eu vou confessar pra você. Eu tenho medo, né? Mas eu aprendi a lidar
02:09com esse medo. Medo de ter um envelhecimento ruim, sem saúde e principalmente com dependência,
02:15né? Mas a partir daí, trabalhando com os idosos e vendo uma outra realidade, uma velhice
02:21saudável, feliz, né? E com significado, a gente pega esse sentimento do medo e transforma.
02:28Transforma isso num recurso, um recurso que a gente vai poder adquirir as competências
02:35que a gente precisa pro envelhecimento. Então, na verdade, o medo eu entendo como uma oportunidade.
02:40Já que a gente ainda não é idoso e seremos, se Deus quiser, a gente pega esse medo e transforma
02:46uma forma de se conhecer melhor e se preparar melhor.
02:51Se cuidar, né? Se cuidar melhor.
02:53A gente fala tanto aqui, né? De bem envelhecer.
02:55Exatamente.
02:56E talvez esse medo de envelhecer, essa preocupação com o envelhecimento ajude nesse sentido, assim.
03:01Então, já que eu tô preocupada com como vai ser o meu envelhecimento, já vou começar
03:05a me cuidar agora.
03:07Você que é geriatra, Dr. Rony, seus pacientes costumam levar essa preocupação pro consultório?
03:13Você costuma ouvir muito, né? Sobre isso?
03:15É engraçado, eu fiquei pensando aqui, você falando isso, que às vezes me procura os
03:20filhos dos pacientes, né? Então, eu atendo alguns pacientes, principalmente pacientes com
03:25algumas doenças mais complexas e às vezes vem um filho procurando exatamente isso.
03:31Dr. Rony, eu não quero ter esse problema de saúde, eu tô com medo, o que eu faço, né?
03:36Às vezes até alguns meio desesperados, angustiados, né? Com o que vai ser a velhice.
03:42Principalmente aqueles que estão perto ali, entre 50 e 60 anos, né? Então, sim, eles aparecem e isso é uma
03:50coisa que a gente vê na realidade, né?
03:53O medo do envelhecimento. Mas, geralmente, a experiência traz uma perspectiva, né?
04:01Então, aquelas pessoas em que os pais envelheceram mal, com doença, morreram precocemente, esses talvez tenham mais medo.
04:11Aqueles que veem os pais saudáveis com 80 anos, fazendo as coisas, geralmente, eles são mais otimistas com o envelhecimento.
04:21Então, eu acho que também tem esse exemplo, essa perspectiva, né? Do que aconteceu comigo, com a minha família, né?
04:28Isso influencia também.
04:30Uma coisa interessante é que o medo de envelhecer não necessariamente está ligado a pessoas que já estão aí chegando,
04:38né?
04:38De 50, 60, 70, enfim. Pessoas jovens já podem acabar, né? Tendo esse medo.
04:45E é um medo que eu fui descobrir agora que tem até nome, que é a gerascofobia.
04:50Exato.
04:51Não é isso? Vocês, principalmente você, doutor Rony, da área da medicina, os jovens, então, estão chegando já com esse
04:59medo?
05:00Então, algumas pessoas têm esse medo. Quando esse medo, ele é extremamente irracional e ele tem uma perspectiva negativa,
05:07em que a pessoa começa a entrar num quadro compulsivo de querer se cuidar e não pode ter uma ruga
05:15e ele só pensa nisso,
05:17aí isso já é algo que a gente considera doentio.
05:20Essa pessoa precisa de um apoio psicológico, um acompanhamento, porque ter um pouco de medo, sim,
05:29uma ansiedade pelo que vem pela frente, porque a velhice, para muitos, é algo desconhecido, né?
05:35Assim, o que vai ser, né? Mas, ao mesmo tempo, as pessoas que já são idosas, principalmente acima dos 80
05:42anos,
05:43elas não tinham essa perspectiva. Eles foram envelhecendo, vivendo, quando viram, cheguei na velhice.
05:50Muitos morreram, a expectabilidade aumentou, né? Só que as gerações, quanto menor a geração, mais real é o envelhecimento.
05:58Então, hoje, os jovens, eles andam na padaria, na rua, eles convivem com milhares de idosos, né?
06:06Então, eu acho que a visão do envelhecimento, ela vai mudar.
06:13Mas, como você falou, alguns jovens são mais imediatistas, né?
06:17Eles não conseguem ver o envelhecimento.
06:20E o envelhecimento ainda também está associado na nossa sociedade como algo não produtivo.
06:25É um capital de trabalho, ah, o idoso, né?
06:29Que também está mudando, porque os idosos, você vê idosos superativos, funcionais, né?
06:36A questão da aposentadoria é uma coisa que até o próprio nome já induza.
06:41Você pensar sobre aposento, se recolher, se isolar, na verdade é uma idade super produtiva, né?
06:48Eu entendo que, eu acho que até as pesquisas mostram muito isso, né?
06:52O medo de envelhecer, ele está muito mais associado, não só à questão etária e física e estética,
06:59mas muito mais a quem vai cuidar de mim, medo de ficar dependente de alguém.
07:04Agora, eu acho que as gerações mais jovens, elas têm um medo que é muito mais estético,
07:09como ele falou, imediatista, do que mesmo de saúde, de envelhecimento saudável.
07:14Então, acho que essa mudança do comportamento da sociedade aí está acontecendo em uma velocidade interessante, né?
07:19Eu vejo como alguns pilares, assim, né?
07:21Esse medo de envelhecer, porque tem a questão estética, acho que as transformações físicas assustam um pouco,
07:27principalmente a geração mais jovem que está sofrendo muito com essa pressão.
07:31Você falou, né, doutor Rony, ah, não posso ter uma ruga, não posso ter uma linha de expressão.
07:35Então, a gente, principalmente nas redes sociais, né, acaba sofrendo muito com isso, essa pressão estética.
07:41Eu acho que tenho medo de perder a independência, né, de perder a autonomia, a questão com a saúde,
07:48e o medo da solidão também, né?
07:51Acho que o Michael falou muito bem essa questão de quem vai cuidar de mim.
07:54Essa é uma preocupação que a gente já está ali regando desde agora, com 30 e poucos anos.
08:00Uma tendência muito forte no exterior, e isso está crescendo muito no Brasil também,
08:04é de ambientes, né, de comunidades, de condomínios voltados para o público sênior, né?
08:10Onde as pessoas podem conviver, coabitar, com serviços médicos, com todas as adaptações ali necessárias
08:18para um envelhecer tranquilo, vivendo mesmo em comunidade, né?
08:22A gente tem visto muito esse movimento, né, Rony?
08:24A gente tem visto muito isso, e a gente está transformando a sociedade, né,
08:30para entender que a gente vai chegar lá aos 80, 90 e 100 anos.
08:34E aí a gente tem que trabalhar os nossos patrimônios, que não é só financeiro, né?
08:40Óbvio, os recursos financeiros são importantes, mas, por exemplo, o que o Michael está falando aqui,
08:45os patrimônios sociais, né?
08:47Isso é um patrimônio imenso, porque se eu crio vínculos durante a minha vida, amigos, né,
08:54quando eu estiver mais velho, eu vou poder manter essas relações.
08:58E isso vai me proteger de um monte de doença mental, né?
09:02Isolamento social, ele é um fator de risco para muitas doenças na população idosa, né?
09:07O outro patrimônio que você falou também é o patrimônio físico, né?
09:11Então, eu vou criar minha reserva, né?
09:14Minha reserva física, eu vou ter uma capacidade física melhor, né?
09:18Músculos, né?
09:19Idoso precisa de músculo para não cair, né?
09:21Então, é uma grande oportunidade e a gente está criando soluções, soluções para enfrentar essa questão social, né?
09:30Essa construção social do envelhecimento, que é a realidade, o Brasil é, mais uma vez, um país que está mais
09:35envelhecendo no mundo.
09:37Inclusive, o dado recente da Previdência, agora eu vou estar na fala da Previdência,
09:42que o governo não estava preparado para o tamanho, para a velocidade do envelhecimento da população,
09:49de tão rápido que o Brasil está envelhecendo, mostrando, né?
09:52E lembrando, o envelhecimento é uma dádiva.
09:55A gente viver nessa época, que a gente vai ser idoso, é um presente que a gente tem que agradecer
10:01todos os dias, né?
10:02As pessoas associam muito a coisa negativa, né?
10:05A doença, a dor, o problema, mas, cara, tem tanta coisa boa e positiva que precisa ser falado.
10:10Como é que a gente muda esse pensamento?
10:13Que eu acho que ele ainda é muito comum, né? Para muitas pessoas.
10:16Eu acho que essa ideia tem muito a ver com o florescimento, né?
10:19Você vai deixando o legado para a geração.
10:22O conhecimento, ele não é finito, né?
10:24Claro, existem detalhes ali físicos, motores, que são naturais da idade,
10:30mas o aspecto intelectual, cultural, o legado mesmo que você está deixando para a sociedade, isso é riquíssimo.
10:38O Brasil precisa valorizar mais isso, né?
10:40A gente precisa valorizar a pessoa idosa como uma fonte mesmo de conhecimento.
10:45Então, acho que isso é muito importante ser falado, né?
10:47E pegando esse gancho do Michael, existem projetos muito legais,
10:51que no Brasil ainda estão muito incipientes, mas lá fora, né?
10:53Portugal tem que fazer a interface intergeracional.
10:58Então, você tem locais, por exemplo, em Portugal, que um pouquinho que eu conheci,
11:03que tem lá uma creche do lado de uma instituição de longa permanência, né?
11:07Então, em algum momento, o idoso vai lá contar uma história, conversar com as crianças e vice-versa.
11:14Então, essa aproximação do idoso com o jovem, ele quebra uma barreira,
11:20porque o jovem fala, caramba, olha lá, que legal, né?
11:22Eu quero ser igual a senhorinha e o senhor, né?
11:27Então, essa relação, né?
11:29A gente está vendo isso de forma de necessidade das pessoas com os avós, né?
11:33Quem tem filho pequeno, né?
11:35Sabe como os avós são importantes, né?
11:37Então, esse encontro de gerações, ele é riquíssimo.
11:41Então, é um dos caminhos para a gente tentar quebrar esse preconceito, né?
11:46Dessas gerações novas, né?
11:47Esse medo, o que vai ser, o que é envelhecer, né?
11:51Eu acho que eu já entendi, assim, que a minha estratégia de tentar deixar esse medo de lado,
11:55assim, porque querendo ou não, ele vem, né? Não tem jeito.
11:59É conviver com pessoas mais velhas e que são muito ativas e que são bons exemplos nesse sentido.
12:04E aí, uma coisa engraçada, que a gente tem uma brincadeira hoje em dia na internet, né?
12:09De falar assim, ah, eu sou uma jovem senhora, né?
12:12Tenho 30 anos, sou jovem, mas não vou mais para a balada, tenho preguiça,
12:16quero chegar no lugar, já procuro um lugar para sentar.
12:18E a gente está enganado, né?
12:20Porque no final de semana, encontrei uma senhora de mais de 80 anos,
12:24num forró, que eu fui com os meus pais, acompanhar meus pais,
12:28e ela estava dançando pra caramba.
12:30Ela contrata um rapaz para acompanhá-la dançando.
12:35Então, assim, para mim, eu olhei para aquilo, e eu sentada na mesa com os meus pais,
12:38eu olhei e falei, gente, olha aí um exemplo, né?
12:42De uma senhora, eu uma jovem, ela uma senhora,
12:45mas muito mais ativa e, assim, feliz e contando da vida e dançando e se exercitando.
12:52Então, acho que quando a gente convive, a gente vê que, assim,
12:56talvez o envelhecimento não seja esse bicho de sete cabeças que a gente, às vezes, né?
13:01Perfeito.
13:02A gente está chegando no momento que a gente quer envelhecer com autonomia e independência.
13:06E é isso, né?
13:08Uns gostam de sair, então, na velhice não há limite, você pode sair,
13:12fazer o que você quiser, você tem que ser livre, né?
13:15E outros que gostam de ficar em casa, ficam em casa, né?
13:18Então, autonomia e independência talvez seja uma grande palavra,
13:21grande poder do idoso, é isso que eles querem, né?
13:24É isso que todos querem envelhecer,
13:26mantendo sua capacidade intelectual, né?
13:29De tomar decisões e mantendo sua capacidade física, de ir e vir, né?
13:33Sua visão perfeita, né?
13:35Sua audição.
13:36Então, é muito bom encontrar os idosos, né?
13:38Eu que faço natação e, cada vez mais,
13:41eu já nadei com uma senhora de setenta e cinco anos e ela nada muito e isso...
13:46A gente fica doido, né?
13:47É uma inspiração, né?
13:48É uma inspiração, é todos os dias, né?
13:50Tá certo.
13:50Tem uma notícia pra vocês, que isso aqui foi só um aquecimento, tá?
13:54Opa!
13:54Temos ainda um segundo bloco daqui a pouquinho com mais um convidado,
13:58então, a gente vai pra esse intervalo rapidinho e já volta.
14:07Estamos de volta agora com o nosso terceiro convidado desse episódio,
14:11doutor Luan Pogian, que é psiquiatra com atuação em psiquiatria geriátrica, né?
14:17Isso mesmo.
14:18Seja bem-vindo, viu? Obrigada.
14:19Muito obrigado.
14:20Eu acho esse espaço muito importante,
14:22porque é um espaço pra se debater sobre esse tema, né?
14:26Do envelhecimento e a gente combate o medo de envelhecer com conhecimento.
14:30É isso.
14:31Agora eu quero saber se você também tem medo de envelhecer.
14:34Eu acho que todo mundo tem um pouco de medo de envelhecer, né?
14:37Em graus mais elevados, a ponto de se tornar uma patologia,
14:40ou medo que não é tão intenso, né?
14:46Eu acho que o medo de envelhecer faz parte e ele deve servir como um fator que nos estimule
14:53a lidar com estratégias de saúde, né?
14:57Uma estratégia de vida com mais saúde, com mais equilíbrio, com mais moderação.
15:03E aí, assim, com relação a ter medo de envelhecer, o meu principal medo é de dar trabalho, né?
15:10De também ficar dependente, né?
15:13Que é um dos principais medos dos idosos, é tornar-se dependente, perder a funcionalidade, né?
15:18E desde que você começou, assim, sua residência, né?
15:22Sua vida acadêmica na medicina, enfim.
15:25Você se interessou por partir pra esse lado de cuidar da saúde mental, dos idosos?
15:33Inicialmente, eu sempre gostei muito da escuta, né?
15:36Da escutativa.
15:38Por isso que dizem que a gente tem dois ouvidos e uma boca, né?
15:41Pra gente ouvir mais.
15:42E aí, isso me levou a fazer a psiquiatria.
15:44Dentro da psiquiatria, a gente roda, né?
15:47Nos diversos ambulatórios de saúde mental,
15:49eu comecei a ter interesse mais por essa parte até mais orgânica do cérebro, né?
15:54Então, eu comecei a gostar um pouco mais das doenças neurodegenerativas,
15:58das demências, dos distúrbios de movimento.
16:01Mas eu fui percebendo que o idoso também precisa dessa escuta ativa.
16:05Aliás, é a geração que mais precisa de uma escuta, né?
16:09Muitos são carentes.
16:10Solitários, às vezes.
16:12Solitários, exatamente.
16:13E aí, essa escuta, ela traz um crescimento muito grande pro profissional, né?
16:17A gente tem muito a aprender com os idosos.
16:19Cada idoso traz consigo um conhecimento, uma sabedoria, uma história de resiliência.
16:26E isso ajuda, inclusive, a gente a ser modelo, né?
16:30Eles são modelos pra nós.
16:33Modelo do que a gente deve fazer e do que a gente não deve fazer também, né?
16:37E é muito gratificante você atender um idoso quando chega no consultório.
16:43Às vezes, sem propósito de vida, sem energia, sem aquele brilho nos olhos.
16:48E aí, quando você consegue restituir a ele esse propósito, essa alegria, é algo assim
16:54que não tem preço, né?
16:55De um valor imenso.
16:56E pra família também, né?
16:58Porque a família compra também o tratamento, né?
17:00Isso é muito bonito.
17:01Eu imagino.
17:02Pelo que a gente já conversou aqui, né?
17:04Já deu pra perceber que o medo de envelhecer é algo muito comum entre as pessoas, os mais
17:09jovens, os mais velhos.
17:11Quando é que a gente precisa ter atenção de que esse medo tá se tornando uma coisa
17:16fora daquilo que é considerado ok?
17:20Sim.
17:21Aí é até interessante a gente distinguir o que é um medo do que é um transtorno
17:24de ansiedade, né?
17:25O medo, ele tá mais relacionado às situações temporárias.
17:29O medo, ele sempre existiu.
17:31O medo, ele prepara a gente pra situações de luta ou fuga, né?
17:35Então, o homem primitivo, por exemplo, ele tinha medo de um bicho, né?
17:40De uma onça, de algo nesse sentido, atacar.
17:43Então, o medo é fisiológico, é a reação fisiológica do nosso corpo, onde a gente tem
17:48liberação de adrenalina, né?
17:50De neurotransmissores que vai fazer com que a gente lute ou fuja daquela situação.
17:57Então, são situações temporárias.
18:00Porém, quando isso começa a ser muito frequente, de uma intensidade muito intensa,
18:05a gente já parte pro adoecimento, né?
18:07E esse adoecimento, ele pode se transformar num episódio de pânico, em episódios recorrentes
18:13de pânico, em um transtorno de ansiedade generalizada, até em depressão, né?
18:18Ou uma tristeza mais prolongada.
18:20Então, quando a gente já começa a ter esses sinais, é importante procurar ajuda.
18:24Às vezes, até antes, né?
18:25Mesmo no estágio de medo, é interessante fazer uma terapia.
18:29Na prática, como é que a gente pode observar isso, assim?
18:32Até a gente que é de fora mesmo, né?
18:34É uma pessoa que, às vezes, a gente vê que tá obcecada, talvez, por uma alimentação
18:39saudável, ou uma pessoa que tá obcecada por um...
18:42Sei lá, atividade física.
18:44Isso pode representar essa preocupação exagerada com o envelhecimento?
18:50E aí, é necessário, nesse caso, uma intervenção, assim?
18:53Orientar essa pessoa, talvez, procurar uma ajuda psiquiátrica pra...
18:58Tentar, né?
18:59Fugir desse caminho?
19:00Eu acho que o primeiro passo é você conversar com esse idoso, ouvir o que ele tem a dizer,
19:06né?
19:06Acolher ele, pra poder entender, realmente, o que se passa por trás disso.
19:10O que se passa pela obsessão com o corpo, né?
19:15Entender se isso é uma negação do envelhecimento, que muitos acabam negando o envelhecimento.
19:21E aí, se perceber esses sinais, né?
19:23De negação do envelhecimento, do medo da morte em si, às vezes, é só trabalhar um pouco mais a espiritualidade.
19:32Na dúvida, eu sempre falo, passa por uma avaliação que a gente vai poder ajudar, né?
19:37Inicialmente, pode ser com psicólogo.
19:38Tem alguns psicólogos que são mais voltados pra essa área do envelhecimento também.
19:43Então, assim, na dúvida é sempre bom passar pela avaliação.
19:47A gente já falou um pouquinho disso aqui, mas vou aproveitar os três agora reunidos na mesa.
19:53A gente tem ainda essa ideia, vou falar a gente porque eu acho que ainda é uma ideia geral, infelizmente,
20:00de associar o envelhecimento à doença.
20:04Por que vocês acham que a gente ainda tem esse pensamento?
20:07E como quebrar esse tabu?
20:10Na visão médica?
20:11Na visão sociedade em geral?
20:16Durante muito tempo, o envelhecimento, as pessoas nem envelheciam direito, né?
20:20Há muitos anos atrás, alguns anos atrás.
20:22Então, as doenças, que hoje são doenças que se tornaram crônicas, matavam, né?
20:27Então, uma pessoa hipertensa, uma pessoa com deslipidemia, muitas vezes nem recebia o diagnóstico, né?
20:31Nem tinha esse cuidado preventivo, né?
20:34Essas etapas que tem de prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação.
20:39Muitas vezes nem prevenção tinha.
20:42E aí, com o desenvolvimento da medicina, nós passamos a tratar essas condições melhores
20:48e aí hoje a população tem uma sobrevida muito maior, né?
20:54A expectativa de vida aumentou muito.
20:56Então, eu acho que ainda há um resquício dessa época, onde não tinha muitos recursos,
21:01as pessoas morriam mais de câncer, morriam mais de doenças infecciosas.
21:06E aí, eu acho que é mais ou menos por aí.
21:10Eu acho também que o envelhecimento é uma construção social.
21:14Então, a gente traz uma ideia de que envelhecer é sinônimo, a gente falou um pouquinho,
21:20de não ser produtivo, de não entregar, né?
21:23Numa sociedade altamente, principalmente ocidental, competitiva, né?
21:27De você não produzir, né?
21:30Mas isso pode ser diferente.
21:32Por exemplo, a gente sabe que os orientais têm uma visão do envelhecimento diferente
21:36e colocam o idoso como uma pessoa sábia, como uma pessoa para ser consultada, né?
21:43Os índios, muitas vezes, algumas tribos, não são todas, né?
21:46Têm o hábito de deixar o idoso, ele vai para um lugar quieto, né?
21:50Quando ele não está mais produtivo, para morrer.
21:52Então, essa é uma construção social.
21:55E na medida que a gente está vendo os idosos mais ativos,
21:59a gente está quebrando esses nossos preconceitos, né?
22:02Que a gente chama isso de ageísmo, idadismo, né?
22:05O ageísmo do inglês, mas idadismo, né?
22:07Esse preconceito quanto ao envelhecimento.
22:10Associar o envelhecimento, como o Maicon falou, uma coisa negativa, ruim.
22:14Envelhecimento não é uma coisa ruim, é um processo natural.
22:18E ele pode ser fruto de uma vida bem vivida
22:24e continuar sendo uma vida bem vivida, né?
22:28Você continuar produtivo, né?
22:30Na prática, né? Quantos idosos aí que têm grandes histórias,
22:34grandes CEOs de empresas, 60 a mais, empreendedores,
22:38pessoas que são referência, exemplos de sabedoria, conhecimento.
22:42Eu acho que a gente precisa virar essa chave, especialmente no Brasil,
22:45e começar a enxergar o valor disso, né?
22:49Que é um valor cultural, social, intelectual gigantesco.
22:52A gente precisa ter esse cuidado.
22:54E eu acho engraçado que até, em um outro episódio,
22:57a gente falou sobre as blue zones, as zonas azuis, né?
23:00Então, áreas em que as pessoas vivem muito.
23:04E a gente trata isso sempre como uma coisa tão positiva, né?
23:08Caramba, olha que legal, nessa região aqui,
23:10tem tais e tais e tais fatores que levam as pessoas a atingirem
23:14uma idade bem mais avançada, com saúde.
23:16E por que que a gente, ainda assim, às vezes insiste em ver o envelhecimento
23:21como algo negativo, né?
23:24Assim, pra mim, é até contraditório a gente falar de um assunto
23:28e ter essa outra perspectiva.
23:31É, na blue zones, o idoso, ele é um patrimônio daquela comunidade, né?
23:35Você vai envelhecendo, você tem um pertencimento,
23:37e o seu pertencimento aumenta.
23:39Quanto mais idoso você tá ali, né?
23:41Na sociedade, no núcleo familiar, né?
23:44Gera uma admiração, né?
23:45Gera uma admiração, um respeito.
23:47São pessoas também, a gente fala, que não param de trabalhar.
23:50A gente falou disso no episódio de blue zones,
23:52então eles trabalham, porque não tem aposentadoria.
23:55Aposentadoria também é uma coisa criada lá atrás.
23:57Tá atrasado esse conceito de aposentadoria.
23:59Vai ter que mudar, né?
24:00Você parar e ficar no aposento, né?
24:03Você pode parar, mas vai fazer outra coisa.
24:05Vai realizar um sonho, vai viajar, vai montar um negócio.
24:09Vai empreender.
24:10Vai empreender uma coisa que você sempre quis.
24:11Vai fazer uma faculdade, né?
24:12Quanto que a gente não vê histórias assim?
24:16Então, eu acho que é nesse sentido.
24:18A gente trazer o idoso e fazê-lo pertencer mais, né?
24:24E não isolá-lo, né?
24:27Para ele estar dentro do processo da comunidade, da sociedade, de forma natural.
24:34Envelhecer é um privilégio, né?
24:36E aí, contextualizando o que você falou, o doutor Rony falou,
24:41tem uma paciente de 90 anos, está um caso clínico, né?
24:44Vou usar o pseudônimo de Maria.
24:47Ela chegou no consultório para mim pela primeira vez, já tem uns 4 anos,
24:51e aí a queixa principal dela era, eu tenho medo de ficar velha, né?
24:55E ela já tinha 90 anos.
24:56Eu falei, como assim?
24:57Me explica melhor lá, doutora.
24:58Eu tenho medo de ficar velha desde que eu tinha 60 anos.
25:02Aí, ela mesmo faz essa comparação, né?
25:05Ela fala assim, por que eu não economizei esse tempo todo, né?
25:0830 anos com medo de ficar velha, já estou com 90, mas agora não tem jeito,
25:12porque agora realmente eu estou velha, né?
25:14Ela cita um exemplo, ela falou assim, já viu alguém chegar a 110, a 115, a 120?
25:18Porque, assim, todas as minhas amigas já faleceram, né?
25:22Então, o meu contato social já diminuiu muito.
25:26E aí, ela vem com essa angústia, né?
25:28Essa angústia relacionada ao envelhecimento.
25:31Ela estava tratando comigo sintomas depressivos, né?
25:33Um transtorno depressivo com sintomas ansiosos.
25:36E aí, ela é uma grande empresária,
25:41ensino superior, empresária, ela era CEO de uma empresa, né?
25:45Numa época muito mais difícil para as mulheres.
25:48Super reconhecida.
25:50Teve duas filhas, e essas filhas, quando ela chegou, ela tinha mais ou menos uns 60 anos,
25:56começaram a assumir o comando da empresa.
25:59E aí, mais recente, a empresa começou a se expandir para o exterior,
26:04e aí elas começaram a viajar, e essa senhora passou a ficar mais tempo sozinha.
26:08Uma casa gigante, no Brooklyn, e aí ela, os medos dela, os principais medos dela,
26:15era justamente de perder a autonomia, porque até então ela estava com uma autonomia totalmente preservada.
26:21Ela ia para a consulta, chamando um aplicativo que ela mesma pedia pelo celular dela.
26:28Chegava lá, com 90 anos, pagava a consulta com TED, né?
26:32Porque na época eu não tinha Pix.
26:36Voltava para casa, ela administrava, ela tinha...
26:41Eu falei assim, senhora tem cuidador?
26:42Ela, cuidador não, acompanhante, porque eu não preciso de cuidador, né?
26:46Até sem jeito, né?
26:48Então, ela tinha alguns acompanhantes, mas ela não permitia que eles fossem à consulta,
26:52ela queria ir sozinha, porque ela queria, através disso, preservar o máximo possível da autonomia dela,
26:58e ela tinha vários medos, né?
27:01O medo por trás desse envelhecimento era o medo de perder, mesmo a cognição,
27:05de ter algum tipo de demência, o medo de perder a autonomia.
27:09O idoso tem muito medo de queda, né?
27:11Principalmente o idoso que não faz uma atividade física, que não faz fortalecimento muscular.
27:17Então, por trás desse medo do envelhecimento, vem inúmeros outros medos.
27:21E aí, através do acompanhamento, dessa escuta, ela, graças a Deus, foi melhorando, né?
27:28Começou a fazer um monte de coisas que eu fui sugerindo, né?
27:30E aí, ela foi melhorando também, e hoje ela está bem.
27:34Fiquei curiosa, o que você sugeriu?
27:36Né? Queremos saber o segredo.
27:40Porque esse é um tema também, né?
27:41Quais são as estratégias para que as pessoas enfrentem esse medo?
27:44Exatamente.
27:46Então, assim, a gente tem que valorizar aquilo que o idoso pode fazer e aquilo que ele gosta de fazer,
27:52né?
27:52Então, é interessante que tem uma entrevista, às vezes a gente vai precisar até de um terapeuta ocupacional também para
27:56auxiliar nisso,
27:58valorizando a potencialidade daquele idoso.
28:01Ela gostava muito de dançar quando era mais jovem, né?
28:04E aí, eu sugeri para ela dança circular, que é uma dança que participam outros idosos, né?
28:11É bem interessante, tem toda uma interação ali.
28:13Então, ela entrou na dança circular, ela já era fluente em três idiomas.
28:17E aí, eu sugeri que ela fizesse um outro idioma, ela começou francês também.
28:22Atividade física, ela fazia uma atividade física individual, um pilates, né?
28:26Que não tem tanto envolvimento com outras pessoas.
28:28Sugeri que ela fosse para hidroginástica, né?
28:30Sem contar com a dança circular, que já é uma atividade física, né?
28:33Além da questão lúdica, porque ter contato com outros idosos estimula esse senso de pertencimento, né?
28:41Então, eu tenho 90 anos, mas fulana tem 98, outra tem 95, eu estou melhor do que aquele que tem
28:4780.
28:47Então, tem tudo isso.
28:49Eles acabam se comparando muito também.
28:52E fazer atividade física, cuidar da alimentação, leitura, né?
28:59A gente tem que promover tanto uma reserva física, através dos exercícios, quanto uma reserva cognitiva, né?
29:05A reserva cognitiva, a gente fala, é como se fosse malhar o cérebro, né?
29:08Eu sempre uso essa analogia.
29:10Então, através de leitura, principalmente leitura, aprender um instrumento novo, ela começou a tocar flauta também.
29:16Ela foi fazendo um monte de coisa, mas assim, isso não sobrecarregava ela, porque ela estava com um tempo muito
29:21ocioso, né?
29:22E aí, ela, acho que ocupando mais o tempo também, esse medo da existência, né?
29:28Esse medo do que vem depois, a parte espiritual dela também estava muito vazia.
29:34Então, conversar sobre isso, às vezes os profissionais têm medo de falar sobre espiritualidade, né?
29:39Parece que está invadindo o...
29:40Foi nosso primeiro episódio.
29:43É interessante que a gente não vai impor nada, né?
29:46Nós não estamos na situação de impor, mas a gente pode estimular, né?
29:50Através de... fazendo perguntas, perguntando para o idoso como que ele entende isso, como que ele entende depois da morte,
29:58o que ele acha que vai acontecer.
29:59Esse debate, principalmente quando é possível ter um debate em grupo, né?
30:04Terapia de grupo funciona muito bem para idosos também.
30:06É muito importante.
30:08Essa história me trouxe até uma reflexão aqui, barra dúvida.
30:11Vocês acham que esse medo de envelhecer, ele tende a atingir pessoas que são mais ativas na juventude?
30:18Por exemplo, pessoas que têm um trabalho muito bem definido ali, né?
30:23Que têm uma função muito importante e que, às vezes, elas têm a sensação de que elas podem perder essa
30:28importância, bem entre aspas, né?
30:30Que elas têm enquanto são jovens.
30:34Vocês acham que pode ter alguma relação com isso?
30:36Eu acho que sim, porque, na verdade, é uma consciência, né?
30:40Então, durante a vida, se você tem muita consciência, muita autonomia, muita independência, quando você envelhece, você fica com medo
30:48disso.
30:48Se você não tem consciência disso, né?
30:51Você talvez...
30:51Acaba nem passando pela cabeça, talvez.
30:53Ah, vou vivendo, né?
30:55E beleza, né?
30:57Mais que nem o caso que o Luan falou, né?
31:00Uma senhora que tinha um papel social muito bem delimitado, marcado, com uma importância, né?
31:06Então, isso também faz refletir sobre essas mudanças também, né?
31:10Ah, eu vou largar uma empresa, um trabalho, porque eu tô idoso, né?
31:15De repente, numa empresa familiar, talvez se faz isso de forma gradual, né?
31:19Dar liberdade pra ela participar de decisões, de conselhos, né?
31:24Então, isso eu entendo que sim, que isso tem influência.
31:30E é importante que a família vá fazendo algumas mudanças de forma gradativa, né?
31:36Não é simplesmente chegar do dia pra noite e falar assim, olha mãe, agora a senhora não pode mais dirigir,
31:40né?
31:40Vamos vender o carro.
31:41Isso impacta muito.
31:43Porque o idoso, ele sempre faz essa comparação, né?
31:46Se eu não posso dirigir, eu já tô perdendo minha autonomia.
31:48Qual que vai ser a outra limitação, né?
31:50Que vão impor.
31:51E aí, essa senhora, ela já tinha uns 10 anos que não dirigia.
31:55Ela tinha até condições de dirigir ainda, né?
31:57Mas já tinha uns 10 anos que ela não dirigia, porque a família temia que acontecesse alguma coisa.
32:01Já que as filhas não estavam sempre presentes.
32:04E como o Rony falou, ela administrava uma empresa com mais de 200 funcionários, né?
32:10E aí, de repente, ela perde esse status, né?
32:13E ela administra agora quatro funcionários que ela tem em casa.
32:18Então, tem essa perda de status também.
32:22Então, isso impacta, sim, com certeza.
32:24Também a gente, de repente, pode substituir, né?
32:27Então, assim, se eu não tô administrando uma empresa, eu posso adquirir outras habilidades e outras funções, né?
32:36Então, isso também é interessante.
32:37Aprender coisas novas, né?
32:39De repente, ela não tá mais administrando uma empresa, mas ela tá curtindo lá, mexendo nos aplicativos, né?
32:45Tá fazendo outras coisas, se sentindo útil e se sentindo independente, né?
32:51Que isso que a gente já concluiu que é mais ou menos um medo universal das pessoas, de perder a
32:57sua autonomia e independência, né?
32:59Sim.
32:59Ela falou, eu perguntei pra ela o que ela gostava de fazer, né?
33:03Isso na primeira consulta.
33:04Ela falou assim, ah, eu gosto de assistir vídeo no YouTube.
33:06Falei, ah, como a senhora faz no celular?
33:08Aí ela, não, doutora, isso já é do passado.
33:10Eu coloco no celular, mas eu espelho na TV.
33:12Falei, pô, me ensina como faz, né?
33:15Não, ela é um ótimo exemplo pra gente, então, né?
33:19É, é muito...
33:21Só que tinha um medo, né?
33:22Que ela foi tratar esse medo, essa angústia.
33:24Mas com essa forma de trabalhar com ela, teve um resultado bem interessante.
33:30E tem um negócio legal que no Brasil, acho que a gente já comentou em algum outro episódio,
33:34que no Brasil ainda tá pouco explorado, que é o voluntariado.
33:37Então, os idosos muito saudáveis, né?
33:40Eles podem, assim, que nem ela, ativa, que quer se sentir útil, né?
33:44Então, ela pode ser uma referência pra muita coisa, né?
33:48Pra outros idosos, né?
33:49E existe milhares de trabalhos, né?
33:52Isso é muito comum nos Estados Unidos, na Europa, né?
33:55Então, ela se mantém ativa, trabalhando, produtivo, se sentindo pertencente e ensinando, por exemplo.
34:02Ela poderia ensinar outros idosos a usar a tecnologia.
34:06Olha que máximo que seria, né?
34:08Vou até continuar usando essa paciente aí de exemplo pra uma outra pergunta,
34:12porque eu achei a história dela muito interessante.
34:14Ela, em algum momento, citou o medo de envelhecer no sentido da pressão estética,
34:19das transformações físicas?
34:22É, mas com relação à fragilidade, né?
34:26Com relação à perda da força muscular, porque ela chegou, ela não tinha uma vida muito ativa, né?
34:33Ela tava muito parada, então tinha essa fragilidade mesmo, essa perda de massa muscular.
34:38Então, ela tinha medo de queda e, como consequência, medo de perder essa autonomia do movimento, né?
34:45De ficar acamada e depender de alguém pra cuidar dela.
34:48Agora, com relação à aparência em si, ela não tinha...
34:51Aliás, ela era uma idosa muito bonita, muito vaidosa, né?
34:54E nunca tinha feito nenhum tipo de procedimento, o que hoje já é um pouco mais difícil também.
34:59Muito difícil.
35:00Tem negado muito, né?
35:01Isso.
35:02Tem gente que mente a idade, né?
35:04Exatamente.
35:04É muito comum.
35:05E, assim, isso é um problema também, né?
35:09O medo de envelhecer não afeta apenas a saúde mental, né?
35:14Psicológica.
35:14Pode afetar a saúde física também.
35:16A partir do momento que você começa a negar o envelhecimento e fazer procedimentos estéticos,
35:22já tem de idosos que já tinham feito 15 cirurgias plásticas, por exemplo.
35:25Quando vai pro campo do exagero, né?
35:27É muito perigoso também.
35:29Então, além de afetar essa parte física, é interessante também que esse medo persistente
35:34do envelhecimento, como medo de outras coisas também, não apenas do envelhecimento,
35:39esse estado de tensão constante, esse estresse constante, essa depressão constante,
35:44isso desencadeia uma série de reações químicas no nosso corpo.
35:48Naturalmente, a gente tem uma ativação do eixo neuroendócrino, né?
35:52Hipotálamo, hipófise, adrenal.
35:53E a gente tem mais liberação de glicocorticoides, como, por exemplo, o cortisol.
35:57A gente tem mais liberação de catecolaminas, como adrenalina.
36:01A gente tem maior produção de fatores pró-inflamatórios, né?
36:05De interleucinas pró-inflamatórias, interleucina 1, interleucina 6, TNF-alfa.
36:09Isso tudo, em conjunto, pode predispor a uma fragilidade imunológica,
36:13a uma fragilidade para doenças cardiológicas, oncológicas.
36:18Então, tratar o medo não é apenas tratar a ansiedade e depressão, é prevenir também.
36:23Eu falei da pressão estética, por ser uma paciente mulher,
36:27mas vocês acham que essa pressão estética, que eu acho que atinge principalmente os mais jovens,
36:31quando a gente fala dessa questão do envelhecimento,
36:34é muito comum também entre os homens, já que estou aqui com três homens?
36:38Eu acho que é muito menos comum do homem do que na mulher.
36:42A mulher tem uma pressão social, da beleza.
36:46Então, eu acho que são as mulheres, tanto que elas são as grandes frequentadoras das cirurgias estéticas.
36:53Não quer dizer que não existam homens vaidosos e tão preocupados com isso, né?
36:59O homem, eu acho que a posição social dele influencia talvez mais, né?
37:05Ele se coloca mais dessa forma e a mulher, realmente, a beleza é algo mais significativo, né?
37:13Mas voltamos a falar, a gente tem que começar a valorizar, né?
37:16Que uma ruguinha é bonita, né?
37:18Que tem idoso lindo, cabelo branco, né?
37:21E vê isso como algo natural e bonito, né?
37:25Sim.
37:25E falar sobre isso, né?
37:27Porque às vezes a gente acha bonito e não fala com receio, né?
37:30Os homens, eles estão muito preocupados, às vezes, com a sexualidade, né?
37:36Se preocupam muito mais que as mulheres.
37:38Perda de libido, perda de ereção.
37:40Então, essa é uma preocupação que a gente vê muito com o envelhecimento.
37:44Preocupação se usar um tadalafila vai infartar, né?
37:47É uma pergunta muito frequente no consultório.
37:51E preocupados com a questão do status financeiro também, né?
37:55Muitos se aposentam cedo, não tem um reajuste da aposentadoria e daí a pouco não consegue ter mais o mesmo
38:01padrão de vida.
38:02Então, essas são algumas preocupações dos homens.
38:04E é interessante também falar sobre a hipocondria.
38:07O idoso já é naturalmente um pouco mais hipocondríaco, né?
38:11E aí o homem também tem algumas vezes isso.
38:15O homem é mulher, né?
38:16É meio dividido.
38:19Então, aquele medo de ter um câncer de próstata, aquele medo de ter algum problema, um ataque cardíaco, como eles
38:26falam, de ter um AVC.
38:29Então, muitos acabam fazendo exames de forma exagerada.
38:34Chegam pra gente, né?
38:36Pro geriatra é muito mais comum.
38:40Querendo fazer exame do corpo inteiro, né?
38:43Como eles falam.
38:44Check-up.
38:45É interessante a gente ver como as preocupações mudam, né?
38:47De homens pra mulheres.
38:48E aí me lembrou uma outra coisa de que acho que pras mulheres também é comum a questão de engravidar,
38:56né?
38:56As mulheres que estão chegando ali perto dos 40, por exemplo, que ainda estão jovens.
39:01Mas já começam a ter essa preocupação.
39:03Meu Deus, estou envelhecendo.
39:05Será que eu vou poder engravidar?
39:07Como é que vai ser isso?
39:09Por acaso vocês já presenciaram isso em consultório?
39:12Essa é uma discussão muito interessante, né?
39:14Porque, assim, os óvulos, eles têm um tempo de vida, né?
39:18Eles envelhecem mesmo, né?
39:20Não tem jeito.
39:20Conversando até com os ginecologistas, né?
39:22Eles realmente têm, a partir de uma certa idade, uma gravidez de risco, né?
39:27Mas com a sociedade moderna, o que está acontecendo é que a mulher adia esse sonho de ser mãe.
39:34E posterga priorizando o lado profissional, né?
39:39Então vai estudar, vai fazer mestrado, quer se posicionar.
39:42E sempre aquela coisa.
39:43Vou esperar quando eu tiver um emprego bom, quando eu estiver ganhando tanto.
39:48Só que você está sempre esperando, esperando, esperando.
39:51Então a gente está vendo esse fenômeno aí, as mulheres de 40, algumas querendo ter filho.
39:56E o fenômeno inverso, né?
39:58Como a gente falou também, muitas mulheres decidindo que não querem ter filhos, né?
40:04Ou, né, ou se tiver um, né?
40:06O que também vai mudar totalmente a estrutura etária, né?
40:10Da sociedade, né?
40:12Eu acho que a sociedade caminha mais para isso, né?
40:15Ter uma independência financeira, uma saúde financeira importante na velhice e não ter filhos, né?
40:22Não ter que depender dos filhos nessa idade.
40:24Está cada vez mais comum.
40:26Sim.
40:26Exatamente, né?
40:27E eu conheço histórias até de conhecidos que a mulher não quer ter filho de jeito nenhum
40:32e o marido quer ter filho, né?
40:35Então, mostrando que isso é essa mudança geracional, né?
40:40De perspectiva, de valores, né?
40:43Nesse caso, tem que ir para a terapia de casal.
40:47Importante também.
40:48No começo, a gente falou sobre ver exemplos, né?
40:53Buscar bons exemplos para a gente se espelhar e se inspirar também.
40:58E aí, nessa questão de gravidez, a gente teve até exemplos famosos recentemente, né?
41:02Cláudia Raia, engravidando aí, foi com o quê?
41:0450?
41:05Quase 50?
41:06Foi um pouco mais.
41:07Por aí, né?
41:08Eu acho que esse é um caminho também, né?
41:10Talvez a gente vê assim, ah, é possível, claro que não é comum, mas eu acho que acreditar
41:15também no poder da medicina, né?
41:17Na evolução dos tratamentos, não só nesse sentido, mas nos tratamentos de doenças também,
41:22até para a gente talvez acalmar o coração, né?
41:24E pensar assim, não, as coisas estão evoluindo, a gente está envelhecendo, mas está tudo
41:29evoluindo junto e nosso processo de envelhecimento vai ser mais tranquilo também.
41:32Com certeza, os recursos tecnológicos da medicina vão nos ajudar, estão nos ajudando
41:37a envelhecer, né?
41:38O fenômeno do envelhecimento tem muito para se falar da medicina, né?
41:42As vacinas, né?
41:44Então, com certeza, hoje a gente tem a condição de engravidar, né?
41:49Mais velho, escolher o óvulo, né?
41:51Tem todas as tecnologias, né?
41:53E também a gente já está sabendo muita coisa da epigenética, né?
41:57O que que para cada um, um gene, vai influenciar para ele ter uma doença ou não?
42:03E fazer uma prevenção individualizada, né?
42:06Isso, a gente já está bem perto desse caminho, então, que bom que a gente tem esse desenvolvimento
42:12aí para nos ajudar a viver mais e com saúde, né?
42:16Sim.
42:17Eu gosto muito de uma frase do Pondé, que ele fala, a mesma sociedade que gerou a longevidade,
42:23gerou o horror ao envelhecimento, né?
42:26Então, como já foi falado, a gente precisa de criar uma cultura do envelhecimento, né?
42:31Estimular uma visão mais positiva do envelhecimento, porque à medida que essa população, a gente vai tendo uma inversão da
42:39pirâmide etária,
42:40a gente tem que pensar em como fazer com que isso seja agradável, como lidar com essa situação, né?
42:47Essa situação da gravidez, né?
42:50Essa situação das limitações, então a gente tem que ir pensando diferente também.
42:54Para a gente já ir finalizando, que infelizmente nosso tempo também já está acabando,
42:58mas assim, no final das contas, qual é o segredo para a gente aceitar o envelhecimento?
43:04E para a gente ser feliz envelhecendo também, né?
43:06Todo mundo vai envelhecer, se Deus quiser.
43:09Eu acho que passa pelo conhecimento, como eu já falei, né?
43:12Conhecer, saber o que vai acontecer, saber que o envelhecimento é para todos, né?
43:17Não é só você que vai envelhecer.
43:20Então, ter essa ideia de pertencimento, de...
43:23Eu acho que isso no futuro, com essa inversão da pirâmide etária, vai ser mais fácil,
43:27porque a gente vai ver mais idosos, né?
43:29Se identificar mais.
43:30É, a nossa geração realmente, assim, a gente, como eu sou psicogeriátrico,
43:34eu já acabo vendo bastante idosos, né?
43:36Eu já fiz um levantamento recente, eu tenho 18 pacientes já com mais de 100 anos.
43:41Então, a gente já está vendo mais idosos.
43:43É uma blusona, gente!
43:45Eu considero o olho dele!
43:46Se tiver alguém saudável, já...
43:48É, boa parte estão, né?
43:51Mas também é algo muito delicado, né?
43:54Já nessa idade, tem que ser um acompanhamento com mais regularidade.
43:58Então, esse senso de pertencimento, com essa inversão da pirâmide etária,
44:01daqui a pouco vai ser um pouco mais fácil.
44:03Então, a gente vai aceitar um pouco mais também.
44:05E também levar a vida mais leve, né?
44:07A gente não precisa de ter essa obsessão com o corpo,
44:10essa obsessão com o dinheiro.
44:12É interessante que existem já trabalhos que avaliam
44:17o que os idosos mais se arrependem no fim da vida, né?
44:20Então, são entrevistados os idosos em fase terminal, né?
44:24Obviamente que têm condições de dar entrevista, né?
44:26Ou em cuidados paliativos.
44:28E a maioria se arrepende de não ter tido uma família mais numerosa,
44:34de não ter tido mais filhos, de não ter tido tempo para a família,
44:38de ter pensado muito no dinheiro, ter dado muito valor ao dinheiro,
44:43ou de não ter tido mais amigos, de não ter liberado mais o perdão.
44:49Então, eu acho que a gente tem que pensar justamente nisso.
44:51Se há esse arrependimento no fim da vida,
44:53por que não a gente já ir vivendo dessa forma, né?
44:58Acho que esse é mais um episódio que vai plantar aí uma pequena reflexão, né?
45:02Na cabeça de quem está ouvindo ou assistindo a gente.
45:05Deixa eu agradecer vocês mais uma vez pela participação.
45:08Doutor Luan, muito obrigada.
45:09Sua estreia aqui.
45:11Foi maravilhoso ter você aqui com a gente.
45:12Maicon, muito obrigada mais uma vez também pela sua presença.
45:15Doutor Rony, vou nem falar também.
45:17Você é super bem-vindo aqui.
45:18Obrigada demais, viu?
45:19Obrigada.
45:20E para saber mais sobre o Bem Envelhecer Medicênior,
45:22acesse medicenior.com.br barra bem-envelhecer
45:26ou aponta a câmera do seu celular para esse QR Code que está aparecendo aqui na tela.
45:31Você já sabe, a gente te espera no próximo episódio.
45:34Até lá!
45:45Tchau!
45:45Tchau!
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