00:00Oito semanas atrás eu disse uma coisa simples, isso tem nome.
00:04E a partir daí a gente foi nomeando.
00:08Paralisia, camuflagem, memória de trabalho, luto do diagnóstico tardio,
00:13foco total ou hiperfoco, ausência involuntária, reserva cognitiva,
00:17sete palavras que a maioria de nós não tínhamos e nem sabíamos quando precisávamos e quando precisamos.
00:24Hoje não tem tema novo, hoje tem balanço.
00:28E tem uma conversa sobre o que vem a seguir.
00:40Eu sou o seu Neizinho, bem-vindo, bem-vinda à Deriva, um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
00:48Em todo episódio, como sempre, eu prefiro sempre alertar.
00:53Não sou psicólogo, nem psiquiatra, sou apenas um neurodivergente com TDAH,
00:58que resolveu compartilhar sua jornada para tentar ajudar outras pessoas neurodivergentes como eu.
01:05Então, esse conteúdo aqui não tem a pretensão de servir como terapia,
01:09e muito menos servir como ferramenta de diagnóstico para ninguém.
01:23Hoje eu quero fazer algo diferente.
01:26Não vou começar falando de mim.
01:28Vou começar falando de ti.
01:31Se tu estás ouvindo esse episódio, episódio número 8, uma das três coisas é verdade.
01:39Tu ouviste os oito episódios, do começo ao fim, e isso para um cérebro com TDAH não é pouca coisa.
01:45É, na verdade, uma conquista real que provavelmente tu não vai celebrar porque já estás pensando no que vem a
01:53seguir.
01:54Ou, tu pulaste alguns episódios, voltaste episódios, perdeste o fio, recomeçaste e chegaste aqui de qualquer jeito.
02:03O que é exatamente como o nosso cérebro funciona, né gente?
02:09E exatamente como deveria ser.
02:11Ou, a terceira coisa, tu abriste direto no episódio 8, nesse episódio, porque o título te chamou a atenção.
02:18Isso também está certo.
02:19Porque o TDAH não lê em ordem.
02:21Em qualquer um dos três casos, tu chegaste aqui.
02:26E isso importa mais do que parece.
02:28Deixa eu te contar o que eu aprendi nessas oito semanas.
02:32Não sobre TDAH.
02:34Sobre isso eu já sabia alguma coisa antes de começar.
02:37Sobre o que acontece quando tu falas sobre TDAH em voz alta, sem filtro, sem o verniz,
02:43sem esse verniz clínico que transforma a experiência em diagnóstico e diagnóstico em distância.
02:50O que eu aprendi, gente, é que a linguagem muda tudo.
02:54Não é metáfora.
02:55É literalmente verdade.
02:57Quando tu substituis, eu sou preguiçoso, por minha bancada não segurou,
03:03o cérebro não processa a mesma informação.
03:06A primeira frase é uma sentença sobre quem tu és.
03:09A segunda é uma descrição de como um sistema funciona.
03:14Uma fecha a porta.
03:16A outra abre a porta.
03:18E a abertura, para quem viveu décadas numa narrativa que fechava,
03:22é o primeiro movimento de tudo.
03:25Olha para o que a gente percorreu junto.
03:28No primeiro episódio, a gente falou sobre paralisia.
03:32E sobre como a vergonha piora o bloqueio,
03:35porque vergonha não é dopamina.
03:37Não é fraqueza reconhecer isso.
03:40É neuroquímica.
03:41No segundo episódio, a gente foi para a camuflagem,
03:46que é aquele esforço invisível de imitar um cérebro que tu não tens,
03:50que chega tarde demais para quem o carregou por décadas
03:54e que é especialmente pesado para mulheres
03:57que cresceram sem ver o próprio diagnóstico refletido em lugar nenhum.
04:03No terceiro episódio, a memória.
04:06Não a memória que falta, a memória que filtra mal.
04:10A bancada instável que faz tu esqueceres o que alguém que tu amas te disse,
04:16não por descaso, mas porque o sistema não segurou.
04:19No quarto episódio, o luto.
04:22Aquele que ninguém nomeia como luto porque não há morte, mas há perda.
04:27A perda de uma versão de ti que nunca teve as condições certas de ser quem tu poderias ter sido.
04:34E a possibilidade, e lenta e não linear, de reescrever a narrativa.
04:40No quinto episódio, o foco total.
04:42O paradoxo central do TDAH.
04:44O mesmo sistema que falha no foco cotidiano, consegue mergulhar 14 horas num único assunto.
04:50Não é contradição.
04:52É o mapa do teu sistema de recompensa, te mostrando onde ele funciona melhor.
04:59Já no sexto episódio, as pessoas que tu amas.
05:02A diferença entre o que o TDAH parece de dentro e o que parece de fora.
05:08E como construir pontes sem transformar o transtorno em desculpa permanente nem em peso carregado em silêncio.
05:15Já no sétimo episódio, o envelhecimento.
05:18A pergunta que ninguém faz na consulta é a resposta que a neurociência da longevidade começa a te oferecer.
05:27Que o cérebro neurodivergente, que chega à maturidade com alto conhecimento,
05:33pode envelhecer com uma riqueza de pensamento que não é apesar do TDAH, mas em parte por causa dele.
05:41Oito semanas, sete palavras novas e um princípio que atravessa tudo.
05:48O problema nunca foi quem tu és.
05:51Foi a ausência de linguagem para descrever como tu funcionas.
05:56Agora eu preciso ser honesto sobre uma coisa.
05:59Este podcast nunca vai resolver o TDAH.
06:02Até porque o TDAH não tem solução, não tem cura.
06:05Nenhum podcast resolve.
06:06Nenhum livro, nenhum episódio, nenhuma lista de ações.
06:09O que este podcast faz, o que eu espero que tenha feito, é reduzir a distância entre o que tu
06:16vives e o nome que tu dás a isso.
06:18Porque quando a distância diminui, a conversa interna muda.
06:22E quando a conversa interna muda, as escolhas mudam juntos.
06:28Não de uma vez, não de forma linear, mas mudam.
06:31O segundo ciclo deste podcast, do A Deriva, começa na semana que vem.
06:35E vai ser diferente, gente.
06:37Nós vamos continuar com o nosso dicionário de palavras da semana
06:42e com as ações que eu vou sugerir sempre para vocês.
06:45As ações que podem te ajudar, porque isso ficou e faz sentido que fique, né?
06:50Mas vamos trazer vozes de fora.
06:53Especialistas que trabalham com TDAH adulto e pessoas comuns.
06:56Talvez pessoas como tu, que vivem o transtorno no cotidiano e têm histórias boas que precisam ser ouvidas.
07:04Porque o TDAH não tem só uma cara.
07:07Tem a cara de quem recebeu o diagnóstico aos 57 anos, como eu, e chorou de raiva.
07:13Tem a cara de quem está nos 30 e ainda não sabe o nome que carrega.
07:18Tem a cara de quem está nos 60 e está reaprendendo a história que conta sobre si mesmo.
07:26Todas essas histórias cabem aqui.
07:29Todas essas histórias são este podcast.
07:32Não tenham um próximo passo pequeno para que você dê essa semana.
07:38Mas tenho uma pergunta.
07:40Das sete palavras que a gente aprendeu juntos,
07:43paralisia, camuflagem, memória de trabalho, luto do diagnóstico tardio,
07:49foco total, ausência involuntária, reserva cognitiva,
07:53qual foi a que mudou mais alguma coisa em ti?
07:57Não precisa responder para mim, responde para ti mesmo.
08:00Essa resposta é o teu mapa do que ainda precisa da tua atenção.
08:04E é o melhor ponto de partida que eu conheço para o que vem a seguir.
08:10E não te esquece, esse podcast não é terapia e nem serve para diagnosticar ninguém.
08:16Procura sempre um médico especialista para te orientar.
08:21Deriva não é perder o rumo.
08:23É confiar que o rio sabe onde vai.
08:26Até o próximo episódio.
08:28A Deriva, um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
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