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TDAH adulto e relacionamentos: o que acontece entre tu e quem tu amas quando o transtorno está no meio — sem que ninguém perceba.
Tu já estiveste completamente presente numa conversa — e a outra pessoa achou que tu não estavas ouvindo. Já esqueceste uma data importante não por descaso, mas porque a percepção do tempo falhou. Já interrompeste uma frase não por falta de educação, mas porque o pensamento chegou antes do momento certo. Do lado de fora, tudo isso parece escolha. Do lado de dentro, é neurologia.
Neste episódio do À Deriva, a gente fala sobre o gap entre essas duas perspectivas — e como construir pontes entre elas com honestidade, com limite e com cuidado mútuo.
🎙️ À Deriva é um podcast semanal sobre TDAH adulto apresentado por @seuneyzinho e distribuído pelo canal O Liberal.
⚠️ Este podcast não é terapia e não serve para diagnosticar ninguém. Procura sempre um médico especialista.
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Transcrição
00:00Tu já estiveste completamente presente numa conversa, mas a outra pessoa achou que tu não estavas ouvindo?
00:05Tu estavas, cada palavra, mas o teu rosto não mostrava, o teu corpo estava voltado para o outro lado
00:13e quando ela terminou de falar, tu respondeste sobre outra coisa,
00:17porque um detalhe do que ela disse disparou um pensamento que chegou antes da resposta certa.
00:24Ela ficou quieta, tu percebeste que algo estava errado, mas não sabias bem o que era.
00:32Isso não é falta de amor, não é descaso, é o TDAH no meio de um relacionamento.
00:38E hoje a gente vai falar sobre o que o TDAH faz e o que tu podes fazer com isso.
00:54Eu sou o seu Neizinho, bem-vindo, bem-vinda à Deriva, um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
01:03Olha gente, em todo episódio eu prefiro sempre alertar.
01:06Eu não sou psicólogo nem psiquiatra, eu sou um neurodivergente com TDAH,
01:12que resolveu compartilhar sua jornada para tentar ajudar outras pessoas.
01:17Então, esse conteúdo aqui não tem a pretensão de servir como terapia,
01:22e muito menos servir como ferramenta de diagnóstico.
01:37Hoje eu quero começar com uma pergunta que pode ser desconfortável.
01:43Quantas vezes alguém que tu amas te disse que não se sente ouvido por ti?
01:50Não porque tu não ligavas, mas porque o teu cérebro estava em cinco lugares ao mesmo tempo.
01:55E nenhum deles era completamente ali.
02:00Eu já ouvi essa frase muitas vezes, mais de uma vez, de pessoas que me importavam.
02:05E o mais difícil não era a crítica, mas eu me agoniava por saber que as críticas tinham razão.
02:12Mas eu não consegui explicar por que acontecia sem parecer que eu estava me desculpando.
02:18Porque tem uma diferença enorme entre explicar e se desculpar.
02:24E hoje a gente vai explorar exatamente essa diferença.
02:27O TDAH afeta relacionamentos de formas que raramente aparecem nas listas de sintomas.
02:34Não está no manual que o TDAH pode fazer uma pessoa chegar atrasada ao aniversário do filho.
02:39Não por descaso, mas porque a percepção de tempo simplesmente falhou.
02:44Não está escrito que alguém com o TDAH pode esquecer uma conversa importante que teve na véspera.
02:52Não porque não se importou, mas porque a memória de trabalho não segurou a informação.
02:59Não está documentado que alguém com o TDAH pode interromper frases não por falta de educação,
03:05mas porque o pensamento chega antes do momento certo e a impulsividade fala mais rápido que o filtro.
03:13Do lado de fora, tudo isso parece escolha.
03:16Do lado de dentro é neurologia.
03:19E a diferença entre essas duas perspectivas, o que a pessoa com o TDAH vive,
03:24o que o parceiro, o filho, o amigo enxerga, é onde a maioria dos conflitos nascem.
03:30Existe um fenômeno que a neuropsicóloga Kathleen Nodot descreve como surdez atencional.
03:35Eu prefiro chamar de ausência involuntária, é mais fácil.
03:38É quando a pessoa está fisicamente presente numa conversa.
03:41Mas o sistema atencional foi capturado por outro estímulo, um pensamento interno, um som ambiente,
03:50uma associação disparada por algo que foi dito.
03:54O corpo até pode estar lá, mas a mente já foi embora faz tempo.
03:58E o mais cruel é que isso acontece justamente nas conversas que mais importam.
04:03Numa reunião sem importância, o cérebro com o TDAH pode funcionar muito bem,
04:09porque a novidade do ambiente o mantém sativo e salvo.
04:14Numa conversa com a pessoa amada, num ambiente familiar, sem urgência externa,
04:20aí o sistema pode simplesmente derivar.
04:24Não é que a pessoa amada importa menos, é que o cérebro do TDAH não se regula pela importância emocional.
04:32Ele se regula pela ativação neurobiológica.
04:35Isso é devastador de entender e mais difícil ainda de explicar para quem está do outro lado.
04:41Tem duas armadilhas comuns nos relacionamentos afetados pelo TDAH e as duas precisam ser nomeadas.
04:49A primeira é usar o diagnóstico como explicação permanente, sem buscar estratégias.
04:55Tipo, sou assim, tenho o TDAH.
04:58Isso dito sem movimento, sem tentativa, sem responsabilidade pelo impacto.
05:03O diagnóstico explica, mas não te absorve.
05:07Existe uma diferença.
05:08A segunda é o oposto.
05:11Esconder o diagnóstico, tentar compensar tudo sozinho e carregar o peso de parecer inteiro,
05:16enquanto por dentro o sistema está em colapso.
05:20Isso gera ressentimento de ti mesmo e, eventualmente, das pessoas que estão do teu lado,
05:26sem entender por que o outro está sempre tão esgotado.
05:30Olha, gente, o caminho é estreito entre os dois.
05:33E ninguém percorre esse caminho sozinho de forma eficiente.
05:38Tem algo que eu preciso dizer especificamente para quem está do outro lado.
05:43O parceiro, o filho, o amigo de alguém com TDAH.
05:46Tu não és terapeuta dessa pessoa.
05:50Não é tua função compensar o que o TDAH tira.
05:55Não é tua responsabilidade lembrar pelos dois, organizar pelos dois, estar presente pelos dois.
06:01Amar alguém com TDAH não significa absorver o impacto do transtorno em silêncio.
06:07Significa construir juntos sistemas que funcionem para os dois, com honestidade, com limite, com cuidado mútuo.
06:16Isso só funciona quando os dois sabem o que está em jogo.
06:21E quando os dois escolhem conscientemente trabalhar com a realidade, não contra ela.
06:37A palavra desta semana é ausência involuntária.
06:40É quando tu estás presente no corpo e ausente na conversa.
06:44Sem querer, sem perceber e muitas vezes sem conseguir explicar depois.
06:51Não é desinteresse.
06:52É o sistema atencional sendo capturado por outro estímulo antes que tu percebas que foi capturado.
06:59Ter esse nome muda como tu falas sobre o que aconteceu.
07:03Em vez de, eu não estava prestando atenção, que sou como escolha, tu podes dizer, meu foco foi embora e
07:12eu não percebi a tempo.
07:13Pequena diferença na frase, mas grande diferença na conversa.
07:18Em todo episódio, gente, eu trago também uma ação que tu podes fazer para diminuir esses danos.
07:24O exercício desta semana é o mais simples do podcast até agora, mas talvez o mais difícil.
07:30Chama-se check-in de cinco minutos.
07:34Olha, uma vez por dia, pode ser no café da manhã, pode ser antes de dormir,
07:40tu vais sentar com a pessoa que mais importa na tua vida e vais perguntar para ela duas coisas.
07:45Como tu estás de verdade?
07:48E depois, tem algo que eu fiz ou não fiz esta semana que te afetou?
07:53Aí, sem defesa, sem explicação imediata, tu só vais escutar.
07:57Cinco minutos de presença intencional.
07:59Onde tu decidiste estar ali, onde o teu smartphone está virado para baixo,
08:05onde o único estímulo que importa para ti é a pessoa na tua frente.
08:10O cérebro com TDAH consegue sustentar cinco minutos de presença intencional,
08:15quando sabe que são só cinco minutos.
08:18A limitação do tempo é o gatilho de foco, não a fraqueza.
08:22Cinco minutos por dia.
08:23Sete dias.
08:25É menos de uma hora por semana, gente.
08:27E pode mudar a conversa que tu tens com quem tu amas.
08:31E olha, essa semana, antes de tu dormir, pergunta para alguém que importa.
08:36Que te importa?
08:36Como ele ou ela está de verdade?
08:39Não como cumprimento, né?
08:41Mas como pergunta real.
08:43Escuta a resposta inteira antes de falar.
08:46Na semana que vem, vamos ter uma conversa também importante
08:49e que pertence a este podcast desde o começo.
08:54TDAH e envelhecimento.
08:56O que acontece com o cérebro neurodivergente ao longo do tempo?
09:01E por que cuidar do TDAH é também cuidar da tua longevidade, da longevidade do teu cérebro.
09:07E não te esquece, esse podcast não é terapia e nem serve para diagnosticar ninguém.
09:14Procura sempre um médico especialista para te orientar e te ajudar.
09:18E guarda o que eu vou te falar agora.
09:20Presença não é perfeição.
09:22É a decisão de estar, mesmo quando o rio te puxa para o outro lado.
09:27Até o próximo episódio.
09:28Aderiva, um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
09:37Aderiva, um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
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