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Memória e TDAH adulto: por que tu te lembras da letra de uma música de 1998 e esqueces o que foste buscar na cozinha.
Não é distração. Não é falta de memória. É o filtro. No terceiro episódio do À Deriva, a gente explica o que é a memória de trabalho — a bancada do teu cérebro — e por que no TDAH adulto ela é instável de uma forma que afeta não só tarefas, mas relacionamentos inteiros.
Quando tu esqueces o que alguém te disse, essa pessoa não vê a bancada instável. Ela vê descaso. Este episódio é sobre como fechar esse gap — com honestidade e com sistemas externos que fazem o trabalho que o cérebro não consegue fazer sozinho.
🎙️ À Deriva é um podcast semanal sobre TDAH adulto apresentado por @seuneyzinho e distribuído pelo canal O Liberal.
⚠️ Este podcast não é terapia e não serve para diagnosticar ninguém. Procura sempre um médico especialista.
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Transcrição
00:00Tu já fostes até a cozinha com um objetivo claro na cabeça e chegaste lá e não sabias mais o
00:06que
00:06tinhas ido buscar. Ficastes parado, olhando para a geladeira aberta, tentando recuperar o fio da
00:12meada. Voltastes para a sala e lá, assim que tu te sentastes, te lembrastes que tinhas ido fazer.
00:20Era o copo d'água. Isso acontece com todo mundo, tu pensas, mas acontece mesmo. Só que em ti,
00:28que tens TDAH, como eu também, acontece de esquecer reuniões inteiras, de esquecer conversas
00:33importantes, esquecer compromissos que tu mesmo marcastes e ao mesmo tempo tu te lembras da
00:40letra completa de uma música que ouviste uma vez em 1998. Isso não é falta de memória,
00:47isso é outra coisa e hoje a gente vai descobrir o quê?
01:00Eu sou o seu Neizinho. Bem-vindo, bem-vinda à Deriva, um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
01:07Em todo episódio, eu prefiro sempre alertar. Não sou psicólogo nem psiquiatra, sou um neurodivergente
01:14com TDAH, que resolveu compartilhar sua jornada para tentar ajudar outros neurodivergentes. Então,
01:22esse conteúdo não tem a pretensão de servir como terapia e muito menos como ferramenta
01:28de diagnóstico. Esta semana eu entrei numa videochamada e esqueci completamente o nome
01:36de uma pessoa com quem já trabalhei por dois, três anos. O nome estava lá, eu sabia que estava,
01:43mas no momento em que precisei, o nome sumiu. Aquela sensação de palavra na ponta da língua
01:49que nunca sai. E enquanto a reunião acontecia, metade da minha cabeça estava na reunião e a
01:56outra metade estava vasculhando uma gaveta invisível atrás do nome da pessoa. Encontrei
02:0340 minutos depois, sabe onde? No chuveiro, tomando banho. Se tu já viveste algo parecido,
02:10este episódio é para ti. Para entender o que acontece com a memória no TDAH adulto, eu preciso
02:17te apresentar um conceito. Se chama memória de trabalho. Em inglês dizem work memory, mas
02:26o nome em português já explica tudo, gente. É a memória que trabalha, a memória ativa,
02:32aquela que mantém a informação disponível enquanto tu estás no meio de uma tarefa. Pensa
02:38assim, se o cérebro fosse uma cozinha, a memória de trabalho seria a bancada da cozinha,
02:44o espaço onde tu colocas os ingredientes enquanto tu cozinhas. Numa bancada grande e organizada,
02:52tu consegues ter tudo à vista ao mesmo tempo. Agora, numa bancada pequena e bagunçada,
02:59os ingredientes caem, se misturam, somem antes de tu usá-los. No cérebro com TDAH, a bancada é instável.
03:06Não é pequena porque falta inteligência. É instável porque o sistema de regulação que deveria manter os
03:13itens no lugar, aquele sistema que depende de dopamina para funcionar, não sustenta a informação
03:20pelo tempo necessário. E o resultado é exatamente o que tu conheces. Tu entras na cozinha e esqueces o que
03:29fostes buscar. Tu começas uma frase e perdes o fio da meada no meio. Tu ouviste a informação, tu sabes
03:36que ouviste, mas quando tu precisas dela, a informação não está mais lá. Não é distração, gente. É a bancada
03:43que não é organizada. Agora, a parte que eu preciso que tu ouças com muita atenção. Existe uma diferença
03:49enorme entre dois tipos de memória. A memória de trabalho, a bancada, o que está ativo agora, e a memória
03:57de longo prazo. O arquivo. Tudo o que já foi processado, repetido, carregado de emoção ou de interesse
04:05genuíno. No TDAH, a memória de longo prazo pode ser extraordinária. Músicas inteiras de décadas
04:13atrás. Conversas de infância com detalhes precisos. Tudo sobre um assunto que te apaixona. Faces, lugares,
04:21sensações. Sabe por quê? Porque essas memórias chegaram ao arquivo com dopamina, com emoção, com repetição
04:29intensa. Elas entraram com força suficiente para fixar, para ficar lá, para sempre. O problema não é a
04:37memória em si. É o filtro. O cérebro com TDAH não filtra bem o que é urgente. Agora, do que
04:44pode
04:44esperar, não prioriza automaticamente o que precisa estar na bancada neste momento. Então, o nome da pessoa
04:51na reunião some. Por quê? Porque não tinha urgência emocional suficiente para segurar. E a letra da música
04:58de 1998 fica. E fica porque entrou com emoção, com repetição, com prazer genuíno. Tu não tens um problema
05:06de memória. Tu tens um problema de hierarquia da atenção. E isso pode mudar completamente quando tu crias
05:14estratégias. Tem ainda uma camada que precisa ser dita. A memória de trabalho instável afeta muito
05:21mais do que apenas lembrar coisas, gente. Ela afeta como tu te relacionas, quando tu esqueces o que
05:28alguém te disse, mesmo alguém que tu amas. Essa pessoa não vê a bancada instável. Ela vê, sabe o que?
05:35Descaso. Ela vê que tu não lhe gastas o suficiente para lembrar. Ela pode até ver que tu não amas
05:41tanto assim. E tu não consegues explicar que lembrastes. E a informação simplesmente escorregou.
05:48Foi embora. Isso acaba gerando conflito. Gera culpa. Gera a sensação de que tu és um parceiro ruim.
05:54Um amigo ruim. Um filho ruim. Mas não és. Apenas tens uma bancada que não segura sob pressão.
06:02Existem formas de compensar isso. Não com mais esforço. Mas com sistemas externos.
06:07Que façam o trabalho que a bancada não consegue fazer sozinha. É.
06:22Vocês sabem que todo programa a gente traz uma palavra do dicionário do TDH. E a palavra de hoje é
06:28memória de trabalho. A bancada do teu cérebro. É o espaço mental onde a informação fica disponível
06:35enquanto tu precisas dela agora. Enquanto tu estás no meio de uma conversa.
06:41No meio de uma tarefa. De um raciocínio. No TDH adulto.
06:45Essa bancada é instável. Não porque falta inteligência para ti.
06:49Mas porque o sistema de regulação que deveria manter os itens todos no lugar
06:53depende da dopamina. E sem o nível certo de ativação
06:57a informação escorrega. Antes do tempo. Vai embora.
07:01Memória de trabalho instável. Agora tu tens o nome.
07:05E o nome pode mudar a conversa que tu tens contigo mesmo
07:08quando esqueces alguma coisa importante.
07:11Sim. E o REC desta semana. A ação que eu te sugiro para manejar esse problema
07:16tem um princípio muito simples.
07:19Se não está à vista. Não existe.
07:22O cérebro com TDH não recupera bem o que está escondido.
07:26Não porque esquece. Mas porque sem o gatilho visual
07:30a informação não sobe para a superfície.
07:33Na prática o que isso significa?
07:35Olha lá.
07:36Usar superfícies visíveis.
07:39Como extensão da tua memória.
07:40Um quadro branco na parede.
07:42Post-its funcionais de aviso no monitor do teu notebook.
07:47A lista de tarefas aberta na tela.
07:49Não minimizada numa aba.
07:52Os itens do dia escritos à mão num papel do lado do teu teclado.
07:57Não guarda nada na gaveta.
07:59Dependendo de ti para lembrar de abrir a gaveta.
08:02Segunda dica. Anota no momento.
08:04Não depois.
08:05A bancada não guarda para depois.
08:08Se tivesse uma ideia, um compromisso, uma informação importante
08:11anota agora no teu telefone.
08:14Ou em algo que estiver na tua mão.
08:15Na forma mais rápida possível.
08:17Inclusive, imperfeita e anotada é infinitamente melhor do que perfeita e perdida.
08:23Terceira dica.
08:23Usa alarmes com indiscrição.
08:25Não um alarme que toca e tu não sabes mais porque tocou.
08:29Um alarme que toca e diz.
08:31Ligar para a clínica.
08:32Número está no papel da mesa.
08:34O sistema externo faz o que a bancada não consegue.
08:38Tu não és menos capaz por precisar dessa estratégia.
08:42Tu és alguém que entendeste como o teu cérebro funciona
08:47e criaste uma solução à altura.
08:49Simples assim.
08:50O próximo passo desta semana, como sempre, é bem pequeno.
08:54Escolhe uma informação importante
08:56que tu normalmente guardas só na tua cabeça.
08:59E coloca ela à vista.
09:01Num papel, num post-it, numa nota aberta, no smartphone.
09:05Só uma.
09:05Só esta semana.
09:07Não precisas reorganizar toda a tua vida.
09:10E na semana que vem vamos falar sobre o luto do diagnóstico tardio.
09:14Sobre o que acontece quando a explicação finalmente chega
09:17e traz junto tudo o que ela não pôde mudar.
09:21E não te esquece que esse podcast não é terapia
09:24e nem serve para diagnosticar ninguém.
09:26Procura sempre um médico especialista para te orientar.
09:29A frase que eu vou te deixar hoje.
09:31A memória não te trai.
09:32Ela só precisa de um lugar para pousar.
09:37Aderiva.
09:37Até o próximo episódio.
09:39Um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
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