00:00Imagina que tu passaste décadas construindo uma explicação para ti mesmo.
00:05Que és difícil, que és irresponsável, que és inteligente mas não aplicas,
00:11que tens potencial mas desperdiças.
00:14E um belo dia, num consultório, numa leitura, numa conversa,
00:20tu recebes uma informação nova.
00:23Não eras nada disso.
00:24Tinhas um cérebro que funcionava diferente e ninguém nunca te disse.
00:29O que tu sentes nesse momento não é só alívio.
00:33É uma coisa muito mais complicada do que simplesmente alívio.
00:37E hoje a gente vai falar sobre ela.
00:49Eu sou o seu Neizinho. Bem-vindo, bem-vinda a Deriva,
00:52um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
00:56Em todo episódio eu faço questão de dizer sempre, alertar.
01:00Não sou psicólogo, muito menos psiquiatra.
01:02Sou um neurodivergente com TDAH que resolveu compartilhar a sua jornada
01:07para tentar ajudar outras pessoas.
01:10Então, esse conteúdo aqui não tem a pretensão de servir como terapia
01:14e muito menos como ferramenta de diagnóstico.
01:28Esta semana eu conversei com uma pessoa que recebeu o diagnóstico de TDAH aos 47 anos.
01:35Ela me disse uma coisa que não saiu nunca mais da minha cabeça.
01:39Ela disse o seguinte,
01:40Eu não chorei de alívio.
01:43Eu chorei de raiva.
01:44De tudo o que eu poderia ter sido se alguém tivesse percebido isso antes em mim.
01:50Fiquei em silêncio porque não havia muito para dizer.
01:54Ela tinha razão.
01:55E a raiva dela era completamente legítima.
01:59Eu precisei de alguns dias para processar essa frase
02:02porque ela tocou fundo em algo que eu também carrego.
02:05A pergunta que fica, gente, que talvez tu também carregues
02:09não é quem eu sou agora que sei que tenho TDAH.
02:13A pergunta é quem eu poderia ter sido se eu tivesse sabido disso antes.
02:20Essa pergunta não tem resposta, mas precisa ser feita.
02:23E precisa ter espaço para doer.
02:25Se tu já sentiste algo parecido, este episódio é para ti.
02:29Se ainda não recebeste o diagnóstico, mas te reconheces nessas histórias,
02:33este episódio talvez também seja para ti.
02:37Quando a gente fala em luto, a maioria das pessoas pensa em morte.
02:41Mas luto é qualquer processo de perda que precisa ser atravessado.
02:46E o diagnóstico tardio do TDAH não deixa de ser um luto em vida.
02:51O meu chegou para mim aos 57 anos.
02:54Eu tenho hoje 64.
02:56Diagnóstico tardio é aquele que chega na vida adulta,
02:58depois dos 30, dos 40, dos 50 anos,
03:01e traz com ele um luto específico.
03:03E que, raramente, é reconhecido como luto.
03:07A primeira camada realmente é o alívio.
03:10E o alívio é real, profundo.
03:12Muitas vezes é a primeira vez na vida que a pessoa sente que ele não é o problema.
03:17Que existe uma explicação neurológica para o que sempre pareceu ser falha de caráter.
03:23Que o esforço era real, mesmo quando o resultado não aparecia.
03:28Que a exaustão fazia sentido.
03:31O alívio é a âncora.
03:33É o que permite que todo o resto do processo aconteça.
03:36Mas logo depois do alívio, às vezes até no mesmo dia,
03:40às vezes semanas depois, vem a segunda camada.
03:43A raiva.
03:45Raiva do sistema que não viu.
03:47Da escola que disse que tu eras bagunceiro, sonhador, preguiçoso.
03:51Do profissional de saúde que tratou a ansiedade e o esgotamento,
03:55mas sem nunca ter investigado a causa.
03:58Da família que confundiu disfunção executiva com falta de respeito.
04:04E às vezes, a raiva mais difícil de todas é a raiva de ti mesmo.
04:09Por ter acreditado durante tanto tempo que tu eras o problema.
04:13Essa raiva precisa ter espaço dentro de ti.
04:16Ela não é irracional.
04:17Ela é a resposta emocional, correta, a uma injustiça real.
04:22A terceira camada é a tristeza.
04:25É quando tu começas a fazer as contas.
04:27Não como exercício masoquista.
04:29Mas porque a mente precisa processar o que ficou para trás.
04:33Os empregos que não funcionaram.
04:35Os relacionamentos que não sobreviveram ao peso do não dito.
04:41As oportunidades que passaram enquanto tu lutavas
04:45contra um inimigo que sequer sabias nomear.
04:48A tristeza do diagnóstico tardio é o luto por uma versão de ti
04:53que nunca teve as condições certas para existir.
04:56E isso é uma perda real.
04:58Merece ser tratada como perda real.
05:01A quarta camada, e talvez a mais transformadora, é a reescrita.
05:05É quando tu começas a revisitar as tuas histórias com um olhar diferente.
05:10Não para mudar o passado.
05:11Isso tu não vais conseguir.
05:13Isso não é possível.
05:14Mas para reinterpretar o que aconteceu.
05:17A criança que não conseguia ficar parada na sala de aula não era mal educada.
05:22O adolescente que esquecia as tarefas não era irresponsável.
05:27O adulto que chegava sempre atrasado não era de respeitoso.
05:31Eram pessoas com um cérebro que precisava de condições especiais
05:37que o ambiente nunca ofereceu.
05:40A reescrita não apaga a dor, mas muda a narrativa do que tu carregas sobre quem tu és.
05:47E essa mudança lenta, não linear, às vezes dolorosa,
05:52é o começo de uma relação diferente contigo mesmo.
05:55Uma coisa precisa ser dita com clareza.
05:59Esse processo não acontece num dia.
06:03Não acontece numa sessão de terapia.
06:06Não acontece porque tu lestes um artigo ou vistes um podcast.
06:10Esse processo, gente, acontece em ondas.
06:13Às vezes tu achas que já processaste.
06:16E uma conversa, um cheiro, uma memória, acaba trazendo tudo de volta.
06:21Isso é normal.
06:21Isso é luto.
06:23E luto não tem prazo, tem ritmo.
06:25E o teu ritmo é o único ritmo que importa.
06:29Aqui vai entrar a vinheta a palavra da semana.
06:32Luto do diagnóstico tardio.
06:34Todo programa, gente, sempre vai trazer uma palavra do dicionário do TDAH.
06:39E nesse episódio de hoje, na verdade, são quatro palavras e uma sentença.
06:45Luto do diagnóstico tardio.
06:47É o processo emocional que acontece quando tu recebes teu diagnóstico de TDAH somente na vida adulta.
06:53Uma informação que muda a forma como tu compreendes a tua própria história.
06:59Não é fraqueza sentir raiva.
07:01Não é exagero sentir tristeza.
07:04Não é loucura chorar por uma versão de ti que nunca teve as condições certas para acontecer.
07:10É luto legítimo, necessário e raramente reconhecido como luto do diagnóstico tardio.
07:16Agora tu tens o nome.
07:17E o nome te dá permissão para atravessar o processo sem te julgares por estar nele.
07:26O rec desta semana, a ação que eu vou te sugerir para tu enfrentares esse luto do diagnóstico tardio
07:32é a carta para o teu eu mais novo.
07:36A ideia é simples.
07:37Escolhe uma idade, 12 anos, 15, 22, enfim.
07:40E escreve uma carta curta para essa versão de ti.
07:44Não para mudar o que aconteceu, mas para dizer o que essa pessoa precisava ouvir e nunca ouviu.
07:51Que não era preguiça, que não era burrice, que o cérebro funcionava diferente.
07:57E isso não era uma falha.
07:59Era uma característica.
08:00Tu não precisas escrever muito.
08:02Três parágrafos já chegam.
08:04Pode ser no teu smartphone, num papel, num caderno.
08:08Tu não precisas mostrar para ninguém essa carta.
08:12Escreve só para ti mesmo.
08:14Para a versão de ti que carregou peso demais sem saber o nome que carregava.
08:22Isso não resolve tudo.
08:23Mas começa a mover algo que estava parado há muito tempo.
08:27O próximo passo da semana, como sempre, é bem pequenino, mas muito significativo.
08:33Anota aí para tu não esquecer, porque eu sei que tu vai esquecer.
08:37Escolhe uma idade, abre uma página em branco.
08:40Escreve só a primeira frase da carta.
08:42Só a primeira.
08:43Tu não precisas terminar a carta agora.
08:46O cérebro com o TDAH não precisa fazer tudo de uma vez só.
08:50Precisa só começar.
08:52Começa a escrever a carta para esse teu eu do passado.
08:56Ok?
08:57E no episódio da próxima semana, da semana que vem, eu vou falar sobre hiperfoco.
09:01Sobre aquela capacidade de mergulhar durante horas no assunto com interesse genuíno.
09:07O que parece superpoder pode ser também uma grande armadilha.
09:13E não te esquece que esse podcast não é terapia e nem serve para diagnosticar ninguém.
09:19Procura sempre um médico especialista para te orientar.
09:23E como sempre eu deixo uma frase.
09:24E a frase que eu vou deixar para ti é
09:26O diagnóstico não reescreve o passado, mas devolve a autoria da tua história.
09:33Até o próximo episódio.
09:35A Deriva, um podcast sobre TDAH para cérebros sem manual.
09:39TDAH para cérebros semOW.
Comentários