00:00É, eu estou sem apetite.
00:03Licença.
00:08Eu perdi o apetite, isso sim.
00:12Nunca comi uma comida tão ruim em toda a minha vida.
00:15E já não é tão fruta assim.
00:18Olha embaixo, meu avô. A moça pode ouvir.
00:21Tão prestativo.
00:22Então me chora, é indragável.
00:25Eu não sei como pessoas tão requintadas quanto o Valério
00:28e a Maria Cândido Castro do Rebelo
00:31pudesse comer essa lavagem.
00:35Não admira que tivessem sucumbido.
00:37De certo, por inanição.
00:40Não está tão indignado assim por causa da Hortência.
00:43Algo mais o aborrece, meu avô.
00:48Eu não...
00:50Eu não vou negar.
00:54Eu estou profundamente decepcionado com a hidalina.
01:00orgulhosa, frívola e egoísta.
01:03Mas daí a meter o Leopoldo na cadeia.
01:08A vender aquela mocinha que foi noiva,
01:10porque foi noiva do Mariano, numa feira.
01:14Só o senhor não enxergava.
01:16Não só a hidalina.
01:17Sei que já aprontou muitas, mas é a Esther.
01:23A Esther tão encantadora.
01:26Foi tão fascinante.
01:29Eu sucumbi a uma sedutora.
01:34Se quer cumprir o luto de Sobral.
01:38Que já está envolvida com esse cumprido.
01:42Discutimos outra vez.
01:44Para a senhora e o senhor Inácio.
01:46Posso entender que se incomode em me ver ao lado do Pedro Afonso,
01:49que sinta ciúmes.
01:51Mas deixar-se levar assim por um sentimento tão descabido.
01:56Nossa pouca sorte foi o senhor Inácio ter saído da prisão
01:59e encontrado o palco armado.
02:01E ter sido obrigado a atuar nele sem ter sido consultado.
02:04Para o próprio bem dele.
02:06Nós sabemos disso.
02:08É na liberdade do Inácio que eu estou pensando todo o tempo, sempre.
02:13Eu tenho tanto medo que cometa um desatino.
02:16Mas os seus planos com mais são a dar resultado.
02:20Com o flagrante que forjou diante do conselheiro e da senhora Itaclara,
02:25já temos as testemunhas que precisamos
02:26caso a acusação venha a saber do romance dos dois.
02:31Poderia dizer isso ao Inácio?
02:34Ele sabe disso.
02:36O problema do Inácio não é o que ele pensa,
02:38mas sim o que ele sente.
02:40Foi o que ele me disse logo cedo.
02:43Eu fico tão aflita, queria magoá-lo.
02:47Entre.
02:48Com licença, ministra.
02:50Está aí o senhor Conde.
02:52Está?
02:53E o senhor Inácio também está com ele.
02:55Não se deve viajar nos vagões dianteiros.
02:57Se o vento sopra o contrário,
02:59entra fumaça, fuligem.
03:01Por favor, leve as minhas malas para o meu quarto.
03:04Ainda não, querido.
03:07Esperem.
03:11Uma petulância me chamar para prestar depoimento
03:14sobre o assassinato do Sobral.
03:16Não é petulância.
03:18É um dever meu como inspetor.
03:20Bom, então convoque as pessoas certas.
03:23Não um barão do império, conceituado, importante.
03:27Convoque o que eu achar necessário.
03:32O senhor sabe muito bem que não estive naquela festa,
03:35e sim na corte.
03:36É um atrevimento de sua parte.
03:38Eu sei como é constrangedor dar explicações à polícia.
03:43Explicações?
03:44Sobre o quê?
03:45O doutor Xavier foi envenenado com estricnina,
03:48e o padre Olinto também.
03:50É.
03:51Ouvi rumores, mas não preciso nem lhe dizer
03:54que isso não me diz respeito.
03:57Há uma hipótese de que tenham tentado envenenar o barão Sobral
04:01antes do tiro que lhe tirou a vida.
04:04Polícia deve trabalhar com fatos, não com hipóteses.
04:08Há um fato real.
04:10Foi encontrado no quarto do barão Sobral
04:12um copo de vinho com estricnina.
04:16Se o assunto é veneno,
04:18o senhor deveria ter intimado um boticário, não é?
04:21Não um fazendeiro,
04:23barão,
04:25agraciado pelo imperador.
04:27Mandei fazer um levantamento na corte
04:30de assassinatos por envenenamento
04:33ocorridos no império
04:35durante os últimos 20 anos.
04:38Durante esses últimos 20 anos,
04:41eu trabalhei muito para chegar um dia
04:44à posição que cheguei.
04:46Não duvido, barão.
04:48Não duvido.
04:51Consta que no ano de 1851,
04:54o senhor esteve envolvido
04:56num assassinato por envenenamento.
04:59E a vítima foi envenenada com estricnina.
05:02E a vítima foi envenenada com estricnina.
05:04Obrigado.
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