00:00E olha o mercado financeiro, passa essa manhã analisando os números da economia divulgados há pouco pelo IBGE
00:06e também de olho nos desdobramentos da ofensiva no Oriente Médio.
00:10A gente vai conferir agora com o Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos,
00:15quais são as perspectivas para essa terça-feira.
00:18Então, Felipe, seja muito bem-vindo, bom dia.
00:21Bom dia, obrigado pelo convite.
00:24Vamos lá, muitas coisas para a gente colocar nessa equação, né?
00:28Tem o conflito, tem dados do PIB divulgados agora há pouco e tem as reações que temos visto aí na
00:35Bolsa Brasileira.
00:36Como é que você está sentindo essa manhã?
00:39Bom, apesar da desaceleração, nós crescemos 2,3% no ano passado.
00:46A verdade é que a composição do PIB ainda é positiva, né?
00:51Nós tivemos um crescimento de todos os setores, pelo lado da oferta, por exemplo,
00:56a agroindústria, o agronegócio com destaque muito grande, um crescimento de quase 12%.
01:03Por outro lado, a indústria e os serviços apresentaram um crescimento bem mais baixo, abaixo de 2%.
01:12Do lado do consumo, o consumo das famílias ainda avançou significativamente,
01:18mas há uma taxa bem mais baixa do que é observada em 2024.
01:23O que nós podemos entender desse quadro do PIB de 2025, agora com o dado oficial do IBGE,
01:32é que a economia já está em desaceleração.
01:36E isso era o esperado, porque nós estamos com uma política monetária mais contracionista,
01:42uma taxa de juros elevada já há bastante tempo, e o objetivo era justamente esse, da política monetária.
01:50Promover uma desaceleração a fim de que, ou com o objetivo de garantir esse cumprimento da meta de inflação.
01:59Então, o que nós temos que entender agora, é que nesse quadro de uma economia mais desaquecida,
02:07e é uma taxa, portanto, de 2,3%, esse ano de 2026 vai ser bastante diferente do que foram os
02:17primeiros três anos do mandato do presidente Lula.
02:21Porque entra nessa equação, a gente já sai desse patamar, ainda temos os juros elevados,
02:27e agora ainda tem esse componente do conflito no Oriente Médio, né, Felipe?
02:32E preciso te perguntar, a gente viu agora um pouquinho ao seu lado, na tela aqui,
02:37o momento da Bolsa Brasileira, o dia hoje de um mau humor bem importante e relevante,
02:43uma queda de quase 3,5%, olha, 3,36% de queda, 182.814 pontos.
02:53Qual que é a sua leitura, a sua percepção desse momento?
02:57Olha, o pior que pode acontecer para os mercados, para a economia, para as economias,
03:02é a incerteza.
03:04E esse conflito no Oriente Médio, os desdobramentos, ainda são um pouco insondáveis, né?
03:12O risco de uma escalada, o risco de você ter problemas maiores,
03:17ele é presente, ele está presente e é elevado.
03:21Isso é precificado, não só pela Bolsa de Valores, mas por outros ativos importantes
03:27e pelo comportamento das moedas, né?
03:29Haja vista o comportamento do próprio real em relação ao dólar.
03:34E isso vai continuar a acontecer até que se tenha um cenário mais claro
03:40para o conflito do Oriente Médio.
03:42Nós temos que ter presente que o Brasil, no curtíssimo prazo,
03:46pode até se beneficiar de uma situação de, por exemplo,
03:51o encarecimento dos preços do petróleo,
03:54porque nós temos uma exportação bastante significativa,
03:58mas isso são benefícios de curto prazo.
04:00A médio prazo, dependendo de como o conflito evoluir,
04:06pode ser muito ruim para todos, né?
04:09Para a gente aqui, olhando para esse impacto,
04:12a médio e longo prazo, o principal impacto seria a inflação?
04:17Olha, um dos impactos é a inflação,
04:19porque a taxa de câmbio no Brasil, tem o dólar medido em reais,
04:24ele tem um efeito muito significativo sobre as importações
04:28e, portanto, sobre os preços praticados internamente.
04:33Isso afeta a inflação.
04:34Assim como nós fomos beneficiados desde o início do ano passado
04:39com essa tendência de apreciação do real,
04:43na verdade, mais pela desvalorização global do dólar
04:47do que por algo específico da nossa moeda,
04:50agora o movimento pode ser o contrário.
04:53O Banco Central tem ferramentas, tem instrumentos
04:56para agir contra a volatilidade,
04:59mas contra patamar, não consegue e nem deve
05:03num regime de câmbio flutuante.
05:05Mas a verdade é que um dos efeitos, sim, pode ser a inflação.
05:09Um efeito positivo, num prazo mais curto,
05:13tem a ver com a balança comercial,
05:15que pode ser auxiliada, dependendo do que acontecer, de fato,
05:19com o mercado de petróleo e com os preços internacionais.
05:23E, no limite, a atividade econômica também pode ser afetada,
05:27dependendo de como os fluxos de comércio globalmente
05:32sejam afetados e, portanto, também o Brasil,
05:35por meio do seu balanço de pagamentos.
05:37A gente estava vendo uma sequência de recordes,
05:42muito por conta de investidores estrangeiros na Ibovespa B3.
05:46Agora, nesse momento, é um movimento natural,
05:50que se fuja, tem essa aversão a risco e a mercados emergentes.
05:56Então, essa retomada daquele fôlego no Ibovespa B3, Felipe,
06:00você acredita que tem uma relação com o conflito no Oriente Médio
06:05não escalar, desacelerar ao longo dos próximos meses?
06:08Como é que essas coisas se amarram?
06:13Esses ativos financeiros, e a Bolsa, particularmente,
06:16tem duas dimensões importantes, ou três.
06:20A primeira é a própria economia real.
06:23As perspectivas de crescimento, o dinamismo dos setores.
06:27E, nesse primeiro eixo, como nós falávamos em resposta
06:31à sua primeira pergunta, a tendência da economia
06:34já é de desaceleração.
06:37Veja o resultado do ano passado, que nós ficamos conhecendo hoje.
06:40Uma segunda dimensão é a volatilidade típica desses ativos
06:47associada aos movimentos do próprio mercado financeiro,
06:50os movimentos especulativos, o risco.
06:54E, claro, num contexto internacional como esse,
06:57em que ainda há uma nebulosidade a respeito do cenário
07:02para o conflito no Oriente Médio,
07:04isso pode ter consequências que, um dia,
07:09levam a Bolsa a apresentar um determinado desempenho,
07:13refletindo, por exemplo, apostas de que o cenário vai se dissipar
07:17e, talvez, um cenário mais otimista se confirme,
07:21a partir da ação dos Estados Unidos e de Israel,
07:25que isso teria sido mais definitivo.
07:27Mas, no dia seguinte, isso já pode mudar.
07:30É muito difícil, nesse momento, antecipar as tendências
07:33para ativos financeiros e para a Bolsa.
07:36E a terceira dimensão, que é a própria taxa de câmbio, o dólar.
07:41Há uma correlação muito grande entre o desempenho da moeda
07:46e o desempenho da Bolsa de Valores.
07:48Então, são esses três pontos que nós temos que ficar de olho
07:52para avaliar agora, nesses dias e semanas,
07:56como as coisas vão evoluir.
07:57Exatamente. Lembrando que o dólar, nesse momento,
07:59está R$ 5,25.
08:02Está mudando mesmo de direção em relação ao que a gente vinha vendo
08:05até a semana passada, Felipe.
08:08E, para a gente finalizar, eu queria te ouvir sobre
08:10os planos do Banco Central e essa expectativa de redução de juros,
08:15já agora em março, e sobre o tamanho dessa expectativa.
08:19Essa guerra no Irã pode atrapalhar os planos e a dimensão dos cortes?
08:26Eu entendo que atrapalha parcialmente, dependendo da tendência que nós avaliarmos
08:34ao longo das próximas semanas.
08:36O câmbio, claramente, mais alto, o real mais desvalorizado,
08:41ele tem impacto sobre a inflação.
08:43Esse é um canal importante de transmissão para a inflação,
08:48os preços dos produtos importados afetados pela taxa de câmbio.
08:53Por outro lado, nós temos uma gordura muito grande,
08:57porque a taxa de juros, não só a Selic, mas a curva a termo,
09:02como a gente chama de juros, para diferentes prazos,
09:05ela está bastante pressionada.
09:07Então, há uma gordura, há um espaço para iniciar um ciclo de queda,
09:12que nós, aqui na Warren, achamos que vai se iniciar com um corte
09:16de 50 pontos base, mas é óbvio que o Banco Central,
09:21num contexto internacional mais adverso, mais incerto,
09:26e o Comitê de Política Monetária, o COPOM,
09:29terá que avaliar com um maior cuidado e considerar esses fatos novos
09:34na sua decisão.
09:35Como nós estamos com uma taxa muito restritiva,
09:39bastante acima da chamada taxa neutra de juros,
09:42mesmo que o Banco Central inicie o processo de redução,
09:46nós ainda vamos continuar operando na política monetária
09:51no modo contracionista.
09:53Então, há espaço para iniciar o ciclo de queda,
09:57mesmo mediante esses fatos novos que nos acometeram nos últimos dias.
10:03Apesar desses pesares todos, né?
10:05Eu quero agradecer Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos,
10:10pela participação ao vivo nesta manhã.
10:12Ótima terça-feira e até a próxima.
10:14Eu que agradeço.
10:16Ótima terça para você também.
10:17Tchau, tchau.
10:18Tchau.
10:18Tchau.
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