00:00E a escalada do risco geopolítico volta a acender o alerta nos mercados e pode gerar efeitos em cadeia na
00:07economia global.
00:08Petróleo e energia já reagem, com possíveis impactos sobre inflação e política monetária.
00:13Isso também pode mexer com o dólar, os juros globais e o fluxo para emergentes.
00:18Aqui no Brasil, os reflexos podem aparecer no câmbio, no custo de captação das empresas, na Bolsa e em setores
00:25mais expostos ao cenário externo.
00:27E para entender os principais canais de transmissão deste choque e o que o mercado deve monitorar a partir de
00:34agora,
00:34a gente vai conversar com o economista e professor do curso de administração da ISPM, Jorge Ferreira dos Santos.
00:41Professor Jorge, tudo bem contigo? Muito bom dia para você. Como que está?
00:46Bom dia para você também. Tudo bem?
00:48É um prazer tê-lo aqui no Prémarket. Nossa analista Mariana Almeida também vai participar dessa nossa conversa.
00:55Professor Jorge...
00:56Bom dia, Mariana.
00:56Bom dia, Jorge.
00:58Professor, quando tudo parecia mais calmo, que as empresas poderiam se planejar minimamente para 2026,
01:09veio a Suprema Corte e derrubou o tarifácio.
01:12É uma boa notícia, é uma boa notícia.
01:13Mas você tem que se reajustar novamente.
01:17E se já não bastasse isso, veio o conflito.
01:19E aí o conflito coloca muitas questões em xeque, que são
01:23preço do petróleo, a volatilidade, o preço do petróleo deve subir,
01:27fechamento de pontos importantes de navegação comercial.
01:31A gente pode ter aí um reflexo também, uma pressão sobre o custo comercial.
01:36Como tudo isso afeta, por exemplo, o mercado brasileiro neste momento?
01:42Vamos lá.
01:44Para entender um pouco como é que o mercado brasileiro é afetado, a gente tem que partir
01:48daquilo que você comentou, que é...
01:51A gente tem o petróleo sendo o Brent, que é o principal indicador, o principal balizador
01:58do preço do petróleo, ele já sobe 10% no mercado.
02:03A gente tem...
02:04As bolsas do Oriente operaram em alta queda.
02:10O Japão chegou a 2% de queda ao longo da madrugada, justamente por conta dessa situação
02:18do conflito.
02:19Então, o que a gente pode ter aqui no mercado brasileiro é uma pequena pressão sobre a
02:25bolsa já na abertura.
02:26A abertura, a bolsa brasileira vem de uma euforia.
02:30A gente tem recordes históricos sendo batidos desde janeiro.
02:35Pode ser que a bolsa abra com um pouco de pressão hoje já por conta dessa situação.
02:42E a gente vê, por exemplo, o dólar operando, o dólar futuro operando com uma pequena alta
02:49em relação ao real.
02:50A gente tem que lembrar que o dólar também vem de quedas sucessivas.
02:54Testou 5,14 na sexta-feira.
02:57Ele já opera com um pouquinho de alta.
03:00O que isso reflete na economia?
03:03A gente tem uma transmissão na economia bastante grande se o petróleo continuar operando com
03:10essa alta.
03:11Por quê?
03:11Porque se por um lado a economia brasileira, que é exportador de petróleo, se beneficia,
03:15por outro a gente tem uma alta nos custos internos.
03:19Então, a gente precisa acompanhar ao longo desses dias para ver se o conflito continua
03:23nessa escalada, para ver se o dólar continua operando, para ver se o petróleo continua operando
03:29nessas altas.
03:31Por quê?
03:31Porque isso pode pressionar a inflação no Brasil.
03:35A gente tinha uma projeção de queda da inflação ao longo de 2026 e a gente precisa ver como
03:41é que o petróleo se comporta.
03:42Por quê?
03:43Porque o petróleo é um insumo basilar da economia.
03:46Se ele opera em alta durante muito tempo, a gente tem um repasse inevitável inflacionário
03:53para a economia.
03:54Então, a nossa torcida é de que esse conflito se resolva logo para que essa alta súbita
04:00que a gente teve nos últimos dias do petróleo, ela não se mantenha e o petróleo volte a
04:04se acomodar num preço, num patamar de preço como ele estava operando, que era em torno
04:09de 72, 73 dólares o barril.
04:13Jorge, uma questão que você até trouxe, que a Bolsa Brasileira teve alguns momentos
04:19de recorde, inclusive em situação de instabilidade externa.
04:23Então, a gente ficou como aquele mercado que podia andar até na contramão em alguns
04:27momentos com relação ao cenário externo.
04:31Isso tem muito a ver também com a falta de alternativas.
04:34A gente estava, eu e Klein, acompanhando aqui os diversos migrações para ativos mais
04:38seguros, obviamente ouro, enfim, o próprio dólar subindo.
04:42Mas te pergunto, se tem uma instabilidade geral, é uma fuga mais consciente de ações
04:49em geral, mas nesse cenário de uma redução, você acha que a Bolsa Brasileira continua
04:54bem posicionada para cair menos ou ainda ser uma certa atratividade no meio desse cenário
05:00mais turbulento, pelos múltiplos mais baixos?
05:02Quer dizer, dá para sustentar um posicionamento estratégico positivo?
05:08Esse é o cenário básico com o qual a gente trabalha.
05:10Uma excelente pergunta.
05:11Esse é o cenário básico com o qual a gente trabalha.
05:13Por quê?
05:14Porque a Bolsa Brasileira, como eu citei, como você comentou, ela vem de altas súbitas,
05:19ela está recebendo muita procura.
05:21A gente teve, ao longo de janeiro, uma antecipação de alguns fluxos internacionais, inclusive,
05:27entrando na Bolsa.
05:28A Bolsa Brasileira antecipou, por conta dessa euforia, algumas entradas à Bolsa Brasileira.
05:33Então, o cenário básico que a gente tem é, sim, que a Bolsa Brasileira pode ser pressionada,
05:38mas ela ainda tem algum espaço para receber, para pelo menos passar por aquilo que a gente
05:45chama estabilização lateral, ou seja, ela transitar em torno de um preço que ainda é
05:50alto.
05:52Esse é o cenário base.
05:53Por quê?
05:53Porque, no modo como o conflito está hoje, a gente vê essa possibilidade da Bolsa conseguir
06:00absorver.
06:01O que a gente tem que tomar cuidado é, numa escalada global do conflito, e se o conflito
06:07se mantiver durante muito tempo, com esse tom de trocas de ameaças e trocas de ataques,
06:17porque aí você pode ter um efeito contágio e aí sim a Bolsa vir a sofrer, principalmente
06:23com aquilo que você falou, a fuga para ativos mais seguros.
06:28Então, a gente tem um ouro que já está historicamente muito alto, ele tem uma valorização
06:33de quase 60% nos últimos 12 meses, ele tem testado recordes, então, bancos centrais
06:39e investidores já estavam procurando ativos de segurança, o dólar volta a ser um ativo
06:45de segurança novamente, ele vem se enfraquecendo ao longo do período, mas pode ser que ele ganhe
06:51algum espaço nos futuros e já está ganhando um pouquinho de espaço ao longo desses três
06:55dias.
06:56Então, a gente precisa monitorar.
06:57Mas sim, respondendo objetivamente a sua pergunta, a Bolsa brasileira, nesse momento, no atual
07:03patamar, ela ainda pode ter algum tipo de benefício e se manter mais estável com algum tipo
07:10de lateralização, ou seja, sem quedas abruptas e andando em torno dos últimos preços que ela
07:16tem operado.
07:17Ainda ao encontro do que o senhor está falando, professor, e da pergunta da Mária Almeida,
07:22a gente pode ter um impacto maior nas small caps, mas por outro lado, por exemplo, a gente vê minério
07:28de ferro se valorizando no mercado global, na Bolsa de Dalian, subindo quase 1%.
07:32Isso poderia beneficiar Vale, petróleo subindo pode beneficiar Petrobras, e são dois ativos
07:39que têm pesos importantes na composição da Bolsa brasileira.
07:43Então, a gente pode equilibrar ou ter aí uma oportunidade de médio prazo com esses papéis
07:50ou até curto prazo?
07:52Sim, com esses papéis, você citou Vale e Petro, sim.
07:56A gente também tem, apesar do agro ser atingido no canal de fertilizantes, que no canal de fertilizantes
08:04a tendência é subir, o agro pode ter um posicionamento positivo também, por conta de alguma possível
08:12alta na demanda em relação ao conflito, as partes compradoras acabaram se posicionando,
08:19comprando mais com moito agrícola por conta dessa situação de tensão global.
08:25Então, assim, a gente tem esses dois papéis, mas o agro acomodando uma possível manutenção
08:33do conflito e, sim, algumas malquetas sofrendo por conta do reposicionamento do investidor.
08:40O investidor gosta de ativos seguros e ativos que se valorizam no momento de crise.
08:46Jair, você falou agora há pouco também, esse é um assunto difícil, mas vamos lá,
08:51que o dólar, ele vinha se desvalorizando, inclusive Donald Trump tinha interesse nessa
08:56desvalorização, porque fortalece as exportações, dificulta as importações, mas teve uma reversão.
09:02E aí eu comecei a lembrar muito dos anos 70, porque nos anos 70, inclusive Irã também
09:06muito presente na história, teve um aumento substancial do preço do petróleo, isso foi parte,
09:13não foi sozinha a explicação, mas de uma reversão rumo ao dólar e uma supervalorização
09:17ali no final dos anos 70, início dos anos 80. Será que a gente vai ver essa reversão
09:21de novo? Ou o próprio fato de Donald Trump ter uma outra narrativa deve segurar?
09:26Quer dizer, dá para tentar comparar esses tempos? Como é que você vê a história do dólar
09:31nos próximos períodos?
09:34Muito boa pergunta, Mariana. Por quê? Porque o cenário, quando a gente olha, ele tende a
09:41ficar parecido, por quê? Porque é uma situação em que os dois vetores convergiam, isso a gente
09:49está falando da década de 70, então assim, a primeira e a segunda crise do petróleo, mais
09:53o enfraquecimento do dólar no mercado global, só que hoje a gente tem algumas condicionantes
10:00são um pouco diferentes. Uma delas é, a gente tem uma produção de petróleo mais pulverizada
10:08e a gente está acompanhando o posicionamento da OPEP. Por que o posicionamento da OPEP é
10:14importante? Porque nessa escalada que a gente teve, o Brent já subiu quase 10% no final de
10:22semana, a OPEP, ela iniciou o ano com uma preocupação relacionada à superprodução,
10:29né? Antes da gente entrar nesse final de semana, a preocupação da OPEP era uma superprodução
10:35que derrubasse o preço do barril do petróleo. A gente já mudou de cenário, mas a OPEP, ela
10:41pode acomodar algum impacto dessa alta alavancada do preço do petróleo, que não é bom porque
10:51ele gera um movimento inflacionário no mundo, a OPEP ainda tem espaço para regular isso,
10:57fazendo com que alguns países produtores aumentem a produção para tentar reduzir esse
11:04escalado do dólar. Então, assim, a situação, ela se parece com a década de 70, o transcorrer
11:13da década de 70, mas hoje a gente tem alguns mecanismos por conta da produção de petróleo
11:18que está mais pulverizada no mundo. Na década de 70, dependia-se muito do petróleo árabe.
11:23Hoje a gente tem produção própria nos Estados Unidos, é um grande produtor de petróleo,
11:27e aí, apesar de não ser membro da OPEP, e a própria OPEP pode, de algum modo, nos seus
11:34países membros, equilibrar a produção, aumentando a produção em alguns países para reduzir
11:42esse efeito Hormuz. O que é o efeito Hormuz? A gente sabe que o estreito de Hormuz, ele
11:47exclua quase 20% da produção de petróleo, então, quando a gente fala dessa alta do petróleo,
11:53não é só porque o Irã está sob um ataque, é porque o Irã, de algum modo, ele tem um
11:58certo controle do estreito. E assim que o conflito começou, mesmo antes do estreito ficar quase
12:05no operante, as trades e as grandes transportadoras já tinham adiado ou mudado rotas, elas conseguem
12:12se reposicionar de um jeito bastante rápido nessa situação. Então, a OPEP pode operar
12:21de um jeito que ela reduza um pouco esse efeito Hormuz no petróleo, reequilibrando e fazendo
12:29com que outros países membros aumentem a produção para equilibrar um pouco o preço. E tudo isso,
12:34como eu falei, sem ser repetitivo, é para evitar uma escalada global da inflação. Faz muito
12:40tempo que a gente está brigando com a inflação. A inflação parecia que estava começando a
12:44estabilizar os grandes centros, Estados Unidos, Europa, Japão e aqui no Brasil também. Então,
12:50assim, uma escalada da inflação agora seria terrível e até os produtores de petróleo sabem isso.
12:56Professor Jorge Ferreira dos Santos, queria muito agradecer a sua participação aqui no
13:00Prémarket. Grande abraço para você e uma ótima semana.
13:04Um abraço e uma ótima semana para vocês também.
13:06Obrigado.
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