00:00E a escalada das tensões no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã
00:05acendeu um alerta no agronegócio global.
00:07O setor acompanha possíveis impactos no fornecimento de fertilizantes,
00:12nos custos logísticos e também nos preços das commodities agrícolas.
00:17Diante deste cenário, surge a dúvida.
00:19O Brasil pode perder espaço no comércio internacional?
00:23Bom, para responder a essa e outras perguntas,
00:25eu vou conversar agora, ou nós, eu e Mariana Almeida,
00:27com o Caio Carvalho, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio.
00:32Oi, Caio, muito bom dia para você, seja bem-vindo aqui ao Pre-Market.
00:35Tudo bem contigo?
00:37Tudo bem, bom dia, bom dia, Angus, um prazer estar com vocês aqui.
00:41O prazer é todo nosso de recebê-lo aqui no Times, licenciado exclusivo CNBC.
00:46Ô, Caio, na terça-feira, a gente, dois dias atrás, portanto,
00:50a gente já tinha a informação de que a ureia, por exemplo,
00:53já estava 15% mais alta do que na sexta-feira, antes do início do conflito.
00:59A gente sabe que o Brasil importa 70% da ureia, vem do Irã, né?
01:05E aí você tem uma parte ali da Rússia.
01:08O quanto isso pode impactar, inclusive, nos custos do alimento aqui no Brasil na próxima safra?
01:15É muito importante, Mariana, que a gente tenha consciência, e é importante a análise de vocês,
01:22que a questão dos fertilizantes é parte das dependências, vamos dizer assim, negativas que nós temos.
01:31Portanto, tem um grande esforço a ser feito nesse sentido.
01:34De fato, quando você tem um aumento do preço do petróleo, como a gente está observando,
01:39acontecem duas coisas e é sempre importante olhar os dois lados da moeda.
01:43Por um lado, existe, obviamente, o aumento do custo pelo aumento do fertilizante,
01:49que é fundamental, vamos dizer assim, o fertilizante base nitrogenada é fundamental
01:53para a produtividade no país e é a produtividade e os ganhos de produtividade
02:00que reduzem o aspecto do custo.
02:02Quando você tem um aumento do preço do petróleo, também acontece um lado,
02:06vamos dizer assim, o outro lado da moeda que eu digo,
02:09que é a melhoria dos preços ao produtor.
02:11Portanto, nós temos que ficar olhando os dois lados, gente.
02:14O lado do aumento do custo pelos fertilizantes e o problema da dependência que nós temos.
02:19E, por outro lado, o muito provável, o aumento de preços,
02:24o que, obviamente, acaba buscando equilibrar a questão das margens.
02:28Caio, até aproveitando essa colocação sua,
02:31da gente, de alguma maneira, ver a floresta toda, não dar o zoom só no preço,
02:36queria te perguntar o seguinte, a gente está meio que na entre safra,
02:39quer dizer, está terminando ainda a colheita para passar para um outro momento,
02:46considerando que a crise estourou agora por lá e que o aumento de preços é neste momento,
02:50mas a gente tem muitas dúvidas de como ele vai persistir, quer dizer, quais os desdobramentos.
02:54O Brasil deu sorte no timing, quer dizer, agora, qual foi a reação dos produtores?
02:59Correr, esperar, como é que o efeito do tempo pode ajudar e amenizar os impactos no preço?
03:07Muito importante sua observação, Juliana.
03:10Isso acontece, normalmente, em vários momentos.
03:12Às vezes, uma crise macro, do ponto de vista, digamos assim, de tudo,
03:18que, inclusive, de inflação, abre, digamos, algumas oportunidades outras que surgem.
03:24É sempre assim.
03:25São muitas variáveis que a gente está o tempo todo brigando com elas.
03:30O clima, por exemplo, que a gente não sabe o que vai ser,
03:32é uma variável sempre muito importante, assim como o petróleo.
03:36O petróleo, gente, é importante observar, porque nem muitos estão ligados a isso.
03:40O petróleo é um acomode tão importante que ele acaba criando uma correlação de preços
03:46desde 2007, 2008, quando a maioria do mundo passou a utilizar a biomassa,
03:53ou seja, o produto agrícola para fins energéticos,
03:56criou-se uma correlação de preços entre produtos agrícolas e o petróleo.
04:01Então, quando a gente tem um aumento do petróleo, como a gente está observando,
04:04naturalmente, ele acaba puxando algumas commodities.
04:07Nós estávamos vivendo uma tempestade perfeita,
04:10do ponto de vista de todos os aspectos negativos para preço e para custos,
04:15e agora a gente, de repente, percebe uma janelinha
04:19para que possibilite a quem estiver bem acordado,
04:22bem ligado ao comércio, ao mercado,
04:24momentos de fixação de preços, oportunidades que aparecem.
04:29Claro que nós vamos encontrar produtores que ainda não haviam feito a compra
04:33do seu fertilizante nitrogelado e vão pagar mais caro,
04:37outros que já haviam feito isso.
04:40Portanto, claro, sempre você tem diferenças grandes
04:42em determinadas áreas e determinados produtos.
04:45O importante para nós, Manuela, é observar.
04:48Nós vemos até agora um bom clima, nós vamos ter uma boa safra.
04:52Vamos dizer assim, a gente vinha sofrendo, obviamente, com margens mais apertadas,
04:56mas ainda com margens, porque o Brasil é muito competitivo em alguns produtos,
05:01no entanto, como, por exemplo, açúcar, vamos dizer assim,
05:05que, no entanto, com essa subida do petróleo,
05:08por exemplo, subida de gasolina, de etanol,
05:11o açúcar, obviamente, baseado no preço do etanol,
05:15também pode dar uma recuperada.
05:17Ou seja, entre notícias tão ruins, às vezes surgem oportunidades.
05:22Mas eu não quero ser o mensageiro do caos, viu, Caio?
05:25Mas a gente falou agora há pouco que as exportações de soja
05:30reduziram um pouquinho, né?
05:31E eu acredito que, neste momento, não há uma previsão de aumento
05:34justamente por causa dessa turbulência,
05:36essa incerteza no comércio internacional,
05:39por causa da escalada do conflito no Oriente Médio.
05:43A gente falou dos preços ou do custo do alimento aqui no Brasil,
05:46mas o que pode também afetar o setor, né?
05:49O próprio setor do agronegócio.
05:50Pode perder um pouquinho de espaço, de faturamento?
05:55Olha, se você examinar a lógica, vamos dizer assim, e os dados,
06:00se você examinar 2025 em relação a 2024,
06:04o Brasil acabou equilibrando pelo aumento de volume,
06:08a questão da perda de preços,
06:10e tivemos uma avaliação comercial positiva,
06:12só não foi mais positiva porque a gente aumentou em importações.
06:17Então, mais o balanço é muito positivo.
06:20Para esse ano de 2026, a gente continua,
06:23obviamente, sofrer um pouco com mais os menores
06:26pelos preços menores,
06:28mas a gente deve ter uma produção boa.
06:30Quando eu falo produção boa, é que eu estou dizendo
06:32que a produtividade é o grande fator
06:35para, como dizia o prêmio Nobel americano,
06:42no final das contas, a produtividade é tudo.
06:45Então, na medida em que a gente está dizendo
06:47que a produtividade tenderá a ser positiva esse ano,
06:50eu estou dizendo que, mesmo com problemas inflacionais
06:53ou alguma coisa de aumento de custos,
06:55o ganho de produtividade me dá, digamos assim,
06:58uma sustentação para aquela eventual perda de preços.
07:01A gente vai estar mais apertado do que antes,
07:04mas acredito que, de novo, nós vamos ter uma boa safra,
07:08nós vamos ter uma boa produção.
07:10E, no somar das coisas,
07:12essa avaliação que está acontecendo agora,
07:15que, aliás, eu estou muito preocupado
07:17porque as notícias a cada dia, gente,
07:20são notícias preocupantes.
07:22A sensação de que está lastrando, vamos dizer assim,
07:25isso tudo acaba, para a agricultura,
07:28trazendo impactos diferentes do que a gente tinha observado até agora.
07:32Mas vale observar o que vai acontecer, né?
07:36E, Caio, agora você falou em produtividade é tudo, né?
07:39Agora, com o comércio, do jeito que ele está,
07:42falando um pouquinho ainda das incertezas,
07:44e a entrada de discricionárias aí,
07:46de coloca a tarifa, tira a tarifa, fecha a cota,
07:48enfim, é tudo, mas, ao mesmo tempo,
07:51o mercado traz novidades do ponto de vista de restrição,
07:53mas de acesso.
07:54O tema dos fertilizantes nitrogenados
07:56foi um grande tema nessa relação União Europeia-Brasil-Mercosul,
08:00como um questionamento vindo por lá
08:03do uso desses fertilizantes no Brasil.
08:06Somando agora, para essa semana,
08:08a assinatura passou no Senado
08:10à relação Mercosul-União Europeia,
08:13a dificuldade de acesso da ureia que vem do Irã.
08:16Tem algum sinal de,
08:17você acha que isso pode apoiar uma mudança
08:20no padrão de uso desse tipo de fertilizante no país?
08:23Olha, eu diria a você que
08:26a coisa do Mercosul-União Europeia,
08:29a gente olha para o nosso lado, óbvio,
08:31mas o mais curto espaço de termo do interesse,
08:35ela se viabilizou muito pela pressão
08:36do que está acontecendo aí,
08:37porque a União Europeia ficou 25 anos
08:40para fazer o acordo com o Brasil
08:41e fez o acordo com a Índia agora,
08:43depois de 20 anos de negociação.
08:45Então, é natural que você perceba
08:47que os dois acordos acontecem
08:49no momento em que a União Europeia
08:51está muito espremida
08:52entre China e Estados Unidos.
08:55Portanto, ela está buscando alternativa.
08:57Número dois, não sei se vocês observaram,
08:59mas em 2025,
09:01as exportações do agro,
09:03em primeiro lugar,
09:04foram para a Ásia, é claro,
09:06para a China,
09:06e em segundo lugar,
09:07para a União Europeia.
09:08Ela volta a ser o número dois
09:10das exportações brasileiras.
09:11Então, essas coisas todas
09:13começam a delinear um novo momento,
09:15no qual, seguramente,
09:17acredito eu,
09:19o Brasil continua a ser protagonista,
09:22continuará a ser protagonista.
09:24A gente vai estar sofrendo
09:26com essa questão de tarifes,
09:27como você disse,
09:28que acabou no fim,
09:29no final das contas,
09:31agora beneficiando o Brasil
09:32em relação aos seus concorrentes.
09:34Portanto, essas coisas vão acontecendo,
09:36a gente nunca sabe exatamente como.
09:39Caio Carvalho,
09:40queria muito agradecer
09:41a sua participação aqui no Pré-Market.
09:44Grande abraço para você,
09:45meu amigo,
09:46e uma ótima quinta-feira.
09:48Muito obrigado pela atenção,
09:49um abraço a todos vocês,
09:50aos ouvintes.
09:51Obrigado.
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