00:00A gente vai conversar agora com Carlos Braga, ele é professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do
00:07Banco Mundial.
00:08Professor, boa noite, obrigada por ter aceitado o convite e estar aqui com a gente mais uma vez.
00:14Um prazer estar com vocês.
00:17Bom, professor, a gente viu o petróleo ultrapassando 90 dólares hoje no mercado internacional.
00:23Se esse conflito se prolongar ainda mais, e tudo indica que vai se prolongar, veremos o dólar bater, perdão, veremos
00:32o petróleo bater 100 dólares?
00:35Qual a implicação disso para a economia global?
00:39Bem, a maioria dos analistas está apostando que ao abrirmos os mercados na próxima segunda-feira, muito provavelmente nós vamos
00:52ultrapassar os 100 dólares no preço do barril do Brent.
00:57Isso está baseado aí na hipótese de que o conflito vai continuar, como tudo indica que será o caso.
01:05Agora, fazer essas previsões é muito difícil, particularmente dada toda a instabilidade do momento e o fato de que cada
01:18momento o senhor Trump faz uma declaração que conflita com declarações anteriores.
01:27Mas tudo leva a crer que nós estamos numa trajetória que nos leva 100 dólares no barril.
01:34E aí, quais são as consequências disso aqui para o Brasil, os impactos para a gente?
01:40Bem, os impactos naturalmente são positivos para Petrobras, por exemplo.
01:48Vai ter a questão de qual será a política de preços, né?
01:55Como que isso vai ser transferido para o consumidor.
01:59No caso dos Estados Unidos, existe uma regra de bolso que diz mais ou menos o seguinte.
02:07Para cada 10 dólares adicionais no preço do Brent, o barril do Brent, você tem um aumento aí da ordem
02:19de 0,10, 10 centavos ou 20 centavos o preço do galão da gasolina nos postos de gasolina.
02:29E a gente está vendo isso no caso dos Estados Unidos, o galão já subiu para 3,25 dólares o
02:39galão, né?
02:40E existe aí a possibilidade dessa trajetória continuar.
02:46E existe uma linha, vamos dizer, psicologicamente preocupante para a administração Trump,
02:54que é o valor de 4 dólares o galão.
02:58A gente ainda está longe disso, mas o senhor Trump costuma anunciar que no seu governo o preço da gasolina
03:07nunca esteve tão baixo.
03:09Obviamente, isso não é verdade, mas realmente estava abaixo dos 3 dólares.
03:15Agora, a média nacional nos Estados Unidos já está aí 3,25 dólares por galão.
03:22No caso brasileiro, é mais complicado porque a Petrobras costuma, como nós acabamos de ouvir a presidente da Petrobras,
03:33a administrar os preços e não necessariamente transferir imediatamente essas variações de preço.
03:41Bom, professor, aproveitando um gancho que você trouxe.
03:44A presidente da Petrobras, a Magda Chambriar, disse que a companhia vai tentar evitar esse repasse imediato
03:51das oscilações do preço do petróleo no mercado internacional para nós, para os consumidores brasileiros.
03:57Segundo ela, ainda a estratégia é reduzir os efeitos da volatilidade sobre os combustíveis no nosso país.
04:04Mas dá para fazer isso, de fato?
04:07Olha, no curto prazo, dá para fazer.
04:11Mas, obviamente, particularmente com relação ao preço do diesel,
04:16a gente já está bem defasado do preço internacional do diesel.
04:20Porque quando a gente fala de preço de energia, a história mostra que choques geopolíticos têm impacto significativo em mercados
04:33financeiros
04:34quando o preço de energia varia significativamente.
04:39O caso mais, vamos dizer, historicamente mais interessante nesse contexto foi a guerra do Yom Kippur, lá em 1973,
04:50quando após a guerra, a Arábia Saudita acionou os países da OPEP para iniciar um embargo às exportações de petróleo
05:03para os Estados Unidos e para vários países europeus que tinham apoiado Israel.
05:07E aí a gente viu o preço do petróleo subir três vezes em dois meses.
05:15Nesse momento, a gente está vendo algo não tão dramático, mas certamente um impacto significativo.
05:24O preço do Brent, que estava aí por volta de 60 dólares o barril, a coisa de um mês atrás,
05:32hoje já está batendo aí algo como 92 dólares o barril, né?
05:39Então, a gente tem que ver também como isso afeta diferentes partes do mundo.
05:45Para o Japão, para a Coreia do Sul, isso é um impacto dramático.
05:50Para os Estados Unidos, muito menos.
05:52Mas mesmo para os Estados Unidos, há também implicações, como eu acabei de mencionar,
05:58no que a gente já está vendo no preço da gasolina.
06:01Agora, é muito mais complicado para o preço do diesel, é muito mais complicado para o preço do combustível para
06:10aviação.
06:11Nós estamos vendo, nesses casos, aumentos muito mais significativos.
06:18Eu vou passar para o Vinícius Torres Freire.
06:20Vinícius.
06:21Boa noite, professor.
06:23O preço do petróleo está subindo muito agora.
06:25O mercado finalmente acordou para o tamanho da encrenca.
06:30Subiu 27%, mas ainda está em 91% no caso do Brent.
06:3591%, 92%, por aí.
06:3792 dólares.
06:38Na guerra, na invasão da Ucrânia pela Rússia, chegou a perto de 150 e ficou acima de 100 por quase
06:4610 meses, bons 10 meses.
06:48Isso é um estrago muito grande, ajudou a causar aquela inflação pós-epidemia e tudo mais.
06:53Agora, o Trump hoje disse que a guerra não termina sem rendição incondicional do Irã, se é que ele sabe
06:59o que significa isso.
07:00Por outro lado, dentro da política, ele pode ver, como o senhor falou, a gasolina chegando, a gasolina comum, média,
07:08nos Estados Unidos, chegando a 4 dólares.
07:09Está em 3,32.
07:10Hoje.
07:11Já subiu 11% em uma semana, 12% em uma semana.
07:15Você acha que Trump vai ceder, como sempre cedeu, a problema econômico?
07:20Porque a inflação preocupou ele, tanto que ele mexeu em algumas tarifas.
07:24Não tanto, mas ele levou ele a mexer em tarifas, principalmente sobre alimentos.
07:29E mercado financeiro em tumulto também levou ele a recuar, até no caso da Groenland, especialmente no tarifas de abril
07:36do ano passado.
07:37O senhor acha que isso pode fazer com que o Trump mude, mais uma vez, a ideia do que ele
07:42acha que seja o objetivo dessa guerra?
07:45Porque está mudando a cada dia e hoje é rendição incondicional.
07:49Quem chega primeiro, a rendição incondicional ou pressão de preço politicamente horrível nos Estados Unidos?
07:55Bem, certamente, eu não acredito que nós vamos ver uma rendição incondicional do Irã frente aos Estados Unidos e Israel
08:08nesse conflito.
08:09A estratégia do Irã, que causou surpresa para alguns analistas, de atacar praticamente todos os países da região do Golfo,
08:22e indo até mesmo além, como o Azerbaijão, por exemplo, e até a Turquia, embora o Irã diga que não
08:32foram os drones do Irã que atacaram.
08:35Mas, de qualquer forma, nós estamos vendo uma guerra assimétrica, no sentido que o Irã tem mísseis,
08:44mas ele está utilizando, sobretudo, os Shahed drones, que, diga-se de passagem, eles forneceram para a Rússia,
08:55e a Rússia, através de um processo de re-engineering, desenvolveu drones ainda mais sofisticados e vem utilizando com muita
09:06frequência na Ucrânia.
09:08Agora, nesse momento, a grande questão é qual é a duração desse conflito.
09:18Porque quais são os objetivos dos Estados Unidos?
09:21Eu, sinceramente, acho que nem o senhor Trump sabe.
09:25Ele tem feito referência, digamos assim, a quatro objetivos.
09:32Um é a questão de controle do processamento nuclear no Irã, que já chegou a 60% de enriquecimento,
09:44e argumenta que poderia facilmente chegar a 90% no sentido de ter enriquecimento para bombas atômicas.
09:55Isso é discutível, mas, de qualquer forma, é interessante a gente ver que, se no ano passado, em junho,
10:04os Estados Unidos disseram que tinha destruído completamente a capacidade nuclear do Irã,
10:09agora continua a selva preocupação.
10:13Então, esse é um objetivo.
10:15Outro objetivo é diminuir, dramaticamente, a capacidade militar do Irã,
10:21particularmente da guarda revolucionária islâmica,
10:29que são as tropas de elite do Irã.
10:33E o outro objetivo, naturalmente, era também diminuir a capacidade do Irã de apoiar forças como o Hezbollah, o Hamas,
10:49os Hutts,
10:50que são forças terroristas na região.
10:54Agora, a questão de mudança de regime, o senhor Trump vai e volta.
11:01Se você acha que é para valer a rendição incondicional,
11:08então ele também quer mudança de regime,
11:10porque mudança de regime é um objetivo de Israel.
11:16Mas eu diria que, no caso americano, há uma posição, vamos dizer, mais moderada.
11:22Agora, o que vem após o conflito, ninguém sabe.
11:26As experiências antigas dos Estados Unidos, com tentativa de depor regimes e impor novos regimes,
11:38seja no Afeganistão, seja no Iraque, foram desastrosas a médio prazo.
11:45Professor, muito obrigada.
11:46Prazer sempre ter o senhor aqui com a gente.
11:49Bom fim de semana.
11:50Igualmente.
11:51Legenda por Sônia Ruberti
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