00:00Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo não gastava tanto com o setor militar.
00:05A conta foi feita pelo Instituto Internacional de Assuntos Internacionais de Londres.
00:10A gente vai falar agora a respeito disso com a internacionalista Maria Monserrat.
00:14Seja muito bem-vinda, professora, a essa edição do Radar.
00:18Olá, Marcelo Torres, obrigada pelo convite. Olá, pessoal, pessoal que está em casa nos acompanhando.
00:24Bom, eu não vou perguntar por que houve esse aumento de gastos militares,
00:27porque isso parece meio óbvio, né, diante de tudo que a gente está vendo aí.
00:30A minha pergunta inicial é outra.
00:32Até quando você acredita que os países vão ter fôlego para continuar aumentando o gasto militar desse jeito?
00:39Olha, é difícil estimar esse tipo de coisa porque as indústrias vão criando resiliências próprias.
00:46Por exemplo, quando a invasão da Rússia começou, que todo o Ocidente se uniu para lançar sanções contra a Rússia,
00:53se esperava que, bom, pelo menos algumas pessoas esperavam que a economia russa fosse colapsar.
00:59E não foi isso que aconteceu, né?
01:00A gente viu que a gente observou uma resiliência do setor industrial russo.
01:05E é muito provável que os outros países, né, países na Europa, países na América do Norte,
01:11também consigam desenvolver isso.
01:13Imagina França, Alemanha, que eram países que vinham diminuindo seus gastos,
01:18ou pelo menos achando que esses gastos eram menos importantes, agora enxergam uma importância renovada
01:23e tendem a investir mais nisso e, com isso, novas indústrias vão surgindo.
01:28Você pode até ter uma certa melhoria em alguns setores da economia por criação de emprego, por exemplo.
01:35Se a gente olhar para o xadrez geopolítico, como é que você vê esses últimos investimentos aí militares
01:40mudando um pouquinho esse jogo?
01:43Olha, eu acho que um ponto interessante, né, chama atenção para a Alemanha,
01:49porque é um país que, por muitos anos, estava se afastando, né,
01:54por toda essa questão da Primeira Guerra Mundial, da Segunda Guerra Mundial.
01:57Você tem essa pecha na Alemanha muito forte, né, de terem sido, por ter sido o país que, pelo menos,
02:04assim a gente conta a história, né, iniciou a guerra, de acordo com, pelo fato do nazismo, né,
02:10ter iniciado a Segunda Guerra Mundial.
02:11Então, essa, por muitos anos, a Alemanha queria se afastar disso.
02:15E agora, por conta da ameaça, né, da ameaça percebida russa, tende a voltar.
02:21Então, eu acho que é um país para a gente prestar atenção, não só pelo histórico,
02:24mas também pelo potencial de latência nuclear.
02:28É um país que tem o conhecimento, não estou dizendo que tem a vontade política, né,
02:32que tem o desejo, mas é um país que tem o conhecimento, que tem os meios,
02:36se assim desejasse, de desenvolver um armamento nuclear.
02:39Então, isso é, claro, um ponto de atenção.
02:41E eu diria que a França também, né, que é um país que, no passado,
02:45havia aberto mão da sua tria de nuclear, né, que é o que a gente chama,
02:51quando um país tem capacidade de lançar armas nucleares da terra, do ar e do mar,
02:56a França abriu mão dessa tria de nuclear para focar, majoritariamente,
03:00suas armas nucleares em submarinos.
03:02E hoje já fala em modernizar esse arsenal, justamente pelas tensões, né, entre Europa e Donald Trump.
03:10Enquanto os Estados Unidos estão em primeiro lugar aí nos gastos militares,
03:14com mais de 900 bilhões de dólares, o Brasil aparece na vigésima posição, com 24 bilhões.
03:20Eu queria saber se, na sua opinião, esse volume é adequado para um país com a realidade e o porte
03:25do Brasil.
03:26E também queria saber a sua avaliação sobre se esse orçamento é bem gasto por aqui.
03:32Essa é uma excelente pergunta, principalmente a segunda parte, né?
03:35O Brasil tem um orçamento militar expressivo.
03:39O grande problema é que a maior parte desse orçamento é gasto com pessoal.
03:42Então, o Brasil está gastando mais dinheiro com pessoas, imagina, grande parte do nosso efetivo que está aposentado,
03:51gastando isso com pensões, gastando isso com pagamento de pessoas, né, de pessoal,
03:56e não investindo em grandes novos equipamentos ou equipamentos mais tecnológicos,
04:02ou como algumas pessoas mais entusiastas gostam de chamar, né, tecnologias disruptivas de guerra.
04:08Então, eu diria que, infelizmente, não.
04:11Esse orçamento, ele precisaria ser melhor alocado para responder às intenções do Brasil,
04:17se é que essas são as intenções do Brasil, de se tornar um líder regional.
04:22O Brasil tenta se colocar nas suas relações internacionais, muitas vezes, como um país que deseja ocupar uma liderança,
04:28uma liderança no sul global, uma liderança com os BRICS, uma liderança com o Mercosul,
04:33e, para isso, precisa ter, né, o poder militar, ele precisa corresponder a isso, né.
04:40Infelizmente, nós não podemos alcançar grandes coisas somente com palavras, pelo menos não no cenário internacional.
04:47Quando eu ouvi esse estudo, o professor, eu fiquei intrigado com uma coisa.
04:50Aí, diz que não se gastava tanto desde a Segunda Guerra Mundial.
04:54Mas a gente sabe que a economia do mundo, durante a Segunda Guerra Mundial, era muito menor do que é
04:58hoje.
04:58A possibilidade de gastar também com aparelhos tecnológicos era muito menor, porque eles simplesmente não existiam, né.
05:05Ainda dá para a gente afirmar que, na Segunda Guerra Mundial, foi gasto mais dinheiro no setor militar no mundo
05:11inteiro do que hoje?
05:13Essa é uma estimativa interessante da gente considerar, porque é o seguinte,
05:18teríamos que fazer aí uma avaliação comparativa, né, quer dizer, considerar, por exemplo, a inflação, né.
05:23O que o dinheiro valia naquela época e o que o dinheiro vale hoje, né.
05:27Então, seria um estimativo um pouco mais complexa.
05:30Mas eu diria que o que é interessante desse dado, né, de que não se gastava tanto dinheiro com gastos
05:37militares desde a Segunda Guerra Mundial,
05:39é que o momento que precedeu a Primeira Guerra Mundial e o momento que precedeu a Segunda Guerra Mundial
05:44foi um momento de, que a gente chama de corrida armamentista, né.
05:48E para muita gente que gosta de falar em Nova Guerra Fria, né, não sei se eu usaria necessariamente esse
05:54termo,
05:55mas para muita gente que gosta de falar de Nova Guerra Fria, talvez goste também de falar de uma nova
05:59corrida armamentista, né.
06:00Ou seja, a gente vive um momento onde, novamente, nós estamos pensando em aumento de armas nucleares,
06:06quando a intenção durante a Guerra Fria era a diminuição dessas armas,
06:09uma nova corrida espacial, quando a gente, né, o homem alcançou o feito de ir à Lua
06:16e a gente achou que essa corrida estava relativamente, né, já chegou ao fim, já está finalizada,
06:22mas agora não, né, porque a China também quer chegar à Lua.
06:24E aí os Estados Unidos falam, não, peraí, que eu também quero, né.
06:27Então, eu acho que a gente está vivendo, de muitas formas, um momento muito similar,
06:32o que não quer dizer necessariamente que vai ter o mesmo resultado, né.
06:34Eu não sou muito adepta de análises extremamente fatalistas.
06:38Acho que a gente tem que olhar para outros fatores, como, por exemplo, a interdependência dessas economias.
06:45Na Segunda Guerra Mundial, o mundo não era tão interdependente como ele é hoje, né, nem mesmo na Guerra Fria.
06:51Então, hoje, os Estados Unidos podem desejar combater a China, por exemplo, né, no cenário internacional,
06:57mas os Estados Unidos, a economia dos Estados Unidos depende da economia da China e vice-versa, né.
07:02Então, há fatores que aumentam a complexidade.
07:06De certa forma, a gente pode falar que o avanço do comércio internacional e também a derrubada de barreiras
07:12tem um fator aí que favorece um pouco a paz, né, professora?
07:16Certamente, né.
07:17Essa é uma das grandes teorias de relações internacionais, na verdade, né, a ideia da interdependência complexa.
07:22Quanto mais a gente aproxima, quanto mais a gente torna as relações comerciais possíveis,
07:27quanto mais a gente liberaliza as relações comerciais, mais a gente favorece a paz.
07:32Porém, a gente sabe que isso não é 100% verdade todo o tempo, né, porque mesmo países liberais,
07:39mesmo países com ideais democráticos, eles podem, sim, entrar em conflitos, como a gente já viu diversas vezes na historiografia,
07:47né.
07:47Então, a gente também não pode se confiar somente nisso, né, ainda há de se considerar outros fatores.
07:53Mas, sim, o comércio, com certeza, ajuda, porque antes de declarar uma guerra, há de se pensar se você consegue
08:01sustentá-la, né,
08:02se a sua economia será capaz de prover o necessário para que ela aconteça.
08:08Eu acabei de conversar aqui com a internacionalista Maria Monserrat.
08:12Muito obrigado pela entrevista, foi um prazer falar com você.
08:15Muito obrigada, Marcelo, obrigada.
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