00:00A Suprema Corte dos Estados Unidos deve decidir nesta sexta-feira se o presidente Donald Trump agiu dentro da lei
00:08ao impor o chamado tarifaço a diversos países.
00:12O que está em julgamento é se Trump podia aplicar tarifas de forma unilateral, sem autorização do Congresso.
00:20Pela Constituição americana, a criação de impostos e tarifas é uma atribuição do Legislativo.
00:26A defesa do governo se apoia na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977, que permite a adoção
00:35de medidas excepcionais em situações de emergência.
00:39Treze instâncias inferiores da Justiça já rejeitaram os argumentos do governo.
00:44Analistas avaliam que a decisão pode ser um divisor de águas, com impacto direto sobre o dólar, os juros, o
00:52comércio global e também a economia brasileira.
00:56E claro, quero ouvir a opinião da Mari Almeida também a respeito disso, porque são várias possibilidades, né Mari?
01:03Primeiro, se Trump vencer, o que pode acontecer também para o Brasil?
01:08E se ele não vencer, o que pode acontecer também?
01:12Pois é, acho que tem todos os desdobramentos econômicos e também algumas questões institucionais aí envolvidas.
01:19Quer dizer, sobre essa referência do ponto de vista dos Estados Unidos enquanto grande democracia liberal no mundo.
01:26Mas vamos lá.
01:28E se o Trump...
01:29Se Trump vencer.
01:30Se ele vencer, ou seja, se a corte entende que foi legítima a colocação das tarifas.
01:35O que está posto?
01:36Então, o uso da lei que você trouxe, que era de emergência econômica, ele trouxe um conceito de emergência econômica
01:44bastante alargado, né?
01:46Que o Trump repetiu reiteradas vezes, inclusive na relação com a China, e aí misturando bastante defesa e defesa de
01:53fato militar com economia.
01:56Dizendo, olha, tem uma questão de soberania de economia.
01:58Então, se ele vence, isso está posto, esse conceito alargado acaba ganhando espaço.
02:03Logo, a possibilidade de certas arbitrariedades na tomada de decisão por parte do Executivo americano fica legitimada.
02:11E aí, essa instabilidade que vivemos hoje em dia passa a ser a regra mesmo, né?
02:16Estamos vivendo ela como regra no cotidiano, mas ela vai estar, de alguma maneira, assinada pela lei americana.
02:21Por isso que eu estou dizendo que tem um Q sobre democracia e o que é o papel que se
02:25espera nessa relação Executivo-Legislativo, que vai gerar muito debate se isso acontecer.
02:30Então, basicamente, se ele ganha, este cenário que temos hoje, onde ele já tem ocupado um protagonismo significativo, está posto.
02:37Para o Brasil, significa o quê?
02:39Que aquele tarifaço totalmente arbitrário que foi colocado ao Brasil, a diversos setores, e que alguns ainda estão tendo que
02:46pagar essa...
02:46Custos elevados.
02:48Segue, né? E segue o risco de que aconteçam mais, porque, de novo, o conceito de emergência econômica não estaria
02:55sendo gerido aí mediante um olhar mais amplo do Congresso, por exemplo, ou mesmo da gestão da Justiça, mas sim
03:04a partir de um olhar do Executivo.
03:06E aí volta meio que para estaca zero, perda de competitividade, a gente pode também presenciar?
03:11É, não sei se estaca zero, porque volta para o que estamos, né? Estamos nesse cenário.
03:16Hoje, o que está acontecendo no dia a dia, as tarifas estão valendo.
03:20O que vai mudar é caso ele perca, como perdeu nas outras instâncias.
03:24Por quê? Porque se ele perde, aí significa que não está valendo a questão das tarifas.
03:29E aí suspende, enfim, não há...
03:32Aí não pode, tem que...
03:33Devolução de valores?
03:35Então, a devolução seria uma devolução que seria no caso a caso, pelo que está estabelecido.
03:39Então, cada empresa que pagou vai ter que voltar e pedir, mas aí vai abrir uma bagunça do ponto de
03:46vista de contas públicas lá nos Estados Unidos.
03:49Aí, sim, uma perda de credibilidade momentânea, pelo menos, sobre gestão fiscal, o dólar.
03:56Em que sentido?
03:58A perda de credibilidade que já está posta, porque, de alguma maneira, as incertezas também colocam isso.
04:02Mas aí ela acelera.
04:03E aí, provavelmente, que esse é outro ponto.
04:07Além de se ele ganha ou se ele perde...
04:09A questão da devolução.
04:11É. Se ele perder, vai ter que ter devolução, a devolução vai ter toda uma discussão sobre isso.
04:15E aí, os patamares de comércio, daí, sofrem um botão de reset, né?
04:20Assim, volta para o que estava colocado antes.
04:23Claro, ele pode começar a fazer o debate, de fato, legislativo de longo prazo,
04:27querendo reestabelecer uma lógica, essa lógica comercial que ele colocou, digamos, na marra,
04:31fazer isso por meios procedimentais legislativos também.
04:36O que, provavelmente, vai ser difícil de passar na mesma velocidade.
04:38Então, para o mundo, dá tempo, dá previsibilidade, se reestabelece os padrões conhecidos pré-Trump, né?
04:45Então, para o Brasil, a parte das perdas que estão postas pode ser que sejam retomadas.
04:50Mas, o que eu acho importante frisar?
04:54Ganhando ou perdendo agora, também tem a questão de como ele reage.
04:57E ele, perdendo, tem que entender em que medida que ele vai aceitar, quanto que ele vai tentar usar outros
05:02mecanismos.
05:03Tem a carta da decisão que traz todas as justificativas e que não necessariamente é publicada hoje.
05:09Mas, nessa carta, tem espaço para ele próprio questionar depois outras questões específicas sobre a lei.
05:16Isso vai abrir outra crise de institucionalidade.
05:18Tem a questão da opinião pública, a própria popularidade dele, né?
05:22Como que...
05:22As eleições que vão acontecer esse ano.
05:26Então, tem um embrólio aí que, assim, digamos que o Donald Trump já é, em si, um fenômeno que mudou
05:33a situação da economia e da política internacionais.
05:37Quando ele mudou, ele, de fato, o que está sendo julgado lá já está posto e é a vida que
05:42temos tido.
05:43Com as instabilidades, a arbitrariedade do ponto de vista da gestão dos preços relativos internacionais,
05:49uma baixa da capacidade do multilateralismo e da gestão interna.
05:52É isso que estamos vivendo.
05:53Se ele ganha, é uma continuidade disso.
05:56Se ele perde, se acirra, portanto, a dúvida sobre para onde ele vai em relação a isso.
06:03Claro, se ele ganha, então está tranquilo?
06:04Não, porque é a legitimação do que ele fez.
06:06É, e aí ele vai sentir com aquele...
06:09O ego inflado ainda mais.
06:12Falou, olha, está vendo?
06:13Não estava fazendo nada errado.
06:14É, então, eu acho que, na verdade, o que temos é um cenário onde,
06:17aconteça o que acontecer, tem mais instabilidade.
06:21Porque se ele tem a vitória, é isso, o cenário de instabilidade está assinado.
06:26Vamos viver com isso e é muito ruim.
06:28Se ele perde, dificilmente, não parece ser a cara de Donald Trump.
06:32Ele fala, gente, desculpa, viu?
06:34Vai fazer uma publicação de...
06:35Podem fazer fila lá que eu vou pagar de volta, vou devolver rapidamente todos os impostos arrecadados.
06:41É, Mari, nesse momento, que a gente ainda não tem, de fato, um resultado,
06:46o Brasil precisa acelerar algum tipo de acordo, uma tentativa, uma tratativa, se movimentar nesse momento?
06:54Olha, isso desde o ano passado, depois do Liberation Day, tem um sinal,
06:59que é esse sinal da instabilidade, da falta de previsibilidade vinda dos Estados Unidos,
07:04que já deve ter colocado, e é o que a gente vê no mercado com vários agentes,
07:08é o sinal de ter que diversificar o máximo possível e esperar o inesperado vindo dos Estados Unidos.
07:15Se preparar, né, de vários cenários, né?
07:18Não tem tranquilidade nesse sentido, quanto mais exposto ao mercado americano
07:25ou aos desdobramentos associados ao mercado americano, porque mexe com o resto do sistema, né?
07:32Então, tem que ficar o tempo inteiro atento, saber que podem vir decisões imprevisíveis,
07:38às vezes para o bem até, mas às vezes para o mal, e sendo negativos do ponto de vista das
07:42contas, ter alternativa.
07:44Então, isso é uma coisa que já está no caminho.
07:46Sim.
07:46No começo lá do tarifácio, o Brasil era o país ali que estava melhor na posição entre todos,
07:53e daí depois teve uma inversão de...
07:55Até julho.
07:56E aí foi o que aconteceu tudo, que a gente tem acompanhado desde então, né?
08:00Exato.
08:00Acho que o que se tem, como eu falei, acho que de um lado ou de outro vai vir uma
08:04camada adicional aí
08:05de chacoalhada no tabuleiro, seja para reforçar a força do argumento de Donald Trump,
08:11seja para colocá-lo contra a parede e aí esperar qual vai ser a reação,
08:15que em geral, pelo histórico que temos, é uma reação que nunca é tranquila.
08:21Qualquer um dos resultados, neste caso, vai gerar uma reação.
08:26Vai mobilizar o mercado e vai mobilizar, sem dúvida nenhuma, a atividade econômica internacional,
08:32mexendo com expectativas e criando esse clima aí de tensão.
08:36Obrigada, Mari.
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