00:00Estou de volta ao vivo para falar agora da prospecção e da produção de terras raras
00:06que se tornaram foco de uma acirrada disputa comercial e tecnológica global.
00:12O Brasil, por ter a segunda maior reserva prospectada desses metais estratégicos no planeta,
00:18tem despertado interesse dos Estados Unidos e de outros países diante do potencial de exploração.
00:25Recentemente, o governo Donald Trump propôs o projeto Vault,
00:28um projeto do COFRE, numa tradução livre do inglês, com 12 bilhões de dólares.
00:34Na sequência, o governo dos Estados Unidos fechou um acordo de financiamento
00:38no valor de 565 milhões de dólares, aproximadamente 3 bilhões de reais,
00:46com a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde.
00:50Eu vou conversar sobre tudo isso ao vivo com José Pimenta,
00:53que é diretor de comércio internacional da BMJ,
00:56sobre esse mercado, né, José, em franca evolução.
01:01Então, bom dia, seja muito bem-vindo mais uma vez ao Real Time.
01:04Bom dia, Natália, é um prazer estar aqui com vocês.
01:08Vamos lá, como é que você está vendo essas movimentações todas, né,
01:11e as respostas que tivemos até agora, as reações da parte do Brasil?
01:15Olha, é importante notar que essa corrida, né, as terras raras,
01:21essa importância toda ganhou muito destaque nos últimos 20, 15 anos,
01:26e agora se aprofundou ainda mais naquele contexto que a gente tem notado
01:30de corrida tecnológica, né?
01:32Então, a gente sabe, e isso já é extremamente divulgado,
01:36da dependência que o mundo tem desses 17 elementos, né,
01:40que são as terras raras, fundamentais para a produção de turbinas eólicas,
01:45carros elétricos, veículos elétricos, toda a questão de alta,
01:49indústria de alta tecnologia, os ímãs, né,
01:52e a sua enorme capacidade eletromagnética, enfim,
01:55tudo isso muito voltado para a indústria de tecnologia,
01:57que é a indústria de ponta, que movimenta a grande parte das cadeias
02:01globais de valor, como a gente chama hoje, né,
02:04a indústria de defesa aeroespacial,
02:06são essenciais para comandar até mesmo partes importantes
02:10do comércio internacional e do comércio,
02:12da balança comercial de um país.
02:14Alguns desses setores, por exemplo, quando a gente olha
02:17em termos de pujança desse setor, pujança setorial,
02:21em termos de exportação, por exemplo,
02:23é uma cadeia que movimenta tanto importação, produção,
02:26quanto exportação.
02:27Então, é fundamental um país ter isso bem desenvolvido.
02:31Onde o Brasil entra nisso?
02:32O Brasil entra hoje...
02:34Ah, desculpa, pode falar.
02:34Não, não, pode seguir.
02:36Eu achei que você tivesse concluído, mas pode seguir o raciocínio.
02:39E onde o Brasil entra hoje...
02:40Não, obrigado.
02:41E onde o Brasil entra hoje?
02:43Justamente por aquilo que você tão bem falou anteriormente,
02:46segunda maior reserva prospectada de terras raras do mundo
02:50hoje ficando atrás da China.
02:52Embora a China tenha, obviamente, capacidade de quase hoje 100%
02:57em relação à extração, refino e separação dos materiais,
03:01e a gente está bem aquém disso.
03:02Qual que é o nosso objetivo nessa corrida?
03:06Tentar agregar cada vez mais valor às nossas exportações, Natália.
03:09Exatamente, né?
03:10Produto de maior valor agregado, né?
03:12Que a gente fala tanto que é importante o Brasil focar e ampliar o cardápio.
03:17Agora, o fato de fazer isso com apoios de outros países.
03:22Por exemplo, Donald Trump tem esse plano dessa aliança dos Estados Unidos,
03:27propôs a criação disso, e o Brasil já descartou a aderir a essa aliança dessa forma.
03:33Como que você vê esse posicionamento, essa recusa?
03:36A prioridade é afirmar acordos bilaterais com outros países?
03:40Quais são os caminhos possíveis e mais interessantes?
03:45Acho que, num primeiro momento, olhar para essa aliança,
03:49acho que o Brasil tem que estar aberto às discussões, olhar com muita atenção,
03:54porque, de novo, faz parte da estratégia norte-americana
03:56de deslocar, de alguma forma, o centro de tomada de decisões
04:00de organizações bilaterais, multilaterais,
04:03para, enfim, organizações específicas para assuntos específicos
04:08naquela relação transacional, naquela relação muito pragmática
04:11que o Trump tem em volta ao comércio internacional.
04:14Ou seja, não é novidade.
04:15Isso vem acontecendo em outras áreas também,
04:18Conselho da Paz, entre outros pontos.
04:20Qual que é o papel do Brasil nisso?
04:21Sabendo do seu potencial.
04:23Obviamente, está muito, acompanha muito de perto a evolução dessas conversas.
04:28O Brasil participou da última reunião,
04:30embora você teve as declarações que não iria, talvez, aderir formalmente,
04:33mas participou da última reunião.
04:36Está atento a isso e continuar as negociações.
04:38É como você mesmo falou.
04:40Mesmo que não ocorra a adesão do Brasil a esse tipo de aliança,
04:45mas ter, sim, um canal muito aberto e muito fluido com os Estados Unidos,
04:49com a União Europeia, com outros países, Japão, entre outros,
04:52que têm interesse em investir aqui.
04:54E aí, respondendo a segunda parte da pergunta,
04:57o Brasil precisa de investimentos estrangeiros direto
05:00para desenvolver essa cadeia.
05:02A gente sabe que isso foi noticiado pelo governo.
05:04É uma formação bruta de capital fixo, CAPEX.
05:06Nessa área, especificamente, são projetos muito longos,
05:09projetos muito caros de serem implementados no curtíssimo prazo
05:13e nem são viáveis no curtíssimo prazo.
05:15Então, obviamente, que você construir alianças estratégicas.
05:18E aí, os Estados Unidos é um parceiro fundamental para isso.
05:21Fundamental para isso, porque nós sabemos da pujança
05:24e do nível da indústria de alta tecnologia e de serviços nos Estados Unidos.
05:29É um líder global.
05:31Então, não só olhar para a União Europeia, para Japão, entre outros países,
05:34mas, sobretudo, para os Estados Unidos,
05:36porque sabemos da importância do setor privado conversar,
05:39do setor privado implementar projetos estratégicos,
05:42tendo apoio, obviamente, de financiamento externo.
05:44Seria muito bonito pensar em soberania desses nossos recursos,
05:50mas não está nem em conversa, porque, como você trouxe aqui,
05:54de fato, é muito complexo.
05:55Mesmo que a gente tenha, de fato, grandes reservas de terras raras,
05:58a gente não tem domínio, recursos,
06:02para implementar essa tecnologia para prospecção, para extração.
06:06Então, parcerias assim é que podem abrir o caminho
06:10para a gente desenvolver essas técnicas.
06:12Parcerias assim são fundamentais.
06:16Sem esse tipo de parceria, a gente não vai conseguir desenvolver plenamente
06:19essa estratégia de agregação de valor no médio e no longo prazo para esses produtos.
06:25Lembrando que aí o papel do Estado,
06:28e aí falando não só do nível de federação,
06:31mas os Estados também, falando de Estados importantes,
06:35Goiás, Minas Gerais, entre outros,
06:37é olhar para essa cadeia com carinho,
06:39entender, obviamente, como que isso se adequa
06:42à realidade local, especificamente,
06:44porque a gente sabe que isso vai provocar uma geração
06:47intensa de valor e emprego, de renda, desenvolvimento em nível local,
06:52se a gente souber aproveitar.
06:54Eu tenho um projeto de lei que está tramitando no Congresso
06:56em relação a minerais críticos,
06:58a pautar, de alguma forma,
07:01uma política nacional de minerais críticos.
07:03É muito importante que a gente esteja atento a isso.
07:05Mas, mais do que isso, a regulamentação.
07:08Regulamentação específica de alguns pontos da legislação.
07:11Como conversar, como dialogar com players privados do exterior
07:15para olhar para isso também como uma oportunidade,
07:17casando o interesse nacional com o capital externo
07:20e, obviamente, essas alianças estratégicas, Natália.
07:22E a gente sabe também que, além de Estados Unidos,
07:26tem União Europeia olhando para isso,
07:28China também disputando esse acesso
07:32aos depósitos de minerais críticos aqui no Brasil.
07:35José, você vê isso como um trunfo na hora de negociar
07:39com os Estados Unidos, por exemplo,
07:42no posicionamento do Brasil?
07:43Dá para negociar com todo mundo ao mesmo tempo
07:45ou tem que escolher?
07:46A arte da negociação é essa, né?
07:49Você equilibrar, obviamente, os interesses internos
07:52com as perspectivas externas,
07:55com, obviamente, os parceiros
07:56que vão, obviamente, oferecer algo.
07:59Acho que esse é o ponto mais importante
08:01de uma negociação.
08:02Quando a gente olha numa negociação,
08:03é uma via bilateral, né?
08:05É uma via de mão dupla.
08:07E, obviamente, que até pela própria diplomacia brasileira,
08:10a tradição diplomática brasileira,
08:12é importante estar aberto a conversar com esses players,
08:16porque são players que têm interesse
08:17muito específico nessa área.
08:19União Europeia mesmo,
08:20por conta do acordo do Mercosul-União Europeia,
08:22já declarou interesse, obviamente,
08:24nessa cadeia aqui no Brasil,
08:26em eventuais parcerias.
08:27Mas, claro, a negociação, ela ocorre
08:30quando sai do nível da promessa,
08:32quando sai do nível, obviamente,
08:34de um diálogo mais amplo, né?
08:35E vai, obviamente, para o diálogo estratégico,
08:39para propostas, para a mesa de negociação.
08:41E acho que é para aí que a gente está migrando.
08:43Já estamos migrando de alguma forma,
08:46mas para olhar para a capacidade brasileira,
08:49não só de extração, mas de refino e separação,
08:51processamento,
08:53a gente vai precisar afunilar
08:54esse tipo de negociação,
08:57esse tipo de dinâmica.
08:57E aí ganha exatamente os contornos do que você falou, né?
09:02Sair de um plano mais macro,
09:03ir para um plano mais micro,
09:04e olhar as propostas de cada um,
09:06como é que eu tenho sinergias, né?
09:08Produtivas lá e aqui.
09:10Olhar, obviamente, para a agregação de valor
09:12em solo brasileiro,
09:13que é exatamente também
09:14o que os países estão querendo fazer.
09:16A questão é como que a gente vai
09:17transformar isso num trunfo.
09:19Você falou muito bem.
09:20Pode ser um trunfo.
09:21Como que a gente vai transformar, Natália?
09:22Tomara que sim, né?
09:23Tomara que seja tudo isso mesmo.
09:25José Pimenta,
09:26diretor de Comércio Internacional da BMJ.
09:28Muito obrigada pela participação com a gente
09:30mais uma vez.
09:31E volto sempre ao Real Time.
09:33Eu que agradeço.
09:34Um abraço.
09:35Até a próxima.
09:35Até.
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