00:00Estamos de volta para falar do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que voltou ao centro do debate.
00:07Após mais um adiamento, a pedido do governo da Itália em apoio à França, o presidente Lula afirmou que a assinatura do acordo deve ocorrer só em janeiro.
00:18O impasse escancara divisões dentro do bloco europeu por pressões do setor agrícola.
00:25E sobre esse assunto eu converso agora com o José Niemeyer, que é economista e professor de Relações Internacionais do IBMEC, do Rio de Janeiro.
00:35Muito boa noite para você, José.
00:37Eu queria começar entendendo da sua visão, da sua avaliação, porque mesmo anos de negociação nesse acordo, esse acordo entre a União Europeia e Mercosul segue travado.
00:49Boa noite, boas festas, o assinante da CNBC. Um abração a você, Renan, e um prazer estar aqui.
00:58Bem, é um acordo que a gente chama de ganha-ganha.
01:02Eu acho incrível, incrível como os franceses e os italianos, pelo menos imagino que apenas um grupo de franceses e italianos ligado à agropecuária desse país
01:13não perceberam que o acordo é ganha-ganha. É tão evidente que é um acordo ganha-ganha. Todos ganham com o acordo do Mercosul e da União Europeia.
01:21A União Europeia vai exportar mais produtos industrializados para o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, principalmente para o Brasil, é claro.
01:29A União Europeia vai exportar mais serviços de internet, de telefonia. A União Europeia vai exportar serviços de construção civil,
01:39vai participar das licitações do Brasil para as grandes obras de infraestrutura, as construtoras europeias de muita tradição,
01:48vão exportar produtos semifaturados. Quer dizer, a Europa vai ter muito mais mercado do que tem hoje.
01:55E o Brasil, principalmente o Brasil e a Argentina, o Uruguai dentro daqueles produtos que o Uruguai produz,
02:02e o Paraguai também, vão exportar outros tipos de produtos. Basicamente, no caso do Brasil, produtos que a gente chama
02:09produtos agropecuários, ligados ao agronegócio. E o Brasil tem muito mais preço, se eu vou falar do Brasil dentro do Mercosul,
02:17o Brasil tem muito mais preço de carne, de milho, de algodão, de frango, de açúcar, até de produtos de frutas que os europeus.
02:28Nós temos mais preço e quantidade. Então, na hora que nós colocarmos, para ficar claro para o assinante da CNBC,
02:34na hora que nós colocarmos o nosso açúcar de alta produtividade nos canaviais brasileiros,
02:40produzidos pelas centenas de usinas brasileiras, inclusive muitas delas multinacionais europeias,
02:47que vêm aqui se instalar para produzir açúcar aqui, para poder exportar esse açúcar para a União Europeia.
02:52Esse açúcar chegando na União Europeia, uma indústria de alimentos italiana vai ter acesso a esse açúcar,
03:00mais barato em grande quantidade, do que o açúcar europeu, que é produzido da beterraba,
03:05com uma produtividade incomparável à brasileira, e essa indústria vai usar esse açúcar para produzir alimentos,
03:13para vender para toda a União Europeia e para exportar para lugares do mundo.
03:18E aí, com esse exemplo que eu dei, é óbvio que todo o custo de produção da indústria alimentar europeia vai diminuir,
03:27os europeus terão acesso a uma comida em quantidade, em qualidade e preço,
03:31e as indústrias europeias que trabalham com esses produtos importados do Brasil, principalmente,
03:37da Argentina também alguns deles, alguns produtos do agronegócio,
03:41vão poder vender com muito mais oferta, preço, para os europeus e para o resto do mundo.
03:47Eu diria que o acordo União Europeia e Mercosul, ele é ganha-ganha para o Mercosul e para a União Europeia,
03:54e ele é ganha-ganha para o sistema internacional, que vai receber todas as externalidades,
04:01todos os resultados positivos se esse acordo for assinado.
04:05Agora, José, a gente tem visto essa certa oposição da França e da Itália,
04:10muito por pressão interna ali, por questões políticas dos dois países,
04:14especialmente quando a gente olha para a França,
04:17a situação difícil que o presidente francês Emmanuel Macron passou esse ano com muita pressão política,
04:23e a gente tem, por outro lado, a Europa sofrendo com o Tarifácio,
04:27muitas vezes perdendo um grande aliado, que sempre foram os Estados Unidos.
04:31Não seria mais lógico e estratégico esses países acabarem optando para fazer esse acordo de vez,
04:39ou você acha que eles podem estar perdendo tempo,
04:43ou seja, arrastando demais essa situação,
04:47tendo em vista um parceiro do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos,
04:50que esse ano, na presidência do presidente Donald Trump, não se mostra tão confiável assim.
04:56Na história econômica dos países, na história econômica geral dos países,
05:00é muito comum que setores parem de produzir.
05:04A indústria automobilística americana, há anos atrás,
05:08era uma indústria muito competitiva,
05:11não conseguem mais competir com automóvel chinês,
05:14ou produzido no Sudeste Asiático.
05:16Eles tiveram que aceitar isso, é uma lei de oferta e procura,
05:20baseada em preço, quantidade produzida, níveis de produtividade.
05:24É o mesmo com relação ao agricultor francês.
05:27O agricultor francês, por exemplo,
05:29ele acha que ele vai conseguir continuar produzindo frango
05:32nas granjas do interior da França,
05:35com a mesma competência, capacidade e produtividade
05:40que as granjas brasileiras?
05:41Não vai.
05:42Não vai.
05:44É um ponto pacífico.
05:45Eles não vão.
05:46O que acontece com a agricultura e com a pecuária europeia,
05:49francesa, por exemplo?
05:51Ela é subsidiada.
05:52A nossa agricultura e nossa pecuária não é subsidiada.
05:56Tem esse ponto também.
05:58Essa é uma barreira não tarifária, injusta,
06:01que mesmo assim o agronegócio brasileiro continua com mais preço
06:05e mais e mais quantidade e qualidade de frango, de carne bovina, de leite.
06:12De como você imaginar, de frutas, de milho, de suco de laranja, de tudo, de tudo.
06:17Basicamente, todos os produtos produzidos pela grande, média e pequena empresa brasileira
06:25ligada ao agronegócio conseguem ter preço e quantidade para entrar na União Europeia.
06:29É claro que os agricultores vão sentir, vão mudar o negócio, vão deixar de produzir leite
06:35ou trigo ou milho ou soja para produzir frutas específicas do clima europeu, pode ser.
06:43Vão começar a tentar fazer cooperativas na União Europeia, na França.
06:48Eles já têm muitas cooperativas para tentar melhorar a produtividade.
06:51Eles vão poder fazer várias estratégias, mas muitos deles,
06:55e isso faz parte da vida econômica das nações, eles vão parar de produzir.
07:01Eles vão, talvez, começar a trabalhar nas suas fazendas com outros produtos
07:07ou parar de produzir.
07:08E esse é o receio maior do governo francês, por exemplo,
07:11que essas pessoas vão emigrar para as grandes cidades francesas,
07:16causando problemas de superpopulação.
07:19Pode acontecer?
07:21Pode ter algum ou outro movimento como esse.
07:23Isso preocupa muito os franceses, principalmente os franceses de Paris.
07:28Porque os franceses de Paris, eles querem algo contraditório.
07:32Eles querem ter acesso a uma comida barata e de qualidade,
07:36mas quando tem subsídio, aumenta o déficit público, aumenta a inflação na França.
07:41Aí o parisiense reclama do aumento do preço do serviço público.
07:45E não querem importar do Brasil, que tem preço, qualidade e quantidade.
07:49Então, é uma contradição quase existencial dos franceses.
07:53Mas eu tenho a impressão que eles vão perceber que, pelas leis do mercado,
07:57que devem reger o comércio multilateral, o comércio internacional,
08:02pelas leis de mercado, o acordo deve ser assinado e vamos em frente.
08:07E todos vão ganhar.
08:08Inclusive, esses fazendeiros europeus vão ganhar.
08:11Eles vão receber externalidades de serviços, de produtos que foram exportados para o Brasil,
08:18ligados às regiões dele.
08:19Vai aumentar a atividade econômica das regiões.
08:23A França é um país muito desenvolvido.
08:25A França não é formada só com pequenas fazendas ou médias fazendas.
08:29Tem muitas indústrias no interior da França.
08:31Muitas atividades podem ser repensadas no interior da França,
08:36inclusive para poder auxiliar estes fazendeiros que não conseguem mais produzir.
08:41É inacreditável.
08:43O Brasil produz, em milhares de hectares, açúcar dos seus canaviais.
08:48A França produz açúcar da beterraba em pequenas e médias propriedades.
08:53É incomparável, tanto a oferta em quantidade, como quanto o preço e a produtividade envolvidos,
08:59por exemplo, no setor de açúcar.
09:02Tá certo.
09:03A gente conversou com o José Niemeyer, economista e professor de Relações Internacionais do
09:09IBMEC do Rio de Janeiro.
09:10José, muito boa noite para você e feliz 2026.
09:14Um bom 2026 para você e sua família, para a equipe da CNBC e para o assinante da CNBC.
09:19Um abração para você.
09:20Obrigado.
09:21Obrigado.