00:00A França enfrenta uma deterioração significativa das contas públicas com a dívida atingindo 3,48 trilhões de euros, o equivalente a 117,4% do PIB do país, o maior nível já registrado em tempos sem guerra ou pandemia.
00:18Em apenas três meses, o endividamento cresceu quase 66 bilhões de euros, enquanto a comissão parlamentar encarregada do tema ainda não encontrou uma solução concreta para o plano financeiro sustentável.
00:32Nosso correspondente na Europa, Diego Mesogiorno, está de volta para falar sobre esse cenário com a gente. Muito bom dia de novo, Diego.
00:40Bom dia novamente, Fernanda. Olha, é uma situação bastante complexa, até porque a gente está falando de 3 bilhões e meio de euros, é muito além do que se pode pagar.
00:57E o que complica ainda mais é a questão política. Emmanuel Macron está numa encruzilhada, porque por um lado você tem o fortalecimento do partido de Marine Le Pen,
01:09de extrema-direita, cada vez mais ganhando espaço dentro da política e ele, ao mesmo tempo, tendo dificuldade de fazer cortes. Por quê?
01:18Porque a base parlamentar dele é de esquerda, tanto que quando Le Cornu, que é o atual primeiro-ministro, chegou a fazer a primeira tentativa,
01:28teve o mandato mais curto da história da França por não ter apoio. Eles fizeram uma nova composição e nessa composição existia,
01:37inclusive um acordo de retirada de algumas reformas propostas pelo governo de Emmanuel Macron, segundo a esquerda,
01:46são neoliberais e isso impactaria diretamente em serviços públicos.
01:50O fato é que agora essa encruzilhada chegou ao parlamento, porque até agora todas as contas do ano que vem não foram aprovadas.
02:00Até por isso eles estão utilizando agora na França um modelo americanizado, que é aquele anti-shutdown,
02:08no caso, para pelo menos manter as contas públicas funcionantes até que se chegue a um acordo no parlamento.
02:17O problema é que, por um outro lado, com esse alto investimento prometido pelos países da OTAN e França em primeiro lugar,
02:25eu devo lembrar que há duas semanas atrás o presidente da França, Emmanuel Macron, acabou lançando um projeto
02:32de um novo e moderno porta-aviões e tem investido, inclusive, mais do que os outros países europeus
02:40na questão da defesa, compra de armas e isso também irrita bastante a população,
02:46que por um lado é pedida pelo governo para cortes, inclusive, em setores que são essenciais para a população
02:53e, por outro lado, se investe em armamento por esses acordos internacionais
02:58e também por conta de medo de que a guerra da Ucrânia se expanda também para esse lado da Europa.
03:04Tudo isso faz um caos bastante complicado político e tem que se ver agora se no começo desse ano
03:11o governo do primeiro-ministro Le Corneau vai conseguir realmente um acordo
03:16ou se eles vão arrastar nesse novo formato à americana para não ter um shutdown,
03:22mas não aprovar nem contas públicas, nem investimento.
03:26É uma primeira vez que isso acontece aqui na França e, obviamente, mexe com todos os investimentos,
03:32os mercados e também apavora não só os investidores e a economia francesa,
03:38mas de toda a Europa.
03:39A gente está falando da terceira economia da Europa, um país extremamente influente,
03:43inclusive da zona do euro, a única potência nuclear.
03:48Então, tudo isso faz um caldo bastante complexo para tentar ser resolvido,
03:53quem sabe, no começo do ano que vem, Fernanda.
03:57Muito obrigada por todas as suas informações, Diego Mesodior, no Direto de Milão.
04:02E aqui a gente vai comentar esse assunto, até para evitar um shutdown na França,
04:09como o Diego Mesodior não falou.
04:11Nós vamos conversar com a Mária Almeida, porque essa é uma preocupação que a gente já até tinha falado
04:16sobre esse quadro para não se repetir como aconteceu nos Estados Unidos,
04:20mas o que a gente viu é que a França está com uma dívida significativa.
04:25Pois é, tem uma dívida significativa, tem um plano para você tentar reduzir essa dívida,
04:30mas não consegue aprovar o plano porque em contas públicas, aliás, em contas em geral,
04:35tem uma coisa que sempre tem que acontecer, tem que fazer escolhas.
04:38E a França tem evitado fazer as escolhas que têm que ser colocadas,
04:42ou melhor, tentando até criar um ambiente que talvez seja possível fazer de tudo,
04:45mas não dá, não dá para conseguir crescer no ritmo que está crescendo,
04:50que é um dado aí da economia mais ampla,
04:52portanto, ter uma limitação de receita e não aprovar mais receitas,
04:55gastar tanto quanto se gastava com os benefícios sociais,
04:59gastar também com a questão militar e o apoio aí na OTAN,
05:04e ainda por cima reduzir dívida.
05:06Ou seja, alguma coisa eu tenho que fazer.
05:08Ou eu escolho arrecadar mais, e aí tem sempre o custo político disso,
05:13tem propostas na França importantes sendo debatidas sobre ampliação da arrecadação
05:19via imposto em empresas e sobre os mais ricos.
05:23Então, essa é uma das alternativas.
05:25Ou selecionar qual despesa eu vou deixar de fazer,
05:28porque eu não vou conseguir ampliar despesas militares
05:30e sustentar toda a estrutura de benefícios sociais estabelecida ali na França,
05:37ou escolher realmente manter uma dívida alta.
05:40E aí, nesse caso, porque se eu continuar gastando sem arrecadar mais,
05:44o resultado é esse, é dívida.
05:46E aí, a questão é combinar o jogo da dívida com quem cabe,
05:51principalmente os demais países da União Europeia,
05:53porque eles arcam juntos com essa variação fiscal que a França está impondo ao bloco.
05:58Então, tudo não se pode fazer, uma escolha tem que ser feita.
06:02Para fazer a escolha, obviamente, tem debates importantes que têm que ser travados
06:07e o parlamento francês está tendo justamente a dificuldade de fazer esses debates.
06:11E não são debates de conjuntura, de fato é uma questão complexa.
06:14Por que não são de conjuntura?
06:16Porque tem a ver com o modelo mesmo, mais amplo,
06:19de qual é o papel do Estado e qual é a estrutura econômica possível,
06:22e o Estado nessa estrutura, num país como a França.
06:25Historicamente, as escolhas foram feitas.
06:28É um Estado grande, é um Estado que garante um nível de cidadania importante ali,
06:33de benefícios, mas que cresce numa composição também variada
06:37e com taxação, com alguns níveis de taxação que estão dados.
06:41Mudar desse patamar para outro é a escolha que precisa ser feita.
06:45Vai ter uma contribuição maior dos mais ricos?
06:47Não.
06:47Vai ter uma redução desse papel do Estado?
06:49É isso que precisa ser feito, precisa ser travado,
06:51as ideologias estão postas, mas só cada um cravar o seu pé na sua própria ideologia
06:56sem começar a conversar sobre a complexidade de tomar a solução coletiva ali,
07:01está gerando um resultado único, que é, na não escolha entre receitas e despesas,
07:05é a dívida que continua se ampliando.
07:07E essa não escolha do parlamento impõe uma situação que vai ter muito impacto na França como um todo,
07:13mas também no bloco da União Europeia.
07:15E é por isso que esse fato vale a pena observar com muito detalhe,
07:18porque ele é simbólico e pode dar sinais importantes,
07:22não só para o que acontece ali, mas para o geral do bloco e para o mundo como um todo,
07:26porque a Europa é, nesse caso, ainda protagonista de fortes mudanças.
07:30Se eles ousarem escolher, quem sabe a gente vai ter notícias de para onde podem ir soluções importantes
07:35na nova Organização Econômica Internacional e o seu papel e as contas públicas puxando
07:41ou sendo resultantes aí dessa situação.
07:47Fernanda.
07:47E aí
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