00:00Eu quero falar um pouquinho também dessa batina do Jorge Messias, porque ele começou ali um rito de beijo à mão,
00:05de tentar se aproximar de muitos senadores para ter o seu nome um pouco mais bem recebido,
00:10inclusive fazer com que essa recepção positiva chegasse também ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre,
00:17e o André Anelli vai contar como é que essa estratégia está funcionando ali no bastidor.
00:22Fala aí, meu amigo, bem-vindo mais uma vez.
00:26Obrigado, Evandro. É meio que um trabalho de formiguinha.
00:28Formiguinha, Jorge Messias, então, vai entrando em contato com todos aqueles que permitem esse contato dele
00:36e tem feito, então, com que alguns votos na avaliação de senadores ligados aos partidos de centro
00:43possam virar no sentido de garantir, então, aquele mínimo necessário de 41, de um total de 81,
00:50ou seja, a maioria dos senadores no plenário da casa.
00:54A gente relembra que alguns fatores nos últimos dias foram muito positivos,
00:58para Jorge Messias.
00:59O principal deles, é claro, foi o adiamento da sabatina e, consequentemente, também da votação em plenário.
01:06Esses dois eventos estavam previstos para o dia 10 de dezembro
01:10e foram adiados agora para fevereiro,
01:12porque o presidente Lula, em uma estratégia de ganhar tempo
01:16para que Jorge Messias consiga reverter votos favoráveis,
01:20não entregou aquele relatório, aquela mensagem oficial de indicação para o ministro do Supremo Tribunal Federal,
01:28indicação essa que teria como destino o Senado.
01:31Isso gerou até mesmo uma reclamação pública por parte de Davi Alcolumbre,
01:36que, na sexta-feira, acabou fazendo um aceno de trégua para o governo federal
01:42durante um evento no estado do Amapá.
01:45E, além dessa questão relacionada, então, ao adiamento da sabatina e da votação,
01:51tem ainda o fato da manifestação recente do Conselho Federal de Medicina
01:55ter se posicionado favorável à indicação de Jorge Messias
01:59e, principalmente, junto, então, àqueles senadores mais ligados à centro-direita,
02:06aos partidos, então, que têm mais ligação com o eleitorado evangélico,
02:11é o fato, então, de o próprio Jorge Messias ser dessa ala religiosa,
02:16ser evangélico e contar, inclusive, com o apoio do indicado pelo presidente Jair Bolsonaro
02:23para o Supremo Tribunal Federal, que é o ministro André Mendonça,
02:26que foi um dos primeiros a se manifestar favoravelmente, então, a Jorge Messias.
02:32Esse conjunto de fatores faz com que hoje o Palácio do Planalto
02:36já tenha um pouco mais de confiança em relação ao nome do advogado-geral da União,
02:42que, na avaliação interna aqui do Executivo, já teria mais do que esses 41 votos
02:48que são o mínimo necessário para a eleição junto ao Senado.
02:52Portanto, a votação e a sabatina acontecem no mês de fevereiro,
02:57mas o Palácio do Planalto já vai ganhando mais confiança
03:01em relação a essa possibilidade de Jorge Messias ser aprovado
03:05para ocupar a 11ª cadeira lá na Suprema Corte.
03:09Evandro.
03:10Muito obrigado, André Anelli. Bom trabalho para você.
03:12Zé Maria Trindade, o que você acredita que esteja rolando aí em relação ao Jorge Messias?
03:16Seria aquela história de, olha, tudo bem, ele é muito ligado ao presidente da República,
03:22é petista, mas ele é evangélico.
03:23Então, só isso já basta para que a gente consiga ter uma aceitação maior.
03:27Vamos dar uma chance para ele, galera, antes um petista evangélico do que algum outro.
03:32Seria mais ou menos isso que está rolando ali nos bastidores
03:36para que a bancada evangélica ou parte dela cumpre tanto assim o nome de Jorge Messias
03:41e ajude, inclusive, a abrir um pouquinho mais de espaço para outros integrantes de partidos
03:48ou até mesmo para integrantes do PL, que hoje é um partido de oposição ao governo federal?
03:52Olha, há uns três anos eu fui convidado para um jantar aqui em Brasília, na casa de uma amiga,
04:02em que se discutia a tomada de poder pelos líderes evangélicos.
04:09Nada mais natural, o IBGE mostra que os evangélicos já são superiores a 36% da população.
04:17Muitos dizem que, na verdade, já é maioria da população, o Brasil já não é mais um país católico,
04:25ele é evangélico, porque o católico às vezes diz que é católico, mas não pratica, não vai na missa e assim por diante.
04:34Então, nada mais natural que os evangélicos tomassem o poder.
04:38E alguns que estavam ali nesse jantar já estavam, inclusive, exercendo cargos públicos.
04:47E eu acho um movimento muito importante e muito interessante,
04:51porque existe até um certo preconceito contra o evangélico e na política,
04:57porque o evangélico é carimbado ali como uma pessoa inocente, que não sabe, não é isso, não é assim.
05:06É apenas um cristão que tem métodos e pronunciamentos diferentes.
05:12E, neste momento, aflorou muito mais.
05:15Aflorou muito mais esse, vamos dizer, esse projeto que já existia antes, né?
05:21E isso ajuda-se.
05:23Agora, mas não é só isso.
05:25É porque o poder se faz, ou com o próprio poder, né?
05:28Demonstração de poder ou expectativa de poder.
05:31Nesse caso, o ministro Jorge Messias tem uma expectativa forte de poder.
05:37E ninguém no Senado, em bom consciência, não quer ficar longe de um ministro do Supremo Tribunal Federal.
05:44Todos querem, está na marca do gol.
05:47Então, uma relação agora.
05:49E nesta condição, o voto fica mais valorizado.
05:53Então, uma aproximação agora com o futuro ministro Jorge Messias
05:57é muito importante para um senador.
06:00Eu diria que não é difícil nem convencer o presidente do Senado a apoiar o Jorge Messias.
06:09Porque brigar com o futuro ministro do Supremo é uma situação meio complexa, né?
06:15Então, essa situação.
06:16Agora, assim, uma vez eu conversei com a ex-ministra, na época era ministra do Supremo.
06:22Ela me disse o seguinte, que na primeira semana chega muito agradecida pela indicação do presidente da República,
06:30comovida ainda pelas falas da Sabatina, os elogios e agradecida e tal.
06:36Quinze dias depois, o ministro descobre que ele é irremovível, né?
06:41Ele não pode ser retirado e que os salários continuarão e que a aposentadoria é fatal,
06:46não tem absolutamente nenhuma possibilidade de sair, aí ele vira ministro do Supremo e entende que a toga o protege, né?
06:56Então, esta é a ideia, esta deve ser a principal linha de um ministro do Supremo,
07:03mas nem todos adotam e ficam ainda com esses pruridos e com as amizades antigas e apoio que recebeu antes e assim por diante.
07:13Mas, de qualquer maneira, os políticos pensam muito futuro e ter um amigo no Supremo Tribunal Federal é muito importante.
07:21Exatamente, Zé Maria Trindade.
07:23E eu quero falar com você, Bruno Musa, sobre todo o ruído que aconteceu lá atrás na indicação,
07:27com uma crítica do presidente do Senado pelo fato do presidente da República não enviar uma carta diretamente à Casa
07:34informando sobre a indicação de Jorge Messias, embora já tivesse feito isso no Diário Oficial.
07:39E lá atrás a gente falava, puxa vida, será que todo esse problema, essa dificuldade de articulação pode fazer com que este seja,
07:48então, um ministro rejeitado pelo Senado, um dos únicos na história, e principalmente depois da democratização,
07:56o único ministro que vai passar agora por uma decisão do Senado Federal e não ser aceito?
08:03Agora, você acha que a história já está mudando, que a situação, a poeira já está abaixando,
08:08e que tudo indica que será mais um rito como foi das outras vezes, em que se recebe o nome,
08:13se aprova o nome e se espera que lá na frente não se tenha problema com esse novo ministro do Supremo Tribunal Federal?
08:18Olha, Evandro, salvo engano, aqui o Piperno comentou na semana passada que a última vez que aconteceu isso do Senado rejeitar o nome
08:27foi Floriano Peixoto, né, que ele foi o presidente de 1891, a 1894, me corrija se eu estiver falando besteira aqui,
08:35então nós estamos falando já de 130 anos, muito antes da pós-redemocratização aqui em 1985, né.
08:41Na semana passada, eu dei a minha própria opinião aqui, e a minha opinião seria basicamente o seguinte que eu mantenho,
08:50o nome de Jorge Messias será aprovado, eles chegarão a um acordo, tanto é que na semana passada eu explicitei os números
08:56que estão abertos para todos verem aí, que tem a ver com distribuição de emendas.
09:01Na semana passada o governo Lula distribuiu 807 milhões de reais em emendas, ou seja, próximo a um bilhão de reais,
09:07e essas emendas foram liberadas em grande parte para dois estados, 23% dos 807 milhões vão para dois estados,
09:16vai para o Maranhão e vai para o estado do Davi Alcolumbre, ou seja, dois figurões importantes,
09:25o Everton Rocha e o Davi Alcolumbre, de aprovação do nome de Messias.
09:30E assim funciona a política brasileira. Eu particularmente não gosto do histórico do Jorge Messias,
09:38por ser um aliado à ala mais radical ali do PT, mas de novo, essa é uma decisão,
09:43é uma opinião meramente pessoal, Bruno Musa, nada contra ele especificamente,
09:48mas a sua própria atuação, forma de pensar, visão de mundo e etc., que não condiz com a minha,
09:53mas isso não tem absolutamente nada a ver com o campo técnico da coisa.
09:58Assim como a indicação, na minha opinião, também não tem nada a ver com o campo técnico,
10:03ou a aprovação do Senado também não tem a ver com o campo técnico,
10:07e tem a ver simplesmente com liberação de emendas, como eu acabei de explicar.
10:1123% direcionada a dois estados, de duas pessoas de extrema importância para a aprovação do Jorge Messias.
10:17Fala, Piper.
10:18Sobre isso que o Musa citou do passado, o STF é claramente inspirado na Suprema Corte americana,
10:28na Constituição americana em relação a isso.
10:32E aí, então, quando nasce a República, a Suprema Corte do Brasil, o STF,
10:38teria, de acordo com o que estava naquela Constituição, 15 ministros.
10:43Aí, o que o Marechal de Odoro da Fonseca fez?
10:48Ele não nomeou os 15.
10:49Ele nomeou, acho que, nove, e reconduziu os seis que já eram ministros do Supremo,
10:57do Império.
11:00Então, aí, totalizou os 15.
11:03Passou, então, e o Floriano Peixoto teve que mudar alguns, mudar cinco.
11:07Aí, o que ele fez?
11:09Em 1893, ele indica, então, o médico Cândido Barata Ribeiro, que era o prefeito do Distrito Federal.
11:17E, naquele tempo, o indicado tomava posse e a tramitação continuava.
11:24Dez meses depois, a indicação dele não foi confirmada e acabou sendo rejeitada,
11:30porque ele não era advogado, ele era médico.
11:33Porque havia naquela Constituição um pequeno detalhe.
11:37Para o sujeito ser ministro da Suprema Corte,
11:40se exigia que ele tivesse notório saber,
11:44mas não estava estipulado lá o jurídico.
11:47Faltou essa palavrinha mágica.
11:49Então, passou o médico, foram dois marechais,
11:54e virou a casa de mãe Joana, até que essa bagunça parou.
11:58Aí, o tempo passou, mudaram-se, enfim, mudou-se a quantidade de ministros e tal.
12:06Mas eu acho que o Brasil, e já falei muitas vezes sobre isso aqui,
12:09continua mantendo uma prerrogativa que eu acho necessária do presidente da República indicar,
12:18mas os presidentes têm feito mau uso disso.
12:21Por quê?
12:22Porque todos eles, todos os eleitos, desde a redemocratização,
12:28eles indicam alguém que tenha trabalhado com eles.
12:32Eu acho isso ruim, até para a reputação da instituição,
12:38por melhor que seja o ministro.
12:39Mas nem se fosse um Sobral Pinto.
12:42Quer dizer, trabalhou com o presidente que o indicou?
12:46Não pode.
12:47Eu acho que deveria haver uma regra assim.
12:48Todos eles fizeram uso disso,
12:51e é óbvio que todos esses indicados carregam algum tipo de suspensão.
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