00:00O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bassett, disse nesta quarta-feira estar otimista
00:04de que a Suprema Corte manterá a legalidade das amplas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump
00:09a quase todos os países do mundo nos termos da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional.
00:16Esse é o assunto para conversa com a Natalia Fingerman, professora do curso de Relações Internacionais da ESPM.
00:22Tudo bem, professora? Boa noite para você.
00:25Boa noite, Felipe. Tudo bem, é um prazer estar aqui.
00:27Tudo certo. Chegando nesse final de ano, a gente sofreu, passou o ano inteiro quase falando das tarifas do presidente Donald Trump.
00:36Você acha que ele atingiu o objetivo que ele tanto queria com essas tarifas?
00:41Olha, ele atingiu dois objetivos que eu acho que foram importantes.
00:45Um foi o objetivo de mostrar o poder dos Estados Unidos para o mundo e gerar uma certa instabilidade no cenário internacional.
00:53Então, ele conseguiu demonstrar o poder coercitivo que os Estados Unidos têm.
00:59E no caso do Brasil, me parece que a nossa forma de negociação foi muito positiva.
01:06Mas, internamente, ele também atingiu um outro objetivo, que era ampliar a arrecadação norte-americana por meio de impostos.
01:15Pela primeira vez, a arrecadação dos Estados Unidos foi ampliada em cerca de 400 bilhões.
01:23A expectativa era que seria 500 bilhões, mas, mesmo assim, é uma marca significativa comparada somente ao ano de 1993.
01:33Então, me parece que ele conseguiu atingir os principais objetivos que ele tinha proposto de início.
01:41Agora, Natália, uma coisa que todo mundo falava, a gente falava aqui, praticamente todos os especialistas falavam,
01:47é que teriam uma consequência que seria a inflação.
01:51As tarifas acabaram tendo impacto nos preços.
01:54E foi o que a gente viu.
01:55Não foi tanto quanto a gente esperava.
01:57Os Estados Unidos têm uma economia muito resiliente, muito forte, mais forte do que até se imaginava.
02:03Mas teve impacto inflacionário.
02:05A gente olha para a inflação nos últimos 12 meses, chegou a 3%, quanto a meta da inflação pelo Banco Central americano é de 2%.
02:11Como é que isso vai impactar na política americana e nas eleições de meio de mandato no ano que vem?
02:18Olha, realmente teve inflação em alguns produtos, se a gente for olhar, principalmente, por exemplo, produtos brasileiros,
02:26como o café, que foram retiradas agora recentemente, carne, as tarifas.
02:31A inflação foi muito maior do que esse 3%.
02:34Esse 3% é uma média.
02:36E também, quando a gente considera produtos importantes agora na época do Natal,
02:41como brinquedos, computadores, notebooks, que tem uma expectativa do varejo de venda muito grande,
02:50temos casos de produtos que teve um aumento em cerca de 30% do valor em relação ao ano passado.
02:56Então, apesar do processo inflacionário, na média, não ter sido tão alto,
03:02tem alguns setores que foram muito afetados e o varejo deve sentir esse impacto agora nas festas de Natal.
03:12Então, me parece que a gente tem esse cenário de inflação nos Estados Unidos,
03:18que não foi como esperado por esse fator, que é muito setorial,
03:23mas eu acho que tem um outro motivo também, Felipe, que é importante destacar,
03:27que é a questão de alguns produtos mudarem a rota.
03:31Como assim?
03:32Produto que era exportado da China, deixar de ser exportado pela China,
03:36porque ia ter um imposto muito alto, e passar a ser exportado via Vietnã,
03:41com imposto muito mais baixo.
03:43Então, isso gerou uma redução na inflação prevista no começo do ano pelos analistas.
03:49Essa triangulação, a gente viu também isso acontecendo bastante ao longo do ano, né?
03:53Agora, Natália, o Scott Bassett, o secretário do Tesouro americano,
03:57ele deu uma entrevista aqui na CNBC e falou que as tarifas são legais,
04:02que o presidente Donald Trump tinha toda a legislação do lado dele,
04:06e mesmo que não tivesse a lei que ele usou, ele teria outras formas de seguir com essas tarifas.
04:10Mas essa questão está sendo discutida pela Suprema Corte americana.
04:14Aquela gigante do varejo americano, a Costco, ela até entrou com uma ação pedindo a devolução do dinheiro
04:20arrecadado com tarifas, dizendo que tinha sido prejudicada.
04:24Enfim, está uma discussão que está chegando na Suprema Corte,
04:26está chegando a hora da verdade, a Suprema Corte vai ter que se posicionar.
04:31E a gente sabe que ela tem uma maioria conservadora,
04:34mas do outro lado também tem muitas empresas americanas que estão de olho nessas tarifas.
04:38Como é que você acha que vai ser esse embate entre o governo americano,
04:40as empresas e a própria Suprema Corte?
04:44É sempre difícil a gente prever o comportamento da Suprema Corte norte-americana,
04:50mas se a gente for analisar nas últimas questões,
04:54a Suprema Corte tem apoiado o governo de Donald Trump,
04:58principalmente quando a gente fala de questões vinculadas à imigração.
05:03Agora, como nesse caso é um cenário diferente,
05:06a gente está pensando agora em empresas norte-americanas
05:11que estão sentindo na pele o aumento tarifário,
05:15que estão sendo prejudicadas.
05:17Então, pode ser que exista um lobby interno dentro da Suprema Corte
05:21para tentar reverter essa maioria conservadora
05:25que tem sido apoiadora assídua de Donald Trump.
05:30Então, é difícil dar uma resposta exata,
05:34mas me parece que, independente do resultado,
05:38Donald Trump já avisou que vai utilizar da Sessão 301 e da Sessão 232,
05:45que são duas leis relacionadas ao comércio,
05:49para buscar reestabelecer as tarifas
05:52caso elas sejam revogadas pela Suprema Corte dos Estados Unidos.
05:58Agora, Natália, uma coisa que aconteceu ao longo do ano também,
06:01que a gente começou a falar dessas tarifas, tarifas contra o Brasil,
06:04tarifas que eram muito altas e tinham aquele componente político,
06:08falava que a justiça brasileira estava sendo injusta e tudo mais,
06:12mas o presidente Lula acabou se segurando,
06:14acabou se tornando um pouco um símbolo ali,
06:17um dos poucos líderes que levantou um pouco o tom ali,
06:20que tentou peitar o presidente Donald Trump
06:22e acabou sendo positivo.
06:24A gente conseguiu reduzir essas tarifas.
06:25Como é que você viu a atuação do governo brasileiro
06:27de uma maneira geral diante das tarifas do Trump?
06:31Bem, parece que o governo brasileiro foi muito bem sucedido
06:34e isso se deve ao fato do presidente Lula ter uma experiência
06:38em relações assimétricas de negociação.
06:42Temos que lembrar que o presidente Lula foi um operário
06:44que negociava frente a...
06:46um representante de sindicato frente a grandes empresas,
06:50então ele tem uma experiência diferente
06:51de qualquer outro liderança internacional,
06:54em termos de negociação assimétrica.
06:56Nesse caso, a gente está falando de uma negociação assimétrica.
06:59É lógico que o poder dos Estados Unidos,
07:01dos Donald Trump, é muito maior que o poder do Brasil.
07:05Então, me parece que a sua estratégia
07:07foi muito relacionada a essa experiência de vida prévia dele,
07:12que nunca foi valorizada quando ele assumiu o poder
07:16e quando assumiu o governo,
07:18mas que nesse momento foi muito válida.
07:21E a gente teve um resultado muito positivo,
07:24mas é lógico, temos que lembrar
07:25que ainda temos parte da indústria muito prejudicada
07:28e que, ao que tudo indica,
07:33os Estados Unidos não pretendem reverter as tarifas
07:36na área da indústria.
07:38Então, o presidente Lula, essa semana, salvo engano,
07:41teve uma ligação junto a Donald Trump,
07:45no qual tentou mais uma vez mencionar a questão das tarifas,
07:49principalmente ao setor industrial,
07:52que tem paralisado ou fechado em alguns setores específicos,
07:57na região, principalmente do sul do país.
07:59Muito obrigado, Natália Fingerman,
08:02professora do curso de Relações Internacionais da SPM.
08:06Valeu mais uma vez e boa noite para você.
08:08Obrigada, é um prazer, Felipe.
08:10Boa noite.
08:10Boa noite.
08:11Boa noite.
08:11Boa noite.
08:11Boa noite.
08:12Boa noite.
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